O bônus da quarta: Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato

Ruffato_Cavalos

Para marcar a primeira quarta-feira do ano novo, e para assinalar as minhas boas intenções, vou tentar atualizar a nossa sessão especial. Embora não se trate forçosamente de um livro desconhecido, sempre é bom recordar aquele que se tornou um verdadeiro clássico da literatura brasileira do princípio do século XXI: Eles eram muito cavalos, do escritor mineiro Luiz Ruffato.

Publicado inicialmente em 2001, o livro é composto por uma série de micronarrativas, todas elas alinhadas de forma caleidoscópica, de modo a apresentar um retrato multifacetado da cidade de São Paulo. Além da unidade de espaço, o único elo entre elas reside no fato de que se passam praticamente em simultâneo, num único dia: 9 de maio de 2000. Desafiando os parâmetros da prosa tradicional, Ruffato usa e abusa das formas convencionais, como a narrativa linear em primeira e em terceira pessoa, a epístola, o diálogo e o monólogo interior, mas também explora o valor literário de uma série de textos inusitados. São eles o cardápio de um restaurante, a lista de livros que compõem uma biblioteca, folhinhas de orações, previsões de astrologia, anúncios de serviços sexuais, entre outros. O resultado é um patchwork de textos dissonantes tanto no que diz respeito à forma quanto ao conteúdo, mas que refletem a singular pluralidade de sua verdadeira protagonista: a maior cidade da América do Sul.

Durante a leitura, com a qual leitor nenhum poderá se aborrecer, é interessante refletir sobre os motivos que fazem com que alguns dos textos acabem por se tornar literatura. Afinal de contas, é o olhar poético do autor, e não o seu valor estético individual, bem como o fato de terem sido agrupados num mesmo compêndio, o que lhes dá força e vitalidade. Estão presentes ainda em Eles eram muitos cavalos alguns dos temas recorrentes da literatura brasileira na virada do novo milênio – tais como o stress do cotidiano, a onipresente violência urbana e a solidão dos indivíduos na cidade grande –, bem como alguns motivos eternos – como  a (des)esperança no futuro, a luta de classes, e assim por diante.

Uma vez que encontrar um gênero literário único para classificar um livro tão complexo seria uma tarefa impossível, preferimos ficar com a definição do autor, e o chamar “instalação literária”. Em todo caso, trata-se de um livro não apenas extremamente agradável, rápido e fácil de ler, mas também de um contributo essencial para o “renascimento” da literatura de expressão lusófona na aurora do século XXI. Simplesmente, um livro que obrigatório a todos aqueles que querem tentar entender o mundo em que vivemos.

 

Título original: Eles eram muitos cavalos

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2001

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-850-1079-61-9)

Edição portuguesa: Quadrante (ISBN 978-972-8962-02-9)

Número de páginas: 160 (edição brasileira)

O escudo vermelho, de Claudine Jacques

Jacques_Bouclier

Chegou 2016! E para nós, o ano começa com um livro cuja leitura do começo ao fim poderia, por si só, ser considerada um motivo de orgulho. Em primeiro lugar, pelo simples fato de o ter encontrado. Afinal de contas, quantos de vocês já leram um livro da Nova Caledônia? É verdade que a Caledônia não é propriamente um país, mas sim um território oceânico mais ou menos independente composto de pequenas ilhas sob efígie francesa. Não é um país, mas é culturalmente tão distinta da sua metrópole que seria quase um crime ignorar a sua literatura. Nem que seja pelo mérito de ela simplesmente existir.

O escudo vermelho – tradução livre do título original – é um livro relativamente conhecido (atenção, aqui, para a palavra “relativamente”) lançado em 2014. O romance, vencedor do obscuro prêmio literário Färä Pecii, é anunciado por seus editores como um “thriller oceânico”. A trama, narrada a partir do ponto de vista de várias personagens diferentes, trata da história de um velho milionário, Jif Bigfala, que, obcecado pela arte dos povos primitivos, contrata um jovem arqueólogo para constituir o seu 84º catálogo. A fim de obter mais peças para sua inigualável coleção, o velho, que a princípio dá a impressão de ser um excêntrico inofensivo, tem a seu dispor um bando de mercenários, responsáveis por adquirir novos objetos a qualquer preço. Aos poucos, sua máscara de inocência cai por terra, e nos apercebemos de que as lendas que ele tanto lê podem conter um teor de verdade, e de que os estranhos pratos que consome podem ser feitos de carne humana.

