O quinto filho, de Doris Lessing

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No que diz respeito à escolha de autores, eu sempre fui uma pessoa um bocado preconceituosa. Na adolescência, recusava-me a ler tudo aquilo que cheirasse a best-seller, mesmo que com isso deixasse passar alguns clássicos: Erich Maria Remarke, Ernst Hemingway, Hermann Hesse… como também uma autora extremamente popular, cujos livros enchiam as prateleiras de qualquer biblioteca dos anos 1980 e 90: a britânica nascida no Irã Doris Lessing.

Fui conhecer Doris Lessing apenas à custa de necessidade. Estava na praia do Tofo, no Moçambique, e como não houvesse meio de carregar meu iPad, uma bolorenta edição alemã de O quinto filho era o único livro que me havia à disposição. E confesso que a espera valeu a pena: trata-se, para mim, do melhor livro do ano até o momento.

O quinto filho é um livro curto, de pouco mais de 100 páginas, concebido como uma espécie de fábula às avessas, e narra a infeliz história de um jovem casal perfeito, Harriet e David, cujo pequeno idílio familiar cai completamente por terra após à chegada de Ben, o quinto rebento. Narrado com um forte tom de crônica jornalística no qual preponderam a acidez e a ironia, o livro oferece-nos uma crítica ferrenha à hipócrita sociedade britânica, ao mesmo tempo em que revela a verdadeira essência do vínculo maternal.

Após conhecerem-se numa festa de escritório, Harriet e David descobrem um no outro o parceiro perfeito para as suas ambições pequeno-burguesas. Avessos às tendências libertárias dos anos 1960, os dois decidem se casar, comprar uma imensa casa vitoriana e enche-la de filhos, levando uma vidinha feliz e sem grandes arrebatamentos, baseada nos princípios da fidelidade e da estabilidade familiar. No começo, tudo corre bem, e a casa se torna o refúgio de uma infinidade de parentes e amigos ansiosos por compartilhar seu paraíso doméstico – as contas até se acumulam devido à eterna romaria de visitantes. Sua sorte, no entanto, mudará drasticamente desde a concepção do quinto filho, cujo desenvolvimento ainda no útero é de tal forma violento que provoca a rejeição imediata de uma mãe até então exemplar. Completamente fora do controle, Harriet tem a impressão de que o filho está a tentar mata-la por dentro, sensação que só tende a agravar com o nascimento difícil, seguido de uma amamentação catastrófica e de um primeiro ano ainda pior. O menino, de aparência estranha e pouco delicada, que em tudo mais parece um neandertal, revela-se rapidamente como uma ameaça aos próprios irmãos e primos, uma espécie de changelin deixado pelos trolls, cujas tendências violentas e ímpeto assassino destroem pouco a pouco a unidade familiar. Gradualmente, a pequena família modelo começa a ruir, seja pela irritabilidade constante de uma mãe à beira de um ataque de nervos, seja pela frieza do pai, ou pela ameaça constante desse estranho no ninho. Os visitantes começam a minguar, a vida torna-se insuportável… Mas haverá uma solução “limpa” para o problema de David e Harriet? Será a mãe capaz de se livrar do próprio filho, mesmo que o seu sentimento por ele tenha sempre sido o de repulsa e aversão?

Ao referir-se posteriormente ao processo criativo de O quinto filho, seu trigésimo-quinto livro, Doris Lessing, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura em 2007, afirma ter simplesmente odiado escreve-lo. Trata-se, de fato, de uma história de horror digna dos clássicos de Edgar Allan Poe, de um Bebê de Rosemary sem efeitos especiais, cujo senso de tragédia não deixará impassível nem o mais crítico dos leitores, e que deve seguramente ter revirado o estômago da própria autora. Trata-se, afinal, de uma metáfora poderosa, cujos ecos dificilmente sairão da memória do leitor, e que certamente trará pesadelos a qualquer leitora grávida ou ansiosa para ter um bebê. Um livro que põe em causa o conceito de maternidade, que questiona aquela ideia de felicidade dos comerciais de margarina, e que nos faz refletir sobre nossa própria humanidade. Em suma, um livro delicioso, apavorante, incontornável!

