Unburnable, de Marie-Elena John

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Algumas histórias nos prendem a partir do primeiro parágrafo. Um romance mesclando o realismo fantástico latino-americano e o pragmatismo estadunidense, com forte viés feminista, que narra a trajetória de mulheres peculiares numa ilha perdida no meio do Caribe, estava fortemente fadado a chamar minha atenção. Eis o meu estado de ânimo ao começar a ler Unburnable, da novata Marie-Elena John.

Escritora de primeira viagem, John não tenta mascarar os motivos pelos quais decidiu se embrenhar na literatura. A autora, originária da pequena Dominica (não confundir com a muito mais proeminente República Dominicana), desejava escrever romances comerciais enquanto era obrigada a abdicar da carreira para se dedicar aos filhos pequenos. Que seu primeiro rebento literário se tornasse tudo menos um romance comercial tradicional, foi fruto de uma evolução que nem ela própria havia previsto. Foi como se a história de seu país de origem a tivesse impelido a algo muito mais denso e ousado que suas pretensões iniciais.

Unburnable narra a história de três gerações de mulheres de uma mesma família, sobre as quais parece pairar uma maldição descendente de sua força e inadequação às regras do mundo machista. Matilde, a avó, foi uma espécie de curandeira descendente de escravos fugidos, vivendo numa espécie de quilombo regido pelo matriarcado e por forte reminiscência do animismo africano. Iris, a mãe, carregava em seu sangue a mescla do sangue negro com o índio nativo, e foi tragada à ruína devido a sua incomparável beleza e ao apetite sexual fora da normalidade. Lilian, a filha, em cujo sangue cafuzo da mãe se mesclava a descendência longínqua do branco colonizador, foi criada por uma mãe de adoção segundo os preceitos da igreja católica, sem sequer desconfiar que as ladainhas cantadas pelas crianças da escola sobre a feiticeira enforcada e o estupro com uma garrafa de Coca-Cola diziam respeito à mãe e à avó. Confrontada com a verdade, isola-se de suas origens num exílio de mais de vinte anos nos Estados Unidos, até que o desejo de descobrir a verdade sobre suas antepassadas – bem como o de provar a inocência da avó, enforcada sob a acusação de assassinatos em série – faz com que retorne à terra natal. Acompanhada, aliás, por uma espécie de namorado, cuja utilidade do ponto de vista narrativo ainda estou por descobrir.

Um enredo como este será capaz de tirar o fôlego de qualquer leitor, sobretudo se levarmos em conta o imenso trabalho historiográfico empreendido pela autora, que procura resgatar por meio de suas personagens um pouco da riqueza de seu país. Contudo, o que sua inexperiência não lhe permitiu fazer foi justamente aquilo que para muitos autores tivesse sido talvez o mais fácil: criar uma protagonista realmente carismática. Ao fim e ao cabo, sobretudo se tomarmos em conta o peso da personalidade de suas duas antepassadas, a heroína Lilian soa-nos simplesmente mimada, egoísta e neurótica. Como se o sangue forte de Matilde se tivesse diluído com o tempo, como tinta negra em contato com a água.

Aliado ao fato de que a trama deixa diversos pontos sem nó, sobretudo no que diz respeito ao final demasiado aberto, a falta de carisma de Lilian faz com que o livro perca uma série de pontos, sem contudo despencar num abismo. Ao pesarmos seus pontos fortes e fracos, chegamos à conclusão de que se trata de uma boa leitura – boa, mas não excelente.

Nada mal para uma primeira tentativa!

Título original: Unburnable

País: Dominica

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2006

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Harper Collins (ISBN: 978-006-1977-88-6)

Número de páginas: 302

O homem é um grande faisão no mundo, de Herta Müller

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Tenho estudado a língua de Goethe desde exatamente a metade dos meus anos de vida. E se tanto esforço e dedicação serviram para me permitir hoje ler Herta Müller no original, então o esforço valeu a pena: O homem é um grande faisão no mundo, de autoria da premiada escritora romena de expressão alemã, é simplesmente um soco na boca do estômago!

