Vermelho como o sangue, de Salla Simukka

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De partida para sete semanas no sul do continente africano, mas consciente de que estou em dívida para com este blog, bem como para com o meu projeto de ler o mundo, deixo-vos esta breve resenha como presente de despedida.

Não sei se terei tempo e/ou condições (leia-se: uma conexão internet decente) para continuar resenhando as minhas façanhas literárias ao longo das próximas sete semanas, por isso não queria deixar mais um domingo passar batido. Para isso, optei por um livro bastante diferente do cenário no qual minhas viagens reais me levarão daqui a poucas horas. Afinal de contas, Vermelho como sangue tem neve, muita neve. Trata-se, sim, de mais um romance policial escandinavo – embora, infelizmente não na sua melhor forma.

Eis um resumo da trama em poucas linhas: um grupo de adolescentes ricos e drogados na cidade de Tampere encontra uma mala cheia de notas de 500 euros manchadas de sangue, e decide ficar com ela. Seu segredo é descoberto pela protagonista Lumikki Anderson, igualmente adolescente, considerada por todos a “esquisitona” do colégio, no maior formato comédias românticas estadunidenses. A menina, no entanto, não é apenas pobre e estranha, mas também – grande surpresa! – inteligente, e acaba se tornando uma peça essencial para desvendar o mistério da mala misteriosa, envolvendo-se para isso com a máfia local – inevitavelmente russa, e inevitavelmente sem coração.

A boa notícia é que o livro lê-se rápido, e que o mistério, embora facilmente desvendável, apresenta até meia dúzia de pequenas surpresas. A má é que se trata de um livro raso, repleto de clichês, que imita grosseiramente os grandes mestres do policial escandinavo, como Stieg Larsson e Jo Nesbø, sem nem mesmo tentar disfarçar. Como se não fosse o suficiente, a tradução em português feita por Anna Toivola Câmara Leme, está repleta de erros e incoerências, bem como de inversões anglófonas absolutamente inexistentes na língua portuguesa. Se, por um lado, uma série de questões em aberto deixam ao leitor o desejo de conhecer o resto da história – afinal, hoje em dia, sofremos de uma grande praga segundo a qual todo livro tem que logo virar série -, a qualidade deste primeiro faz com que fique difícil convencer-se a continuar.

É claro, podemos argumentar, não estamos diante de um romance a ser levado a sério, mas sim de um thriller para o público jovem. Mas será que os chamados “jovens adultos” não merecem coisa melhor? No meu tempo, devoravam-se os romances de mistério infanto-juvenis de Sidney Sheldon, que também não eram supostos serem levados a sério, mas que sem sombra de dúvida eram muito melhores.

Já não se faz nem mesmo literatura comercial como antigamente!

 

Título original: Punainen kuin veri

País: Finlândia

Idioma original: finlandês

Ano de publicação: 2013

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2354-43-1)

 

Número de páginas: 216

 

 

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História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, de Luis Sepúlveda

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Embora esteja pela primeira vez em dois anos repetindo um país, esta semana teve que ser. Explico-me: foi uma semana particularmente apertada, na qual estive responsável por 21 pré-adolescentes 24 horas por dia; portanto, entende-se que tinha que ser um livro fácil. Por outro lado, minha decisão por este livro justifica-se facilmente. Afinal, trata-se de uma historieta de valor inigualável, e de um dos mais belos livros da literatura do século XXI, que o meu leitor – sobretudo num dia sombrio como este – merece conhecer: a novela História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, do grande mestre chileno Luis Sepúlveda.

Sepúlveda, que já tinha encantado o mundo em 1996 com a história de outro gato, Zorbas, que ensinava uma pequena gaivota órfã a voar, publicou recentemente a fábula de uma amizade improvável, repleta de filosofia e de frases inesquecíveis. A história se passa na cidade de Munique, na Alemanha, onde um pequeno gato negro de peito branco e perfil grego chamado Mix cresce ao lado de seu amigo humano, o menino Max. Com o tempo, o menino se torna homem, deixando a casa dos pais, e mudando-se com o amigo gato para um pequeno apartamento no topo de um prédio. Mix, que já não tem mais a vitalidade de outrora, começa aos poucos a perder a visão. Sem que se dê conta, a cegueira tolhe-lhe as liberdades de gato, impossibilitando seus passeios pelo topo dos prédios, e fazendo com que seus dias transcorram sempre iguais. A monotonia, no entanto, é quebrada pela chegada de Mex, um pequeno e falador ratinho mexicano, fugido de uma gaiola de vidro diretamente para a biblioteca de Max. Assim, os dois animaizinhos passam a coabitar e a compartilhar suas experiências de vida, aprendendo com as diferenças e enriquecendo seus cotidianos por meio do respeito e do companheirismo.

