História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, de Luis Sepúlveda

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Embora esteja pela primeira vez em dois anos repetindo um país, esta semana teve que ser. Explico-me: foi uma semana particularmente apertada, na qual estive responsável por 21 pré-adolescentes 24 horas por dia; portanto, entende-se que tinha que ser um livro fácil. Por outro lado, minha decisão por este livro justifica-se facilmente. Afinal, trata-se de uma historieta de valor inigualável, e de um dos mais belos livros da literatura do século XXI, que o meu leitor – sobretudo num dia sombrio como este – merece conhecer: a novela História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, do grande mestre chileno Luis Sepúlveda.

Sepúlveda, que já tinha encantado o mundo em 1996 com a história de outro gato, Zorbas, que ensinava uma pequena gaivota órfã a voar, publicou recentemente a fábula de uma amizade improvável, repleta de filosofia e de frases inesquecíveis. A história se passa na cidade de Munique, na Alemanha, onde um pequeno gato negro de peito branco e perfil grego chamado Mix cresce ao lado de seu amigo humano, o menino Max. Com o tempo, o menino se torna homem, deixando a casa dos pais, e mudando-se com o amigo gato para um pequeno apartamento no topo de um prédio. Mix, que já não tem mais a vitalidade de outrora, começa aos poucos a perder a visão. Sem que se dê conta, a cegueira tolhe-lhe as liberdades de gato, impossibilitando seus passeios pelo topo dos prédios, e fazendo com que seus dias transcorram sempre iguais. A monotonia, no entanto, é quebrada pela chegada de Mex, um pequeno e falador ratinho mexicano, fugido de uma gaiola de vidro diretamente para a biblioteca de Max. Assim, os dois animaizinhos passam a coabitar e a compartilhar suas experiências de vida, aprendendo com as diferenças e enriquecendo seus cotidianos por meio do respeito e do companheirismo.

Estamos diante de uma história para crianças, ou de um livro para adultos fantasiado de infantil? Nem uma coisa nem outra, ou as duas ao mesmo tempo: sua mensagem singela, bem como seu valor universal, fazem que ele ecoe no imaginário de qualquer faixa etárea. Com o tempo, estou segura de que esta novela acabará por se tornar num clássico do valor de O Pequeno Príncipe. Para isso, no entanto é preciso descobri-la. Leiam-na, releiam-na, ofereçam-na. A todos aqueles que reconhecem o valor de uma verdadeira amizade. E a todos aqueles que merecem o reconforto de uma boa história.

 

Título original: Historia de Max, de Mix y de Mex

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2012

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN: 978-972-0044-80-8)

Número de páginas: 64

Monasterio, de Eduardo Halfon

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Desde que cheguei à Europa, sempre me incomodou uma pergunta inevitável: qual a sua origem? Pela perspectiva brasileira, a origem de uma pessoa está relacionada ao país onde ela nasceu – afinal, seria absurdo indagar sobre as raízes familiares de alguém num país tão miscigenado, exceto talvez durante as aulas de geografia. A maioria dos brasileiros nem o saberia dizer. Mais tarde, no entanto, descobri que a resposta a esta pergunta não é tão preto no branco assim. Como alguém nascido na Alemanha, com pais e avós nascidos na Alemanha, mas que até hoje não obteve direito à nacionalidade alemã poderia considerar-se alemão? E o que falar da superioridade arrogante de alguém nascido num país “marginal”, criado num gueto cultural do país de seus pais, que nunca fez sequer o esforço de aprender a língua da terra onde veio ao mundo?

Ainda mais complicada é a situação de um guatemalteca judeu, ¾ árabe e ¼ polaco, que não fala uma palavra de polonês, árabe ou hebraico, mas que é tão fisicamente distinto dos homens de sua terra natal que é frequentemente tratado como “gringo”. Eis o dilema que descreve Eduardo Halfon em sua novela Monasterio.

O livro, que poderíamos chamar de autobiografia ficcional, começa com a chegada do protagonista e seu irmão no aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, onde pretendem participar do casamento da irmã caçula, reconvertida em judia ortodoxa, com um judeu americano ultraconservador. Autodeclarado ateu, hispânico e guatemalteca, Eduardo se sente incomodado com a imposição social que o obriga a se sentir judeu, e tenta romper com um passado que não lhe pertence. Ao mesmo tempo, no entanto, percebe que também não se encaixa na sociedade guatemalteca, e acaba se sentindo como uma espécie de híbrido indefinido, eternamente fadado ao meio do caminho.