Uma ilha paradisíaca repleta de canibais, um grupo de piratas consumidos pela ganância, um anti-herói megalomaníaco, virgens sacrificadas em rituais de magia negra… ou seja, uma série de clichês tão grande que até poderia ter sido suficiente para tornar o romance divertido. Mas a prosa de O escudo vermelho é tão medíocre, e seus diálogos tão pouco cativantes, que chega a ser difícil encontrar um motivo para passarmos à página seguinte. Como se não bastasse, suas personagens são tão pouco carismáticas que até mesmo o leitor vegetariano chegará a desejar que elas acabem virando ragôut – por exemplo, o sujeito que pratica cunilíngua na adolescente que havia anteriormente estuprado, acreditando oferecer-lhe com isso uma espécie de compensação. Ou talvez, quem sabe, seja a própria autora quem mereça parar na panela, por escrever frases do tipo “ela tinha só quatorze anos, mas os seios eram os de uma verdadeira mulher.” Os pedófilos que se esbaldem!

Nascida em França e criada na Caledônia, a escritora de longa carreira Claudine Jacques exemplifica claramente o ditado popular “em terra de cego quem tem um olho é rei”: numa ilha perdida no meio do nada, até a mais medíocre das amadoras acaba se tornando um grande sucesso literário local. Mas talvez não devêssemos ser tão duros com ela. Afinal, viver num lugar que é o paraíso sobre a terra e ainda assim encontrar motivação para se sentar em frente ao computador e escrever quase trezentas páginas é, por si só, sinal de uma força de vontade admirável.

 

Título original: Le bouclier rouge

País: Nova Caledônia

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição em francês: Noir au blanc (ISBN: 979-109-0635-23-4)

Número de páginas: 294 (edição em francês)

A esperança é uma travessia, de Laila Lalami

Lalami_Hope

A Europa encontra-se hoje em meio a uma crise de imigração sem precedentes. Todos os dias, refugiados e imigrantes clandestinos de diferentes partes do globo arriscam suas vidas em precários botes apinhados de gente, com os quais esperam cruzar o Mediterrâneo e aterrar em um futuro melhor. Os perigos são muitos, e, para os que acabam por sobreviver, ao chegarem à praia a jornada está apenas começando. Esperam-nos, muitas vezes, a expulsão sem piedade, o depósito em centros de refugiados que mais se assemelham a campos de concentração, e, se tiverem sorte, uma vida de privações, preconceitos e dificuldade de adaptação. Embora a imigração em massa só agora se tenha tornado notícia internacional, trata-se de um fenômeno tudo menos recente. Há exatos dez anos, foi justamente este o tema eleito pela marroquina Laila Lalami para o seu primeiro romance.

A esperança é uma travessia consiste num livro curto, que mais poderia ser considerado um apanhado de contos, os quais focam na trajetória de um grupo de imigrantes tentando cruzar o Estreito de Gibraltar num bote inflável. No capítulo introdutório, conhecemo-nos em plena travessia, seguida da ordem de pular em mar aberto e terminar a nado, da aterragem difícil numa praia espanhola, da caçada pela polícia e da ameaça de deportação. Em seguida, o livro divide-se em duas partes, as quais dão conta do passado e do futuro de quatro personagens: Fatem, membro da união dos estudantes islamista recém-expulsa da universidade, Halima, mãe de três filhos casada com um marido abusivo, Aziz, um homem desejoso de sustentar a própria esposa, e, Murad, formado em Literatura Inglesa, que nunca conseguira obter um trabalho. Suas biografias distintas convergem no desespero, que as leva a arriscar a própria vida em nome da duvidosa promessa de um futuro mais digno em território europeu. O que, obviamente, nem sempre é o caso.

É fácil encantar-se com este livro dinâmico e bem escrito, bem-sucedido ao traçar o retrato de personagens deveras diferentes, e que nos abre as portas para quatro microuniversos banais e únicos ao mesmo tempo. Lalami, que foi recentemente indicada para alguns dos maiores prêmios literários da língua inglesa, oferece-nos uma narrativa cativante, da qual o leitor sairá com a impressão de que se despede de velhos amigos, tamanha a empatia despertada em tão poucas páginas. Ao final, somos acometidos pelo inevitável sentimento de que o tema merece uma abordagem mais aprofundada, o que, no entanto, não desmerece o trabalho da autora. Trata-se, pois, de um primeiro esboço, no qual já se pode entrever um pouco da grandeza da qual Lalami provaria ser capaz.

