Eu sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

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Eu sou Malala é um livro que dispensa apresentações. Mais famoso que Paulo Coelho, mais disputado que o último CD de Justin Bieber, o livro que narra a trajetória da “menina que foi baleada pelo Talibã” correu rapidamente o mundo, fazendo da jovem paquistanesa uma figura carimbada, e servindo de trampolim para que ela se tornasse o mais jovem Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ironicamente, o que Malala não cansa de repetir ao longo das quase 400 páginas de sua autobiografia é que ela não desejava ser conhecida por ter tomado um tiro no rosto, mas sim pela sua luta para promover a educação em seu país de origem. Mas será que o seu ativismo político é realmente o motivo de tão grande celebridade?

Para já, chamar o best seller de autobiografia por si só deveria levantar uma série de reticências: sabemos que o livro foi escrito em coautoria com a jornalista inglesa Christina Lamb, especialista em países de democracia duvidosa, como o Oriente Médio, a África do Sul e o Brasil. Se os méritos de uma narrativa tão detalhada – e muitas vezes até mesmo aborrecida – só podem ser atribuídos à própria Malala, foi sem dúvidas a experiente jornalista quem conseguiu transformar a matéria bruta num sucesso comercial, digno dos 3 milhões de dólares que a menina teria recebido pelos direitos autorais.

Seria perda de tempo (meu e vosso) dedicar mais de meia dúzia de linhas ao enredo mais que conhecido: Malala, uma estudante da região de Swat, tornou-se conhecida graças ao seu discurso em prol da escolaridade de meninas em seu país natal, devastado pelo Talibã. Sua loquacidade só se tornou possível graças ao apoio do pai, diretor da escola onde estudava e empenhado combatente pelos Direitos Humanos. O comportamento pouco convencional de pai e filha fez com que terminassem na mira dos fanáticos islamistas, que os acusavam de secularização e ocidentalização. Mas não estamos aqui para julgar a coragem de Malala, mas sim a qualidade de sua biografia.

O livro, bastante recheado, e decorado por uma longa sessão de fotografias em guisa de apêndice, tenta intercalar os quinze anos de vida de Malala a um vasto aparato de informações históricas, no intuito de alinhar a micro e a macro narrativa. Tudo isso, é claro, sem deixar de lado inúmeras anedotas do cotidiano, como as banais historietas de disputas com as amigas pelo título de melhor aluna da escola, a fim de oferecer ao leitor uma Malala mais “humana”, cheia de erros, mas que não deixou que o sucesso e a celebridade lhe subissem à cabeça. Tal fórmula, acrescida das incontáveis frases de efeito motivacional que poderiam ter sido retiradas diretamente de O alquimista, tornam a leitura enervante, e não nos surpreendemos nem um pouco ao descobrir que a heroína pela educação é, de fato, uma fã de carteirinha do escritor brasileiro mais vendido de todos os tempos. Para terminar, o livro surpreende pela falta de espírito crítico de uma menina tão politizada, quando se trata de elogiar sem precedentes um outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, no qual ela parece não ver nem a sombra de boa parte da culpa pela presença dos talibãs em seu amado Paquistão. Ironicamente, os mesmos talibãs que quase conseguiram silenciá-la. Seria a Malala tão ingênua, ou tratar-se-ia apenas de um recurso editorial para fazer o livro mais apresentável, mais conforme à sensibilidade do leitor ocidental? A julgar pelo fato de que, em entrevistas e debates anteriores à publicação da biografia, Malala levantou sim a voz para criticar abertamente a intervenção militar e as políticas estadunidenses no Paquistão, tendo a me deixar levar pela segunda opção.

Obviamente, não estou a colocar em causa a importância da mensagem que Malala veio dar ao mundo, mas sim a parcialidade e o maniqueísmo de um livro feito para agradar as grandes massas. Um livro que perdeu uma excelente oportunidade de contextualizar o crescimento da força de grupos extremistas a partir de 2001, e de questionar o papel dos Estados Unidos e da “luta contra o terror” no crescente estado de guerra que domina o Oriente Médio.

Ao fim de uma leitura não completamente maçante, mas que mesmo assim me custou duas semanas, fica a lição: da próxima vez, eleger uma obra de literatura de verdade.

Título original: I Am Malala: The Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban

País: Paquistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5923-43-8)

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2351-73-7)

Número de páginas: 360 (edição brasileira), 352 (edição portuguesa)

 

 

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Dogeaters, de Jessica Hagedorn

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Enquanto no Brasil a flutuante (e debutante) classe média convulsiona com medo de perder o pedestal e se deixa embalar por delírios midiáticos de golpe de Estado, o livro desta semana faz lembrar o que o “país do futuro” era até bem pouco tempo atrás – uma paradisíaca terra sem lei, marcada pelo contraste entre os muito ricos e os muito pobres. Estamos falando das Filipinas.