 

Título original: The Fifth Child

País: Reino Unido

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1988

Edição brasileira: Record (ISBN 85-0103-418-5)

Edição portuguesa: Europa América (ISBN 560-107-2033-04-7)

Número de páginas: 128 (edição brasileira), 173 (edição portuguesa)

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Sobre o Dylan, o Nobel, a política e a dor de cotovelo

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Outubro costuma ser o mês em que a literatura volta a ser assunto de jornal e de conversa à mesa do chá da tarde – nem que seja por um dia ou dois. Este ano, a divulgação do resultado do Prêmio Nobel da Literatura deu tanto o que falar que eu hoje até abri mão de publicar a minha resenha semanal para meter a colher na polêmica.

Para começo de conversa, é preciso dizer que a data de divulgação do prêmio não poderia ter sido mais providencial: no mesmo dia em que a Academia Sueca divulgava o resultado de 2016, morria um outro Nobel da Literatura: o italiano Dario Fo. Houve quem visse na coincidência um certo presságio do Apocalipse – enquanto os velhotes suecos anunciavam a degradação absoluta de sua capacidade de julgamento coroando com a mais alta medalha literário um mero cantor, o velho laureado batia as botas em protesto. Só me resta perguntar se aqueles que assim o pensam já alguma vez leram Fo. Apostaria meu braço direito que não. Afinal, o Nobel do italiano em 1997 tem motivos de sobra para ter sido ainda mais polêmico que o Nobel de Bob Dylan. Dario Fo, dramaturgo e ativista político de talento inquestionável, pode ter sido muita coisa. Mas se tem uma coisa que ele nunca foi nem nunca tentou ser, foi escritor de “literatura”.

Bob Dylan, por sua vez, aproxima-se muito mais do conceito clássico de poeta que muitos de seus antecessores na lista do Nobel literário. Svetlana Aleksievič, por exemplo, a jornalista bielorussa ganhadora do ano passado. Com a diferença que ela ninguém conhecia – sua obra nem sequer traduzida para o português se encontrava -, de modo que a pseudo-intelectualidade não se julgou competente para palpitar. Preferiu fazer cara de entendida e correr à internet ler resumos de seus livros.

De que Dylan é um poeta de mão cheia já muita gente se havia apercebido. Há décadas que suas letras tem sido tema de teses de doutorado em literatura, ou publicadas em edições especializadas como se fossem poemas. Questionar os méritos de Dylan como escritor seria, neste caso, por em causa o próprio conceito do que é literatura. Afinal, dizer que ele não merecia o Nobel por ser um músico é o mesmo que negar a própria origem do que hoje conhecemos por literário – a arte de contar histórias de forma oral, diante de uma audiência ativa e participativa. Ademais, há anos que sabemos que o conceito usado pelos velhos suecos não é assim tão rigoroso – basta pensarmos no caso de Fo, acima citado, ou no de um outro laureado ilustre, Winston Churchill, Nobel da Literatura de 1953. Isso mesmo, aquele que governou a Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. É verdade, ganhou o Nobel da Literatura, podem ir conferir!

Mas por que o Nobel do Bob Dylan incomoda tanta gente? Simplesmente, por que se trata de um cantor popular, e que o popular não costuma se misturar com as altas esferas da literatura. Sobretudo para gente que vai às livrarias uma vez por ano, quando sai o resultado do prêmio, a fim de comprar mais um peso de papel para a estante e fazer boa impressão às visitas. Gente que não lê, ou que talvez já tenha folheado meia página de um Murakami, e que por isso mesmo torcia pelo japonês – eterna promessa e cavalo de apostas. Que grande oportunidade não perdeu essa gente de impressionar as visitas nos seus salões de chá! Isso para não falar no desespero das livrarias, acometidas a uma recessão sem precedentes. Não vão elas mudar de ramo e passar a vender CDs quando chegar o Natal!