Em uma série de sequências curtas, que não obedecem forçosamente a ordem cronológica, Halfon faz-nos viajar por três continentes, enquanto percorre as ruas de Tel Aviv, Nova Iorque, Antigua e Łódź, e até mesmo a fronteira entre a Guatemala e o Belize, numa série de situações interligadas pelo tema do sentimento de identidade. Cada uma dessas narrativas curtas e interessantes poderia, por si só, ter dado origem a um romance completo. Assim, é com um certo pesar que o leitor se despede de cada capítulo, embora reconheça que a riqueza deste livro inovador reside justamente em seu caráter fragmentário. O que melhor que o patchwork para definir uma história de vida tão particular?

Aclamado pela crítica internacional, Eduardo Halfon destaca-se hoje em dia como um dos mais talentosos escritores latino-americanos da chamada “nova geração” – a qual, entretanto, já vai deixando de ser assim tão nova. Monasterio faz certamente justiça à enxurrada de críticas positivas que o autor tem recebido, mas ainda não foi traduzido para o português. Quem não quiser esperar para descobrir o seu trabalho, pode começar por outros livros já traduzidos, como O anjo literário e O boxeador polaco. Afinal, a julgar pela primeira impressão, optar por este autor é uma escolha sempre certa.

 

Título original: Monasterio

País: Guatemala

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição em espanhol: Libros del Asteroide (978-841-5625-77-3)

Número de páginas: 128 (edição em espanhol)

A prova do mel, de Salwa al-Neimi

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Nos últimos tempos, tudo aquilo que temos ouvido falar sobre a Síria diz respeito ao drama dos refugiados, aos ataques atrozes do autodenominado Estado Islâmico, à destruição de cidades milenares, e ao assassinato brutal de milhares de inocentes. Em suma, a Síria se tornou aquilo em que há décadas consistiam o Iraque e o Afeganistão: um lugar perigoso e em ruínas, habitado pelos piores inimigos dos valores e da cultura ocidentais, e de onde não se pode esperar nada de bom. No entanto, até bem pouco tempo atrás, a Síria ainda era um país relativamente aberto para o mundo, berço de uma cultura laica fascinante, e pátria da autora de um dos livros árabes mais polêmicos do século XXI: a escritora e jornalista Salwa al-Neimi.

Publicado originalmente em Beirute, no Líbano, A prova do mel tornou-se pouco depois num best-seller da literatura erótica em vários países, em seguida a ser banido em todo mundo árabe. E não era para menos: escrito em primeira pessoa, o livro tem como protagonista uma mulher síria de idade desconhecida, cuja liberdade sexual e busca por prazer poderiam enrubescer até algumas das mais “avançadas” ocidentais. Graças ao seu trabalho numa biblioteca parisiense, a mulher anônima tem acesso a documentos preciosos da literatura erótica árabe, que lê com sofreguidão, adaptando os dizeres dos antigos especialistas à sua vida cotidiana. Entre livros de erotismo e encontros com o amante, ela vai tentando saciar sua curiosidade também através dos relatos picantes de amigas e conhecidas, numa sede ninfomaníaca por conhecimento sexual. Quando o diretor da biblioteca em que trabalha recomenda-a para integrar um grupo de pesquisa internacional sobre erotismo no mundo árabe, seus prazeres secretos podem finalmente ser expostos à luz do dia.

Quem lê A prova do mel percebe imediatamente o motivo da polêmica que o envolve. Afinal, baseando-se nos escritos de filósofos e poetas da era medieval, al-Neimi tenta provar que as bases da sociedade árabe estão intrinsecamente ligadas ao sexo, que a sua abstinência leva à loucura, e que o aparente puritanismo da sua sociedade acaba por transformar o erotismo numa obsessão quase compulsiva. Em alguns momentos, somos mesmo levados a crer que o sexo, para os árabes, chega a ser muito mais importante que para nós ocidentais – como tudo aquilo que é secreto e socialmente proibido acaba por se tornar. Só por isso, é possível conceber que a autora, residente em Paris, deve se encontrar na lista dos mais procurados inimigos do Estado Islâmico.

Do ponto de vista literário, no entanto, não há tanta coisa assim a ser dita. Até mesmo encontrar uma categoria literária na qual encaixemos A prova do mel consiste numa tarefa deveras difícil, já que o teor filosófico e ensaístico estão presentes em larga escala, em detrimento da própria trama. Quando penso num adjetivo capaz de o caracterizar, nada me vem à mente além de “interessante”. Interessante, sim, de um ponto de vista cultural, mas escrito de tal forma que quase não pode mais ser considerado literatura.