Dogeaters, ou “Comedores de cachorro”, foi escrito pela autora filipina Jessica Hagedorn em 1990, uma época em que o seu país ficava conhecido mundialmente pela corrupção deslavada e pela singela coleção de 3.000 pares de sapatos de sua primeira-dama. Enquanto o país engatinhava rumo a uma democracia experimental, a então jovem e ousada escritora radicada nos Estados Unidos oferecia-nos, em inglês, um panorama dos paradoxos históricos de sua terra natal.

Ambientado na década de 1950, romance é composto por uma série de fragmentos da vida cotidiana na cidade de Manila, abarcando desde empregados de loja e prostitutas até políticos de alto-escalão, diretores de cinema internacionais e estrelas de TV. Tendo como moldura as memórias de Rio Gonzaga, uma pré-adolescente abastada, futuramente imigrada (como a autora) para os Estados Unidos, o livro revela-nos as diferentes faces de um país fraturado. Regido por uma elite que se gabava de sua ascendência ariana e costumes europeus, enquanto renegava as idiossincrasias de sua rica cultura de origem, o livro apresenta-nos, com seu olhar aquilino, um retrato ácido e irônico de uma sociedade onde a miséria extrema, a tortura e a exploração sexual infantil convivem lado a lado com as soirées requintadas de uma elite cega e cínica.

Num ano marcado até agora por leituras relativamente medíocres, Dogeaters destaca-se como um livro bom em diferentes sentidos. Sua trama fragmentária, cujo recorte do mundo faz lembrar uma telenovela, flerta com os diferentes gêneros literários, desconstruindo a narrativa romanesca tradicional através de um forte experimentalismo narrativo. Ao mesmo tempo que testa os limites do gênero, Hagedorn o expande e constrói um romance inovador. Afinal, partindo da concepção tradicional do termo, o gênero romanesco caracteriza-se pela sua plurifomidade, bem como pela capacidade de construir um microcosmo perfeito, produzindo um recorte exemplar da realidade que descreve. Como resultado, o leitor de Dogeaters terá diante de si não apenas um texto empolgante e facilmente envolvente, mas também uma verdadeira aula de introdução à sociedade filipina. Trata-se, certamente, de uma realidade geográfica e culturalmente deveras distinta da nossa, mas que, tanto pela sua história recente de um pós-colonialismo mal resolvido, quanto pelas paisagens tropicais, ensolaradas e pseudodemocráticas, remetem-nos de imediato aos desmazelos das terras de cá.

Se ler nos faz viajar para mundos distantes, Dogeaters oferece-nos um exemplo preciso do que as viagens podem nos trazer de melhor, que é a capacidade de traçar paralelos e analisar criticamente nossa própria realidade. Por isso, e sobretudo numa época regida pela desinformação e pela incompetência analítica do cidadão comum, recomendo-o como um contributo essencial a toda biblioteca que se preze.

 

Título original: Dogeaters

País: Filipinas

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição inglesa: Open Road Media, Kindle Edition (ASIN: B00-DZE-JQ9-O)

Edição em português: não há

Número de páginas: 276

All that is gone, de Pramoedya Ananta Toer

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Às vezes me pego pensando naquela antiga coleção de livros de capa vermelha publicada pela Editora Abril. Seu título aparentemente inocente, “Os imortais da literatura universal”, transmite ao leitor a sensação de que, ao adquirir os conhecimentos nela contidos, terá dominado uma noção de tudo aquilo que merece ser lido no mundo. Mas alguém já parou para pensar em quantos daqueles livros são europeus? E quantos vêm de nações “subdesenvolvidas”, eternamente fadadas a estarem fora do cânone? Asiáticos, africanos, latino-americanos, e mesmo brasileiros, fazem raramente parte do que os países de primeiro mundo nos impõe como “clássicos”, e que nós, no auge do nosso complexo de inferioridade, aceitamos sem pestanejar.

O que muitos leitores ainda não perceberam é que o mundo não é composto apenas dos 50 países que compõem o Hemisfério Norte, mas sim de cerca de 200. E que muitos desses países possuem escritores tão excepcionais que acabam se tornando uma espécie de “clássicos por condescendência” naquelas mesmas metrópoles culturais que nos obrigam a consumir apenas os seus próprios produtos. Eles sabem o que é bom, mas o que é bom não chega até nós. Um claro exemplo é o escritor indonésio Pramoedya Ananta Toer.

Nascido numa pequena cidade da ilha de Java, Toer é considerado um dos mais expressivos autores asiáticos do século XX. Sua obra, pela qual é frequentemente considerado o “ Camus indonésio”, compõe-se de uma vasta série de contos, ensaios e romances, centrados sobretudo na temática das transformações ocorridas na cultura e sociedade javanesa no século XX. Lançado em 2004, All that is gone (em português: Tudo isso já não existe) consiste numa coletânea de oito contos, seis deles publicados juntos nos anos 1950, nunca antes traduzidos para uma língua ocidental. Seu caráter autobiográfico, bem como a articulação temática e cronológica dos seis primeiros, dão-nos a impressão de estarmos a ler um romance composto de episódios.