Mas o que eu ainda não disse é que eu também não estou feliz com o Nobel do Bob Dylan. Porque toda a gente capaz de ler as entrelinhas sabe bem que a Academia sueca é a FIFA das Artes, das Ciências e da paz mundial. Que as suas decisões estão calcadas em política e num jogo de interesses, muito mais que nos méritos de cada um de seus ganhadores. Não fosse por isso, não teria Barack Obama ganhado o Nobel da Paz sem jamais o ter merecido, ou a menina Malala, para fazer boa impressão e legitimar o antiterror… Pode parecer que estou misturando alhos com bugalhos, mas não estou: apenas estou dando um exemplo de como o Nobel é usado ano a ano como um instrumento de dominação de uma elite branca, eurocentrada e falocrata.

Voltemos para a literatura? Dos 113 vencedores do Nobel de 1901 a 2016, apenas 14 eram mulheres, apenas 10 nasceram no Hemisfério Sul, e apenas um (dois, se considerarmos o mulato Derek Walcott) era negro. Das línguas representadas, 27 escreviam em inglês, 105 em línguas europeias. A França, país de 66 milhões de habitantes, já ganhou mais prêmios Nobel da literatura (15) do que a África, a Ásia, a América do Sul e a Oceania juntos. Quase 50% dos laureados eram cristãos praticantes. Apenas um (Jean-Paul Sartre) teve culhões para o recusar. Já deu para perceber?

Em vez de criticar o Nobel do cantor, está mais do que na hora é de criticar a instituição como um todo, ou os seus parâmetros de escolha. E de estender a crítica a nós mesmos, que prestamos tanta atenção a esse prêmio literário que nem prêmio literário é. Afinal, não se trata de um concurso, como muita gente acredita. Ninguém ganha o Nobel pelo livro X ou Y. Ganha simplesmente porque a Academia achava que merecia. Tanto que alguns deles nem sequer livros têm.

Já deu por hoje. Semana que vem tem mais resenha. De uma escritora, aliás, laureada pelo Nobel. Ironicamente.

Eu sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

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Eu sou Malala é um livro que dispensa apresentações. Mais famoso que Paulo Coelho, mais disputado que o último CD de Justin Bieber, o livro que narra a trajetória da “menina que foi baleada pelo Talibã” correu rapidamente o mundo, fazendo da jovem paquistanesa uma figura carimbada, e servindo de trampolim para que ela se tornasse o mais jovem Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ironicamente, o que Malala não cansa de repetir ao longo das quase 400 páginas de sua autobiografia é que ela não desejava ser conhecida por ter tomado um tiro no rosto, mas sim pela sua luta para promover a educação em seu país de origem. Mas será que o seu ativismo político é realmente o motivo de tão grande celebridade?

Para já, chamar o best seller de autobiografia por si só deveria levantar uma série de reticências: sabemos que o livro foi escrito em coautoria com a jornalista inglesa Christina Lamb, especialista em países de democracia duvidosa, como o Oriente Médio, a África do Sul e o Brasil. Se os méritos de uma narrativa tão detalhada – e muitas vezes até mesmo aborrecida – só podem ser atribuídos à própria Malala, foi sem dúvidas a experiente jornalista quem conseguiu transformar a matéria bruta num sucesso comercial, digno dos 3 milhões de dólares que a menina teria recebido pelos direitos autorais.

Seria perda de tempo (meu e vosso) dedicar mais de meia dúzia de linhas ao enredo mais que conhecido: Malala, uma estudante da região de Swat, tornou-se conhecida graças ao seu discurso em prol da escolaridade de meninas em seu país natal, devastado pelo Talibã. Sua loquacidade só se tornou possível graças ao apoio do pai, diretor da escola onde estudava e empenhado combatente pelos Direitos Humanos. O comportamento pouco convencional de pai e filha fez com que terminassem na mira dos fanáticos islamistas, que os acusavam de secularização e ocidentalização. Mas não estamos aqui para julgar a coragem de Malala, mas sim a qualidade de sua biografia.