Estamos diante de uma história para crianças, ou de um livro para adultos fantasiado de infantil? Nem uma coisa nem outra, ou as duas ao mesmo tempo: sua mensagem singela, bem como seu valor universal, fazem que ele ecoe no imaginário de qualquer faixa etárea. Com o tempo, estou segura de que esta novela acabará por se tornar num clássico do valor de O Pequeno Príncipe. Para isso, no entanto é preciso descobri-la. Leiam-na, releiam-na, ofereçam-na. A todos aqueles que reconhecem o valor de uma verdadeira amizade. E a todos aqueles que merecem o reconforto de uma boa história.

 

Título original: Historia de Max, de Mix y de Mex

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2012

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN: 978-972-0044-80-8)

Número de páginas: 64

A evolução de Calpurnia Tate, de Jacqueline Kelly

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Desde que ouvi falar de Calpurnia Tate, o livro tornou-se-me uma pequena obsessão. Encaixá-lo no meu plano geográfico de leitura até que não era difícil, mas não seria algo desonesto? Afinal de contas, mesmo que sua autora seja originária da Nova Zelândia, a história se passa nos confins do Texas. Por fim, venceu a curiosidade: mesmo consciente de que existem centenas de outros livros muito mais neozelandeses à espera de serem lidos, desta vez teve mesmo de ser.

A evolução de Calpurnia Tate é o primeiro de dois romances históricos infanto-juvenis protagonizados por Calpurnia, ou Callie Vee, uma menina de onze anos que nada tem de conformista. Oriunda de uma família de abastados fazendeiros, Callie cresce como a única filha ao lado de seis irmãos, três mais velhos e três mais novos, tornando-se, graças à ausência de modelos femininos, numa verdadeira maria-rapaz. Em vez de dedicar seu tempo a tarefas convencionalmente femininas, Calpurnia prefere correr livre pelos campos e, estimulada por um avô misantropo, dar asas à sua curiosidade científica e investigar os mistérios da natureza. Tarefa esta em nada reprovável, não fosse pelo fato de estarmos a falar do ano de 1899, uma época em que pouco se esperava das mulheres além de que soubessem costurar, bordar e manejar uma cozinha.

De maneira geral, pode-se dizer que Calpurnia Tate é um livro bem-sucedido: a história é bem escrita, a narrativa em primeira pessoa funciona de fato, e a trama, situada em plena virada do novo século, remete seus jovens leitores a uma época que pode lhes parecer tão distante quanto a Idade Média. Uma época na qual as mulheres tinham poucos direitos, mas na qual, por outro lado, tudo parecia possível: com o advento do telefone, o avanço das vias telegráficas, bem como a invenção do automóvel, antevia-se uma modernidade latente e irrefreável, repleta de maravilhas capazes de revolucionar a micro e a macro-história. Nesse sentido, trata-se de um romance que eu sem dúvida recomendaria aos meus alunos – e sobretudo alunas – de doze anos de idade. Mas, se é assim, qual o problema?

Desta vez, o problema, na verdade, não está no livro, mas sim fora dele: a propaganda, eterna alma do negócio e algoz das nossas expectativas, pintou o romance de Kelly com cores muito diversas, vendendo-o como se fosse um Mundo de Sofia das ciências naturais. Ora, numa época como a nossa, na qual cai por terra o mito da pretensa igualdade entre os sexos, e se tenta reinventar o papel da mulher na sociedade, um livro que fizesse despertar o interesse das meninas pelos mistérios do universo poderia ter sido muito bem vindo. Se bem realizado, ele poderia ter mesmo sido um contributo essencial para fazer despertar na nova geração um interesse por carreiras tipicamente masculinas, revisitando os velhos paradigmas que confinam o “sexo frágil” às ciências humanas. No entanto, realizar tal proeza não é nem nunca foi o intuito de Kelly, muito mais preocupada em oferecer-nos um panorama das relações familiares e dos pequenos dramas cotidianos de uma menina fascinada por Darwin.

