Dogeaters, de Jessica Hagedorn

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Enquanto no Brasil a flutuante (e debutante) classe média convulsiona com medo de perder o pedestal e se deixa embalar por delírios midiáticos de golpe de Estado, o livro desta semana faz lembrar o que o “país do futuro” era até bem pouco tempo atrás – uma paradisíaca terra sem lei, marcada pelo contraste entre os muito ricos e os muito pobres. Estamos falando das Filipinas.

Dogeaters, ou “Comedores de cachorro”, foi escrito pela autora filipina Jessica Hagedorn em 1990, uma época em que o seu país ficava conhecido mundialmente pela corrupção deslavada e pela singela coleção de 3.000 pares de sapatos de sua primeira-dama. Enquanto o país engatinhava rumo a uma democracia experimental, a então jovem e ousada escritora radicada nos Estados Unidos oferecia-nos, em inglês, um panorama dos paradoxos históricos de sua terra natal.

Ambientado na década de 1950, romance é composto por uma série de fragmentos da vida cotidiana na cidade de Manila, abarcando desde empregados de loja e prostitutas até políticos de alto-escalão, diretores de cinema internacionais e estrelas de TV. Tendo como moldura as memórias de Rio Gonzaga, uma pré-adolescente abastada, futuramente imigrada (como a autora) para os Estados Unidos, o livro revela-nos as diferentes faces de um país fraturado. Regido por uma elite que se gabava de sua ascendência ariana e costumes europeus, enquanto renegava as idiossincrasias de sua rica cultura de origem, o livro apresenta-nos, com seu olhar aquilino, um retrato ácido e irônico de uma sociedade onde a miséria extrema, a tortura e a exploração sexual infantil convivem lado a lado com as soirées requintadas de uma elite cega e cínica.

Num ano marcado até agora por leituras relativamente medíocres, Dogeaters destaca-se como um livro bom em diferentes sentidos. Sua trama fragmentária, cujo recorte do mundo faz lembrar uma telenovela, flerta com os diferentes gêneros literários, desconstruindo a narrativa romanesca tradicional através de um forte experimentalismo narrativo. Ao mesmo tempo que testa os limites do gênero, Hagedorn o expande e constrói um romance inovador. Afinal, partindo da concepção tradicional do termo, o gênero romanesco caracteriza-se pela sua plurifomidade, bem como pela capacidade de construir um microcosmo perfeito, produzindo um recorte exemplar da realidade que descreve. Como resultado, o leitor de Dogeaters terá diante de si não apenas um texto empolgante e facilmente envolvente, mas também uma verdadeira aula de introdução à sociedade filipina. Trata-se, certamente, de uma realidade geográfica e culturalmente deveras distinta da nossa, mas que, tanto pela sua história recente de um pós-colonialismo mal resolvido, quanto pelas paisagens tropicais, ensolaradas e pseudodemocráticas, remetem-nos de imediato aos desmazelos das terras de cá.

Se ler nos faz viajar para mundos distantes, Dogeaters oferece-nos um exemplo preciso do que as viagens podem nos trazer de melhor, que é a capacidade de traçar paralelos e analisar criticamente nossa própria realidade. Por isso, e sobretudo numa época regida pela desinformação e pela incompetência analítica do cidadão comum, recomendo-o como um contributo essencial a toda biblioteca que se preze.

 

Título original: Dogeaters

País: Filipinas

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição inglesa: Open Road Media, Kindle Edition (ASIN: B00-DZE-JQ9-O)

Edição em português: não há

Número de páginas: 276

Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte, de Barbara Demick

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Qualquer pessoa que tente a façanha de ler um livro de cada país do mundo terá diante de si o problema dos países que quase não produzem literatura. Dentre eles, podemos incluir algumas ilhas do Pacífico cuja população é minúscula, uns tantos países africanos em constante estado de guerra, e outros, como o Butão e a Mongólia, nos quais a cultura escrita ainda não suplantou a oralidade. Mas, dentre esses países “exóticos”, também há aquele que corresponde a uma espécie de extraterrestre risível e incômodo, cujo anacronismo de continuar a existir desafia até mesmo as previsões político-econômicas mais pessimistas. Trata-se, obviamente, da Coreia do Norte.