O livro, bastante recheado, e decorado por uma longa sessão de fotografias em guisa de apêndice, tenta intercalar os quinze anos de vida de Malala a um vasto aparato de informações históricas, no intuito de alinhar a micro e a macro narrativa. Tudo isso, é claro, sem deixar de lado inúmeras anedotas do cotidiano, como as banais historietas de disputas com as amigas pelo título de melhor aluna da escola, a fim de oferecer ao leitor uma Malala mais “humana”, cheia de erros, mas que não deixou que o sucesso e a celebridade lhe subissem à cabeça. Tal fórmula, acrescida das incontáveis frases de efeito motivacional que poderiam ter sido retiradas diretamente de O alquimista, tornam a leitura enervante, e não nos surpreendemos nem um pouco ao descobrir que a heroína pela educação é, de fato, uma fã de carteirinha do escritor brasileiro mais vendido de todos os tempos. Para terminar, o livro surpreende pela falta de espírito crítico de uma menina tão politizada, quando se trata de elogiar sem precedentes um outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, no qual ela parece não ver nem a sombra de boa parte da culpa pela presença dos talibãs em seu amado Paquistão. Ironicamente, os mesmos talibãs que quase conseguiram silenciá-la. Seria a Malala tão ingênua, ou tratar-se-ia apenas de um recurso editorial para fazer o livro mais apresentável, mais conforme à sensibilidade do leitor ocidental? A julgar pelo fato de que, em entrevistas e debates anteriores à publicação da biografia, Malala levantou sim a voz para criticar abertamente a intervenção militar e as políticas estadunidenses no Paquistão, tendo a me deixar levar pela segunda opção.

Obviamente, não estou a colocar em causa a importância da mensagem que Malala veio dar ao mundo, mas sim a parcialidade e o maniqueísmo de um livro feito para agradar as grandes massas. Um livro que perdeu uma excelente oportunidade de contextualizar o crescimento da força de grupos extremistas a partir de 2001, e de questionar o papel dos Estados Unidos e da “luta contra o terror” no crescente estado de guerra que domina o Oriente Médio.

Ao fim de uma leitura não completamente maçante, mas que mesmo assim me custou duas semanas, fica a lição: da próxima vez, eleger uma obra de literatura de verdade.

Título original: I Am Malala: The Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban

País: Paquistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5923-43-8)

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2351-73-7)

Número de páginas: 360 (edição brasileira), 352 (edição portuguesa)

 

 

O homem é um grande faisão no mundo, de Herta Müller

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Tenho estudado a língua de Goethe desde exatamente a metade dos meus anos de vida. E se tanto esforço e dedicação serviram para me permitir hoje ler Herta Müller no original, então o esforço valeu a pena: O homem é um grande faisão no mundo, de autoria da premiada escritora romena de expressão alemã, é simplesmente um soco na boca do estômago!

Escrito em 1986, o livro conta a história de uma pequena família de ascendência alemã vivendo num minúsculo vilarejo perdido na região de Banat, no oeste da Romênia, em plenos anos de ferro da ditadura de Nicolae Ceaușescu. Culturalmente germânicos, os três membros da família Windisch aguardam sem grande esperança a chegada da tão sonhada autorização que lhes permitirá imigrar para a Alemanha Ocidental, enquanto a maioria de seus conhecidos romeno-alemães já partiu em debandada. Seu cotidiano difícil e sofrido, como vítimas de exclusão e corrupção por não serem romenos, bem como seus demônios internos e seu passado traumático, são narrados de forma arrastada, enquanto a vida parece se encontrar em stand-by… Até que eles se deparam com a dura realidade: a fim de obter a tão esperada carta, é preciso enviar sua única filha para saciar o apetite sexual dos poderosos de plantão.