Apesar das expectativas frustradas, é preciso admitir que A evolução de Calpurnia Tate é, em seu gênero, um livro bom, que certamente cumprirá o seu intuito de entreter o jovem público ao qual está destinado. No entanto, é inevitável lamentar a oportunidade desperdiçada de fazer algo realmente inovador. Afinal, se quiséssemos tão-somente descobrir a realidade das crianças do século XIX, poderíamos ter ficado com Uma casa na campina.

A revolução feminista ainda não foi desta vez.

 

Título original: The Evolution of Calpurnia Tate

País: Nova Zelândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Única (ISBN 978-856-7028-41-5)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6660-99-4)

Número de páginas: 384 (edição brasileira), 248 (edição portuguesa)

 

 

 

Artemis Fowl, de Eoin Colfer

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O que esperar de um livro envolvendo duendes e fadas, cujo protagonista é um gênio do crime de onze anos de idade? Ao ouvir falar da famosa série irlandesa Artemis Fowl, pensei que seria a leitura perfeita para as férias: um livro relativamente curto (cerca de 300 páginas), fácil e rápido de ler, que far-me-ia reviver, embora com espírito crítico, as impressões do primeiro Harry Potter há mais de uma década.

Pensando bem, o enredo poderia ter dado uma noção do que viria a seguir. Artemis II, um milionário mimado, descende de uma família de vigaristas profissionais, e se encontra à disposição de seus maiores devaneios em seguida ao desaparecimento do pai e à loucura da mãe. Acompanhado tão somente por seu mordomo fisiculturista Butler e a irmã adolescente deste, o menino tristonho e sem amigos decide empreender uma façanha ousada a fim de recuperar a riqueza da família: roubar o ouro das fadas. Para isso, consegue usurpar um exemplar do livro mágico do povo belo, que traduz com a ajuda de um computador superpotente. Enquanto isso, nas profundezas da terra, a agente especial da LEP (a polícia dos leprechaums) Holly recebe uma importante missão junto ao “povo da lama” (ou seja, nós, os humanos), e em um momento de distração acaba sendo raptada pelo ardiloso Artemis. Nem toda a tecnologia e sabedoria milenar do povo subterrâneo é capaz de proteger o mundo mágico das artimanhas do anti-herói mais antipático da história da literatura.

A milionária série infanto-juvenil Artemis Fowl, cujo sucesso pode ser comparado ao de outras do gênero, como Desventuras em Série, insere-e num nicho comercial bastante específico: o dos leitores pré-adolescentes, uma camada da população cada vez mais ativa no mercado de consumo. Como tal, seria de se esperar que estivéssemos diante de um “easy read”, o que no entanto não forçosamente quereria dizer que seus livros fossem de tal forma descartáveis. Ora, a julgar pelo primeiro, é mesmo este o caso. Não existe profundidade psicológica, nenhuma das personagens principais é minimamente carismática, e a história poderia ser considerada estrambólica até mesmo por uma criança da escola primária. A começar pela facilidade absurda com a qual o mimado e intragável menino humano consegue driblar um povo cujas capacidades bélicas e tecnológicas deveriam, a princípio, ser incorruptíveis. Basta dizer que o mordomo truculento consegue dar cabo facilmente de um troll – portanto muito diferente daqueles a que estamos habituados na tradição da literatura fantasy (O Senhor dos Anéis, Harry Potter e companhia). Aos poucos, tem-se a impressão de que o único motivo pelo qual o ouro das fadas nunca foi roubado antes é ninguém jamais ter reparado nelas. E, na falta de personagens suficientemente simpáticas com quem nos identificar e para quem torcer, não seria de surpreender se resolvêssemos simplesmente fechar o livro.

