A festa da insignificância, de Milan Kundera

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No final do ano passado, grandes leitores do mundo todo puderam se alegrar com um inesperado presente: Milan Kundera, autor de um dos maiores sucessos editoriais do final do século XX, quebrou finalmente um silêncio de mais de uma década. Em seu mais recente trabalho, o escritor tcheco de 85 anos, radicado na França desde 1975, provou que continua em sua melhor forma: A festa da insignificância é um deleite poético e filosófico, digno herdeiro do inesquecível A insustentável leveza do ser (1983).

A exemplo de outros livros de Kundera, A festa da insignificância é uma obra inclassificável, resultado de um patchwork entre ensaio, prosa poética, peça de teatro e fábula. O texto, de forte veia existencialista, tem como foco um grupo de amigos, todos eles homens maduros e solitários vivendo no coração da cidade de Paris. Alain dialoga com o retrato da mãe ausente, enquanto se interroga sobre os motivos do abandono; Caliban, ator falhado, entretém-se durante o trabalho como garçom a falar uma língua inventada, e se dá conta de que não existe personagem sem um público que a veja; Charles, cuja mãe se encontra no leito de morte, sonha em escrever uma peça de marionetes sobre Stalin e Kalinin, e se entretém com a ausência do riso na sociedade contemporânea; D’Ardelo, um narcisista, reencontra os prazeres da vida ao inventar a iminência da própria morte; e Ramon, aposentado, sente-se cada vez mais afastado do seu tempo, e descobre com leveza as vantagens da insignificância. Na pluma de Kundera, essas vozes inventadas ganham vida ao se cruzarem em torno do Jardim do Luxemburgo, e compartilham conosco, tout en passant, um pouco de sua fragilidade, de suas angústias, sonhos e verdades.

Se uma das principais características do romance tradicional é tentar abarcar em suas páginas um fragmento completo da realidade, Kundera nunca pretendeu escrever um romance tradicional. Pelo contrário, seu narrador deixa claro que trata tão-somente de personagens de ficção. A provocação daí advinda é ampliada pelo fato de que, à narrativa central, vão se mesclando aqui e ali histórias inventadas pelas próprias figuras centrais, como a pungente fábula da suicida que opta pela vida ao matar seu salvador, ou as diversas interferências sobre os últimos dias do regime stalinista. Apesar disso – ou talvez até por esse mesmo motivo –, as personagens de A festa da insignificância são tão coerentes e verossímeis, como se se tratassem de pessoas que conhecemos há tempos, até mesmo por seus medos e anseios serem tão parecidos com os nossos.

Humanas, demasiado humanas – eis o que se pode dizer das vozes que se intercalam para compor o novo livro de Kundera. O autor, que apesar de ser muitas vezes considerado um escritor secundário, já foi mencionado diversas vezes como possível laureado do prêmio Nobel, mostra que continua a ser um mestre refinado e perspicaz no que diz respeito à capacidade de captar a essência do seu tempo, uma época que perdeu o contato com o bom-humor, por não ser mais capaz de distinguir os méritos da autocrítica.

Viva a insignificância!

Título original: La fête de l’insignifiance

País: República Tcheca

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Companhia das Letras (978-853-5924-66-4)

Edição portuguesa: Dom Quixote (em breve)

Número de páginas: 136 (edição brasileira)

O conflito: A mulher e a mãe, de Elisabeth Badinter

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Vivemos um verdadeiro retrocesso no que diz respeito à função da mulher na sociedade. Depois de décadas de luta por direitos iguais, a mulher vem perdendo novamente espaço graças ao aparecimento de um novo tirano: o filho. Eis o ponto de partida de O conflito: A mulher e a mãe, o mais recente trabalho da francesa Elisabeth Badinter.