Para uma apaixonada pelo Marrocos como eu, cujo passaporte coleciona carimbos de visita ao Reino de Mohammed VI, A esperança é uma travessia foi como um presente, o qual me permitiu compreender um pouco melhor a realidade um país tão próximo e tão distante.

Título original: Hope and Other Dangerous Pursuits

País: Marrocos

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2005

Edição brasileira: Rocco (ISBN 978-853-2521-78-1)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 184 (edição brasileira)

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera

Galera_Barba

Para abrir com chave de ouro um mês cujas temperaturas assustam tanto brasileiros (pelo calor excessivo), quanto portugueses (devido às chuvas torrenciais), nada melhor que a companhia de um bom livro. E eis a minha sugestão brasileiríssima desta quarta: Barba ensopada de sangue, aclamado romance do jovem escritor Daniel Galera, um livro que contem tudo o que é necessário para um bom começo de mês.

O livro conta a história de um nadador profissional, cujo nome nunca chegamos a conhecer, que decide abandonar a vida citadina na capital do Rio Grande do Sul e instalar-se em Garopaba, um vilarejo de pescadores no litoral de Santa Catarina, onde, décadas antes, seu avô teria sido assassinado. Conforme sugere uma velha fotografia, o neto seria muito parecido com o antepassado que nunca conhecera, sendo este talvez o motivo para sua curiosidade aguçada. O exílio voluntário, decorrente de uma decepção amorosa, segue-se ao suicídio do pai, que pouco antes lhe confiara a cachorra Beta, fazendo-lhe jurar que a levaria para ser abatida. Incapaz de cumprir a promessa, embora consumido pela culpa por se negar ao último desejo de um homem, Beta acaba por se tornar sua única companheira numa terra inóspita, cujos ares de paraíso turístico desaparecem por completo ao fim de cada temporada. Visto pelos habitantes do local como uma espécie de ameaça, sobretudo após começar a fazer perguntas incômodas sobre um passado do qual ninguém parece estar disposto a falar, o nadador solitário observa calado a animosidade crescente em relação à sua pessoa. No entanto, longe de o fazer abandonar sua busca, a atmosfera de ameaça só serve a aumentar seu inexplicável desejo de desenterrar os supostos mortos de Garopaba. Até este ponto, talvez até estivéssemos diante de uma história comum, não fosse o protagonista portador de uma condição neurológica beirando o inimaginável, que o condena a relacionar-se com outros seres humanos de maneira pelo menos peculiar.

Indicado para o Prêmio Portugal Telecom 2013, o livro alcançou em seguida as prateleiras ultramarinas, motivo pelo qual também os leitores lusos podem se alegrar. Afinal, trata-se de um romance dificilmente classificável, mas cuja força reside sobretudo no enorme potencial de Galera enquanto narrador, que constrói um texto ao mesmo tempo plácido e cheio de tensão. Mesmo se, ao nos aproximarmos do final, muitas lacunas permanecem desnecessariamente sem solução, a grande maioria dos elementos acaba por convergir num desfecho predestinado, dando mostras de grande coesão textual. Por fim, ganhamos a impressão de que o círculo se fecha de forma tão bem-sucedida, que o desejo de reler desde o princípio acaba se tornando inevitável.

Mesmo não sendo um livro perfeito, este jovem escritor com muito chão pela frente oferece-nos a literatura brasileira no melhor da sua forma: crítica, cativante, envolvente. Pretensiosa, certamente, mas no melhor sentido do termo.

Título original: Barba ensopada de sangue

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5921-87-8)

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN 978-989-7221-39-2)

Número de páginas: 424 (edição brasileira), 392 (edição portuguesa)

O bônus da quarta: O invasor, de Marçal Aquino

Aquino_Invasor

Continuando a cruzada pela literatura brasileira contemporânea que iniciamos há duas semanas, revisitamos hoje o trabalho de Marçal Aquino, que tem se destacado no cenário literário brasileiro como um dos mais fieis sucessores do chamado “realismo feroz”. O termo, criado nos anos 1970 pelo crítico literário António Cândido para classificar a obra de Rubem Fonseca, pode (e deve) ser considerado anacrônico. Afinal, estamos a falar de uma literatura jovem, que busca na inovação da forma e da linguagem novos caminhos para tematizar a “violência endêmica” de que falava Sheherazade. Verdade é, no entanto, que na ausência de melhor definição, vamos ficando com esta.