Escrito em 1986, o livro conta a história de uma pequena família de ascendência alemã vivendo num minúsculo vilarejo perdido na região de Banat, no oeste da Romênia, em plenos anos de ferro da ditadura de Nicolae Ceaușescu. Culturalmente germânicos, os três membros da família Windisch aguardam sem grande esperança a chegada da tão sonhada autorização que lhes permitirá imigrar para a Alemanha Ocidental, enquanto a maioria de seus conhecidos romeno-alemães já partiu em debandada. Seu cotidiano difícil e sofrido, como vítimas de exclusão e corrupção por não serem romenos, bem como seus demônios internos e seu passado traumático, são narrados de forma arrastada, enquanto a vida parece se encontrar em stand-by… Até que eles se deparam com a dura realidade: a fim de obter a tão esperada carta, é preciso enviar sua única filha para saciar o apetite sexual dos poderosos de plantão.

Superada uma eventual dificuldade inicial, o livro curto – com pouco mais de cem páginas – pode ser lido numa só assentada. É verdade que pode não ser fácil habituar-se ao estilo literário da escritora, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura de 2009. Suas frases extremamente curtas e concisas, que dispensam orações subordinadas e flertam com o vocabulário da língua alemã numa espécie de prosa poética, podem gerar no leitor desavisado uma certa resistência inicial, a qual no entanto se desvanece ao cabo de uma dezena de páginas, dando lugar a uma latente admiração. Afinal, a densidade de seus escritos, sua prosa honesta e dolorosa, bem como seu alto teor poético, fazem da escritora uma verdadeira alquimista das letras, daquelas que conseguem transpor todo um universo psicológico por meio da junção de meia dúzia de palavras. Uma prosa lacônica, de fato, mas muito bem colocada, na qual não se dispersa energia em adornos desnecessários, colocando-se o dedo imediatamente na ferida.

Alguns de seus curtos capítulos, como aquela que descreve em pouco mais de três páginas os anos de guerra da mãe, Katharina, passados numa barraca na Rússia, ficarão para sempre ecoando na minha memória. Só mesmo um grande gênio literário é capaz de transcender as barreiras da narrativa, gerando uma identificação imediata que vai além dos limites da escrita, e permitindo-nos chorar o destino de homens e mulheres ficcionais como se de verdadeiros amigos ou familiares se tratasse. Eis a mágica de que é capaz Herta Müller. E eis o motivo pelo qual todos devemos lê-la.

Boa leitura!

Título original: Der Mensch ist ein großer Fasan auf der Welt

País: Romênia

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 1986

Título brasileiro: O homem é um grande faisão no mundo

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-16-5)

Título português: O homem é um grande faisão sobre a Terra

Edição portuguesa: Cotovia (ISBN: 978-972-8028-18-3)

Número de páginas: 136 (edição brasileira), 112 (edição portuguesa)

As consequências do amor, de Sulaiman Addonia

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Correndo o risco de ser acusada de saltar de uma história de amor à outra, a resenha de hoje é dedicada a outro livro de um país ignorado pelo mundo: As consequências do amor, do escritor eritreu Sulaiman Addonia.

Quem lê as primeiras páginas sem saber que o livro foi escrito por um homem pode muito facilmente se confundir: a sutileza da narrativa, bem como a ingenuidade da visão do mundo do protagonista e narrador em primeira pessoa, dão a ilusão de que se trata não apenas de um eu-lírico feminino, mas também de um texto escrito por uma mulher. No entanto, Nasser, figura principal do romance, é um jovem e belo rapaz de origem eritreia que sonha com o primeiro amor, vivendo na inóspita Arábia Saudita dos anos 1980. No passado, ele e o irmão de três anos foram mandados pela mãe para fora da terra natal como forma de fugir à morte certa num país assolado por uma guerra sem fim. Resgatados por um tio de um campo de refugiados sudanês, os meninos foram adotados pelo parente ultrarreligioso e levados a viver no país do Golfo, onde o contato entre homens e mulheres beira o inexistente. Para Nasser, que cresceu entre mulheres no prostíbulo onde trabalhava a mãe, adaptar-se a um mundo sem elas torna-se praticamente impossível, sobretudo após ser expulso pelo tio e passar a sustentar a si próprio ainda aos 15 anos.