Será esta resenha cínica e rabugenta um sinal da velhice de sua autora? Será a sua vontade incessante de dar umas boas chineladas no traseiro doprotagonista uma amostra de que já não tenho mais idade – ou disposição – para entender um livro destinado ao público jovem? É possível, mas duvido. Afinal, embora não seja uma fã assumida do gênero, continuo a saber apreciar os bons exemplares da literatura infanto-juvenil. Simplesmente, o primeiro livro da série Artemis Fowl não é um deles.

Título original: Artemis Fowl

País: Irlanda

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2001

Título brasileiro: Artemis Fowl: O menino prodígio do crime

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1060-88-4)

Título português: Artemis Fowl: O ouro das fadas

Edição portuguesa: Dom Quixote (978-972-2022-24-8)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 264 (edição portuguesa)

O menino que via demônios, de Carolyn Jess-Cooke

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Histórias que se situam no limiar entre a doença mental e o sobrenatural são por natureza perturbadoras. Histórias que exploram este tema sob a perspectiva de uma criança são capazes de causar ainda mais desconforto. Acrescente a isso uma boa dose de trauma coletivo (uma guerra civil recente com três décadas de duração), e certamente terá a fórmula para arrepiar os cabelos de jovens leitores do mundo todo.

Alex Broccoli é um menino pobre, muito pobre, que vive com a mãe depressiva num decrépito casebre na periferia de Belfast. Habituado à solidão, seu único “amigo” é um demônio chamado Ruel, que assume formas distintas de acordo com seu estado de espírito. Após presenciar uma nova tentativa de suicídio da mãe, Alex é atendido pela doutora Anya, uma especialista em esquizofrenia infantil recém chegada de volta ao país natal, que acredita que os “Problemas” que marcaram a história recente da Irlanda do Norte exercem uma forte influência sobre a saúde mental de seus habitantes. Anya identifica-se de imediato com o menino, que lhe faz pensar na filha que tirou a própria vida durante um surto de esquizofrenia aos doze anos de idade, e vê em Alex e seus demônios uma oportunidade única de se conciliar com seu passado.

A trama é narrada em paralelo, sob a forma de entradas num diário, a partir de duas perspectivas distintas: a do perturbado menino e a da não menos atormentada doutora. Trata-se de um recurso interessante, que contrapõe as diferentes percepções da realidade, e contrasta a visão científica da médica à experiência empírica do menino. Embora muitos dos elementos sobrenaturais sejam facilmente explicáveis por meio da psicologia, o livro também nos reserva um grande número de pontos sem nó, desses que a razão não consegue explicar. Afinal, demônios existem?

Infelizmente, aqui termina o lado positivo do livro. É que, do ponto de vista estrutural, o romance de Jess-Cooke está carregado de pequenas falhas. A começar por um estilo narrativo alquebrado, que favorece os saltos temporais, e que não dá ao leitor o direito a nem o mais curto momento de distração: num piscar de olhos, encontramo-nos há três horas, ou três meses, atrás, sem sequer nos termos dado conta de como isso aconteceu. Às vezes, temos a impressão que a culpa não é da autora, mas sim de cortes (mal-)feitos por um editor ávido em reduzir o número de páginas – por exemplo, quando Anya menciona “ainda estar usando seu tênis de corrida”, sem ter antes feito nenhuma alusão a ter estado a correr. A isso, acrescentam-se incontáveis incoerências e informações cruzadas, que deixarão qualquer leitor observador com a pulga atrás da orelha: Primeiro, a mãe de Alex fora adotada quando tinha a sua idade; depois, aos 15 anos – Alex tem apenas dez. Estranho? Basta fazer as contas!

Seriam essas perturbações intencionais? Um reflexo do alterado estado de espírito de seus protagonistas? Ou simplesmente falhas no enredo? É escusado dizer que a última hipótese não pode ser totalmente descartada. Embora a tradução brasileira, repleta de expressões pobres e de erros de concordância, também não favoreça uma visão mais favorável do livro. Lamentavelmente, o número de defeitos iguala-se ao de qualidades, fazendo com que O menino que via demônios, apesar da trama cativante e difícil de largar, não passe no crivo de leitores ligeiramente mais exigentes. Eis uma boa leitura para um público jovem e pouco experiente, mas só.

Para se fazer grandes livros, não bastam os grandes enredos.

