A Beautiful Place to Die, de Malla Nunn

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Depois de dois meses sem escrever, sinto que devo uma explicação. Na verdade, tenho não apenas uma, mas duas boas desculpas: uma mudança de casa, de cidade e de vida, e um bebê à caminho. Tudo isso reduziu o meu ritmo de leituras, reduziu (leia-se: bloqueou) a minha assiduidade neste blog, mas não diminuiu o meu desejo de levar em frente o projeto. Ainda falta pouco mais de cem países a serem lidos. Quase metade do percurso percorrido. 2017 chegou, vamos a isso!

Se ler um bom livro faz com que nos sintamos imediatamente familiares às suas paisagens e personagens, ler um bom livro enquanto se viaja fisicamente pelas terras onde a trama se desenrola é uma emoção inexplicável. Foi assim este ano com A Beautiful Place to Die, primeiro romance policial da escritora suazi Malla Nunn. Ambientado no extremo nordeste da África do Sul em 1952, período de plena ascensão do regime do Apartheid, o livro transporta-nos para um pequeno vilarejo dominado por boers (resumindo grosseiramente: os descendentes de holandeses extremamente racistas que iniciaram o Apartheid), ao mesmo tempo em que questiona as contradições e a hipocrisia da ideologia dominante.

A trama complexa de um romance policial bem escrito talvez já deixe transparecer a imensa quantidade de mensagens subliminares presentes no livro: Logo após a assinatura do “Ato da Imoralidade”, que impedia qualquer tipo de relacionamento íntimo entre brancos e negros, o capitão da polícia do idílico vilarejo de Jacob’s Rest é encontrado morto à beira de um rio, motivo pelo qual o detetive de ascendência inglesa Emmanuel Cooper é enviado para o local. Logo ao chegar, Cooper depara-se com uma comunidade fechada e repleta de incoerências, dominada pelo medo dos negros e pelo racismo dos brancos, na qual ninguém parece disposto a revelar os seus mais infaustos segredos. Com o passar do tempo, e sob a constante vigilância dos brutamontes filhos do capitão assassinado – os quais parecem temer que o detetive se meta em assuntos que não deve – , Cooper acaba por ganhar a confiança do agente negro Shabalala, bem como a do “velho judeu”, uma espécie de pária local no limiar entre os conceitos raciais, possivelmente as única pessoas inteligentes do local. Suas buscas fazem-no enveredar por caminhos sinuosos até a capital do Moçambique, ainda então conhecida como Lourenço Marques, em busca de fotografias comprometedoras, e desvendar uma extensa rede de relações proibidas. Como seria de se esperar, tudo isso fará dele um alvo potencial, já que algumas verdades não foram feitas para serem reveladas.

A todos aqueles que se interessarem por esta excelente leitura, deixo um único spoiler: o mocinho não morre no final. Pelo contrário, ele reaparece como o protagonista de ao menos três outros romances. Àqueles que pensavam que apenas os escandinavos eram dignos do título de melhores séries de literatura policial, fica a minha opinião pessoal – o primeiro romance de Malla Nunn coloca qualquer Jo Nesbø tranquilamente no chinelo. E com que categoria.

Feliz ano novo a todos. E vida a Suazilândia, esse querido país minúsculo com tanto para oferecer!

 

Título original: A Beautiful Place to Die

País: Suazilândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição em português: não há

Edição inglesa: Atria (978-141-6586-20-3)

Título espanhol: Un hermoso lugar para morir

Edição em espanhol: Siruela (978-849-8415-65-0)

Número de páginas: 384 (edição em inglês), 416 (edição em espanhol)

 

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Vermelho como o sangue, de Salla Simukka

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De partida para sete semanas no sul do continente africano, mas consciente de que estou em dívida para com este blog, bem como para com o meu projeto de ler o mundo, deixo-vos esta breve resenha como presente de despedida.

Não sei se terei tempo e/ou condições (leia-se: uma conexão internet decente) para continuar resenhando as minhas façanhas literárias ao longo das próximas sete semanas, por isso não queria deixar mais um domingo passar batido. Para isso, optei por um livro bastante diferente do cenário no qual minhas viagens reais me levarão daqui a poucas horas. Afinal de contas, Vermelho como sangue tem neve, muita neve. Trata-se, sim, de mais um romance policial escandinavo – embora, infelizmente não na sua melhor forma.