A história de amor em si é bastante previsível: o menino, que sonha com o amor, recebe um bilhete romântico que uma mulher escondida por trás de uma burqa deixa cair a seus pés, e se apaixona pela desconhecida, com quem passa a se corresponder. Surge daí uma paixão que nos é estranha, por uma mulher cujo nome e a própria cor da pele desconhece, e que no começo não é mais que a tentativa de suprir uma carência de ambos os lados.

Num país do qual o amor foi banido, está claro que as consequências de um relacionamento amoroso nunca poderiam ser positivas. No entanto, a história, que parecia a princípio não passar de um amontoado de clichês, torna-se aos poucos cada vez mais envolvente. À medida em que as discussões entre ambos transcendem a fase das declarações açucaradas, seus questionamentos acerca da função da mulher no mundo árabe acabam por se tornar um estudo da sociedade saudita. Uma sociedade, aliás, que pode ser considerada a maior prisão a céu aberto do mundo, e cuja fachada moralista e ultraconservadora esconde um submundo muito pouco condizente com os dogmas do islã. Afinal, uma vez que banir as mulheres não significa extirpar o desejo e a luxúria, o homossexualismo e mesmo o abuso sexual de jovens rapazes de castas inferiores acabam por se tornar práticas aceitáveis, desde que devidamente praticadas debaixo dos panos.

Os jovem de As consequências do amor são deveras diferente das “modernas” garotas de Riade de Rajaa Al-Sanea. Em vez da jovem elite citadina, temos aqui refugiados e filhos de imigrantes, membros muito mais fragilizados de uma estrutura social claustrofóbica e hipócrita. Embora jamais venha a ser uma pérola da literatura, e embora não possa ser considerado um romance tecnicamente eritreu, trata-se de um livro interessante, que cresce aos olhos do leitor com o desenrolar da narrativa, e que merece ser lido por oferecer um olhar crítico e sincero a uma das sociedades mais opressoras do mundo.

Título original: The Consequences of Love

País: Eritreia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1082-41-1)

Número de páginas: 400 (edição brasileira)

 

O tempo entre costuras, de María Dueñas

Dueñas, Costuras

Depois de pouco mais de um mês de ausência, o blog oquevcestalendo volta à ativa com a resenha de um livro de peso – pelo menos no que compete ao tamanho do calhamaço: trata-se de O tempo entre costuras, o primeiro e aclamado romance da escritora espanhola María Dueñas, que mescla história e ficção numa narrativa rápida e levemente viciante.

O livro narra a trajetória de uma costureirinha madrilena, filha de mãe solteira, tornada, graças a uma série de coincidências, em espiã pró-inglesa em plena Segunda Guerra Mundial. Sira Quiroga, uma autêntica filha da classe operária, está às vésperas de se casar quando conhece Ramiro, um charmoso vendedor de máquinas de escrever. Por ele, a rapariga abandona o noivo, a mãe, a religião, e os planos pequeno-burgueses, tornando-se a amante de um homem cobiçado, frequentador de círculos aos quais jamais adaptar-se-ia. Quando, às vésperas da Guerra Civil Espanhola, seu pai biológico surge do nada e lhe oferece uma parte da herança familiar, Sira não hesita em entregar a pequena fortuna nas mãos do amante. Como seria de se esperar, o amor não duraria para sempre, e Sira logo será descartada em pleno protetorado marroquino: grávida, sem um centavo, com uma dívida pendente, e um processo judicial à sua espera numa Espanha arrasada pela guerra. Para sobreviver, a menina fútil de outrora terá que se reinventar, e se tornará a talentosa costureira Sirah, uma espécie de Coco Chanel de pouca cultura; e, mais tarde, a misteriosa Arish, suposta mulher do mundo, trabalhando para os ingleses “porque calhou”, mesmo sem entender de fato os mecanismos da guerra.