Que isso, no entanto, não sirva de pretexto para não o ler. Afinal, não é todos os dias que encontramos um livro tão exótico, informativo, corajoso e explícito quanto este.

 

Título original: برهان العسل

País: Síria

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2007

Edição portuguesa: Teorema (ISBN 978-972-6958-59-8)

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-857-3029-78-9)

Número de páginas: 114 (edição portuguesa), 152 (edição brasileira)

Los Afectos, de Rodrigo Hasbún

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Ouvi falar de Rodrigo Hasbún tão logo iniciei minhas pesquisas para este blog, mas me retive até o momento devido ao preço extraordinariamente caro dos seus livros, cuja comercialização dificilmente chega ao Brasil ou a Portugal.

Boliviano de Cochabamba, Hasbún tem apenas 34 anos, mas já é conhecido como um dos escritores mais talentosos da América Latina. Lançado há poucos meses, Los Afectos consiste no seu mais recente trabalho. Trata-se de um livro curto, contendo pouco menos de 150 páginas, cuja classificação oscila entre a novela e o romance. Baseado em fatos reais, o livro relembra um episódio pouco comentado da história do século XX: o assassinato em Hamburgo do cônsul boliviano Roberto Quintanilla Pereira, um dos principais responsáveis pela morte de Che Guevara, pela bela guerrilheira Monika Ertl, eternamente lembrada como “a vingadora de Che”.

Originariamente de Munique, a família Ertl mudou-se para a Bolívia em meados dos anos 50, trazendo consigo uma biografia pitoresca. Hans Ertl, o patriarca, foi um famoso cinegrafista e aventureiro, tendo não apenas trabalhado ao lado de Leni Riefenstahl nos seus mais famosos trabalhos de propaganda hitleriana, mas também escalado alguns dos mais imponentes picos do mundo. A trama tem início com a expedição realizada por Hans nas profundezas da selva boliviana, em busca do legendário reino de Paitití, uma espécie de Eldorado dos Incas. No livro, cujo caráter ficcional é enfatizado desde o princípio, Hasbún foca nas conturbadas relações familiares do clã Ertl a partir da expedição, até a dissolução completa dos laços existentes entre eles em meados dos anos 1970. Para isso, elege não apenas um único, mas uma série de narradores em primeira pessoa: as filhas Monika, Heide e Trixi, bem como, em menor medida, Reinhard, um dos amantes de Monika.

A julgar pela leitura de Los afectos, é possível dar-se conta dos motivos pelos quais a literatura de Hasbún tem sido tão celebrada. Afinal, o pequeno livro encontra-se repleto de escolhas bem feitas, como por exemplo abdicar de um fundo histórico por si só cativante, em nome de um estudo aprofundado das relações de família. Com isso, o enfoque é retirado das biografias peculiares de seus protagonistas, e passa a residir no que elas partilham com todos os seres humanos: suas dúvidas, frustrações, bem como o desvanecer lento e gradual de todas as suas utopias, desde o amor ou a glória, até a justiça social. O sucesso dessa ousada empreitada na psique humana é obtido através de uma polifonia dura e crua, que confunde o leitor ao ponto de o obrigar a voltar muitas vezes para o início do capítulo, mas que sem dúvida consiste num dos mais bem-sucedidos aspectos do livro.

A julgar por esse livro, nota-se que não é exagero considerar Rodrigo Hasbún uma das maiores promessas da atual literatura latino-americana. Não é mesmo grave o fato de que a literatura de um país vizinho possa nos ser tão pouco acessível?

 

Título original: Los afectos

País: Bolívia

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2015

Edição em português: não encontrada

Edição em espanhol: Random House (ISBN 978-843-9730-60-6)

Número de páginas: 144

The Dead Lake, de Hamid Ismailov

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Quantas pessoas saberiam situar o Usbequistão num mapa? Para a maioria, este pequeno país banhado pelo deserto salgado do Aral não passa de um mistério. Oficialmente uma democracia, o Usbequistão ainda preserva muito do seu antigo passado como uma das Doze Repúblicas da União Soviética, nomeadamente no que diz respeito à tendência autoritária, à aversão aos direitos civis e ao fechamento para o resto do mundo. Um exemplo disso é o fato de que Hamid Ismailov, um dos seus mais prolíferos escritores, foi obrigado a deixar o país em 1992, tendo seu nome sido apagado dos anais da literatura uzbeque.