A bem da verdade, ler um autor norte-coreano acaba por não ser tão difícil: pelo menos as livrarias de língua inglesa estão abarrotadas de relatos de dissidentes norte-coreanos, que conseguiram cruzar a fronteira com a China e hoje vivem fora da abençoada terra do Grande Líder. Esta mesma semana, o jornal português “Público” lançou uma reportagem sobre o recém-editado A mulher com sete nomes, da refugiada Hyeonseo Lee. No entanto, a fim de tentar compreender uma realidade tão complexa como aquela da Coreia do Norte, pareceu-me mais adequado recorrer a um livro que abarcasse o maior número de fontes possível – daí a opção pelo premiado Nada a invejar, da jornalista norte-americana Barbara Demick.

O contexto no qual ouvi falar pela primeira vez do livro de Demick não podia ter sido mais anti-socialista: Foi em 2012, durante um jantar na capital das Ilhas Cayman, logo após uma viagem a Cuba que culminara na descoberta nefasta do decrépito sistema de saúde cubano. Nossa anfitriã, uma sul-africana, trabalhava como cozinheira particular para uma família de bilionários cujo nome estava proibida por contrato de mencionar, e era dela o exemplar do livro sobre a Coreia. Na altura, cercada pelo luxo de um dos principais paraísos fiscais do mundo, deixei escapar a oportunidade de o ler.

Nada a invejar compreende o resultado de um trabalho de quase uma década acerca de uma das últimas ditaduras socialistas do século XX. Por meio do retrato de alguns cidadãos norte-coreanos, complementados pela comparação a outras fontes existentes sobre o país, a autora traça um vasto panorama de como é viver no país mais fechado do mundo. Um lugar onde, até pouco tempo, as pessoas sequer tinham ouvido falar de telefones celulares, onde a internet não existe, e a única fonte de informação consiste nos três canais de televisão estatais. Mais do que isso, trata-se de um país que viveu um verdadeiro milagre econômico durante os anos 1960, mas que perdeu absolutamente tudo após a queda da União Soviética: a produção industrial cessou completamente, juntamente com o pagamento de salários, a distribuição de alimentos e a eletricidade, fazendo com que a população esfomeada fosse entregue ao próprio destino. No entanto, contrariamente a Cuba, onde um arremedo do dólar circula abertamente, e o auto-empreendimento e o turismo internacional são fortemente encorajados, a Coreia do Norte continua a punir com a morte qualquer espécie de comercialização, o que faz com que seus índices de pobreza e subnutrição ultrapassem os níveis das piores crises de fome centro-africanas. Por outro lado, as constantes ameaças atômicas às democracias ocidentais, sobretudo aos Estados Unidos, bem como aos vizinhos (e irmãos) sul-coreanos, impossibilitam qualquer intervenção da parte de organizações internacionais, relegando uma população faminta e lobotomizada pela propaganda pró-dinastia Kim a um estado constante de miséria que já dura quase 30 anos.

Embora o excesso de detalhes possa vir a atrapalhar o fluxo de leitura daqueles mais habituados a uma literatura mais fácil, o livro de Demick chega a ser viciante. A autora soube aliar o estilo jornalístico investigativo a uma narrativa mais pessoal, quase romanceada, baseada em longas sessões de entrevistas. Escolhendo a dedo figuras deveras distintas, mas ao mesmo tempo muito semelhantes graças ao histórico de vida num país que aboliu a individualidade, o livro acaba transformando esses heróis e heroínas da vida real em personagens de romance, cujo destino o leitor ficará ansioso para desvendar, à espera, quem sabe, de um final relativamente feliz.

Mas será que se pode falar de relativa felicidade enquanto o pesadelo não acabar?

Título original: Nothing to Envy: Ordinary Lives in North Korea

País: Coreia do Norte

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Título brasileiro: Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-73-8)

Título português: A longa noite de um povo: A vida na Coreia do Norte

Edição portuguesa: Temas e debates (ISBN 978-989-6441-40-1)

Número de páginas: 416 (edição brasileira), 368 (edição portuguesa)

 

Asco, de Horacio Castellanos Moya

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Dos cerca de cinquenta países nos quais já estive, o El Salvador está certamente no topo da lista. Foi com grande felicidade que encontrei Horacio Castellanos Moya, que, embora um dos nomes mais proeminentes da literatura centroamericana, para boa parte de nós não passa de um ilustre desconhecido. Embora o título já deixasse entrever seu conteúdo, foi com uma certa nostalgia por esse país simpático e bucólico que me aproximei de Asco. Mas o que encontrei foi muito diferente do que estava à espera: uma declaração de ódio explícita e visceral à República do Salvador.