O romance, que já se encontrava na minha lista há quase um ano, foi-me calorosamente recomendado durante uma viagem a Sevilha, mas precisava de tempo para ser lido, e por isso foi sendo deixado para depois. O que, aliás, acabou por ser uma escolha acertada, já que faz mesmo o gênero de leitura para as férias de verão: leve e ligeiramente naïve, mas ao mesmo tempo bem escrito e interessante, abordando um tema complexo de forma quase simplista (os críticos mais machistas diriam mesmo que se trata de “literatura para mulherzinha”). O que, no entanto, não desmerece de todo o trabalho da autora. Afinal, os méritos da então iniciante Dueñas são irrefutáveis: o livro obteve sucesso sem igual no mercado literário, sendo traduzido quase instantaneamente para 25 idiomas, e ganhando mesmo, um ano após o seu lançamento, uma versão televisiva. Ou seja, o sonho de qualquer escritor de primeira viagem.

Embora não chegue a um livro bom, trata-se ainda assim um bom livro. Seu grande sucesso se deve à escolha do tema, sempre atual, que faz o leitor viajar de Madrid a Tanger, de Tetuan e Lisboa, mas também à forma leve escolhida para dar forma ao material histórico, à linguagem simples, e à opção narrativa acertada pela primeira pessoa. Embora o leitor mais exigente não deixe de franzir o cenho diante dos lugares-comuns, do maniqueísmo sem profundidade na fórmula ingleses = mocinhos e alemães = vilões, da facilidade com que as peças se encaixam, e do inevitável happy end, O tempo entre costuras será certamente um bom companheiro para longas viagens de ônibus, noites insones de verão, e tardes à beira da praia.

Título original: El tempo entre costuras

País: Espanha

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2009

Título em português: O tempo entre costuras

Edição brasileira: Planeta do Brasil (ISBN: 978-857-6655-43-5)

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN: 978-972-0045-58-4)

Número de páginas: 480 (edição brasileira), 624 (edição portuguesa)

O país das mulheres, de Gioconda Belli

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Como seria um país regido inteiramente por mulheres?

Desde a segunda metade do século XX, as mulheres têm ganhado cada vez mais espaço na vida pública. Brasil, Alemanha, Nicarágua, Islândia, Irlanda, Argentina, Chile e Suíça são apenas alguns dos países que têm ou já tiveram uma mulher como chefe de Estado. Contudo, para sobreviver num meio predominantemente masculino, as “presidentas” do mundo têm de ser como a Lady Macbeth: mais “macho” que os próprios homens. Ora, se ter uma mulher no poder significasse uma sociedade menos machista, paternalista ou falocêntrica, no Brasil ninguém mais estaria dançando o “Lepo Lepo”. Mas como seria um país onde todos os cargos públicos fossem preenchidos por mulheres, meninos e meninas recebessem aulas de maternidade, e estupradores fossem expostos e recebessem uma tatuagem na testa? Eis o ponto de partida de O país das mulheres, da premiada escritora nicaraguense Gioconda Belli.

Ao contrário de quase qualquer outro escritor centro-americano, Belli é relativamente conhecida nos países de língua portuguesa, tendo sua autobiografia O país debaixo da minha pele sido recentemente publicada em Portugal. Em O país das mulheres, um grupo de amigas de personalidades distintas funda, meio que por brincadeira, o Partido da Esquerda Erótica, que acaba, devido a uma série de circunstâncias inesperadas, crescendo ao ponto de vencer as eleições. A história se passa na pequena e imaginária república de Fáguas, supostamente situada na América Central, e tem início quando, durante um comício, a sensual presidente Viviana Sansón é vítima de um atentado a bala e entra em estado de coma. A partir daí, a trama é narrada em dois planos. O primeiro descreve os acontecimentos ocorridos no presente, isto é, após o atentado: da comoção nas ruas às tentativas de golpe de Estado. O segundo acompanha as memórias de Viviana desde a espécie de limbo em que a mesma se encontra, de como ela se tornou uma personalidade importante em seu país até chegar a presidência. Tudo isso é permeado por uma série de documentos históricos fictícios, desde entrevistas e planos de governo até reportagens da imprensa internacional.

De certa forma, a utopia de Fáguas inscreve o romance na tradição literária do realismo fantástico de Márquez, Borges e Allende. No que compete à escolha do tema, a autora acertou em cheio: O mito das Amazonas, que permeia a fantasia dos homens (e das mulheres) desde os tempos de Alexandre o Grande, adaptado ao século XXI, faz de O país das mulheres um livro irresistível. No entanto, é preciso reconhecer que a semelhança com os grandes nomes da literatura hispano-americana termina aí.