Aqueles que tiverem o privilégio de descobrir Ismailov não deixarão de lamentar a sorte de seus patrícios. Nascido no Quirguistão, o autor explora em seus textos a realidade das antigas repúblicas soviéticas, respeitando, por um lado, as idiossincrasias históricas que as distinguem, mas focando, todavia, em seu passado recente comum. “Wunderkind Yerzhan” (tradução livre do título original russo), que infelizmente não se encontra traduzido para o português, desenrola-se no Casaquistão, ou mais precisamente no povoado microscópico de Kara-Shagan, aglomerado em volta de uma estação e habitado por apenas duas famílias. O ponto de partida da narrativa é uma viagem de trem pelos confins cazaques nos anos 1990, durante a qual o narrador em primeira pessoa, um forasteiro que não se dá a conhecer, encanta-se com a habilidade de um violinista de doze anos, o qual, no entanto, mostra-se muito ofendido ao ser tratado de “menino”. Trata-se, na verdade, de um homem de 27 anos, aprisionado eternamente num corpo de infante.

Durante as longas horas de viagem pelas estepes, conhecemos a história de Yerzhan, cuja infância é descrita com riqueza de detalhes, cercada por uma atemporalidade que nos remete aos contos de fadas do Romantismo Alemão. Concebido em circunstâncias jamais reveladas pela mãe emudecida, o menino prodígio (Wunderkind) foi criado pelas avós das duas famílias vizinhas, ao lado de sua amada Aisulu, um ano mais nova que ele, e com quem um dia iria se casar. Mas o pequeno paraíso idílico onde as duas crianças cresciam ao som de Dean Reed (o “Elvis Comunista”) avizinhava-se de um lugar terrível: uma usina nuclear em atividade. Seu ritmo de vida era marcado pelas explosões frequentes, algumas delas provocando graves acidentes, embora ninguém parecesse se aperceber do risco iminente que corriam. Até que o ousado Yerzhan, para se mostrar aos coleguinhas da escola, decide mergulhar nas águas insalubres do “lago morto”, uma imensa piscina aberta por uma explosão nuclear. Quando os anos passam e todas as outras crianças continuam a crescer, menos Yerzhan, fica a sugestão de que sua eterna juventude teria sido causada pelo banho no lago da morte.

Chega a ser fascinante observar como o autor dá ao tema contemporâneo – a herança macabra da radioatividade – um tratamento tão atemporal e universal, substituindo poderes sobrenaturais e bruxas malvadas pelo empenho soviético em produzir armas nucleares durante a Guerra Fria. Seu estilo narrativo, repleto de magia, faz lembrar clássicos como E.T.A. Hoffmann no Pequeno Zacarias, ou Adelbert von Chamisso em Peter Schlemihl. O resultado é uma novela tão bonita e tão triste que é quase impossível não ficar comovido, e que hesitamos em terminar conscientes do desfecho inevitavelmente trágico. O que nos consola, no entanto, é saber que o final foi inventado pelo homem do trem, e que, se não ficarmos satisfeitos, podemos deixar o resto a cargo da imaginação.

Se meu empenho em ler um livro de cada país tivesse servido para descobrir apenas este, todas as horas de busca já teriam valido a pena.

Título original: Вундеркинд Ержан

País: Usbequistão

Idioma original: russo

Ano de publicação: 2011

Título inglês: The Dead Lake

Edição inglesa: Peirene (ISBN 978-190-8670-14-4)

Título francês: Dans les eaux du lac interdit

Edição francesa: Denoël (ISBN 978-220-7125-92-2)

Número de páginas: 128 (edição inglesa)

Eu o chamava gravata, de Milena Michiko Flašar

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É possível acreditar que o romance de hoje venha de fato da Áustria? Se a história se passa no Japão, e a autora tem um nome meio japonês, meio tcheco, cabe ao leitor pelo menos o benefício da dúvida. Pois acredite se quiser, mas Milena Michiko Flašar, jovem austríaca de pouco mais de trinta anos, é considerada atualmente uma das maiores promessas da literatura em língua alemã. E não é sem motivo.

