The Dead Lake, de Hamid Ismailov

Ismailov_Lake

Quantas pessoas saberiam situar o Usbequistão num mapa? Para a maioria, este pequeno país banhado pelo deserto salgado do Aral não passa de um mistério. Oficialmente uma democracia, o Usbequistão ainda preserva muito do seu antigo passado como uma das Doze Repúblicas da União Soviética, nomeadamente no que diz respeito à tendência autoritária, à aversão aos direitos civis e ao fechamento para o resto do mundo. Um exemplo disso é o fato de que Hamid Ismailov, um dos seus mais prolíferos escritores, foi obrigado a deixar o país em 1992, tendo seu nome sido apagado dos anais da literatura uzbeque.

Aqueles que tiverem o privilégio de descobrir Ismailov não deixarão de lamentar a sorte de seus patrícios. Nascido no Quirguistão, o autor explora em seus textos a realidade das antigas repúblicas soviéticas, respeitando, por um lado, as idiossincrasias históricas que as distinguem, mas focando, todavia, em seu passado recente comum. “Wunderkind Yerzhan” (tradução livre do título original russo), que infelizmente não se encontra traduzido para o português, desenrola-se no Casaquistão, ou mais precisamente no povoado microscópico de Kara-Shagan, aglomerado em volta de uma estação e habitado por apenas duas famílias. O ponto de partida da narrativa é uma viagem de trem pelos confins cazaques nos anos 1990, durante a qual o narrador em primeira pessoa, um forasteiro que não se dá a conhecer, encanta-se com a habilidade de um violinista de doze anos, o qual, no entanto, mostra-se muito ofendido ao ser tratado de “menino”. Trata-se, na verdade, de um homem de 27 anos, aprisionado eternamente num corpo de infante.

Durante as longas horas de viagem pelas estepes, conhecemos a história de Yerzhan, cuja infância é descrita com riqueza de detalhes, cercada por uma atemporalidade que nos remete aos contos de fadas do Romantismo Alemão. Concebido em circunstâncias jamais reveladas pela mãe emudecida, o menino prodígio (Wunderkind) foi criado pelas avós das duas famílias vizinhas, ao lado de sua amada Aisulu, um ano mais nova que ele, e com quem um dia iria se casar. Mas o pequeno paraíso idílico onde as duas crianças cresciam ao som de Dean Reed (o “Elvis Comunista”) avizinhava-se de um lugar terrível: uma usina nuclear em atividade. Seu ritmo de vida era marcado pelas explosões frequentes, algumas delas provocando graves acidentes, embora ninguém parecesse se aperceber do risco iminente que corriam. Até que o ousado Yerzhan, para se mostrar aos coleguinhas da escola, decide mergulhar nas águas insalubres do “lago morto”, uma imensa piscina aberta por uma explosão nuclear. Quando os anos passam e todas as outras crianças continuam a crescer, menos Yerzhan, fica a sugestão de que sua eterna juventude teria sido causada pelo banho no lago da morte.

Chega a ser fascinante observar como o autor dá ao tema contemporâneo – a herança macabra da radioatividade – um tratamento tão atemporal e universal, substituindo poderes sobrenaturais e bruxas malvadas pelo empenho soviético em produzir armas nucleares durante a Guerra Fria. Seu estilo narrativo, repleto de magia, faz lembrar clássicos como E.T.A. Hoffmann no Pequeno Zacarias, ou Adelbert von Chamisso em Peter Schlemihl. O resultado é uma novela tão bonita e tão triste que é quase impossível não ficar comovido, e que hesitamos em terminar conscientes do desfecho inevitavelmente trágico. O que nos consola, no entanto, é saber que o final foi inventado pelo homem do trem, e que, se não ficarmos satisfeitos, podemos deixar o resto a cargo da imaginação.

Se meu empenho em ler um livro de cada país tivesse servido para descobrir apenas este, todas as horas de busca já teriam valido a pena.

Título original: Вундеркинд Ержан

País: Usbequistão

Idioma original: russo

Ano de publicação: 2011

Título inglês: The Dead Lake

Edição inglesa: Peirene (ISBN 978-190-8670-14-4)

Título francês: Dans les eaux du lac interdit

Edição francesa: Denoël (ISBN 978-220-7125-92-2)

Número de páginas: 128 (edição inglesa)

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