Superada uma eventual dificuldade inicial, o livro curto – com pouco mais de cem páginas – pode ser lido numa só assentada. É verdade que pode não ser fácil habituar-se ao estilo literário da escritora, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura de 2009. Suas frases extremamente curtas e concisas, que dispensam orações subordinadas e flertam com o vocabulário da língua alemã numa espécie de prosa poética, podem gerar no leitor desavisado uma certa resistência inicial, a qual no entanto se desvanece ao cabo de uma dezena de páginas, dando lugar a uma latente admiração. Afinal, a densidade de seus escritos, sua prosa honesta e dolorosa, bem como seu alto teor poético, fazem da escritora uma verdadeira alquimista das letras, daquelas que conseguem transpor todo um universo psicológico por meio da junção de meia dúzia de palavras. Uma prosa lacônica, de fato, mas muito bem colocada, na qual não se dispersa energia em adornos desnecessários, colocando-se o dedo imediatamente na ferida.

Alguns de seus curtos capítulos, como aquela que descreve em pouco mais de três páginas os anos de guerra da mãe, Katharina, passados numa barraca na Rússia, ficarão para sempre ecoando na minha memória. Só mesmo um grande gênio literário é capaz de transcender as barreiras da narrativa, gerando uma identificação imediata que vai além dos limites da escrita, e permitindo-nos chorar o destino de homens e mulheres ficcionais como se de verdadeiros amigos ou familiares se tratasse. Eis a mágica de que é capaz Herta Müller. E eis o motivo pelo qual todos devemos lê-la.

Boa leitura!

Título original: Der Mensch ist ein großer Fasan auf der Welt

País: Romênia

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 1986

Título brasileiro: O homem é um grande faisão no mundo

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-16-5)

Título português: O homem é um grande faisão sobre a Terra

Edição portuguesa: Cotovia (ISBN: 978-972-8028-18-3)

Número de páginas: 136 (edição brasileira), 112 (edição portuguesa)

Vozes de Chernobyl, de Svetlana Aleksievitch

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No dia 26 de abril de 1986, uma explosão provocada por um teste malsucedido num reator da usina nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética, entraria para a história. Cerca de 10 anos após a tragédia, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch iniciou uma série de cerca de 500 entrevistas às vítimas, as quais dariam lugar ao impressionante Vozes de Chernobyl: Crônica do Futuro.

O livro consiste numa coletânea de relatos em primeira pessoa narrados por sobreviventes da catástrofe, bem como por seus parentes, e revelam um lado ainda mais sombrio – e até então desconhecido – da maior catástrofe nuclear de todos os tempos: a ignorância da população local perante à tragédia. Para dar voz às vítimas silenciosas de Chernobyl, Svetlana recorre à técnica do recorte, recurso já empregado em seus trabalhos anteriores, de modo a que o livro seja composto como uma espécie de patchwork, permitindo o entrecruzamento de vozes em uma pluriperspectividade dialética.

Em vez de se ater aos grandes fatos, já demasiadamente esmiuçados, Svetlana preocupa-se com o aspecto humano do acidente, privilegiando a micro-história. Desta forma, tomamos conhecimento da catástrofe através do relato daqueles que a viveram pessoalmente, desde moradores de Pripiat, soldados, liquidadores (pessoas recrutadas pelo governo soviético para dar fim aos resquícios radioativos), e caçadores encarregados de exterminar os animais domésticos e selvagem, até físicos e diretores dos principais centros de pesquisas atômicas da URSS. O resultado é o registro chocante de uma sequência dantesca de erros que facilmente poderiam ter sido minimizados, não fossem os interesses políticos terem decidido ocultar covardemente as dimensões da situação. A desinformação gritante sobre as possíveis consequências de uma contaminação radioativa, aliada ao coletivismo e ao senso de dever cívico dos povos socialistas, são ainda hoje responsáveis por um prejuízo humano de dimensões incalculáveis, cujas consequências ainda poderão ser observadas por centenas de gerações.