Eu o chamava gravata (tradução do título original) narra a história intimista e particularmente emocionante de um encontro casual entre duas gerações de corações oprimidos. Tagushi, o narrador, é um jovem de pouco mais de vinte anos que acaba de deixar, pela primeira vez em dois anos, o quarto minúsculo em que vive na casa dos pais. Trata-se de um dentre os cerca de 100 mil Hikikomori do Japão: pessoas que decidem retirar-se completamente do convívio humano, encerrando-se em seus quartos por anos ou mesmo décadas, como resposta às pressões de uma sociedade cada vez mais opressora. Ōhara Tetsu, um salaryman de 58 anos, perdeu o emprego na firma onde trabalhara por mais de três décadas, mas ainda não teve coragem de conta-lo à esposa. Todos os dias, então, sai de casa à mesma hora, empenhando a lancheira com o bentō preparado pela mulher, e encaminha-se ao parque onde Tagushi igualmente se senta. Aos poucos, os dois solitários, perdidos em sua miséria interior, reparam um no outro, dando lugar a uma amizade improvável e reparadora.

Um olhar tão pungente sobre o outro só poderia vir de alguém que se encontrasse a uma distância perfeita – parafraseando Wim Wenders, nem tão perto, nem tão longe. Graças às suas origens nipônicas, Michiko Flašar está mais que habilitada para cruzar essa ponte, oferecendo-nos uma leitura profunda do Japão contemporâneo, repleta de fascinação, mas igualmente de crítica. Mais do que a oportunidade de exteriorizarem os seus demônios, o que suas personagens ganham com a aproximação é a compreensão de que não estão sozinhas, a consciência de que não são pessoas terríveis, e a esperança de olhar para o futuro com a cabeça erguida. Enquanto a trajetória de ambos se entrecruza, o livro dá-nos a conhecer um universo poético e profundamente melancólico, marcado pela ausência de perspectivas e pelo incomensurável vazio em que se encontram aqueles que, numa sociedade regida por uma cadência mecânica, simplesmente deixaram de funcionar.

Algumas palavras, intraduzíveis, são deixadas em japonês, como por exemplo karoshi, que significa “morte por exaustão devida ao trabalho excessivo”. Por serem termos tão particulares e não encontrarem correspondente em nenhuma língua ocidental, tais palavras dão-nos uma ideia do abismo cultural entre nós e a terra do sol nascente, um país sem dúvida fascinante, mas igualmente perturbador. Se é assim, o que é, então, que o livro tem de austríaco? A resposta é simples e não deixa margem para dúvida: a beleza e a poesia únicas do trabalho com a língua alemã, que ganha em sua pluma uma leveza insustentável.

O livro ainda não foi traduzido para o português, mas pode ser encontrado em inglês ou francês. Se a tradução lusófona demorar muito a sair, eu mesma me habilitarei a faze-la. Afinal, eis um livro que eu mesma gostaria de ter escrito.

Viva a globalização!

 

Título original: Ich nannte ihn Krawatte

País: Áustria

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira/portuguesa: não há

Edição alemã: BTB Verlag (ISBN: 978-344-2746-56-9)

Edição inglesa: New Vessel Press (ISBN: 978-193-9931-14-6)

Número de páginas: 140 (edição alemã), 133 (edição inglesa)

Festa no covil & Se vivêssemos em um lugar normal, de Juan Pablo Villalobos

Villalobos_Lugar Para compensar a ausência na primeira semana de abril, a resenha deste domingo será dupla: até porque os livros em questão são tão curtinhos que, mesmo que fossem um, ainda assim teria poucas páginas: trata-se de Festa no covil e Se vivêssemos em um lugar normal, do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos.

Marinheiro de primeira viagem à altura do lançamento de Festa no covil, Villalobos começou logo por uma trilogia, cujo foco é retratar as diferentes facetas da sociedade mexicana “contemporânea”. Lançado em 2010, Festa no covil só pode ter sido classificado como romance por alguém sem a menor noção de gênero narrativo: trata-se nitidamente de uma novela. O narrador em primeira pessoa é um menino de idade indefinida, herdeiro de um poderoso narcotraficante, que vive isolado em um palácio no meio do nada. Uma vez que seu parco conhecimento do mundo seja oriundo da tevê, bem como das “treze ou quatorze pessoas” que conhece, o menino alcunhado Tochtli apresenta uma visão deveras distorcida da realidade, e tenta romper a monotonia de uma solidão forçada cultivando caprichos. O mais novo deles, obter um hipopótamo anão da Libéria para completar seu mini-zoológico, levá-lo-á a esse inóspito país africano, embora as coisas não saiam exatamente como planejado.