Lançado em 2002 – e republicado recentemente pela Companhia das Letras –, O invasor marca o início da carreira de Aquino como autor de ficção adulta, e foi escrito paralelamente à criação do roteiro para um filme homônimo, lançado no mesmo ano. A trama, que pode ser resumida em poucas linhas, poderia ter sido extraída da seção de atualidades policiais de qualquer jornal brasileiro: dois empresários bem-estabelecidos contratam um matador de aluguel a fim de se livrarem do sócio majoritário da empresa que possuem. O crime, motivado por divergências, digamos, “ideológicas” – o morto não estava de acordo que eles fechassem um contrato milionário, envolvendo lavagem de dinheiro, com representantes do governo –, tem consequências inesperadas quando o matador decide tornar-se “amigo” dos mandantes, e passa a namorar a filha do homem assassinado.

A partir deste breve resumo, temos já uma clara noção do tipo de leitura que nos espera. Trata-se uma narrativa frenética, por vezes mesmo claustrofóbica, marcada pelo ritmo acelerado das películas policiais, mas que no entanto carece do elemento preferido dos filmes hollywoodianos: não existem mocinhos. Quando muito, podemos falar em anti-heróis, sobretudo ao pensarmos no matador Anísio, cujas (más) intenções podem ser compreendidas como uma tentativa de ascensão social levada ao extremo. O livro, aliás, põe em causa até mesmo o próprio conceito de protagonista, já que os protagonistas iniciais, Ivan e Gilberto, vão aos poucos perdendo espaço para o assassino de aluguel, que assume no final o estatuto de personagem principal.

Classificar O matador como um mero romance policial – aos moldes, por exemplo, de uma Patrícia Melo –, seria, no entanto, limitar o trabalho de Aquino a apenas uma de suas muitas facetas. Afinal, as pouco mais de cem páginas nas quais o livro se compõe abarcam não apenas uma história empolgante, mas também uma miniatura da própria realidade brasileira. A crítica político-social torna-se latente com o retrato de uma sociedade na qual os bandidos não são feios e maus, mas sim pessoas comuns, do tipo que chamaríamos mesmo “homens de bem”, capazes no entanto de chegar à barbárie devido à ganância. Uma sociedade na qual se mata em nome do poder, e o poder é caracterizado pela palavra-chave do nosso tempo: a corrupção. Em nome do dinheiro, abdica-se de uma vida inteira de cidadãos-modelo, e entra-se no círculo vicioso de se cometer um crime para esconder o anterior. Parafraseando Nelson Rodrigues, trata-se de um pequeno retrato da vida como ela é.

Título original: O invasor

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2002

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5918-04-5)

Número de páginas: 128 (edição brasileira)

O bônus da quarta: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino

Aquino_Lábios

Dando continuidade ao projeto paralelo iniciado há uma semana, o “bônus da quarta” de hoje tem como foco um dos mais talentosos discípulos de Rubem Fonseca: o escritor e roteirista Marçal Aquino.

Pessoalmente, ler Aquino aos trinta e poucos anos é como abrir uma porta para um passado querido. Para quem não se lembra, o autor iniciou a sua carreira nos anos 1990 com alguns clássicos da saudosa Série Vagalume, como O jogo do camaleão e A turma da rua quinze. Para aqueles que descobriram o prazer pela leitura por meio de seus livros, reencontrá-lo, duas décadas e meia mais tarde, em uma prosa madura e ainda cheia de mistério é como rever um velho amigo depois de anos de afastamento.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é talvez, seu livro mais conhecido, sobretudo graças à adaptação cinematográfica de grande sucesso (ver trailer aqui). O livro narra a história de Cauby, um fotógrafo de longa carreira que, no entanto, já viveu dias melhores. Graças a uma bolsa para a realização de um livro-documentário sobre as damas do garimpo, Cauby abandona a capital paulista para se embrenhar no interior do Pará, e acaba por se perder naquela terra de ninguém. Afora eventuais trabalhos para a perícia forense ou sessões fotográficas eróticas para as prostitutas locais, entretém-se em conversas com um jornalista pseudogótico à beira da morte, ou com um chinês declaradamente pedófilo, seus únicos amigos, até que se apaixona pela misteriosa Lavínia, ex-prostituta e esposa de um pastor evangélico. Lavínia, que também é Shirley, são na verdade muitas mulheres, as quais parecem se unir para levar o protagonista à beira da loucura.