Eis um resumo da trama em poucas linhas: um grupo de adolescentes ricos e drogados na cidade de Tampere encontra uma mala cheia de notas de 500 euros manchadas de sangue, e decide ficar com ela. Seu segredo é descoberto pela protagonista Lumikki Anderson, igualmente adolescente, considerada por todos a “esquisitona” do colégio, no maior formato comédias românticas estadunidenses. A menina, no entanto, não é apenas pobre e estranha, mas também – grande surpresa! – inteligente, e acaba se tornando uma peça essencial para desvendar o mistério da mala misteriosa, envolvendo-se para isso com a máfia local – inevitavelmente russa, e inevitavelmente sem coração.

A boa notícia é que o livro lê-se rápido, e que o mistério, embora facilmente desvendável, apresenta até meia dúzia de pequenas surpresas. A má é que se trata de um livro raso, repleto de clichês, que imita grosseiramente os grandes mestres do policial escandinavo, como Stieg Larsson e Jo Nesbø, sem nem mesmo tentar disfarçar. Como se não fosse o suficiente, a tradução em português feita por Anna Toivola Câmara Leme, está repleta de erros e incoerências, bem como de inversões anglófonas absolutamente inexistentes na língua portuguesa. Se, por um lado, uma série de questões em aberto deixam ao leitor o desejo de conhecer o resto da história – afinal, hoje em dia, sofremos de uma grande praga segundo a qual todo livro tem que logo virar série -, a qualidade deste primeiro faz com que fique difícil convencer-se a continuar.

É claro, podemos argumentar, não estamos diante de um romance a ser levado a sério, mas sim de um thriller para o público jovem. Mas será que os chamados “jovens adultos” não merecem coisa melhor? No meu tempo, devoravam-se os romances de mistério infanto-juvenis de Sidney Sheldon, que também não eram supostos serem levados a sério, mas que sem sombra de dúvida eram muito melhores.

Já não se faz nem mesmo literatura comercial como antigamente!

 

Título original: Punainen kuin veri

País: Finlândia

Idioma original: finlandês

Ano de publicação: 2013

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2354-43-1)

 

Número de páginas: 216

 

 

O menino da mala, de Lene Kaaberbøl e Agnete Friis

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“O que você faria se encontrasse, dentro de uma mala, um menino de três anos, nu e dopado, mas vivo?” Eis a premissa – e a frase publicitária – de O menino da mala, romance de estreia do duo de autoras dinamarquesas Lene Kaaberbøl e Agnete Friis. Seguindo a moda do bom romance escandinavo da atualidade, trata-se do primeiro de uma série de romances policiais, tendo como protagonista a enfermeira Nina Borg.

Nina é uma mulher de quarenta anos muito pouco afeita a vaidades, casada e com dois filhos, que dedica sua vida a reparar as injustiças do mundo. Depois de anos trabalhando em campos de refugiados mundo afora, de volta à cidade de Copenhagen, a moça tenta juntar os cacos de uma vida familiar conturbada, enquanto dedica boa parte de suas energias a ajudar imigrantes ilegais e pessoas que procuram asilo político. Numa bela manhã, uma antiga amiga de faculdade pede-lhe para retirar um pacote deixado no porta-bagagens da estação de Copenhagen. Dentro dele, Nina encontrará um menino de três anos, nu e desacordado, mas aparentemente em boa saúde. Depois de presenciar o mesmo armário a ser brutalmente atacado por um grandalhão leste-europeu, e farejando tráfico humano, Nina decide não entregar o caso à polícia, mas sim tomar o menino a seu cargo, tentando ela mesma descobrir suas origens.