 

Título original: The Boy Who Could See Demons

País: Irlanda do Norte

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Rocco (ISBN 978-853-2528-13-1)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 384 (edição brasileira)

Close your pretty eyes, de Sally Nicholls

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Close your pretty eyes é um livro britânico lançado há pouco que, se ainda não está disponível em português, com certeza daqui a pouco estará – e que bom! Sua autora, a talentosíssima Sally Nicholls, tem pouco mais de trinta anos, mas já conquistou leitores do mundo todo com três outros romances. A julgar pela sensibilidade e criatividade de seu mais novo trabalho, este também se tornará o preferido de muita gente por aqui.

O livro conta a história de Olivia, uma menina de onze anos que cresceu de casa em casa, entre uma mãe alcoólatra, lares provisórios abusivos, orfanatos sem alma, e famílias de adoção que mais cedo ou mais tarde acabam sempre por livrar-se dela. Olivia já passou por tantas coisas ruins que poderia ser classificada como sofrendo “danos irreparáveis”: incapaz de confiar nos outros ou de lidar com suas próprias emoções, ela sofre de transtorno dissociativo, torna-se irascível de um momento ao outro, e acaba se tornando uma ameaça para as pessoas à sua volta. Tudo isso é contado pela voz da própria menina, que intercala a narrativa de suas experiências recentes às lembranças do passado.

Como se não bastasse os traumas sofridos, seu lar atual é um velho casarão que ela acredita estar assombrado pelo fantasma de Amelia Dyer, uma famosa (e real!) psicopata vitoriana, considerada a maior serial killer de todos os tempos. Por meio da fantasma, a autora cria uma ponte para um fundo histórico quase relegado ao esquecimento: as baby farms (fazendas de bebês) inglesas, nas quais as mães de filhos ilegítimos eram obrigadas a deixar sua prole a fim de evitar as sanções sociais da conservadora sociedade vitoriana. Conhecidas pelas atrocidades cometidas contra bebês indefesos, o fato de uma antiga baby farm se tornar a morada de uma criança vítima de abusos torna-se numa coincidência terrível, capaz de levar a menina ao limite da loucura, e a obrigar a enfrentar seus próprios demônios.

Olivia faz pensar em Beth Thomas, a pequena psicopata do documentário Child of Rage (em português: A ira de um anjo. Para ver, clique aqui), de 1992. É impossível conhece-la sem se apaixonar por ela, ou sem odiar o resto do mundo: um mundo que ainda não aprendeu a zelar pela inocência das crianças. Embora esteja voltado para o público adolescente, se qualquer adulto pode se encantar com Close your pretty eyes, isso se deve à capacidade da autora de, partindo de uma linguagem simples e infantil, construir um universo psicológico profundo e intricado – coisa que bem poucos romances “adultos” são capazes de fazer.

Aviso aos navegantes: este facilmente poderá vir a ser um dos livros mais tristes que você já leu. Ainda assim, e apesar do tema forte, trata-se de um romance bem equilibrado, que emociona ao mesmo tempo que entretém. Para quem não quiser esperar pela tradução, boa notícia: sua linguagem fácil e simples torna-o acessível a todos aqueles que arranharem no inglês, ou até mesmo propício aos que desejarem melhorar seus conhecimentos no idioma. Senão, sempre se pode começar pelos outros livros da autora: Ways to Live Forever (no Brasil: Como Viver Eternamente; em Portugal: O menino que sonhava chegar à Lua), Season of Secrets (lançado no Brasil com dois títulos pela mesma editora (vai entender!): A menina que conversava com o verão e Temporada de segredos), e All Fall Dawn.

Em suma: uma excelente leitura para as férias de natal!

Título original: Close Your Pretty Eyes

País: Inglaterra

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Edição em português: não há

Edição inglesa: Scholastic (ISBN 978-140-7124-32-2)

Número de páginas: 240

Edição inglesa: Scholastic (ISBN 978-140-7124-32-2)

Número de páginas: 240

A culpa é das estrelas, de John Green

ImagemQual o segredo para se escrever um livro de sucesso? Primeiramente, é preciso tratar-se de uma história que alcance o maior número de leitores possível. Suas personagens, apesar das singularidades que fazem delas pessoas extraordinárias, devem ser suficientemente comuns para que haja identificação e aceitação por parte do público. Idealmente, o texto deve ser permeado de referências que remetem diretamente ao universo de experiência do leitor. A linguagem deve ser fácil, os diálogos verossímeis… E, se a trama for capaz de trazer o público do riso às lágrimas, o sucesso estará garantido.