Asco consiste numa espécie de monólogo de pouco mais de cem páginas, sem cortes de capítulos e com muito poucas mudanças de parágrafos, vituperado pela personagem Edgardo Vega, um salvadorenho inconformado com as suas origens, que se encontra na terra natal para o enterro da mãe após um exílio voluntário de dezoito anos no Canadá. Durante quase duas décadas, Edgardo não poupou esforços para apagar de si todas as marcas de seu país de origem, formando-se em História da Arte, adotando a nacionalidade canadense, e até mesmo mudando de nome, passando a se chamar Thomas Bernhard – como o escritor austríaco cujo estilo Moya procura imitar. No entanto, o que todo esse tempo não conseguiu apagar foi a aversão que ainda sente por um povo que considera asqueroso e sem cultura. Por meio de uma verborragia que poderia ser chamada de “vomitório de palavras”, Edgardo, ou Thomas, desconstrói a história e a cultura salvadorenhas recentes, passando da política aos hábitos socioculturais da população, não deixando escapar nem a cerveja, nem o futebol, e nem mesmo as deliciosas pupusas (tortilhas de milho recheadas, cozinhadas muitas vezes ao ar livre, verdadeiro estandarte da culinária salvadorenha).

Mas que ninguém se deixe assustar pelas longas frases e poucas pausas: trata-se de um texto acima de tudo bem escrito, o que gera uma leitura fluida e fácil de seguir. Por vezes, mesmo o leitor mais experiente poderá se deixar confundir pela voz narrativa de Vega: trata-se de um reflexo das opiniões do autor, ou ao contrário de um elogio às avessas, uma crítica àqueles que criticam o país? Quem não gostou da brincadeira foram seus conterrâneos salvadorenhos, de quem Moya chegou a receber ameaças de morte, o que o impediu por um bom tempo de pôr os pés na terra natal.

À exceção das referências à guerra recente, muito da crítica construída por Moya adequa-se à realidade que vivemos no Brasil. E isso acaba por fazer seu discurso tornar-se contagiante: qualquer olhar observador conseguirá traçar paralelos e fazer suas as palavras de Asco. O discurso direitista, reacionário, irracional, construído no melhor estilo metralhadora giratória, faz lembrar algumas baboseiras anti-governo que vemos circular nas redes sociais – mas não é que até o mais esquerdista dentre nós também se deixará identificar com ele? O que não deixa de ser uma descoberta assustadora e dolorosa.

Mas que fique bem claro: as pupusas continuam a ser um dos meus pratos preferidos!

Título original: El asco – Thomas Bernhard en San Salvador

País: El Salvador

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 1997

Edição brasileira: Rocco (ISBN: 978-853-2528-25-4)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 112 (edição brasileira)

O jantar errado, de Ismail Kadaré

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De todos os países da Europa, a Albânia é certamente o menos europeu. Há alguns anos, atravessar a fronteira de Ulcinj, no Montenegro, a Shkoder, na Albânia, foi para mim como abandonar um território seguro e ingressar nas profundezas da Idade Média. De todos os países da Europa, a Albânia é também um dos menos conhecidos. Pouca gente sabe dizer onde se localiza este pequeno país mediterrânico que até há pouco vivia sob uma ditadura comunista aliada à China. Mas essa terra incognita abriga um nome algo familiar, nem que seja devido ao sucesso da adaptação cinematográfica de seu romance Abril Despedaçado: Ismail Kadaré, diversas vezes cotado para o Nobel da Literatura.

O jantar errado, publicado em Portugal sob o título de Um jantar a mais, narra a história tragicômica de um encontro entre dois antigos colegas de faculdade, e das consequências por ele causadas ao longo de mais de uma década. A trama se desenrola em Girokastra, terra natal de Kadaré, e tem por protagonistas dois ginecologistas, o doutor Gurameto Grande, e o seu rival, o doutor Gurameto Pequeno.

Durante a segunda guerra mundial, a pequena cidade com complexos de centro do mundo torna-se palco de acontecimentos vultuosos: Gurameto Grande, admirador do poder bélico alemão, recebe a inesperada visita de um velho amigo, um general nazista encarregado de anexar a Albânia. Ao acolher o visitante com todas as honrarias do código de hospitalidade albanês, o médico acaba por salvar da morte 80 homens condenados pelo general – dentre eles até mesmo um judeu. Como ninguém sabe o que foi conversado durante o jantar, a cidade se entretém a brincar de telefone sem fio, espalhando boatos ora de louvor, ora de repúdio ao anfitrião forçado.