O livro, que foi um sucesso imediato na Escandinávia, concorreu, à altura de seu lançamento, aos mesmos prêmios literários que a trilogia Millenium, ficando obviamente com o segundo lugar. E se acabou por se tornar conhecido tardiamente no estrangeiro, deve-o sem dúvida à genialidade de seu concorrente, responsável em grande parte pelo sucesso mundial do gênero policial escandinavo. Comparado a um Stieg Larsson, a trama de O menino da mala é pouco complexa, suas personagens previsíveis e, a meio do romance até o leitor menos perspicaz já conseguiu decifrar o mistério. Como detetive, Nina Borg é tão descuidada como a russa de Até que a tua morte nos separe, e, se não acaba com um tiro na cabeça, é só porque as autoras precisavam dela para os volumes seguintes. Por outro lado, Kaaberbøl e Friis foram bastante felizes na escolha do foco narrativo, que transita o tempo todo de uma personagem à outra, dando ao leitor uma ótima perspectiva não apenas das ações, mas também do histórico familiar e das motivações de todas as suas figuras centrais.

O leitor que nunca entendeu muito bem como funciona isso de escrever a duas plumas pode estar desde já descansado: a parceria das autoras realmente funciona. Mais do que isso, e graças às diferentes perspectivas, o romance apresenta uma interessante polifonia: heróis, vítimas, mandantes e vilões têm, igualmente, a chance de se apresentar diante do leitor, provando aquela velha verdade da qual a literatura de ficção muitas vezes se esquece: ninguém é apenas bom ou apenas mau – a vida é alheia a maniqueísmos.

Não que estejamos diante de uma nova grande pérola da literatura contemporânea, mas a narrativa é fluida e bem escrita, as personagens carismáticas, e a edição brasileira bela, bem encadernada e relativamente barata. Ou seja, um livro para ser devorado em poucas horas – até porque dificilmente conseguirá para-lo antes de chegar ao último ponto final.

Título original: Drengen i kufferten

País: Dinamarca

Idioma original: dinamarquês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Arqueiro (ISBN 978-858-0411-83-6)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 251 (edição brasileira)

Até que a tua morte nos separe, de Darja Donzowa

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Esqueçam tudo aquilo que pensam que já sabem sobre a literatura russa! Aqueles que só conhecem o país através das cores cinzentas de Dostoievski, Tolstoi, Tchekov e Turgueniev vão se surpreender com a sua imagem fluorescente na obra da popularíssima Darja Donzowa. Personagem midiática idolatrada pelas mulheres no país de Vladimir Putin, e ganhadora de inúmeros prêmios literários, a escritora, jornalista e apresentadora de televisão, autora de mais de 150 (!) romances policiais é a cara da Rússia contemporânea.

Talvez a melhor palavra para resumir Até que a tua morte nos separe seja “rocambolesco”. A protagonista-narradora Tanja Romanowa é uma música sem sucesso que toca em velórios para aumentar a renda, vive com dois filhos adotivos adolescentes, cinco cães e dois gatos numa mansão em ruínas na periferia de Moscou, e tem um incrível talento para se meter em sarilhos. Contratada por uma milionária para descobrir o assassino de seu pai, Tanja alia intuição ao seu amplo conhecimento de novelas policiais para desvendar os segredos daquela que à primeira vista parecia ser a família perfeita. Quer dizer, perfeita no sentido russo do termo, já que o morto era um brilhante acadêmico casado com uma mulher trinta anos mais nova, que coabitava com uma série de ex-mulheres e os filhos adultos de dois casamentos. Enquanto segue o rastro do assassino que se converte num serial killer programado para acabar com todos aqueles que o poderiam denunciar, a quarentona aprendiz de detetive não cansa de colecionar admiradores por onde passa – dentre eles um barão do petróleo e um diretor de televisão que decide transformá-la em sua mais nova superstar. Como seria de se esperar, o final dessa telenovela – com direito até mesmo a guerra de comida – será coerente à proposta. Ou seja, tão descabido e caricato como o resto todo do livro. Afinal, não estamos diante de um lúgubre Jo Nesbø, nem muito menos de uma analista Camilla Läckberg: a Rússia contemporânea está muito mais próxima do México do que da vizinha Escandinávia.

Não só a capa da edição russa lembra as capas dos livros de Marcos Rey na Série Vagalume: o conteúdo também. É claro que não estamos a falar daquilo que se considera tradicionalmente “grande literatura”, mas sim de uma autora de romances extremamente comerciais, produzidos em massa, e concebidos estritamente para suprir a demanda do público. Mas não é essa a premissa de boa parte daquilo que encontramos diariamente em nossas listas de mais vendidos? E quem disse que literatura em massa não pode ser grande à sua maneira? E o leitor que realmente não conseguir se desvencilhar do peso dos clássicos pode considerar Donzowa como uma descendente muito tardia de Gogol em seu divertidíssimo Almas Mortas, cujo humor e a ironia oferecem uma imagem ampliada e distorcida das mazelas da sociedade.