No introspectivo “Tudo isso já não existe”, o autor evoca sua tenra infância durante a colonização holandesa, lembrando-nos com seu incansável refrão que o mundo de suas lembranças já desapareceu. “Inem” e “Circuncisão” remetem, por sua vez, ao peso de tradições consideradas bárbaras na nossa sociedade, como o casamento e subsequente divórcio de uma menina de apenas oito anos, bem como a importância da circuncisão para o caráter de um jovem rapaz. “Nascido no crepúsculo”, “Vingança”, “Dia da independência” e “Aceitação” remetem, por sua vez, à conturbada história recente da Indonésia, dominada pelos holandeses, depois pelos japoneses, depois pelos comunistas, depois novamente pelos holandeses, tudo isso num intervalo de apenas poucas décadas. Partindo da micro-história, estes contos oferecem-nos um documento sensível sobre as consequências nefastas de uma história sangrenta a um povo fadado à resiliência. O livro termina com “As recompensas do casamento”, uma espécie de conto de fadas às avessas cravado de ironia, na qual o poder demiúrgico do escritor é colocado em destaque num estilo que remete a Shakespeare e Pirandello.

Apesar da distância geográfica e cultural, os contos de Toer estão carregados de verdades universais, e revelam-nos, com suas imagens fortes e marcantes, um mundo não tão distante. Além dos horrores da guerra e da decepção dos tempos de paz, seus textos nos revelam a capacidade humana de se adaptar para resistir à adversidade, e a importância de abdicar da própria vontade em nome de um bem maior. Afinal, nossa essência não se encerra em nossos sonhos, mas sim na nossa capacidade de nos despedirmos deles. Trata-se de uma mensagem dura, mas não menos verdadeira.

Lembrando Lima Barreto, que bom seria se falássemos javanês! Assim teríamos finalmente acesso a uma obra tão digna da famigerada coleção de capa vermelha. Pois Toer é, sem nenhuma dúvida, um verdadeiro imortal da literatura universal.

 

Título original: Cerita dari Blora

País: Indonésia

Idioma original: javanês

Ano de publicação: 1952

Edição em português: não há

Edição em inglês: Penguim (ISBN 978-014-3034-46-9)

Número de páginas: 255 (edição em inglês)

Mãn, de Kim Thúy

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Para escrever a última resenha do ano, tenho ao meu lado um bule de chá de alcachofra, uma das minhas maiores surpresas gastronômicas de 2015, comprado no mercado de Da Lat, no Vietnã. Afinal, se a literatura nos faz viajar para países longínquos, o sabor dos alimentos consumidos em terras distantes trazem-nos de volta até elas. Eis uma verdade que se aplica com perfeição ao livro deste domingo: Ao aliar memória afetiva e gustativa, Mãn, o segundo livro da escritora vietnamita Kim Thúy, transporta o leitor para o universo de odores, vapores e nostalgias agridoces de sua terra natal.

Antes de mais nada, talvez se pudesse dizer que Mãn é uma declaração de amor de sua protagonista homônima às três mulheres que lhe deram a vida: a adolescente que a trouxe ao mundo, a monja que a recolheu no campo de um convento budista, e sobretudo a última, uma espiã que a criou, educou e mandou para fora do Vietnã, com destino a um casamento arranjado e seguro. Anos mais tarde, no Quebec, nossa protagonista encontrar-se-á trancafiada por dias sem fim na cozinha de um restaurante, e encontrará na gastronomia uma forma de redefinir sua própria identidade. Seus pratos, incomparáveis, atrairão ao restaurante do marido, outrora vazio, cada vez mais clientes, alguns deles se tornando verdadeiros admiradores e amigos, sucesso que a transformará pouco a pouco numa nova mulher.

Não que Mãn não conhecesse o amor ao lado do marido. Tratava-se, no entanto, de um amor oposto ao das novelas, pelo qual se sofre e se tortura, e pelo qual se morre heroicamente. Pelo contrário, seu amor “à vietnamita”, descendente da tradição budista, exprimia-se na renúncia, no silêncio, na discrição, bem como na aceitação zelosa de um papel pré-estabelecido. No entanto, o acaso fará com que essa mulher sem vaidades encontre um homem igualmente perdido entre o passado e o presente, e com que o sentimento inesperado de uma paixão abale as estruturas de toda uma vida composta de renúncias.

Talvez o melhor adjetivo para caracterizar Mãn seja suave. Trata-se de um livro curto, composto por capítulos de no máximo duas páginas, todos eles antecedidos por uma palavra em vietnamita e pela sua tradução. A narrativa, feita em primeira pessoa, não se atém forçosamente à ordem cronológica, fazendo eventuais digressões segundo aquilo que oferece a memória de sua protagonista-narradora. Sua pluma incomparavelmente poética e suave, bem como a descrição detalhada dos pratos preparados pela cozinheira nos momentos mais marcantes de sua existência, provocam no leitor uma sensação sinestésica, combinando o prazer da leitura a uma satisfação quase gustativa.

