A pequena fortuna de Dorothea Q, de Sharon Maas

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Quem disser que nunca julgou um livro pela capa é um grande mentiroso. Por mais que nos esforcemos, é difícil não nos deixarmos influenciar pelo trabalho de manipulação minuciosamente pensado (ou não) pelo editor para nos convencer (ou não) a consumir o produto livro. No caso de A pequena fortuna de Dorothea Q, um excesso de clichês, uma horrorosa combinação de amarelo, azul e cor de rosa, bem como uma diagramação digna de “romances de mulherzinha” quase iam me fazendo desistir. Mas digamos que não é assim tão fácil encontrar um livro vindo originalmente da Guiana, de modo que, mais do que qualquer outra coisa, o romance da escritora guianesa Sharon Maas me venceu sem convencer. Falou mais alto a falta de opção. E que bom!

Se não será o próximo Prêmio Nobel da Literatura (se bem que nunca se sabe), A pequena fortuna de Dorothea Q é um livro cativante, atraente e divertido. Mais que um romance monofocal, trata-se de uma pequena saga familiar que acompanha três gerações de mulheres da família Quint: a matriarca Dorothea, sua filha Frederika (Rika) e neta Inky. Por meio de uma trama não cronológica, acompanhamos os momentos mais importantes do clã guianense, desde a bucólica Georgetown do início do século XX, até a frenética cidade de Londres nos dias de hoje. No centro da trama encontra-se um pequeno tesouro familiar: um selo extremamente raro, conhecido como o “One Cent Magenta”, emitido na capital da Guiana em 1856, e conhecido globalmente como o selo mais caro do mundo.

Embora não se trate de forma alguma de um sentimento homogêneo, boa parte do tempo temos a impressão de estar lendo um dos romances antigos de Isabel Allende. É certo que o carisma das personagens principais parece que se vai perdendo a cada nova geração, chegando mesmo a ser difícil se relacionar com os dilemas adolescentes da – tirando a curiosidade intercultural – inócua Inky. Mas estas falhas são largamente compensadas por um exotismo bem temperado, por uma trama bem cozida e por um agradável vislumbre desse país tão próximo e ainda assim tão distante, cujas paisagens poderiam ser as mesmas de Jorge Amado, mas cujo ambiente sócio-político-cultural distingue-se em quase tudo da realidade brasileira.

Se é verdade que o excesso de melodrama pode incomodar qualquer leitor menos inclinado à telenovela, a história ainda assim permanece interessante até a última página, e algumas de suas cenas eventualmente permanecerão por um bom tempo no imaginário do leitor. Em suma, pode-se dizer que A pequena fortuna de Dorothea Q é o livro perfeito para aqueles longos dias passados na espreguiçadeira durante as férias de verão, perfeitamente inadequados a um Proust ou a qualquer outra leitura intelectualmente mais exigente, mas nos quais ainda assim ansiamos por um pouco de poesia.

 

Título original: The Small Fortune of Dorothea Q

País: Guiana

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição inglesa: Bookouture (ISBN 978-190-9490-58-1)

Número de páginas: 480

A Beautiful Place to Die, de Malla Nunn

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Depois de dois meses sem escrever, sinto que devo uma explicação. Na verdade, tenho não apenas uma, mas duas boas desculpas: uma mudança de casa, de cidade e de vida, e um bebê à caminho. Tudo isso reduziu o meu ritmo de leituras, reduziu (leia-se: bloqueou) a minha assiduidade neste blog, mas não diminuiu o meu desejo de levar em frente o projeto. Ainda falta pouco mais de cem países a serem lidos. Quase metade do percurso percorrido. 2017 chegou, vamos a isso!

Se ler um bom livro faz com que nos sintamos imediatamente familiares às suas paisagens e personagens, ler um bom livro enquanto se viaja fisicamente pelas terras onde a trama se desenrola é uma emoção inexplicável. Foi assim este ano com A Beautiful Place to Die, primeiro romance policial da escritora suazi Malla Nunn. Ambientado no extremo nordeste da África do Sul em 1952, período de plena ascensão do regime do Apartheid, o livro transporta-nos para um pequeno vilarejo dominado por boers (resumindo grosseiramente: os descendentes de holandeses extremamente racistas que iniciaram o Apartheid), ao mesmo tempo em que questiona as contradições e a hipocrisia da ideologia dominante.