Se o próprio autor define Festa no covil como um “experimento”, é preciso reconhecer que o sucesso do mesmo tem limites. Embora a cadência seja leve e a história interessante, o narrador infantil nem sempre convence – mesmo sendo a criança em questão um pequeno príncipe maníaco que vive numa fortaleza sem contato com o mundo exterior. Simplesmente, ao compararmos com outros livros contemporâneos que exploram o recurso da voz narrativa infantil – como o arrebatador Quarto, de Emma Donoghue, e Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawaio –, o “menino” de Festa no covil parece demasiado forçado. Nada mal para um experimento, mas tampouco bom o suficientemente.

Se vivêssemos em um lugar normal, segundo volume da trilogia, apresenta uma história com um núcleo mais amplo. A ação se desenrola no pequeno povoado de Lagos de Moreno, exatamente no centro do México, em meados dos anos 1980. Orestes, o narrador-protagonista, é filho de um professor de escola pública esquerdista, e vive com os pais e seis irmãos num casebre do “Morro da Puta que Pariu”. Em meio à crise econômica, às tentativas de tomada de poder de rebeldes opositores e ao turbilhão hormonal típico da pré-adolescente, uma de suas maiores preocupações é descobrir se é de fato “pobre” ou se pertence à “classe média”. Quando seus irmãos mais novos, os “gêmeos falsos”, desaparecem, Oreo vê na tragédia familiar a possibilidade de uma ligeira ascensão social, já que as duas bocas a menos significam um aumento considerável no número de tortilhas que lhe cabem. Mais tarde, quando um empreendedor polonês descobre o potencial imobiliário do “Morro da Puta que Pariu”, a família lutará com todas as forças para não ser desalojada – embora saibamos que, na vida real, David é sempre esmagado por Golias.

Narrado com uma linguagem ácida e repleta de palavrões, o livro tece uma acurada crítica sociopolítica, ao mesmo tempo em que explora a questão da identidade social mexicana. Em suas curtas páginas, o autor é capaz de levar o leitor, através da perspectiva do menino, a uma espécie de elucidação dos mecanismos de poder que regem o chamado terceiro mundo, da encruzilhada em que se encontram aqueles que estão na base da pirâmide social, e da ilusão de se poder fugir do sistema. Nesse sentido, e apesar dos contextos histórico-econômicos deveras diferentes, é possível ver no livro um claro paralelo com a condição do pobre no Brasil, em Portugal, ou em qualquer outra parte do mundo.Por tudo isso, e não só pelas detalhadas descrições gastronômicas que deixam qualquer leitor de água na boca, Se vivêssemos em um lugar normal pode ser considerado um livrinho delicioso.

Te vendo un perro, terceiro volume da trilogia, foi lançado em espanhol em outubro do último ano, e ainda não foi traduzido para o português. Se o primeiro não é mal e o segundo é mesmo bom, basta esperar que o terceiro venha a ser ainda melhor!  

Títulos originais: Fiesta en la madriguera e Se viviéramos en un lugar normal

País: México

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2010 e 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5920-26-0 e 978-853-5923-24-7)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 96 (Festa…) e 160 (Se vivêssemos…)

O amor dos peixes, de Steinunn Sigurðardóttir

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Histórias de amor são universais e facilmente compreensíveis, certo? Errado! Se nunca lhes aconteceu de ler de cabo a rabo um romance – no sentido popular do termo, ou seja: uma história de amor – e, ao chegar ao final da trama, ter a impressão de não ter entendido absolutamente nada, nem se identificado minimamente com os sentimentos das personagens, está na hora de ler “O amor dos peixes”, da complicada islandesa Steinunn Sigurðardóttir.

No plano externo, o livro está recheado de símbolos e metáforas pertencentes ao cliché amoroso. Samanta encontra Hans Örlygsson num castelo no estrangeiro, ela mesma residente eventual de um pequeno palácio remanejado. Ele, um empresário de sucesso de 29 anos; ela, uma editora da mesma idade que dedica seu tempo livre a traduzir velhos poemas de amor indianos. Depois de longas horas de conversa, os dois decidem se conhecer melhor em um restaurante chamado “A rosa negra”. Evidentemente, ele encomenda a garrafa de champanhe mais cara. Os dois sentam-se a uma mesa decorada com uma rosa laranja. Ela diz: “minha cor preferida de rosa.” Ele replica: “Porque é mais vermelha que o vermelho.” Ela responde: “Porque não é vermelho.” E o leitor se desespera: “What the h***?”