Por tratar de uma temática vista e revista ao longo desses 365 dias – a questão da imigração e da procura da identidade –, Mãn encerra com chave de ouro um ano de leituras, se me permitem o jogo de palavras, particularmente frutuoso. E que venham outros como este!

 

Título original: Mãn

País: Vietnã

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2013

Edição em português: não há

Edição em inglês: Clerkenwell Press (ISBN: 978-184-6689-96-3)

Edição em francês: Libre Expression (ISBN: 978-276-4804-97-1)

Número de páginas: 152 (edição em francês), 160 (edição em inglês)

I, the Divine, de Rabih Alameddine

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Parecia quase impossível ler um livro de mais de trezentas páginas em plena semana mais cheia do ano: é o Natal à porta, são provas para corrigir, notas para entregar… Por isso mesmo, decidi NÃO ler o livro de Rabih Alameddine desta vez. Em vez disso, passaria os olhos pelas duas primeiras páginas, sem nenhum compromisso, para ver se valia a pena colocá-lo no topo da minha lista de prioridades para 2016. Certo? Errado!

Existem dezenas de motivos pelos quais é impossível parar de ler Eu, a Divina, mas é fácil resumi-los usando um argumento muito pouco acadêmico: trata-se de um romance simplesmente genial. Não só pela trama extremamente cativante, ou pela sua estrutura decididamente inovadora, mas por uma mistura disso tudo. De fato, todos os elementos que o compõem amalgamam-se de maneira a tal ponto bem-sucedida, que acaba por se tornar difícil saber por onde começar o elogio.

Eu, a Divina conta a história de Sarah, uma mulher libanesa muito pouco convencional. Filha de uma família pertencente à comunidade religiosa drusa, mas para a qual a religião não parece assumir um papel importante, a menina, nomeada pelo avô em homenagem à “divina” Sarah Bernhardt, cresce em meio a uma família disfuncional, tendo o pai enviado a mãe norte-americana de volta à terra natal por esta não ser capaz de lhe dar um descendente de sexo masculino. De certa forma, pode-se dizer que a menina cresce a tentar suprir o desejo do pai por um herdeiro, seja pela sua maestria em dominar todo o linguajar sujo das ruas libanesas, seja pelo talento incontestável como jogadora de futebol. De fato, Sarah parece ter vindo ao mundo para romper paradigmas, acumulando, mais tarde, relacionamentos frustrados, casamentos mal-sucedidos, e tentando se ajustar entre identidades opostas: a megalomaníaca Sarah Bernhardt, a mãe que abandona seus filhos, a imigrante a fugir dos traumas de um passado sombrio. Constrói-se, aos poucos, uma espécie de caleidoscópio, através do qual o leitor vai conhecendo não apenas a protagonista, mas também boa parte dos membros da sua família e amigos íntimos, todos eles personagens de rara complexidade: um irmão homossexual, uma mãe com tendências suicidas, uma irmã que se tornaria uma assassina em série, um filho inesperadamente bem-ajustado, um amante sádico, e assim por diante.

Embora a trama bem construída e a capacidade única do autor em explorar a voz lírica de um Eu feminino fossem, por si só, motivo para surpreender o mais crítico dos leitores, o grande diferencial do livro reside, no entanto, na ousadia de sua estrutura. Afinal, Alameddine fez uma escolha arriscada: escrever um romance composto de primeiros capítulos. Trata-se, poder-se-ia dizer, de uma série infindável de tentativas abandonadas de escrever uma (auto-)biografia, oscilando entre a primeira e a terceira pessoa, e até mesmo entre o inglês e o francês. Com isso, Eu, a Divina é composto de fragmentos, títulos e prefácios, os quais desrespeitam a ordem cronológica, todos eles abordando um período distinto da vida de sua protagonista. Fragmentos, estes, que capturam com uma maestria ímpar alguns dos momentos mais dramáticos de uma vida repleta de eventos, e que se complementam com a beleza de uma colcha de retalhos.

A julgar por este livro, não seria de se espantar se ouvíssemos falar de Rabih Alameddine como um futuro ganhador do Nobel da Literatura. Enquanto isso não acontece, deixo aos leitores a forte recomendação de acompanhar de perto o trabalho deste talentoso escritor.

 

Título original: I, the Divine

País: Líbano

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2001

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Northon & Company (ISBN 978-039-3323-56-6)

Número de páginas: 320 (edição em inglês)

Curtain of Rain, de Tew Bunnag

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Imagine o que seria, quarenta anos mais tarde, deparar-nos com uma cena de um livro da qual temos certeza de sermos uma das personagens? E se esta cena fizesse lembrar um dos momentos cruciais da nossa existência? E se, com isso, nos apercebêssemos de que, como diria Calderón de la Barca, a vida é sonho? Eis o sentimento trazido por Cortina de chuva, do escritor tailandês Tew Bunnag.