Não é difícil perceber o motivo pelo qual A culpa é das estrelas é atualmente o livro mais vendido do Brasil. Em primeiro lugar, o romance, escrito por um autor conhecido graças à internet, obteve um enorme sucesso nos Estados Unidos, tornando-se um best seller antes mesmo de ser publicado. Em segundo, insere-se no gênero infanto-juvenil – e não é de hoje que os adolescentes formam um dos públicos-alvo mais eficazes do mercado literário. Ademais, narra uma história de amor, e histórias de amor, quando bem escritas e sobretudo bem divulgadas, geralmente vendem bem.

Sem dúvida, John Green acertou na fórmula. Narrado em primeira pessoa, A culpa é das estrelas conta a história de Hazel, 16 anos, e Augustus, 17, e trata de experiências tão corriqueiras como o primeiro amor, a descoberta do outro, a entrega, e também a perda. Mas se engana quem pensar que estamos diante de adolescentes como outros quaisquer. O elemento de singularidade que distingue seus protagonistas, aquilo que os torna extraordinários em sua mundanidade, é justamente a sua fraqueza: a doença. Hazel, a narradora, foi há mais de três anos diagnosticada com câncer nos pulmões em estado terminal. Se o medicamento que toma coíbe a progressão da enfermidade, não é capaz de cura-la. Assim, vai vivendo à espera da morte, num eterno stand-by. Augustus, por sua vez, um rapaz bonito e atlético, teve osteosarcoma, doença cuja probabilidade de remissão é particularmente elevada, e vem sendo declarado saudável desde a amputação de uma perna. Fãs de literatura, de música alternativa e de jogos de vídeo, os dois se encontram e se reconhecem como espécies de almas-gêmeas num grupo de apoio a adolescentes enfermos. Aos poucos, vão se entregando um ao outro e às descobertas do amor como qualquer casal de adolescentes, embora a doença que os une confira-lhes igualmente um tom de maturidade – sentimental e intelectual – e originalidade que os distingue da massa.

E, como nem só de amor se faz a vida, e “o mundo não é uma fábrica de realização de desejos”, o texto mostra também o lado amargo do doente terminal, retratando-o não como o heroico lutador como é venerado nas homenagens post-mortem, mas como um ser humano comum, acometido por medos, momentos de fraqueza, de desespero. Um ser humano que se despede, diante da doença, até mesmo da dignidade, e se depara sozinho diante da própria insignificância.

Mas, se a escrita simples e eficaz, marcada por reflexões existenciais e pela ironia, consiste na sua principal qualidade, as fórmulas feitas e simples – talvez demasiado simples -, consistem em uma de suas fraquezas. Por vezes, o romance entra em contradição consigo mesmo ao transmitir mensagens tão planas e previsíveis como aquelas contidas nas almofadas que decoram a casa dos pais de Augustus. Se não é, por exemplo, a fragilidade que faz a beleza, e se não é graças ao sofrimento que se aprecia a felicidade, por que seriam então belas as personagens do livro? A trama é boa, eficaz, mas sem surpresa. Assim, pode-se perguntar se ainda será lido em dez, vinte anos, ou se será mais um entre tantos romances de sucesso, cheios de qualidades, sem dúvida, mas de certa forma perecíveis.

A culpa é das estrelas é um romance bem escrito, pretensioso, mas não deixa de ser um romance para adolescentes. Embora até mesmo o adolescente mais habituados ao universo da leitura possa sentir falta de um “algo mais”, de uma profundidade prometida, mas que se perde pelo caminho. Talvez fosse esse o sentimento dos próprios protagonistas, caso viessem eles a ler o romance. De todas as formas, não deixa de ser um livro agradável, desses que fazem o leitor perder o sono e o prendem até a última página. E, se é capaz de fazer os jovens renderem-se aos prazeres da leitura, nem que seja por algumas horas, que lhe sejam dados os devidos louros.

Título original: The Fault in Our Stars

País: Estados Unidos

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN 978-858-0572-26-1)

Número de páginas: 288