Para dizer se o estilo da autora é ou não original, teríamos não apenas que conhecer muito melhor a literatura policial russa, mas também desbravar a própria montanha de livros escritos por ela. Por isso, temos que nos contentar aqui com um julgamento puramente parcial: eis um romance realmente delicioso.

Título original: Созвездие жадных псов

País: Rússia

Idioma original: russo

Ano de publicação: 2001

Edição em português: não há

Outras edições: alemão (Aufbau Verlag, ISBN 978-374-6624-26-6)

Número de páginas: 392 (edição alemã)

Boneco de neve, de Jo Nesbø

Nesbø, Snø

Para além do heavy metal, do design de interiores, e dos baixos índices de corrupção, já faz alguns anos que a Escandinávia vem se destacando também pela qualidade de sua literatura policial de suspense. Se, há alguns anos, o sueco Stieg Larsson tornou o thriller escandinavo num fenômeno mundial com sua trilogia Millenium, pouco depois foi a vez de o norueguês Jo Nesbø confirmar a regra, tornando-se em mais um best-seller de alto calibre.

Boneco de neve é o sétimo (!) livro da série protagonizada pelo investigador policial Harry Hole, e considerado por muitos o mais sombrio de todos. A boa notícia para os grandes leitores que não se importam em começar pelo meio é que as histórias são independentes, o que faz com que seja perfeitamente possível saborear o Boneco de neve sem antes ter lido os seis romances precedentes.

A ação principal se passa em 2004, quando o já famoso detetive investiga uma série de desaparecimentos de mulheres nos arredores de Oslo. Ajudado pela recém-chegada Katrine Bratt, Hole descobre uma bizarra semelhança entre os casos em questão e uma série de desaparecimentos ocorridos em toda a Noruega nos últimos 20 anos. Para além de se tratar quase sempre do sumiço não esclarecido de mulheres casadas, com filhos e aparentemente felizes, quase todos os registros policiais mencionam a existência de um boneco de neve nos arredores do local onde a vítima foi vista pela última vez. Assim, revirando uma lista interminável de cold cases, Hole depara-se com aquele que seria talvez o primeiro caso de serial killer da história da Noruega.

Não tem como negar o fato de que Boneco de neve é um livro cativante, desses que é difícil largar antes de chegarmos à última página, e com o qual se perde de bom grado umas tantas noites de sono. Mas talvez isso se deva mais ao carisma do protagonista e à habilidade narrativa do autor para construir cenas de suspense do que ao mistério a ser investigado. Pois durante a investigação interminável na qual o assassino “falso” é apontado diversas vezes como sendo o verdadeiro e tudo sempre recomeça do princípio, só mesmo o leitor mais distraído não perceberá que o “infalível” detetive norueguês dorme no ponto, e se cansa de deixar passar o óbvio.

Em suma, um bom livro, mas longe, muito longe, de ser um Stieg Larsson.

PS: Não costumo comentar as traduções, porque geralmente costumo ler os livros em língua original, mas como meu norueguês não chega para 420 páginas em uma semana, deixo aqui uma nota sobre a edição brasileira: Se, por um lado, temos o prazer de ler uma tradução direta, ou seja, mais fiel ao original, esse prazer transforma-se em tortura pelo fato de que a tradutora, norueguesa, não conhece a língua portuguesa o suficiente. O resultado é uma narrativa sem ritmo, permeada de excessos sintáticos, gírias fora de moda, erros de concordância e, até mesmo, de digitação. O trabalho de Grete Skevik, infelizmente, faz-nos lembrar o porquê de uma regra de ouro do mundo da tradução: jamais se deve traduzir da língua materna para uma língua estrangeira!