Achar um livro tailandês foi muito mais difícil do que o esperado, já que nem na própria Tailândia encontram-se livros tai publicados em língua estrangeira. Depois de muita procura, foi numa filial da gigante japonesa Kinokuniya, a maior rede de livrarias de toda a Ásia, em pleno centro comercial de Siam Paragon, que dei de cara com o livro de Bunnag. O qual, aliás, confesso ter comprado por falta de opção – afinal, o que esperar de um livro obscuro, recém-lançado, sem qualquer crítica na internet e, ainda por cima, escrito pelo autor em língua estrangeira? Por outro lado, nada melhor do que se deixar surpreender.

Cortina de chuva (tradução literal do título original Curtain of Rain) é um romance único, composto por uma intricada série de histórias que se interconectam, as quais desafiam o conceito de veracidade e se emaranham numa teia existencialista que faz pensar nos melhores textos de Sartre. A trama é emoldurada por duas personagens recorrentes: uma editora londrina especializada em autores asiáticos, e um escritor tailandês, cujas histórias são baseadas em pessoas reais cujos caminhos vai cruzando pelas ruas de Bangkok.

Aos poucos, o acaso faz com que o destino de pessoas distintas se aproxime, seja naquilo que chamamos de “vida real”, seja ao se tornarem personagens de um dos contos do escritor, grande orquestrador dessa sinfonia urbana. São elas pessoas simples, camponeses pobres e iletrados, prostitutas a morrer de AIDS, e condutores de automóveis, mas também grandes personalidades públicas, como empresários e políticos. Em sua pluralidade, eles compõem o retrato da Tailândia do século XXI, um país marcado pela simbiose entre as tradições budistas e a modernidade, pelo conflito entre sua essência oriental e o desenfreado processo de ocidentalização. Trata-se de um livro com poucos diálogos, marcado sobretudo pela presença onisciente de um narrador quase paternal, o qual retrata até mesmo suas mais duvidosas personagens como seres frágeis e sonhadores, pequenas peças de um quebra-cabeças do tamanho do universo, pelas quais dificilmente será possível não se apaixonar.

Apesar de algumas pequenas falhas de edição facilmente corrigíveis, como frases demasiado longas e a ausência de pontuações, o livro de Tew Bunnag inclui-se facilmente na minha lista de melhores de 2015. Chegar ao final de um ano marcado por um livro por semana e ainda se surpreender com uma nova leitura – eis o que faz meu projeto continuar a valer a pena.

 

Título original: Curtain of Rain

País: Tailândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição tailandesa: Riverbooks (ISBN 978-616-7339-49-8)

Número de páginas: 224 (edição tailandesa)

 

A prova do mel, de Salwa al-Neimi

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Nos últimos tempos, tudo aquilo que temos ouvido falar sobre a Síria diz respeito ao drama dos refugiados, aos ataques atrozes do autodenominado Estado Islâmico, à destruição de cidades milenares, e ao assassinato brutal de milhares de inocentes. Em suma, a Síria se tornou aquilo em que há décadas consistiam o Iraque e o Afeganistão: um lugar perigoso e em ruínas, habitado pelos piores inimigos dos valores e da cultura ocidentais, e de onde não se pode esperar nada de bom. No entanto, até bem pouco tempo atrás, a Síria ainda era um país relativamente aberto para o mundo, berço de uma cultura laica fascinante, e pátria da autora de um dos livros árabes mais polêmicos do século XXI: a escritora e jornalista Salwa al-Neimi.

Publicado originalmente em Beirute, no Líbano, A prova do mel tornou-se pouco depois num best-seller da literatura erótica em vários países, em seguida a ser banido em todo mundo árabe. E não era para menos: escrito em primeira pessoa, o livro tem como protagonista uma mulher síria de idade desconhecida, cuja liberdade sexual e busca por prazer poderiam enrubescer até algumas das mais “avançadas” ocidentais. Graças ao seu trabalho numa biblioteca parisiense, a mulher anônima tem acesso a documentos preciosos da literatura erótica árabe, que lê com sofreguidão, adaptando os dizeres dos antigos especialistas à sua vida cotidiana. Entre livros de erotismo e encontros com o amante, ela vai tentando saciar sua curiosidade também através dos relatos picantes de amigas e conhecidas, numa sede ninfomaníaca por conhecimento sexual. Quando o diretor da biblioteca em que trabalha recomenda-a para integrar um grupo de pesquisa internacional sobre erotismo no mundo árabe, seus prazeres secretos podem finalmente ser expostos à luz do dia.