Lamentavelmente, aquela que poderia ter sido uma excelente oportunidade para refletir os papéis sociais e a posição da mulher na aurora do novo milênio acaba numa superficialidade digna de telenovela: todos os problemas resolvem-se por encanto, toda a oposição desaparece como num conto de fadas. A própria ideia de que, ao prendermos o bandido, o final sempre é feliz, é em si uma traição ao próprio ideal feminista pregado pelo romance. Primeiro, porque nesse caso o “bandido” é uma ideologia arcaica arraigada nas nossas mentalidades. Segundo, porque não existe nada mais machista e antirrevolucionário que contos de fadas e seus finais felizes.

Por fim, prepondera a decepção. Não que se trate um mau livro: muito pelo contrário, a prosa é boa, agradável, interessante e divertida. Mas aí é que mora o problema: no País dos Grandes Leitores, transformar uma ideia tão original num romance “agradável, interessante e divertido” deveria ser considerado crime digno das mais altas punições.

Título original: El país de las mujeres

País: Nicarágua

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2010

Edição brasileira: Verus (ISBN 978-857-6861-22-5)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 220

Boneco de neve, de Jo Nesbø

Nesbø, Snø

Para além do heavy metal, do design de interiores, e dos baixos índices de corrupção, já faz alguns anos que a Escandinávia vem se destacando também pela qualidade de sua literatura policial de suspense. Se, há alguns anos, o sueco Stieg Larsson tornou o thriller escandinavo num fenômeno mundial com sua trilogia Millenium, pouco depois foi a vez de o norueguês Jo Nesbø confirmar a regra, tornando-se em mais um best-seller de alto calibre.

Boneco de neve é o sétimo (!) livro da série protagonizada pelo investigador policial Harry Hole, e considerado por muitos o mais sombrio de todos. A boa notícia para os grandes leitores que não se importam em começar pelo meio é que as histórias são independentes, o que faz com que seja perfeitamente possível saborear o Boneco de neve sem antes ter lido os seis romances precedentes.

A ação principal se passa em 2004, quando o já famoso detetive investiga uma série de desaparecimentos de mulheres nos arredores de Oslo. Ajudado pela recém-chegada Katrine Bratt, Hole descobre uma bizarra semelhança entre os casos em questão e uma série de desaparecimentos ocorridos em toda a Noruega nos últimos 20 anos. Para além de se tratar quase sempre do sumiço não esclarecido de mulheres casadas, com filhos e aparentemente felizes, quase todos os registros policiais mencionam a existência de um boneco de neve nos arredores do local onde a vítima foi vista pela última vez. Assim, revirando uma lista interminável de cold cases, Hole depara-se com aquele que seria talvez o primeiro caso de serial killer da história da Noruega.

Não tem como negar o fato de que Boneco de neve é um livro cativante, desses que é difícil largar antes de chegarmos à última página, e com o qual se perde de bom grado umas tantas noites de sono. Mas talvez isso se deva mais ao carisma do protagonista e à habilidade narrativa do autor para construir cenas de suspense do que ao mistério a ser investigado. Pois durante a investigação interminável na qual o assassino “falso” é apontado diversas vezes como sendo o verdadeiro e tudo sempre recomeça do princípio, só mesmo o leitor mais distraído não perceberá que o “infalível” detetive norueguês dorme no ponto, e se cansa de deixar passar o óbvio.

Em suma, um bom livro, mas longe, muito longe, de ser um Stieg Larsson.

PS: Não costumo comentar as traduções, porque geralmente costumo ler os livros em língua original, mas como meu norueguês não chega para 420 páginas em uma semana, deixo aqui uma nota sobre a edição brasileira: Se, por um lado, temos o prazer de ler uma tradução direta, ou seja, mais fiel ao original, esse prazer transforma-se em tortura pelo fato de que a tradutora, norueguesa, não conhece a língua portuguesa o suficiente. O resultado é uma narrativa sem ritmo, permeada de excessos sintáticos, gírias fora de moda, erros de concordância e, até mesmo, de digitação. O trabalho de Grete Skevik, infelizmente, faz-nos lembrar o porquê de uma regra de ouro do mundo da tradução: jamais se deve traduzir da língua materna para uma língua estrangeira!