Três décadas após o polêmico Um amor conquistado: O mito do amor materno, a filósofa feminista que chocou o mundo ao contestar o “instinto materno” volta a causar desconforto ao analisar a ambiguidade mãe-mulher na sociedade contemporânea. Tomando como foco o desenvolvimento histórico-social recente, a autora baseia-se nas baixas taxas de natalidade dos países desenvolvidos, e se pergunta sobre os motivos pelos quais eles têm vivido um decréscimo avassalador no número de nascimentos. Para encontrar uma resposta, ela analisa não apenas as políticas governamentais para motivar a população a ter filhos e o contexto socioeconômico no qual estão inseridas boa parte das mulheres que optam por não serem mães, mas também o peso de um fantasma que aterroriza as mulheres em idade fértil: o mito da mãe exemplar.

À contramão do entusiasmo com os avanços tecnológicos no século XX, o novo milênio é marcado por uma desconfiança coletiva do artificial. A partir da ideia de que tudo o que é “químico” faz mal, optamos pelo orgânico e pelo “natural”, fundando-nos na crença da sabedoria da “Mãe Natureza”. Por consequência, muitas mulheres – sobretudo as mais escolarizadas – desconfiam da pílula anticoncepcional, e condenam a peridural e a cesariana com base na ideia de que a ausência da dor anula o valor do rito iniciático do parto. Com a chegada dos filhos, preferem fraldas laváveis em vez de descartáveis, e condenam o leite em pó graças ao mito de que o leite materno contribui para o desenvolvimento cognitivo dos bebês. A mulher incapaz de amamentar por motivos fisiológicos sente-se incompleta, e aquela que opta pelo leite em pó por vontade própria é tratada como párea, indigna do presente que é a maternidade. Ao longo da infância do filho, a mãe é vista como a principal responsável pelo seu desenvolvimento, e sofre uma forte pressão social para que abdique de si mesma, partindo do princípio de que o filho deve estar sempre em primeiro lugar. Ao mesmo tempo, o quadro de divisão das tarefas domésticas entre os sexos mantem-se estagnado. Com tudo isso, a mulher do século XXI tende a buscar sua realização pessoal fora da maternidade, e acaba pospondo o desejo de ser mãe para não ter que optar entre papeis aparentemente inconciliáveis: o de mãe exemplar e o de mulher bem-sucedida professional e sexualmente.

À primeira vista, as reflexões de O conflito parecem muito distantes da realidade tupiniquim. Sem os inúmeros benefícios dos países de primeiro mundo, a mulher brasileira não pode se dar ao luxo de optar por ser mãe a tempo integral, e tem muitas vezes que trabalhar desde cedo, deixando os filhos aos cuidados de estranhos. Com isso, o fantasma da mãe perfeita acaba não se fazendo tão presente quanto nos países desenvolvidos. Por outro lado, sobretudo nas camadas mais favorecidas da população, já é possível notar uma certa tendência ao “naturalismo”, e cada vez mais mulheres escolarizadas abdicam da carreira para cuidar dos filhos – diante de um mercado de trabalho que não as valoriza, é bem necessário buscar outras fontes de auto-concretização. Ademais, a julgar pelo rápido decréscimo das taxas de natalidade no Brasil, assim como pelo aumento da idade média para ter filhos, pode-se dizer que a tendência dos países europeus faz-se sentir pouco a pouco também por aqui.

Um aspecto a ser criticado no ensaio de Badinter é o fato de que, ao falar do sentimento ambíguo vivido por mães do século XXI, a autora baseia-se em relatos de caráter semiliterário, o que torna questionável a validade dos seus argumentos, que teriam sido mais convincentes se fossem embasados em pesquisas de campo Ademais, é possível se perguntar se a autora, no seu desejo de “dizer a verdade”, não acaba caindo em generalizações e interpretações precipitadas. Em todo o caso, não estamos diante de um estudo acadêmico, mas sim de um ensaio filosófico, e a parcialidade, nesse tipo de literatura, é perdoável.

Apesar dos pesares, O conflito é uma leitura interessante, fácil e agradável, recomendável não apenas para mulheres preocupadas com a questão da maternidade, como também para todos aqueles – homens e mulheres – interessados numa reflexão perspicaz e acurada sobre a sociedade contemporânea.

Título original: Le conflit: La femme et la mère

País: França

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2010

Edição portuguesa: Relógio d’Água (ISBN 978-989-6411-83-1)

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1091-99-4)

Número de páginas: 168 (edição portuguesa), 224 (edição brasileira)