Quanto ao aspecto literário do texto, é preciso estar atento ao fato de que a leitura nem sempre será fácil. Tal dificuldade não se deve apenas ao tema obviamente chocante, mas sobretudo ao seu caráter repetitivo – essencial do ponto de vista histórico e antropológico, mas cansativo do ponto de vista literário. Enquanto a semelhança de muitos dos relatos os valida como testemunho documental, ela também obriga o leitor a uma grande disciplina. Não se trata, enfim, de um livro facilmente digerível, nem muito menos de um registro sensacionalista: eis, do ponto de vista narrativo, o principal mérito da autora.

Chega a ser impressionante que a obra de Svetlana, laureada com o Prêmio Nobel da Literatura em 2015, ainda seja tão desconhecida no mundo lusófono. Assim, o leitor que se interessar por Vozes de Chernobyl terá que se contentar, por enquanto, com uma edição em língua estrangeira (ver algumas sugestões abaixo). Por outro lado, a boa notícia é que O fim do homem soviético, considerado sua obra-prima, já ganhou uma edição portuguesa, e que outras traduções já se encontram a caminho.

 

Título original: Чернобыльская молитва. Хроника будущего

País: Bielorrússia

Idioma original: russo

Ano de publicação: 1997

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Picador (ISBN 978-031-2425-84-5)

Edição espanhola: Debolsillo (ISBN 978-849-0624-40-1)

Edição francesa: J’ai lu (ISBN 978-229-0343-60-9)

Número de páginas: 256 (edição inglesa), 408 (edição espanhola), 250 (edição francesa)

O museu da inocência, de Orhan Pamuk

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Sabem aqueles romances que, ao chegarem ao fim, deixam o leitor com a sensação de se terem tornado órfãos? Pois assim é O museu da inocência: seiscentas páginas que passam a voar e que provam os motivos pelos quais Orhan Pamuk, Prêmio Nobel da Literatura de 2006, é um dos maiores autores do século XXI.

O livro narra a história de um amor – ou, se preferirem, de uma obsessão – entre um abastado playboy, filho da nata de Istambul, e uma humilde balconista, sua prima afastada. Kemal, jovem rico e bem-sucedido, oriundo de uma família tradicional turca, está prestes a se casar com Sibel, uma moça bonita, educada na França, e parece estar se encaminhando para o que poderíamos chamar de uma vida perfeita. No entanto, ao se deparar com Füsun, uma ‘prima’ doze anos mais nova, toda possibilidade de viver sem ela se torna literalmente impossível. A trama, que a princípio se assemelha a uma releitura banal de Romeu e Julieta, revela ser tudo, menos corriqueira – principalmente porque Kemal não é o homem de sonhos de ninguém. Muito pelo contrário: ele bem tenta manter as aparências e conciliar as duas vidas, casando-se com a mulher exemplar e fazendo da voluptuosa prima sua amante, e é só diante da sua impossibilidade que ele se curva – e que sua vida desmorona. Condenado a viver das memórias de uma promessa, o amante desafortunado encontra um alento ao se tornar o obsessivo colecionador dos objetos que um dia estiveram em contato com mulher amada: da xícara em que ela bebeu às bitucas dos cigarros que ela fumou.

Abarcando sobretudo os anos 1970 e 1980, o livro desvela, com uma maestria incomparável, os conflitos e o modo de pensar da sociedade turca, dividida entre a aparência, moderna e europeia, e a essência, tradicional e machista. Ao explorar as mazelas e incoerências da burguesia, assemelha-se não apenas a Flaubert e Balzac, mas faz pensar igualmente em alguns textos já clássicos da literatura brasileira, como Hilda Furacão, de Roberto Drummond. Mas a semelhança termina por aí. O que O museu da inocência tem de inovador é uma premissa narrativa única: a de contar uma história como um guia de museu, a partir dos objetos expostos numa vitrine.

E é com prazer que o leitor descobre, ao final da narrativa, que o “Museu da Inocência” não é um lugar imaginário: ele realmente existe, e não apenas pode ser visitado, mas o bilhete de entrada se encontra impresso nas últimas páginas do livro. É que, para escrever a sua história, Pamuk inspirou-se em objetos que ia encontrando por acaso, e acabou transformando a coleção daí advinda num museu em Istambul. Visitá-lo será certamente o motivo que faltava para (re)visitar essa cidade encantadora. Sob essa perspectiva, a declaração de amor de Kemal a Füsun pode ser entendida como uma declaração de amor à cidade, enquanto que o culto aos objetos se torna uma tentativa literal de resgatar a memória de uma época, bem como de homenagear as pessoas que a fizeram.