Título original: Snømannen

País: Noruega

Idioma original: norueguês

Ano de publicação: 2007

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1094-80-3)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2053-59-4)

Número de páginas: 420 (edição brasileira), 472 (edição portuguesa)

The Hen Who Dreamed She Could Fly, de Sun-mi Hwang

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A maternidade pode ser considerada um dos mais longevos temas da arte universal, e muitos grandes autores, como Jean-Jacques Rousseau, Máximo Gorkhi, Bertold Brecht, e J. M. Coetzee, já se debruçaram sobre esse tantas vezes estudado estado de graça.

Quer a sabedoria popular que ser mãe é padecer no paraíso, e que boa mesmo é a mãe-galinha. Pois eis que vem da Coreia do Sul um livro que não apenas toma a segunda expressão ao pé da letra, mas que também oferece uma das mais singelas e comoventes imagens da maternidade que a literatura já conheceu.

A galinha que sonhava que podia voar é uma espécie de fábula que narra a história de Sprout (em português, Broto ou Rebento), uma galinha que não se encaixa bem nos padrões da sua espécie. Condenada a uma vida de prisioneira botando ovos em uma fazenda, Sprout nunca deixou de sonhar com o impossível: levar uma vida em liberdade podendo enfim ter a alegria de chocar um de seus ovos. Mas a realidade não sai nada como na sua ilusão: descartada para o degoladouro tão logo se torna improdutiva, escapa por um triz da faca dos fazendeiros, e por pouco não acaba presa de uma doninha. No celeiro, é vítima do ostracismo até mesmo dos de sua espécie, e encontra num pato selvagem igualmente excluído o único amigo de uma vida. Quando, um dia, encontra um ovo abandonado e resolve sentar-se nele, esta pequena personagem acaba ganhando asas para o infinito. Mas como nem só de rosas consiste a maternidade, Sprout enfrenta suas alegrias e dores com firmeza, enquanto se transforma numa verdadeira mãe-coragem e luta contra todas as forças da natureza para proteger o filho adotivo, até que ele abandone enfim o ninho e a mãe, caminho natural de todos os filhos.

A trama, que se tornou quase instantaneamente um best-seller mundial, deu origem ao filme de animação Leafie, uma galinha rumo à natureza selvagem (2011), um dos maiores sucessos do cinema infantil sul-coreano. Mas, embora histórias com animais quase sempre sejam compatíveis com o público jovem, o livro de Sun-Mi Hwang é muito mais que uma narrativa para crianças. A história de Sprout, comovente metáfora das flores e espinhos da maternidade, propõe-nos refletir sobre o poder desse amor solitário e incondicional, que transcende as diferenças e não espera recompensas, bem como sobre temas como a velhice, o ciclo da vida e a mortalidade.

Contrariamente ao filme de animação, o livro ainda não foi traduzido para a língua de Camões. Mas o grande leitor que se aventurar em outro idioma terá diante de si uma novela inesquecível, à qual se acresce a imensa força narrativa de Sun-Mi Hwang, bem como sua capacidade de tornar épica uma história tão simples, e contar de forma tão simples uma história tão imensa. E haverá de concordar que Sprout entrou para o rol das grandes mães da literatura universal, que A galinha que sonhava que podia voar é uma bela homenagem a todas as mães de mundo, e que faz com que o leitor sinta vontade de ir correndo abraçar a sua.

 

Título original: 마당을 나온 암탉 (The Hen Who Dreamed She Could Fly)

País: Coréia do Sul

Idioma original: coreano

Ano de publicação: 2000

Edição em inglês: Penguin (ISBN 978-014-3123-20-0)

Tradução para o inglês: Chi-Young Kim

Edição brasileira/portuguesa: não há

Número de páginas: 144 (edição em inglês)

O povo eterno não tem medo, de Shani Boianjiu

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Quando o mundo resolve esconder-se por trás do silêncio, a literatura de ficção é muitas vezes o único veículo capaz de dar voz a realidades reprimidas, de revelar verdades incômodas, de exteriorizar pesadelos. Ao abrir a caixa de pandora e romper o silêncio que envolve a vida das jovens israelenses do século XXI, o romance de estreia de Shani Boianjiu, considerado um dos melhores livros de 2012, faz justamente isso.