Quem lê A prova do mel percebe imediatamente o motivo da polêmica que o envolve. Afinal, baseando-se nos escritos de filósofos e poetas da era medieval, al-Neimi tenta provar que as bases da sociedade árabe estão intrinsecamente ligadas ao sexo, que a sua abstinência leva à loucura, e que o aparente puritanismo da sua sociedade acaba por transformar o erotismo numa obsessão quase compulsiva. Em alguns momentos, somos mesmo levados a crer que o sexo, para os árabes, chega a ser muito mais importante que para nós ocidentais – como tudo aquilo que é secreto e socialmente proibido acaba por se tornar. Só por isso, é possível conceber que a autora, residente em Paris, deve se encontrar na lista dos mais procurados inimigos do Estado Islâmico.

Do ponto de vista literário, no entanto, não há tanta coisa assim a ser dita. Até mesmo encontrar uma categoria literária na qual encaixemos A prova do mel consiste numa tarefa deveras difícil, já que o teor filosófico e ensaístico estão presentes em larga escala, em detrimento da própria trama. Quando penso num adjetivo capaz de o caracterizar, nada me vem à mente além de “interessante”. Interessante, sim, de um ponto de vista cultural, mas escrito de tal forma que quase não pode mais ser considerado literatura.

Que isso, no entanto, não sirva de pretexto para não o ler. Afinal, não é todos os dias que encontramos um livro tão exótico, informativo, corajoso e explícito quanto este.

 

Título original: برهان العسل

País: Síria

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2007

Edição portuguesa: Teorema (ISBN 978-972-6958-59-8)

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-857-3029-78-9)

Número de páginas: 114 (edição portuguesa), 152 (edição brasileira)

The Dead Lake, de Hamid Ismailov

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Quantas pessoas saberiam situar o Usbequistão num mapa? Para a maioria, este pequeno país banhado pelo deserto salgado do Aral não passa de um mistério. Oficialmente uma democracia, o Usbequistão ainda preserva muito do seu antigo passado como uma das Doze Repúblicas da União Soviética, nomeadamente no que diz respeito à tendência autoritária, à aversão aos direitos civis e ao fechamento para o resto do mundo. Um exemplo disso é o fato de que Hamid Ismailov, um dos seus mais prolíferos escritores, foi obrigado a deixar o país em 1992, tendo seu nome sido apagado dos anais da literatura uzbeque.

Aqueles que tiverem o privilégio de descobrir Ismailov não deixarão de lamentar a sorte de seus patrícios. Nascido no Quirguistão, o autor explora em seus textos a realidade das antigas repúblicas soviéticas, respeitando, por um lado, as idiossincrasias históricas que as distinguem, mas focando, todavia, em seu passado recente comum. “Wunderkind Yerzhan” (tradução livre do título original russo), que infelizmente não se encontra traduzido para o português, desenrola-se no Casaquistão, ou mais precisamente no povoado microscópico de Kara-Shagan, aglomerado em volta de uma estação e habitado por apenas duas famílias. O ponto de partida da narrativa é uma viagem de trem pelos confins cazaques nos anos 1990, durante a qual o narrador em primeira pessoa, um forasteiro que não se dá a conhecer, encanta-se com a habilidade de um violinista de doze anos, o qual, no entanto, mostra-se muito ofendido ao ser tratado de “menino”. Trata-se, na verdade, de um homem de 27 anos, aprisionado eternamente num corpo de infante.

Durante as longas horas de viagem pelas estepes, conhecemos a história de Yerzhan, cuja infância é descrita com riqueza de detalhes, cercada por uma atemporalidade que nos remete aos contos de fadas do Romantismo Alemão. Concebido em circunstâncias jamais reveladas pela mãe emudecida, o menino prodígio (Wunderkind) foi criado pelas avós das duas famílias vizinhas, ao lado de sua amada Aisulu, um ano mais nova que ele, e com quem um dia iria se casar. Mas o pequeno paraíso idílico onde as duas crianças cresciam ao som de Dean Reed (o “Elvis Comunista”) avizinhava-se de um lugar terrível: uma usina nuclear em atividade. Seu ritmo de vida era marcado pelas explosões frequentes, algumas delas provocando graves acidentes, embora ninguém parecesse se aperceber do risco iminente que corriam. Até que o ousado Yerzhan, para se mostrar aos coleguinhas da escola, decide mergulhar nas águas insalubres do “lago morto”, uma imensa piscina aberta por uma explosão nuclear. Quando os anos passam e todas as outras crianças continuam a crescer, menos Yerzhan, fica a sugestão de que sua eterna juventude teria sido causada pelo banho no lago da morte.