Mas é após a queda do Terceiro Reich e a tomada de poder do Partido Comunista que a coisa realmente se complica, fazendo de Gurameto uma espécie de Geni da canção de Chico Buarque: outrora considerado um herói, ele passa a ser considerado um traidor da nação. A partir deste ponto, não apenas Gurameto Grande, mas também seu pobre alter ego Gurameto Pequeno, que nada tinha a ver com a história, tornam-se vítima de um mecanismo absurdo e cruel, que não lhes dará direito de defesa.

Diversos aspectos caracterizam O jantar errado como um livro original. A começar por quase não conter personagens coadjuvantes: todos eles se misturam formando a “voz da cidade”, uma voz que muda de opinião e de partido político como quem troca de cuecas. Depois, pelo próprio estilo narrativo de Kadaré, que se deixa levar pelas pseudoverdades e acaba confundindo o leitor num imbróglio em que já não se sabe o que de fato aconteceu. E é o absurdo, aliado ao pano de fundo político, que nos mostra com brilhantismo que a realidade muitas vezes não tem pé nem cabeça.

Sem deixar de lado a ironia e a autocrítica, Kadaré descreve um verdadeiro circo de aberrações, revelando o lado perverso e nada coerente daquele que é conhecido como o “regime democrático popular”. O resultado de seu trabalho é um livro curto, delicioso e extremamente divertido. Afinal, rir para não chorar é por vezes o melhor remédio.

Título original: Darka e gabuar

País: Albânia

Idioma original: albanês

Ano de publicação: 2008

Título brasileiro: O jantar errado

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-30-1)

Título português: Um jantar a mais

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN: 978-972-5648-83-4)

Número de páginas: 168 (edição brasileira), 176 (edição portuguesa)

O país das mulheres, de Gioconda Belli

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Como seria um país regido inteiramente por mulheres?

Desde a segunda metade do século XX, as mulheres têm ganhado cada vez mais espaço na vida pública. Brasil, Alemanha, Nicarágua, Islândia, Irlanda, Argentina, Chile e Suíça são apenas alguns dos países que têm ou já tiveram uma mulher como chefe de Estado. Contudo, para sobreviver num meio predominantemente masculino, as “presidentas” do mundo têm de ser como a Lady Macbeth: mais “macho” que os próprios homens. Ora, se ter uma mulher no poder significasse uma sociedade menos machista, paternalista ou falocêntrica, no Brasil ninguém mais estaria dançando o “Lepo Lepo”. Mas como seria um país onde todos os cargos públicos fossem preenchidos por mulheres, meninos e meninas recebessem aulas de maternidade, e estupradores fossem expostos e recebessem uma tatuagem na testa? Eis o ponto de partida de O país das mulheres, da premiada escritora nicaraguense Gioconda Belli.

Ao contrário de quase qualquer outro escritor centro-americano, Belli é relativamente conhecida nos países de língua portuguesa, tendo sua autobiografia O país debaixo da minha pele sido recentemente publicada em Portugal. Em O país das mulheres, um grupo de amigas de personalidades distintas funda, meio que por brincadeira, o Partido da Esquerda Erótica, que acaba, devido a uma série de circunstâncias inesperadas, crescendo ao ponto de vencer as eleições. A história se passa na pequena e imaginária república de Fáguas, supostamente situada na América Central, e tem início quando, durante um comício, a sensual presidente Viviana Sansón é vítima de um atentado a bala e entra em estado de coma. A partir daí, a trama é narrada em dois planos. O primeiro descreve os acontecimentos ocorridos no presente, isto é, após o atentado: da comoção nas ruas às tentativas de golpe de Estado. O segundo acompanha as memórias de Viviana desde a espécie de limbo em que a mesma se encontra, de como ela se tornou uma personalidade importante em seu país até chegar a presidência. Tudo isso é permeado por uma série de documentos históricos fictícios, desde entrevistas e planos de governo até reportagens da imprensa internacional.

De certa forma, a utopia de Fáguas inscreve o romance na tradição literária do realismo fantástico de Márquez, Borges e Allende. No que compete à escolha do tema, a autora acertou em cheio: O mito das Amazonas, que permeia a fantasia dos homens (e das mulheres) desde os tempos de Alexandre o Grande, adaptado ao século XXI, faz de O país das mulheres um livro irresistível. No entanto, é preciso reconhecer que a semelhança com os grandes nomes da literatura hispano-americana termina aí.