Título original: Snømannen

País: Noruega

Idioma original: norueguês

Ano de publicação: 2007

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1094-80-3)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2053-59-4)

Número de páginas: 420 (edição brasileira), 472 (edição portuguesa)

O jogo de Ripper, de Isabel Allende

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Isabel Allende, talvez o nome feminino mais conhecido do cenário literário latino-americano, é uma verdadeira mulher de mil faces. Não é a primeira vez que a escritora, que se consagrou com suas epopeias familiares que exploravam a contribuição da mulher na fundação da identidade latina, decide andar por terrenos desconhecidos: muitos leitores desconhecem, por exemplo, seus romances de aventura infanto-juvenil. Em seu mais recente trabalho, a filha de Salvador Allende inova mais uma vez, investindo num gênero deveras inusitado: o romance policial.

O jogo de Ripper (referência direta a Jack o Estripador – em inglês, Jack the Ripper) narra a história da caçada a um serial-killer por um grupo de adolescentes jogadores de RPG. Amanda, a protagonista, é uma menina estranha e superdotada que dedica boa parte do seu tempo a um jogo de detetives com um grupo de amigos virtuais dos quatro cantos do mundo – dentre os quais o próprio avô. Cansada de resolver crimes de ficção, a mestra de jogos propõe tentarem desvendar uma série de assassinatos da vida real. Graças ao fato de que seu pai é o chefe da divisão local de homicídios, a menina tem acesso a informações privilegiadas, que partilha com os parceiros por videoconferência via skype. Quando ninguém menos que sua própria mãe torna-se alvo do psicopata, a menina pode contar não apenas com a perspicácia dos amigos e com os arquivos da polícia, mas também com as informações de um detetive particular, com os serviços de um professor de inteligência artificial, e com a ação de um antigo soldado da divisão que abateu Osama Bin-Laden e seu cão treinado pelo exército americano.

O livro é um híbrido indefinível, a começar pelo público-alvo visado: é duro demais para poder ser infanto-juvenil, porém demasiado ingênuo para agradar a leitores adultos. O leitor habituado a romances policiais ficará decepcionado com a lentidão da ação, que se perde em descrições intermináveis e nem sempre relevantes, bem como com o mistério demasiado fácil de desvendar, com a tipificação de personagens que ultrapassam os limites do credível, e com o fato de que todos os elementos necessários à solução do problema sejam dados de bandeja.

Afinal, o que restou de Isabel Allende no seu mais novo romance, afora a fluência narrativa e o desenvolvimento das personagens? Quem estava acostumado com os trabalhos anteriores da autora terá, sem dúvida, grande dificuldade em reconhece-la em O jogo de Ripper. A primeira causa de estranhamento vem logo da ambientação tempo-espacial: a trama se passa na cidade de São Francisco no ano de 2012. Ademais, em vez das mulheres fortes e emblemáticas de A casa dos espíritos, Retrato a sépia e Filha da Fortuna, as personagens principais de Ripper são uma norte-americana destrambelhada com tendência a vítima e sua filha infantilóide. As poucas personagens latinas são tão estereotipadas que mal parecem ter saído da pluma de Allende: uma abuela mexicana ultracatólica, um chefe de polícia de bigodes cujo pai fora mariachi, uma doméstica guatemalteca, um brasileiro sensual sob constante efeito de entorpecentes e um uruguaio viciado em erva-mate. Com tudo isso, e mantendo em mente o inegável talento da autora, fica difícil dizer se Ripper é um thriller falhado, um hommage, ou se a intenção da autora era justamente fazer uma sátira do gênero.

Apesar dos pontos fracos, o leitor que optar por dar uma chance a O jogo de Ripper terá diante de si um romance de entretenimento simpático e uma leitura agradável, sobretudo à medida que se aproxima do fim, que apesar da previsibilidade mantém firme o suspense e reserva não poucas surpresas até a última linha. A cena final, por exemplo, conseguirá arrancar daquele que se deixar embalar um suspiro de suspense dignos não de um Stieg Larsson, mas talvez de uma final de temporada de Dexter.

Em última análise, O jogo de Ripper é um livro corajoso, que mostra que a autora de 71 anos não apenas se mantém aberta às tendências da juventude contemporânea, mas também que ela continua a não ter medo de se reinventar.

Título original: El juego de Ripper

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição brasileira: Bertrand Brasil (ISBN 978-852-8617-57-3)

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN 978-972-0044-98-3)

Número de páginas: 490 (edição brasileira), 400 (edição portuguesa)