Chega a ser fascinante observar como o autor dá ao tema contemporâneo – a herança macabra da radioatividade – um tratamento tão atemporal e universal, substituindo poderes sobrenaturais e bruxas malvadas pelo empenho soviético em produzir armas nucleares durante a Guerra Fria. Seu estilo narrativo, repleto de magia, faz lembrar clássicos como E.T.A. Hoffmann no Pequeno Zacarias, ou Adelbert von Chamisso em Peter Schlemihl. O resultado é uma novela tão bonita e tão triste que é quase impossível não ficar comovido, e que hesitamos em terminar conscientes do desfecho inevitavelmente trágico. O que nos consola, no entanto, é saber que o final foi inventado pelo homem do trem, e que, se não ficarmos satisfeitos, podemos deixar o resto a cargo da imaginação.

Se meu empenho em ler um livro de cada país tivesse servido para descobrir apenas este, todas as horas de busca já teriam valido a pena.

Título original: Вундеркинд Ержан

País: Usbequistão

Idioma original: russo

Ano de publicação: 2011

Título inglês: The Dead Lake

Edição inglesa: Peirene (ISBN 978-190-8670-14-4)

Título francês: Dans les eaux du lac interdit

Edição francesa: Denoël (ISBN 978-220-7125-92-2)

Número de páginas: 128 (edição inglesa)

Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte, de Barbara Demick

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Qualquer pessoa que tente a façanha de ler um livro de cada país do mundo terá diante de si o problema dos países que quase não produzem literatura. Dentre eles, podemos incluir algumas ilhas do Pacífico cuja população é minúscula, uns tantos países africanos em constante estado de guerra, e outros, como o Butão e a Mongólia, nos quais a cultura escrita ainda não suplantou a oralidade. Mas, dentre esses países “exóticos”, também há aquele que corresponde a uma espécie de extraterrestre risível e incômodo, cujo anacronismo de continuar a existir desafia até mesmo as previsões político-econômicas mais pessimistas. Trata-se, obviamente, da Coreia do Norte.

A bem da verdade, ler um autor norte-coreano acaba por não ser tão difícil: pelo menos as livrarias de língua inglesa estão abarrotadas de relatos de dissidentes norte-coreanos, que conseguiram cruzar a fronteira com a China e hoje vivem fora da abençoada terra do Grande Líder. Esta mesma semana, o jornal português “Público” lançou uma reportagem sobre o recém-editado A mulher com sete nomes, da refugiada Hyeonseo Lee. No entanto, a fim de tentar compreender uma realidade tão complexa como aquela da Coreia do Norte, pareceu-me mais adequado recorrer a um livro que abarcasse o maior número de fontes possível – daí a opção pelo premiado Nada a invejar, da jornalista norte-americana Barbara Demick.

O contexto no qual ouvi falar pela primeira vez do livro de Demick não podia ter sido mais anti-socialista: Foi em 2012, durante um jantar na capital das Ilhas Cayman, logo após uma viagem a Cuba que culminara na descoberta nefasta do decrépito sistema de saúde cubano. Nossa anfitriã, uma sul-africana, trabalhava como cozinheira particular para uma família de bilionários cujo nome estava proibida por contrato de mencionar, e era dela o exemplar do livro sobre a Coreia. Na altura, cercada pelo luxo de um dos principais paraísos fiscais do mundo, deixei escapar a oportunidade de o ler.

Nada a invejar compreende o resultado de um trabalho de quase uma década acerca de uma das últimas ditaduras socialistas do século XX. Por meio do retrato de alguns cidadãos norte-coreanos, complementados pela comparação a outras fontes existentes sobre o país, a autora traça um vasto panorama de como é viver no país mais fechado do mundo. Um lugar onde, até pouco tempo, as pessoas sequer tinham ouvido falar de telefones celulares, onde a internet não existe, e a única fonte de informação consiste nos três canais de televisão estatais. Mais do que isso, trata-se de um país que viveu um verdadeiro milagre econômico durante os anos 1960, mas que perdeu absolutamente tudo após a queda da União Soviética: a produção industrial cessou completamente, juntamente com o pagamento de salários, a distribuição de alimentos e a eletricidade, fazendo com que a população esfomeada fosse entregue ao próprio destino. No entanto, contrariamente a Cuba, onde um arremedo do dólar circula abertamente, e o auto-empreendimento e o turismo internacional são fortemente encorajados, a Coreia do Norte continua a punir com a morte qualquer espécie de comercialização, o que faz com que seus índices de pobreza e subnutrição ultrapassem os níveis das piores crises de fome centro-africanas. Por outro lado, as constantes ameaças atômicas às democracias ocidentais, sobretudo aos Estados Unidos, bem como aos vizinhos (e irmãos) sul-coreanos, impossibilitam qualquer intervenção da parte de organizações internacionais, relegando uma população faminta e lobotomizada pela propaganda pró-dinastia Kim a um estado constante de miséria que já dura quase 30 anos.