No plano interno, no entanto, o lirismo dá lugar a outra coisa. O galã bate à sua porta: ela prefere fingir que não está e observá-lo da janela enquanto corta as unhas dos pés. Os dois se reencontram eventualmente num aeroporto: ele se apresenta aos pais dela, ela se recusa a oferecer-lhe carona. Três anos se arrastam, e os dois só se encontram furtivamente: ele se casa, tem um filho, mas de vez em quando se lembra de bater à sua porta. Ela, que o recusou até o fim, que queria ser uma mulher independente, dona do seu próprio destino, se envolve com um quarentão pai de dois filhos adolescentes e apaixonado pela ex-esposa psicótica. Hans Órlygsson e Samantha continuam a se cruzar magicamente, a trocar palavras incompreensíveis, a caírem nos braços um do outro de vez em quando, e ela eventualmente se apercebe que ele é o homem da sua vida. Mas aí, é claro, já é tarde demais. Quem mandou cortar as unhas dos pés enquanto ele esperava plantado do lado de fora, num jardim habitado por pavões?

O livro, vendido pelo editor estrangeiro como um romance, não passa de uma novela de pouco menos de cem páginas, mas nem por isso fácil de digerir. Vale pelo frio da ilha do fogo e do gelo, pela paisagem bucólica em eterna transformação, pelas eternas geleiras e verões inesquecíveis, e pelo desafio de tentar entender aquela que talvez seja a heroína mais enrolada da história da literatura.

Se um relacionamento amoroso é uma coisa complicada por excelência, essa pequena historieta islandesa prova que suas manifestações podem ser ainda mais estranhas e abstrusas do que se poderia imaginar.

Título original: Ástin fiskanna

País: Islândia

Idioma original: islandês

Ano de publicação: 1993

Edição em português: não há

Outras edições: alemão (rororo, ISBN 978-349-9234-94-1)

Número de páginas: 96 (edição alemã)

Antichrista, de Amélie Nothomb

Nothomb_Anthéchrista Amélie Nothomb não é uma autora para qualquer um. Conhecida por sua obsessão pelo sadismo, pela ousadia no tratamento do sombrio, assim como pelo mélange entre fantasia e realidade, essa notável escritora belga de poucas palavras encanta tantos quanto incomoda. Antichrista, lançado em 2003, não faz exceção à regra.

O livro, que em sua edição original não passa das 150 páginas numa formatação generosa, conta a história de Blanche, uma adolescente que, apesar de mal ter completado os 16 anos, cursa o primeiro ano de Ciências Políticas na Universidade de Bruxelas. À exceção da precocidade nos estudos, a menina não sobressai em mais nada – é tímida, introvertida, e tem o físico de uma tábua. Mas sua vida sem eventos se transforma quando uma estudante igualmente jovem interessa-se por ela. Christa, a menina em questão, é o seu antônimo absoluto: linda, extrovertida, cativante, capaz de chamar a atenção e conquistar admiradores por onde passa. Ansiosa por finalmente fazer uma amizade, e ainda mais com uma pessoa da categoria de Christa, Blanche torna-se facilmente sua presa. No entanto, o idílio dura pouco: desprezada por aquela que tão desesperadamente procura agradar, mas que a elegeu como vítima de um jogo marcado pela perfídia, a (anti)Christa não se cansará enquanto não tirar dela absolutamente tudo: seu quarto, o amor de seus pais, seu corpo, sua dignidade. Tomando como premissa a rivalidade feminina na adolescência, a autora explora de maneira ímpar um tema de atualidade universal: a miséria afetiva do século XXI.

Se tem uma coisa da qual não se pode acusar Amélie Nothomb é de verborragia. Muito pelo contrário: a escritora é famosa pela pluma que não faz rodeios, que vai direto ao ponto e mete o dedo na ferida. Não é que ela não se perde em descrições desnecessárias: simplesmente, ela não descreve, deixando a cargo do leitor o prazer de imaginar. E ao mencionarmos prazer, temos justamente em mente uma cena de sadismo de fazer corar o mais fiel dos leitores de Cinquenta Tons de Cinza. Vantagem de um lado, desvantagem de outro: verdade é que a escassez de palavras, característica de seus outros livros, atinge em Antichrista um extremo absoluto, fazendo com que a história, que facilmente poderia ter rendido no mínimo o dobro de páginas, seja praticamente abortada. Como resultado, não dá tempo de haver um verdadeiro desenvolvimento das personagens, e o livro se torna plano ao ponto do inverossímil: nem a juventude de Blanche condiz com sua serenidade de espírito, nem sua inicial passividade bovina com a rápida capacidade de reação.