O povo eterno não tem medo é uma espécie de mosaico composto de cacos de vidros de tamanhos, formas e cores diferentes. A cada capítulo, o leitor tem diante de si uma nova perspectiva, um novo estilo narrativo, um novo estilhaço de realidade. No eixo central, temos a história de três israelitas – Yael, Avishag e Lea –, amigas de infância de personalidades distintas, cujo destino implacável e comum torna cada vez mais parecidas através do sofrimento. Conhecemos as meninas ainda na infância, num vilarejo poeirento e sem história na fronteira com o Líbano, e acompanhamos suas trajetórias do final da adolescência à passagem pelo exército, e depois até meados dos vinte anos. Para além, conhecemos um pouco do universo das pessoas ao seu redor, como pais e colegas, mas também refugiados, escravas sexuais e trabalhadores palestinos. Assim, e sobretudo graças à constante mudança de foco narrativo, o livro de Boianjiu oferece ao leitor um amplo panorama não somente da juventude, mas também de todas as camadas humanas que compõem Israel. E talvez um dos maiores méritos do romance resida justamente aí – na capacidade da autora de dar voz a extremos opostos, sem tomar partido ou se identificar com quem quer que seja, sem nomear heróis ou vilões, ignorando deliberadamente diferenças étnicas e religiosas em prol do que há de comum a todos os homens. Em todo caso, não deixa de impressionar o leitor como essas vidas tão inimaginavelmente distintas podem ao mesmo tempo ser tão parecidas com as de cada um de nós.

A vida das soldadas israelenses pode ser considerada um tema tabu. Com exceção de esporádicos vídeos exuberantes e fotos sensuais tornados virais graças à internet, pouco se ouve falar sobre a realidade dessas meninas. No país em guerra praticamente desde a Declaração de Independência em 1948, o alistamento é obrigatório tanto para meninos como para meninas, e a passagem pelo exército é obrigatória por dois anos. Boa parte das forças armadas de Israel é constituída por adolescentes recém-saídos da escola, cujas vidas são colocadas em stand-by ao serem designados, depois de um curto treinamento de choque, para defender o país. Quando têm sorte, são postos diante de monitores de vigilância e telefones vermelhos que nunca tocarão, e têm de lutar contra a monotonia a fim de não enlouquecerem. Quando não têm, são mandados para postos de fronteira e esquadrões anti-terroristas, nos quais ficam à mercê de homens-bomba e de agressões de toda espécie.

Por meio da história das três protagonistas, o romance revela o contraste entre as granadas e metralhadoras e as mãos pequenas daquelas que as disparam, forçadas a lutar por uma causa pela qual nem sequer se interessam. Entre momentos de excitação e de tédio, são obrigadas a se desumanizar para sobreviver num ambiente que não tolera fraquezas, e vão deixando de ser indivíduos dotados de sonhos, desejos e valores, para se tornarem autômatos auto-destrutivos desprovidos de essência, capazes de abrir o próprio peito a golpes de faca num esforço desesperado para voltarem a sentir. Com isso, o livro nos revela um povo destroçado, cansado de uma luta sem fim, e condena com voz abafada não apenas o Estado que envia à morte aqueles que mais deveria proteger, como também a sociedade, que peca pela omissão e pela aceitação do absurdo.

Mas não era intenção de Shani Boianjiu escrever apenas um livro sobre mulheres-soldado, como também não é sob essa perspectiva unilateral que o romance deve ser lido. O que o trabalho da jovem escritora de pouco mais de 25 anos, ela mesma ex-soldada do exército israelense, pretende mostrar é muito maior: o que significa ser mulher e jovem no Israel de hoje em dia.

Por vezes, temos a impressão de que alguns livros simplesmente precisavam ser escritos. O povo eterno não tem medo é sem dúvida um desses livros.

Título original: The People of Forever are not Afraid

País: Israel

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Alfaguara (ISBN 978-857-9622-17-5)

Edição portuguesa: Objectiva (ISBN 978-989-6721-88-6)

Número de páginas: 280 (edição brasileira), 368 (edição portuguesa)