Lamentavelmente, aquela que poderia ter sido uma excelente oportunidade para refletir os papéis sociais e a posição da mulher na aurora do novo milênio acaba numa superficialidade digna de telenovela: todos os problemas resolvem-se por encanto, toda a oposição desaparece como num conto de fadas. A própria ideia de que, ao prendermos o bandido, o final sempre é feliz, é em si uma traição ao próprio ideal feminista pregado pelo romance. Primeiro, porque nesse caso o “bandido” é uma ideologia arcaica arraigada nas nossas mentalidades. Segundo, porque não existe nada mais machista e antirrevolucionário que contos de fadas e seus finais felizes.

Por fim, prepondera a decepção. Não que se trate um mau livro: muito pelo contrário, a prosa é boa, agradável, interessante e divertida. Mas aí é que mora o problema: no País dos Grandes Leitores, transformar uma ideia tão original num romance “agradável, interessante e divertido” deveria ser considerado crime digno das mais altas punições.

Título original: El país de las mujeres

País: Nicarágua

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2010

Edição brasileira: Verus (ISBN 978-857-6861-22-5)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 220

Brief in die Auberginenrepublik, de Abbas Khider

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Em 1999, um jovem em exílio escreve uma carta de amor para a mulher da sua vida. Eis o ponto de partida do livro de Abbas Khider, escritor iraquiano radicado na Alemanha. “Carta à República da Berinjela”, seu terceiro romance, nos transporta a uma época não muito distante, na qual a internet, para a maior parte do globo, ainda era coisa de outro planeta, e Facebook, Twitter e Skype nem sequer haviam sido sonhados. Como se comunicar antes da chamada “era da comunicação”, sobretudo se as vias telefônicas e postais estivessem vigiadas? Como manter contato com a pessoa amada, principalmente se esse mesmo contato pudesse pôr em risco a vida de seu destinatário?

Narrado em primeira pessoa segundo perspectivas distintas, “Carta à República da Berinjela” pode ser considerado uma espécie de road book (termo derivado de road movie, gênero de filme que se desenrola durante uma viagem). Nele, acompanhamos a complicada trajetória de uma carta de amor das mãos de seu remetente, um iraquiano muçulmano exilado na Líbia, até sua destinatária, uma jovem cristã da periferia de Bagdá. Forçado a abandonar a terra natal por participar de um clube do livro considerado subversivo, o remetente da carta que dá título ao romance perde o contato com sua namorada, que ele acredita ainda viver no subúrbio de Saddam City. Ao ouvir falar de um correio clandestino ao “país das berinjelas”, o jovem apaixonado não pensa duas vezes antes de trocar todas as suas economias pelo caro e pouco fiável serviço de entrega. Enquanto a carta vai passando de mão em mão, vamos conhecendo paisagens distintas porém muito parecidas, personagens diferentes envolvidas nos mesmos dilemas, e dando uma espiadela na situação política de vários países do mundo árabe: a Líbia de Khadafi, o Egito de Mubarak, a Síria de Hafiz al-Assad, a Jordânia de Abdullah II bin Hussein e, é claro, o Iraque de Saddam Hussein.

Como sua personagem, Abbas Khider foi condenado e preso por motivos políticos, e imigrou há pouco mais de uma década para a Alemanha como asilado. Se, ao chegar, não falava nem uma palavra de alemão, não deixa de ser admirável como, em tão pouco tempo, conseguiu não apenas dominar essa língua estranha e difícil, mas também construir nela sua obra literária. Narrado numa prosa limpa, lacônica e certeira, que deixa transparecer agradavelmente o “estrangeirismo” do autor, “Carta à República da Berinjela” é um romance divertido e fácil de ler, que denuncia com humor e ironia a brutalidade e a incoerência das ditaduras dos países árabes, bem como a lei do mais forte e o sistema de corrupção por elas gerado. De modo geral, o bom humor e a leveza narrativa predominam, mas, talvez por dar voz a alguém outrora silenciado pelo regime de Saddam, o livro deixa claro que sua prioridade é passar uma mensagem política. Mensagem esta sem dúvida importante, mas que talvez não precisasse ser trabalhada de maneira tão óbvia: a bom entendedor, meia palavra teria bastado.

Nos últimos anos, temos tido vários exemplos do poder trazido ao povo por essa arma poderosa que é a internet, capaz de reunir multidões, semear a revolta e derrubar ditadores. Foi este o caso durante a chamada “Primavera Árabe”, para a qual as redes sociais exerceram um papel fundamental, informando, mobilizando e unindo milhões de pessoas ao redor do mundo. Nesse contexto, a mensagem de “República da Berinjela” não nos parece anacrônica: muito pelo contrário, ela nos lembra a importância de poder se comunicar.