Dessa forma, desperdiça-se uma boa oportunidade de contar uma história marcante, e aquele que facilmente poderia ter sido o Nabokov do século XXI torna-se uma novela divertida, que ninguém será capaz de abandonar antes de chegar à última página – até porque ela é tão curta que seria quase impossível –, mas que nada tem de inesquecível.

Apesar dos pesares, verdade seja dita: para seus súditos fiéis, a escrita de Nothomb é sempre um deleite. Tão cínica e manipuladora quanto a própria personagem que dá nome ao livro. Ame-a ou deixe-a.

Título original: Antéchrista

País: Bélgica

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2003

Edição em português: Edições Asa (ISBN 978-972-4145-32-7)

Número de páginas: 96

The Hen Who Dreamed She Could Fly, de Sun-mi Hwang

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A maternidade pode ser considerada um dos mais longevos temas da arte universal, e muitos grandes autores, como Jean-Jacques Rousseau, Máximo Gorkhi, Bertold Brecht, e J. M. Coetzee, já se debruçaram sobre esse tantas vezes estudado estado de graça.

Quer a sabedoria popular que ser mãe é padecer no paraíso, e que boa mesmo é a mãe-galinha. Pois eis que vem da Coreia do Sul um livro que não apenas toma a segunda expressão ao pé da letra, mas que também oferece uma das mais singelas e comoventes imagens da maternidade que a literatura já conheceu.

A galinha que sonhava que podia voar é uma espécie de fábula que narra a história de Sprout (em português, Broto ou Rebento), uma galinha que não se encaixa bem nos padrões da sua espécie. Condenada a uma vida de prisioneira botando ovos em uma fazenda, Sprout nunca deixou de sonhar com o impossível: levar uma vida em liberdade podendo enfim ter a alegria de chocar um de seus ovos. Mas a realidade não sai nada como na sua ilusão: descartada para o degoladouro tão logo se torna improdutiva, escapa por um triz da faca dos fazendeiros, e por pouco não acaba presa de uma doninha. No celeiro, é vítima do ostracismo até mesmo dos de sua espécie, e encontra num pato selvagem igualmente excluído o único amigo de uma vida. Quando, um dia, encontra um ovo abandonado e resolve sentar-se nele, esta pequena personagem acaba ganhando asas para o infinito. Mas como nem só de rosas consiste a maternidade, Sprout enfrenta suas alegrias e dores com firmeza, enquanto se transforma numa verdadeira mãe-coragem e luta contra todas as forças da natureza para proteger o filho adotivo, até que ele abandone enfim o ninho e a mãe, caminho natural de todos os filhos.

A trama, que se tornou quase instantaneamente um best-seller mundial, deu origem ao filme de animação Leafie, uma galinha rumo à natureza selvagem (2011), um dos maiores sucessos do cinema infantil sul-coreano. Mas, embora histórias com animais quase sempre sejam compatíveis com o público jovem, o livro de Sun-Mi Hwang é muito mais que uma narrativa para crianças. A história de Sprout, comovente metáfora das flores e espinhos da maternidade, propõe-nos refletir sobre o poder desse amor solitário e incondicional, que transcende as diferenças e não espera recompensas, bem como sobre temas como a velhice, o ciclo da vida e a mortalidade.

Contrariamente ao filme de animação, o livro ainda não foi traduzido para a língua de Camões. Mas o grande leitor que se aventurar em outro idioma terá diante de si uma novela inesquecível, à qual se acresce a imensa força narrativa de Sun-Mi Hwang, bem como sua capacidade de tornar épica uma história tão simples, e contar de forma tão simples uma história tão imensa. E haverá de concordar que Sprout entrou para o rol das grandes mães da literatura universal, que A galinha que sonhava que podia voar é uma bela homenagem a todas as mães de mundo, e que faz com que o leitor sinta vontade de ir correndo abraçar a sua.

 

Título original: 마당을 나온 암탉 (The Hen Who Dreamed She Could Fly)

País: Coréia do Sul

Idioma original: coreano

Ano de publicação: 2000

Edição em inglês: Penguin (ISBN 978-014-3123-20-0)

Tradução para o inglês: Chi-Young Kim

Edição brasileira/portuguesa: não há

Número de páginas: 144 (edição em inglês)