Dos objetos ao livro – do livro aos objetos. Eis o romance perfeito para todos aqueles que admiram uma bela história de amor. Mas eis também o romance perfeito para todos aqueles que não as podem suportar. Afinal, seja como for, O museu da inocência não é, nem nunca poderia ser, o livro errado para nenhum grande leitor.

Para quem pedir por mais, eis a página do Museu: www.masumiyetmuzesi.org

Título original: Masumiyet Müzesi

País: Turquia

Idioma original: turco

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5918-57-1)

Edição portuguesa: Presença (ISBN 978-972-2343-55-8)

Número de páginas: 639 (edição portuguesa), 568 (edição brasileira)

Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

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Em outubro de 2004, o mago latino-americano das letras quebrou o silêncio de quase uma década publicando aquele que seria seu último texto de ficção. Memórias de minhas putas tristes encerra a prolífera carreira literária do já saudoso colombiano Gabriel García Márquez, laureado do Prêmio Nobel da Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, e morto em abril passado aos 87 anos.

A trama de Memória de minhas putas tristes foi inspirada no romance A casa das belas adormecidas do japonês Yasunari Kawabata, Prêmio Nobel da Literatura de 1968. Narrado em primeira pessoa sob a perspectiva do protagonista, o texto se abre como uma espécie de memoir das não poucas aventuras sexuais de um carismático nonagenário nada convencional, que, depois de muitos erros e enganos, descobre o verdadeiro sentido da palavra amor nos últimos anos de existência. Na noite de seus noventa anos, o velhote, jornalista de longa data, famoso por seu estilo ultrapassado e por seus textos démodés, decide contatar a cafetina Rosa Cabarcas, antiga conhecida sua, e pedir-lhe que lhe arranje uma virgem – último desvario sexual de uma vida de incansável depravado. Ao chegar à alcova onde o espera a derradeira presa, o homem encontra a menina adormecida, e, comovido com seu sono de inocente, é incapaz de acorda-la para saciar seu desejo. Inicialmente perturbado e temendo por em causa sua fama de garanhão, resolve tentar novamente, e mais uma vez não consegue acordar a menina. Assim, ao longo dos meses, este homem peculiar vai se deixando embalar pelo sono da rapariga, e a vivenciar uma série de sentimentos ainda desconhecidos. Pouco a pouco, sua pacata existência de ancião solitário passa a girar em torno das noites com a menina a quem recusa acordar, e cujo nome verdadeiro não quer conhecer, preferindo chamá-la Delgadina tal como a heroína de um conto de fadas. É que, encontrando a amada sempre adormecida, e a dissociando de sua existência diurna, ele pode pintá-la como a mulher de seus sonhos, não correndo o risco de que suas qualidades imaginadas se desfaçam em pedaços diante dos inevitáveis defeitos que a realidade revelaria. Inspirado por uma torrente de sentimentos que o ultrapassam, ele passa a publicar, em sua coluna semanal, efusivas cartas de amor que fazem derreter os corações dos leitores. Contudo, antes que possa finalmente desfrutar a calmaria de um amor são e lúcido, liberto de idealizações e da pequenez do próprio ego, ele terá que descer aos infernos de um confronto consigo mesmo.

O texto, que recebeu uma versão cinematográfica em 2012, não deixa de levantar polêmica ao tratar da exploração sexual de menores e da pedofilia. À primeira vista, o leitor mais cético pode até se perguntar como é possível se deixar conquistar por um velho tarado, apaixonado por uma adolescente de classe operária, forçada à prostituição para sustentar os irmãos caçulas. Mas hesitar diante de tal fachada seria pôr em questão a inigualável sensibilidade de García Márquez, que escreveu sua derradeira novela como uma espécie de fábula, cuja moral pode ser resumida com as seguintes palavras: o amor nunca chega tarde. Por fim, a linguagem poética e a cadência de sonho preponderam, e fazem pensar em Fernando Pessoa no melhor da sua forma: “E vê que ele mesmo era a Princesa que dormia.”