Embora o excesso de detalhes possa vir a atrapalhar o fluxo de leitura daqueles mais habituados a uma literatura mais fácil, o livro de Demick chega a ser viciante. A autora soube aliar o estilo jornalístico investigativo a uma narrativa mais pessoal, quase romanceada, baseada em longas sessões de entrevistas. Escolhendo a dedo figuras deveras distintas, mas ao mesmo tempo muito semelhantes graças ao histórico de vida num país que aboliu a individualidade, o livro acaba transformando esses heróis e heroínas da vida real em personagens de romance, cujo destino o leitor ficará ansioso para desvendar, à espera, quem sabe, de um final relativamente feliz.

Mas será que se pode falar de relativa felicidade enquanto o pesadelo não acabar?

Título original: Nothing to Envy: Ordinary Lives in North Korea

País: Coreia do Norte

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Título brasileiro: Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-73-8)

Título português: A longa noite de um povo: A vida na Coreia do Norte

Edição portuguesa: Temas e debates (ISBN 978-989-6441-40-1)

Número de páginas: 416 (edição brasileira), 368 (edição portuguesa)

 

A cidade do sol, de Khaled Hosseini

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Estados Unidos, logo após os atentados de 11 de setembro de 2001: toda a população árabe, e particularmente a afegã, sofreu enormes represálias simplesmente pelo fato de existir e viver nessa terra estrangeira. Mulheres vestindo o véu eram agredidas nas ruas, meninos em idade escolar ostracizados como se portassem em suas pequenas mochilas uma bomba pronta a dizimar cidades inteiras. Todos eles pareciam portar o estigma do mal, herdeiros de Osama Bin Laden e dos talibãs. Nesse contexto particularmente difícil, Khaled Hosseini, um escritor afegão radicado nos Estados Unidos, conseguiu realizar aquilo que parecia ser um milagre: transformar um romance belo e simples, ambientado nas ruas de Kabul, num best seller que abriria a mente – e o coração – de milhões de leitores à história recente e à cultura desse país marcado pelo sofrimento. Trata-se de “Os caçadores de pipas”, transformado pouco mais tarde num filme de igual sucesso.

Alguns best sellers e muitos milhões de dólares mais tarde, o porta-voz oficial do Afeganistão no chamado “primeiro mundo” lança um novo romance, aclamado pela crítica e festejado pelos leitores. “A cidade do sol” narra a história de vida de duas mulheres deveras diferentes, Mariam e Laila, cujo destino se entrecruza em consequência da guerra. Mariam, uma bastarda, foi criada num casebre isolado no alto de um monte, e mal teve contato com o mundo até ser coagida a casar-se com um homem trinta anos mais velho em seguida ao suicídio da mãe. Laila, vinte anos mais nova, cresceu perambulando pelas ruas de Kabul ao lado de um amigo perneta, gozando todas as liberdades de ser filha de um ex-professor universitário, em plena época da dominação soviética. Até que o destino fizesse de Laila uma órfã obrigada a tornar-se a segunda esposa do marido de Mariam, as duas certamente pouco teriam a dizer uma à outra; as circunstancias fazem, contudo, nascer da miséria e da tragédia uma amizade com laços inquebrantáveis.

Mulheres belas, oprimidas, e cheias de sonhos, vivendo numa sociedade falocêntrica em tempos de guerra, obrigadas a transformarem-se em verdadeiras mártires em nome dos filhos – sejam eles naturais ou eletivos: eis, colocada em poucas linhas, a fórmula de um romance de sucesso. Tudo isso, é claro, associado às inegáveis capacidades de Hosseini como contador de histórias, de tal forma proeminentes que o leitor dificilmente botará o livro de lado antes de chegar à última página. Mas, então, onde está o problema?

O que falta, na minha opinião, aos romances de Khaled Hosseini, é algo que o grande público estadunidense dificilmente aceitaria: profundidade histórica. Ao falar da guerra e do cenário que tanto fascina e assusta os leitores – a ascensão dos talibãs -, Hosseini deixa claro quem são mocinhos e bandidos, e evita tocar em questões essenciais que nos permitiriam entender o intricado contexto no qual os terroristas do 11/09 se inserem. Como, por exemplo, a própria (e não pouca) participação dos Estados Unidos nesse imbróglio. O resultado é uma literatura naif, repleta de belas e tristes histórias de amor e amizade, situadas num cenário exótico e distantes, mas que perde uma oportunidade essencial de fazer aquilo que a verdadeira boa literatura geralmente costuma fazer: um convite à reflexão.

Como literatura de entretenimento, “A cidade do sol” é certamente uma escolha acertada, que não deixará de extrair bons baldes de lágrimas do mais cético dos leitores. Mas é só. Embora – e eis o que é imperdoável – pudesse ter sido muito mais.

Título original: A Thousand Splendid Suns 

País: Afeganistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Titulo brasileiro: A cidade do sol

Edição brasileira: Nova Fronteira (ISBN: 978-852-0935-52-1)

Título português: Mil sóis resplandecentes

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2339-08-7)

Número de páginas: 368 (edição brasileira), 324 (edição portuguesa)