All that is gone, de Pramoedya Ananta Toer

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Às vezes me pego pensando naquela antiga coleção de livros de capa vermelha publicada pela Editora Abril. Seu título aparentemente inocente, “Os imortais da literatura universal”, transmite ao leitor a sensação de que, ao adquirir os conhecimentos nela contidos, terá dominado uma noção de tudo aquilo que merece ser lido no mundo. Mas alguém já parou para pensar em quantos daqueles livros são europeus? E quantos vêm de nações “subdesenvolvidas”, eternamente fadadas a estarem fora do cânone? Asiáticos, africanos, latino-americanos, e mesmo brasileiros, fazem raramente parte do que os países de primeiro mundo nos impõe como “clássicos”, e que nós, no auge do nosso complexo de inferioridade, aceitamos sem pestanejar.

O que muitos leitores ainda não perceberam é que o mundo não é composto apenas dos 50 países que compõem o Hemisfério Norte, mas sim de cerca de 200. E que muitos desses países possuem escritores tão excepcionais que acabam se tornando uma espécie de “clássicos por condescendência” naquelas mesmas metrópoles culturais que nos obrigam a consumir apenas os seus próprios produtos. Eles sabem o que é bom, mas o que é bom não chega até nós. Um claro exemplo é o escritor indonésio Pramoedya Ananta Toer.

Nascido numa pequena cidade da ilha de Java, Toer é considerado um dos mais expressivos autores asiáticos do século XX. Sua obra, pela qual é frequentemente considerado o “ Camus indonésio”, compõe-se de uma vasta série de contos, ensaios e romances, centrados sobretudo na temática das transformações ocorridas na cultura e sociedade javanesa no século XX. Lançado em 2004, All that is gone (em português: Tudo isso já não existe) consiste numa coletânea de oito contos, seis deles publicados juntos nos anos 1950, nunca antes traduzidos para uma língua ocidental. Seu caráter autobiográfico, bem como a articulação temática e cronológica dos seis primeiros, dão-nos a impressão de estarmos a ler um romance composto de episódios.

No introspectivo “Tudo isso já não existe”, o autor evoca sua tenra infância durante a colonização holandesa, lembrando-nos com seu incansável refrão que o mundo de suas lembranças já desapareceu. “Inem” e “Circuncisão” remetem, por sua vez, ao peso de tradições consideradas bárbaras na nossa sociedade, como o casamento e subsequente divórcio de uma menina de apenas oito anos, bem como a importância da circuncisão para o caráter de um jovem rapaz. “Nascido no crepúsculo”, “Vingança”, “Dia da independência” e “Aceitação” remetem, por sua vez, à conturbada história recente da Indonésia, dominada pelos holandeses, depois pelos japoneses, depois pelos comunistas, depois novamente pelos holandeses, tudo isso num intervalo de apenas poucas décadas. Partindo da micro-história, estes contos oferecem-nos um documento sensível sobre as consequências nefastas de uma história sangrenta a um povo fadado à resiliência. O livro termina com “As recompensas do casamento”, uma espécie de conto de fadas às avessas cravado de ironia, na qual o poder demiúrgico do escritor é colocado em destaque num estilo que remete a Shakespeare e Pirandello.

Apesar da distância geográfica e cultural, os contos de Toer estão carregados de verdades universais, e revelam-nos, com suas imagens fortes e marcantes, um mundo não tão distante. Além dos horrores da guerra e da decepção dos tempos de paz, seus textos nos revelam a capacidade humana de se adaptar para resistir à adversidade, e a importância de abdicar da própria vontade em nome de um bem maior. Afinal, nossa essência não se encerra em nossos sonhos, mas sim na nossa capacidade de nos despedirmos deles. Trata-se de uma mensagem dura, mas não menos verdadeira.

Lembrando Lima Barreto, que bom seria se falássemos javanês! Assim teríamos finalmente acesso a uma obra tão digna da famigerada coleção de capa vermelha. Pois Toer é, sem nenhuma dúvida, um verdadeiro imortal da literatura universal.

 

Título original: Cerita dari Blora

País: Indonésia

Idioma original: javanês

Ano de publicação: 1952

Edição em português: não há

Edição em inglês: Penguim (ISBN 978-014-3034-46-9)

Número de páginas: 255 (edição em inglês)

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