Título original: Memoria de mis putas tristes

País: Colômbia

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2004

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1072-65-8)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2028-02-8)

Número de páginas: 132 (edição brasileira), 125 (edição portuguesa)

A idade do ferro, de J. M. Coetzee

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J. M. Coetzee não é um autor conhecido por finais felizes. O aclamado escritor sul-africano, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura de 2003, é um grande mestre em colocar o dedo na ferida. Dono de uma escrita única, marcada pela capacidade de retratar o incômodo com crueza e refinamento, Coetzee impressiona ao criar personagens tão complexas que, a medida em que o leitor se envolve com elas, quase se tornam reais.

A idade do ferro é um romance curto, porém grandioso. O livro consiste numa longa carta que a protagonista, uma antiga professora universitária de letras clássicas, vai escrevendo a sua única filha ao descobrir que se encontra em estado terminal de câncer. Mrs. Curren, a personagem principal, sempre gozou uma existência tranquila, alheia aos graves problemas sociais ao seu redor, até que a revelação da doença incurável a faz abrir os olhos para um mundo por muito tempo ignorado. Enquanto discorria sobre as guerras e os conflitos da Grécia Antiga e do Império Romano a estudantes brancos da Cidade do Cabo, não se dava conta de que desconhecia as tragédias do próprio tempo. Tragédias essas que sua interlocutora, exilada por escolha nos Estados Unidos há mais de uma década, não fora capaz de suportar. A sua existência confortável e monástica de viúva, contrasta a vida dura de Florence, a empregada negra, para quem a família e o senso de comunidade estão em primeiro plano. Ao se encontrar à beira da morte, Mrs. Curren é obrigada a conviver com o insuportável peso de uma culpa histórica, exteriorizada pelo ato purgatório da escrita, até que um confidente improvável – um mendigo bêbado e imundo que resolve se instalar na sua propriedade – acaba servindo de ponte entre dois mundos opostos. Misterioso e indecifrável, o indigente, alcunhado de Mr. V, é uma espécie de anjo da morte, e se torna pouco a pouco um misto de amigo, filho e amante, preenchendo ao mesmo tempo todas as lacunas de uma vida de omissão.

Escrito e publicado nos últimos anos do apartheid, o romance utiliza o corpo doente da protagonista como uma espécie de alegoria para a decadência do Estado social sul-africano, e parte de um tema universal – a iminência da morte –, para não apenas refletir sobre as mazelas sociais do seu tempo, como também para fazer uma análise profunda da natureza humana. Enquanto observa própria a degradação física e mental, a narradora descreve as transformações do mundo ao seu redor, e descobre pouco a pouco uma realidade da qual sempre fora poupada, ou pela qual nunca se interessou. Somente ao se encontrar sozinha e debilitada é que ela se dá conta de que passara a vida num mundo de ilusões, e que a agressividade e a violência que agora culminam ao seu redor nada mais são que o resultado de um longo e infame processo do qual é culpada pela indiferença.

Não deixa de impressionar o modo como, em pouco menos de 200 páginas, Coetzee é capaz de dar voz a questões tão distintas, mesclando objetividade e subjetividade numa narrativa intimista que intercala fluxo de consciência e observação detalhada da realidade. Embora a interpolação incessante entre a observação e o devaneio, característica do diário e da literatura epistolar, possam fazer o leitor por vezes se perder, A idade do ferro é uma leitura essencial, por conseguir abordar um tópico tão complexo e incômodo com tamanha leveza e lucidez.

Título original: Age of Iron

País: África do Sul

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição brasileira: Siciliano (ISBN 852-670-3811)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2012-24-9)

Número de páginas: 179 (edição brasileira), 184 (edição portuguesa)