Narrado em primeira pessoa, o livro desenvolve-se a partir da perspectiva do amante desafortunado, que mescla o presente a um passado não muito distante ao tentar reviver sua curta e atribulada história de amor. Ao fazê-lo, serve-se de uma linguagem forte, vulgar, pictográfica e não raras vezes escatológica, cuja racionalidade é acrescida pelas frequentes citações de um suposto tratado filosófico sobre “as fezes da alma”, escrito pelo fictício Benjamim Schianberger. Como resultado, temos uma história de amor sem máscaras nem clichês, que subverte a própria lógica da narrativa amorosa, desafiando seus limites de maneira quase naturalista, e mostrando que a beleza mais sincera só pode mesmo descender do Feio absoluto.

Seria injusto, no entanto, concentrarmos nosso olhar apenas na narrativa amorosa, já que o livro possui tantas outras camadas para além da superfície. Em alguns momentos, temos mesmo a impressão de que o casal protagonista apenas serve de pretexto para explorar temas de relevância universal, como os vários níveis de violência que regem os recôncavos do Brasil, alheios ao pacto social da chamada pós-modernidade, e à espera do menor movimento para explodir numa catarse coletiva. Trata-se de um universo primitivo e violento, governado pelo instinto e por antigos códigos de honra, e que se caracteriza por privilegiar todas as formas de dominação ao mais fraco, das mais óbvias às mais sutis. Esse mundo, habitado por matadores de aluguel e excluídos de toda espécie, assemelha-se fortemente aos sertões de que nos falaram alguns dos nossos maiores escritores do século passado. Ao abandonar o seu terreno familiar, ou seja, as grandes cidades, e voltar-se para o interior, Aquino dá nova vida a essa literatura.

Se todas as histórias de amor fossem tão infelizes, cruas e honestas como aquela de Cauby e Lavínia, o gênero certamente faria parte dos meus preferidos.

Título original: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2005

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5907-36-0)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 229 (edição brasileira)

O bônus da quarta: Amálgama, de Rubem Fonseca

Fonseca_Amalgama

Para compensar minha ausência de quatro semanas, bem como para provar que quatro semanas sem resenhas publicadas não necessariamente significaram quatro semanas sem livros lidos, decidi, a partir de hoje, presentear os leitores com uma resenha especial às quartas-feiras. A essa pequena série, que terá como foco textos contemporâneos da literatura brasileira, ouso dar o título de “o bônus da quarta”.

E quem melhor para abrir uma série especial senão um de nossos escritores mais lúcidos, queridos e prolíferos? É claro que se trata do grande mestre Rubem Fonseca, que, no auge dos seus noventa anos, ainda continua a escrever diariamente, tendo publicado, apenas desde a virada do milênio, cinco romances, seis volumes de contos e um de crônicas. Amálgama, seu penúltimo livro, consiste numa coletânea de contos, e oferece ao leitor uma pequena amostra de que sua pluma continua mais afiada do que nunca.

Ao longo das 34 histórias predominantemente curtas e de difícil catalogação que compõem o livro, Fonseca esmiúça o universo que o consagrou como um dos autores mais polêmicos da geração pós-64. Nelas, ganham voz as minorias étnicas e sociais, um submundo marcado pela criminalidade e pela ausência de escrúpulos, bem como todo tipo de pequenas vilanias que permeiam o cotidiano das grandes cidades na era pós-industrial. Seus heróis continuam cínicos, alguns deles doidos, embora cada vez mais desencantados com o mundo, e apresentam por vezes um refinamento cultural e uma consciência inusitados.

Sequestros-relâmpago, assassinos de animais de estimação, justiceiros urbanos, tráfico de bebês, infanticídios e parricídios coexistem no universo fonsequiano, o qual, se não tem a intenção de mimetizar o real, tenta pelo menos reproduzir a realidade construída pelos jornais sensacionalistas e programas de TV. Trata-se de contos ásperos e, em sua grande maioria, com desfechos impactantes, que estabelecem amiúde um diálogo direto com assuntos fortemente mediatizados. Por vezes, o flerte com o sensacionalismo torna-se particularmente marcante – como por exemplo em “O filho”, no qual uma criança nascida sem um braço é jogado pela mãe na lata de lixo. Em outras ocasiões, o esdrúxulo dá lugar ao inverossímil, como no conto “Devaneio”, em que um homem gasta todas a sua herança para realizar o antigo sonho de furar um peito de silicone com uma agulha. Como não poderia deixar de ser, o humor e a ironia fazem-se presentes, seja na fantasia fetichista com anões e corpos deformados, seja no olhar áspero e sem rodeios sobre as mazelas da sociedade. Em todo caso, ao lado da linguagem seca e da estetização consciente da violência, predomina um humor negro, profético, mas não de todo resignado, desses que preferem dançar à beira do abismo a chorar diante da tragédia.