Infelizmente, o livro não tem previsão de ser traduzido para a língua de Camões.

Título original: Brief in die Auberginenrepublik

País: Iraque

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2013

Edição alemã: (ISBN 978-389-4017-70-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 160

La casa de los conejos, de Laura Alcoba

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Quando pensamos nos nossos vizinhos do sul, é impossível não nos referirmos à rivalidade no futebol. Enquanto os brasileiros se gabam de Pelé e Ronaldinho, os argentinos revidam com Maradona, e quando mencionamos com orgulho as cinco estrelas na camisa, nossos eternos adversários ironizam a derrota na última Copa do Mundo. Frivolidades à parte, existe um campo no qual a Argentina parece vencer o Brasil a muito mais que 7×1: no questionamento das atrocidades cometidas durante a ditadura e na busca pela verdade.

La casa de los conejos retoma um gênero de grande importância na América Latina do século XX, porém muito pouco explorado em terras tupiniquins: a literatura de memória ou de testemunho. À exceção de exemplos esparsos, como Fernando Gabeira, e, mais recentemente, Edney Silvestre, a Ditadura Militar de 1964-1985, embora fortemente presente no cinema nacional, raramente tem obtido espaço na literatura de ficção. Mais preocupada em reproduzir fórmulas gastas e imitar modelos norte-americanos, a literatura brasileira, refletindo a sociedade, cala, enquanto a de nossos vizinhos hispânicos não tem medo de falar – pelo menos a julgar pela nova leva de autores argentinos, como Martín Kohan, Félix Bruzzone e Laura Alcoba.

La casa de los conejos é narrado a partir da perspectiva de Laura, nove anos, filha de militantes de esquerda envolvidos na organização Montoneros, oposta ao brutal regime militar da época. A trama, que se desenrola no ano de 1976, é focada nos meses em que a menina, acompanhando a mãe foragida, compartilhou o teto com outros nomes da guerrilha, vivendo numa célula onde funcionava a imprensa montonera: a chamada “casa dos coelhos”. Romance modesto de pouco mais de cem páginas, o livro impressiona ao reconstruir o universo da resistência e narrar o cotidiano dos clandestinos políticos sob um ponto de vista tão peculiar. Incapaz de compreender as dimensões do embate que testemunha, a menina arrancada dos confortos da infância compreende no entanto que não faz parte de um jogo de crianças. Laura, que vê serem-lhe atribuídas responsabilidades de adulta, não é poupada do desgaste emocional nem do pavor de serem descobertos, presos ou exterminados. Na guerra, não se permitem fraquezas nem se atribuem imunidades.

Recomenda-se, ao longo da leitura, que não nos esqueçamos do seu fundo autobiográfico, e que, ao chegarmos ao final, dediquemo-nos às pessoas nela retratadas: não é sempre que o leitor pode encontrar tantos registros e fotografias das personagens sobre as quais esteve a ler. Da mesma forma, uma vez que a narrativa se restringe ao ponto de vista da menina, a internet pode servir de epílogo e dar a conhecer o verdadeiro “final da história”.

Mas toda reprodução não deixa de ser recriação. Assim, é preciso assinalar que, do ponto de vista literário, o livro de Alcoba deixa algo a desejar. É de se imaginar que a intenção da autora tenha sido ser ao máximo fiel às lembranças de infância, e que ela não tenha querido preencher os inevitáveis lapsos de memória com interpretações e juízos posteriores. No entanto, é inegável que La casa de los conejos deixa a sensação de que poderia ter ido mais longe, entrado mais em detalhe, e desenvolvido melhor algumas personagens centrais que se vão perdendo com o tempo, como, por exemplo, a mãe. Com um tema deveras apaixonante e uma qualidade narrativa bastante aguçada, o livro teria merecido ser, pelo menos, cem páginas mais longo.

Escrito originariamente em francês, La casa de los conejos já foi traduzido para diversos idiomas, dentre os quais o espanhol, o inglês, o alemão, e até mesmo o sérvio. No entanto, o português ainda não faz parte dessa lista. Vergonhosamente para nós, permanecemos ainda, também no que compete ao alcance do mercado editorial, a anos-luz de distância de um dos nossos vizinhos mais próximos.

Título original: Manèges

País: Argentina

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2007

Edição espanhola: La casa de los conejos – Edhasa (ISBN 978-843-5010-24-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 136 (edição espanhola)