Do ponto de vista formal, não estamos diante de textos que buscam explorar os limites da narrativa ou desbravar, por meio da experiência da violência, novos caminhos para a linguagem literária. Pelo contrário: os contos de Amálgama são predominantemente lineares, e se desenvolvem seja por meio de um relato confessional em primeira pessoa, seja pelo relato objetivo e jornalístico que marcaram a carreira do autor ao longo do século XX. Nesse sentido, é possível afirmar que o livro oferece um pouco mais do mesmo. Mas por que, afinal, mexer num time que já está ganhando desde 1963?

E que venha mais Fonseca!

Título original: Amálgama

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Nova Fronteira (ISBN: 978-852-0935-36-1)

Edição portuguesa: Sextante (ISBN: 978-989-6761-20-2)

Número de páginas: 160 (edição brasileira), 144 (edição portuguesa)

La casa de los conejos, de Laura Alcoba

Alcoba_Conejos

Quando pensamos nos nossos vizinhos do sul, é impossível não nos referirmos à rivalidade no futebol. Enquanto os brasileiros se gabam de Pelé e Ronaldinho, os argentinos revidam com Maradona, e quando mencionamos com orgulho as cinco estrelas na camisa, nossos eternos adversários ironizam a derrota na última Copa do Mundo. Frivolidades à parte, existe um campo no qual a Argentina parece vencer o Brasil a muito mais que 7×1: no questionamento das atrocidades cometidas durante a ditadura e na busca pela verdade.

La casa de los conejos retoma um gênero de grande importância na América Latina do século XX, porém muito pouco explorado em terras tupiniquins: a literatura de memória ou de testemunho. À exceção de exemplos esparsos, como Fernando Gabeira, e, mais recentemente, Edney Silvestre, a Ditadura Militar de 1964-1985, embora fortemente presente no cinema nacional, raramente tem obtido espaço na literatura de ficção. Mais preocupada em reproduzir fórmulas gastas e imitar modelos norte-americanos, a literatura brasileira, refletindo a sociedade, cala, enquanto a de nossos vizinhos hispânicos não tem medo de falar – pelo menos a julgar pela nova leva de autores argentinos, como Martín Kohan, Félix Bruzzone e Laura Alcoba.

La casa de los conejos é narrado a partir da perspectiva de Laura, nove anos, filha de militantes de esquerda envolvidos na organização Montoneros, oposta ao brutal regime militar da época. A trama, que se desenrola no ano de 1976, é focada nos meses em que a menina, acompanhando a mãe foragida, compartilhou o teto com outros nomes da guerrilha, vivendo numa célula onde funcionava a imprensa montonera: a chamada “casa dos coelhos”. Romance modesto de pouco mais de cem páginas, o livro impressiona ao reconstruir o universo da resistência e narrar o cotidiano dos clandestinos políticos sob um ponto de vista tão peculiar. Incapaz de compreender as dimensões do embate que testemunha, a menina arrancada dos confortos da infância compreende no entanto que não faz parte de um jogo de crianças. Laura, que vê serem-lhe atribuídas responsabilidades de adulta, não é poupada do desgaste emocional nem do pavor de serem descobertos, presos ou exterminados. Na guerra, não se permitem fraquezas nem se atribuem imunidades.

Recomenda-se, ao longo da leitura, que não nos esqueçamos do seu fundo autobiográfico, e que, ao chegarmos ao final, dediquemo-nos às pessoas nela retratadas: não é sempre que o leitor pode encontrar tantos registros e fotografias das personagens sobre as quais esteve a ler. Da mesma forma, uma vez que a narrativa se restringe ao ponto de vista da menina, a internet pode servir de epílogo e dar a conhecer o verdadeiro “final da história”.

Mas toda reprodução não deixa de ser recriação. Assim, é preciso assinalar que, do ponto de vista literário, o livro de Alcoba deixa algo a desejar. É de se imaginar que a intenção da autora tenha sido ser ao máximo fiel às lembranças de infância, e que ela não tenha querido preencher os inevitáveis lapsos de memória com interpretações e juízos posteriores. No entanto, é inegável que La casa de los conejos deixa a sensação de que poderia ter ido mais longe, entrado mais em detalhe, e desenvolvido melhor algumas personagens centrais que se vão perdendo com o tempo, como, por exemplo, a mãe. Com um tema deveras apaixonante e uma qualidade narrativa bastante aguçada, o livro teria merecido ser, pelo menos, cem páginas mais longo.

Escrito originariamente em francês, La casa de los conejos já foi traduzido para diversos idiomas, dentre os quais o espanhol, o inglês, o alemão, e até mesmo o sérvio. No entanto, o português ainda não faz parte dessa lista. Vergonhosamente para nós, permanecemos ainda, também no que compete ao alcance do mercado editorial, a anos-luz de distância de um dos nossos vizinhos mais próximos.

Título original: Manèges

País: Argentina

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2007

Edição espanhola: La casa de los conejos – Edhasa (ISBN 978-843-5010-24-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 136 (edição espanhola)

O jogo de Ripper, de Isabel Allende

Allende_Ripper

Isabel Allende, talvez o nome feminino mais conhecido do cenário literário latino-americano, é uma verdadeira mulher de mil faces. Não é a primeira vez que a escritora, que se consagrou com suas epopeias familiares que exploravam a contribuição da mulher na fundação da identidade latina, decide andar por terrenos desconhecidos: muitos leitores desconhecem, por exemplo, seus romances de aventura infanto-juvenil. Em seu mais recente trabalho, a filha de Salvador Allende inova mais uma vez, investindo num gênero deveras inusitado: o romance policial.

O jogo de Ripper (referência direta a Jack o Estripador – em inglês, Jack the Ripper) narra a história da caçada a um serial-killer por um grupo de adolescentes jogadores de RPG. Amanda, a protagonista, é uma menina estranha e superdotada que dedica boa parte do seu tempo a um jogo de detetives com um grupo de amigos virtuais dos quatro cantos do mundo – dentre os quais o próprio avô. Cansada de resolver crimes de ficção, a mestra de jogos propõe tentarem desvendar uma série de assassinatos da vida real. Graças ao fato de que seu pai é o chefe da divisão local de homicídios, a menina tem acesso a informações privilegiadas, que partilha com os parceiros por videoconferência via skype. Quando ninguém menos que sua própria mãe torna-se alvo do psicopata, a menina pode contar não apenas com a perspicácia dos amigos e com os arquivos da polícia, mas também com as informações de um detetive particular, com os serviços de um professor de inteligência artificial, e com a ação de um antigo soldado da divisão que abateu Osama Bin-Laden e seu cão treinado pelo exército americano.

O livro é um híbrido indefinível, a começar pelo público-alvo visado: é duro demais para poder ser infanto-juvenil, porém demasiado ingênuo para agradar a leitores adultos. O leitor habituado a romances policiais ficará decepcionado com a lentidão da ação, que se perde em descrições intermináveis e nem sempre relevantes, bem como com o mistério demasiado fácil de desvendar, com a tipificação de personagens que ultrapassam os limites do credível, e com o fato de que todos os elementos necessários à solução do problema sejam dados de bandeja.

Afinal, o que restou de Isabel Allende no seu mais novo romance, afora a fluência narrativa e o desenvolvimento das personagens? Quem estava acostumado com os trabalhos anteriores da autora terá, sem dúvida, grande dificuldade em reconhece-la em O jogo de Ripper. A primeira causa de estranhamento vem logo da ambientação tempo-espacial: a trama se passa na cidade de São Francisco no ano de 2012. Ademais, em vez das mulheres fortes e emblemáticas de A casa dos espíritos, Retrato a sépia e Filha da Fortuna, as personagens principais de Ripper são uma norte-americana destrambelhada com tendência a vítima e sua filha infantilóide. As poucas personagens latinas são tão estereotipadas que mal parecem ter saído da pluma de Allende: uma abuela mexicana ultracatólica, um chefe de polícia de bigodes cujo pai fora mariachi, uma doméstica guatemalteca, um brasileiro sensual sob constante efeito de entorpecentes e um uruguaio viciado em erva-mate. Com tudo isso, e mantendo em mente o inegável talento da autora, fica difícil dizer se Ripper é um thriller falhado, um hommage, ou se a intenção da autora era justamente fazer uma sátira do gênero.

Apesar dos pontos fracos, o leitor que optar por dar uma chance a O jogo de Ripper terá diante de si um romance de entretenimento simpático e uma leitura agradável, sobretudo à medida que se aproxima do fim, que apesar da previsibilidade mantém firme o suspense e reserva não poucas surpresas até a última linha. A cena final, por exemplo, conseguirá arrancar daquele que se deixar embalar um suspiro de suspense dignos não de um Stieg Larsson, mas talvez de uma final de temporada de Dexter.

Em última análise, O jogo de Ripper é um livro corajoso, que mostra que a autora de 71 anos não apenas se mantém aberta às tendências da juventude contemporânea, mas também que ela continua a não ter medo de se reinventar.

Título original: El juego de Ripper

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição brasileira: Bertrand Brasil (ISBN 978-852-8617-57-3)

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN 978-972-0044-98-3)

Número de páginas: 490 (edição brasileira), 400 (edição portuguesa)

A idade do ferro, de J. M. Coetzee

Imagem

J. M. Coetzee não é um autor conhecido por finais felizes. O aclamado escritor sul-africano, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura de 2003, é um grande mestre em colocar o dedo na ferida. Dono de uma escrita única, marcada pela capacidade de retratar o incômodo com crueza e refinamento, Coetzee impressiona ao criar personagens tão complexas que, a medida em que o leitor se envolve com elas, quase se tornam reais.

A idade do ferro é um romance curto, porém grandioso. O livro consiste numa longa carta que a protagonista, uma antiga professora universitária de letras clássicas, vai escrevendo a sua única filha ao descobrir que se encontra em estado terminal de câncer. Mrs. Curren, a personagem principal, sempre gozou uma existência tranquila, alheia aos graves problemas sociais ao seu redor, até que a revelação da doença incurável a faz abrir os olhos para um mundo por muito tempo ignorado. Enquanto discorria sobre as guerras e os conflitos da Grécia Antiga e do Império Romano a estudantes brancos da Cidade do Cabo, não se dava conta de que desconhecia as tragédias do próprio tempo. Tragédias essas que sua interlocutora, exilada por escolha nos Estados Unidos há mais de uma década, não fora capaz de suportar. A sua existência confortável e monástica de viúva, contrasta a vida dura de Florence, a empregada negra, para quem a família e o senso de comunidade estão em primeiro plano. Ao se encontrar à beira da morte, Mrs. Curren é obrigada a conviver com o insuportável peso de uma culpa histórica, exteriorizada pelo ato purgatório da escrita, até que um confidente improvável – um mendigo bêbado e imundo que resolve se instalar na sua propriedade – acaba servindo de ponte entre dois mundos opostos. Misterioso e indecifrável, o indigente, alcunhado de Mr. V, é uma espécie de anjo da morte, e se torna pouco a pouco um misto de amigo, filho e amante, preenchendo ao mesmo tempo todas as lacunas de uma vida de omissão.

Escrito e publicado nos últimos anos do apartheid, o romance utiliza o corpo doente da protagonista como uma espécie de alegoria para a decadência do Estado social sul-africano, e parte de um tema universal – a iminência da morte –, para não apenas refletir sobre as mazelas sociais do seu tempo, como também para fazer uma análise profunda da natureza humana. Enquanto observa própria a degradação física e mental, a narradora descreve as transformações do mundo ao seu redor, e descobre pouco a pouco uma realidade da qual sempre fora poupada, ou pela qual nunca se interessou. Somente ao se encontrar sozinha e debilitada é que ela se dá conta de que passara a vida num mundo de ilusões, e que a agressividade e a violência que agora culminam ao seu redor nada mais são que o resultado de um longo e infame processo do qual é culpada pela indiferença.

Não deixa de impressionar o modo como, em pouco menos de 200 páginas, Coetzee é capaz de dar voz a questões tão distintas, mesclando objetividade e subjetividade numa narrativa intimista que intercala fluxo de consciência e observação detalhada da realidade. Embora a interpolação incessante entre a observação e o devaneio, característica do diário e da literatura epistolar, possam fazer o leitor por vezes se perder, A idade do ferro é uma leitura essencial, por conseguir abordar um tópico tão complexo e incômodo com tamanha leveza e lucidez.

Título original: Age of Iron

País: África do Sul

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição brasileira: Siciliano (ISBN 852-670-3811)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2012-24-9)

Número de páginas: 179 (edição brasileira), 184 (edição portuguesa)