A trama complexa de um romance policial bem escrito talvez já deixe transparecer a imensa quantidade de mensagens subliminares presentes no livro: Logo após a assinatura do “Ato da Imoralidade”, que impedia qualquer tipo de relacionamento íntimo entre brancos e negros, o capitão da polícia do idílico vilarejo de Jacob’s Rest é encontrado morto à beira de um rio, motivo pelo qual o detetive de ascendência inglesa Emmanuel Cooper é enviado para o local. Logo ao chegar, Cooper depara-se com uma comunidade fechada e repleta de incoerências, dominada pelo medo dos negros e pelo racismo dos brancos, na qual ninguém parece disposto a revelar os seus mais infaustos segredos. Com o passar do tempo, e sob a constante vigilância dos brutamontes filhos do capitão assassinado – os quais parecem temer que o detetive se meta em assuntos que não deve – , Cooper acaba por ganhar a confiança do agente negro Shabalala, bem como a do “velho judeu”, uma espécie de pária local no limiar entre os conceitos raciais, possivelmente as única pessoas inteligentes do local. Suas buscas fazem-no enveredar por caminhos sinuosos até a capital do Moçambique, ainda então conhecida como Lourenço Marques, em busca de fotografias comprometedoras, e desvendar uma extensa rede de relações proibidas. Como seria de se esperar, tudo isso fará dele um alvo potencial, já que algumas verdades não foram feitas para serem reveladas.

A todos aqueles que se interessarem por esta excelente leitura, deixo um único spoiler: o mocinho não morre no final. Pelo contrário, ele reaparece como o protagonista de ao menos três outros romances. Àqueles que pensavam que apenas os escandinavos eram dignos do título de melhores séries de literatura policial, fica a minha opinião pessoal – o primeiro romance de Malla Nunn coloca qualquer Jo Nesbø tranquilamente no chinelo. E com que categoria.

Feliz ano novo a todos. E vida a Suazilândia, esse querido país minúsculo com tanto para oferecer!

 

Título original: A Beautiful Place to Die

País: Suazilândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição em português: não há

Edição inglesa: Atria (978-141-6586-20-3)

Título espanhol: Un hermoso lugar para morir

Edição em espanhol: Siruela (978-849-8415-65-0)

Número de páginas: 384 (edição em inglês), 416 (edição em espanhol)

 

O menino que descobriu o vento, de William Kamkwamba

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Algumas histórias de vida são tão impressionantes que, caso fossem narradas num romance, muita gente torceria dizendo que são inverossímeis. Dos confins do Malaui, esse pequeno e (hoje) relativamente próspero país espetado no sudeste do continente africano, vem uma dessas histórias inspiracionais, dessas que mais parecem conto da carochinha: O menino que descobriu o vento.

William era apenas mais um menino sonhador e irrequieto, oriundo de um paupérrimo vilarejo agrícola, mas cuja curiosidade e capacidade criativa o destacavam da massa de crianças pobres e descalças ao redor. Obrigado a abandonar a escola devido à falta de meios de seu pai para pagar as elevadas mensalidades, o menino ainda assim não desistiu de perseguir o seu sonho de adquirir conhecimentos, devorando a esparsa biblioteca improvisada que uma missão de caridade havia deixado no local. Fascinado por manuais de física e invenções, o menino descobriu os milagres da energia eólia e, com a ajuda de dois amigos e utilizando o tempo livre que lhe sobrava para explorar o ferro-velho local, conseguiu construir uma torre imensa, uma verdadeira aberração de ferro soldado, a qual, diante da risota incrédula de todo o vilarejo, conseguiu transformar na primeira fonte de energia elétrica de toda aquela região do país.

De fato, a história de William Kamkwamba é tão impressionante que, ao ser descoberta, foi capaz de transformar não apenas a sua vida, mas a de todos os nela envolvidos. Adorado pelos repórteres, mas sem o menor auxílio do Estado ou dos diretores de escola locais, sua fortuna só seria traçado após um convite para a renomada conferência TED Global, atraindo a atenção das mídias internacionais e de generosos mecenas gringos. E o seu discurso emocionado, narrado em um inglês alquebrado que ainda torna mais incrível que ele tenha sequer sido capaz de entender os manuais de física que usara, está lá para todo mundo ver, reproduzido milhões de vezes graças às maravilhas da internet.

Mas essa história poderosa de luta e sobrevivência, esse conto de fadas meritocrático de um self-made boy saído das periferias do mundo globalizado, também esconde uma crítica ferrenha às elites africanas, cuja incapacidade de gerir um país submetem seu povo a um constante flerte com a morte, ao desespero da fome e à impotência da miséria, ofuscando os maiores talentos e os condenando ao esquecimento. Crítica justíssima, diga-se de passagem, embora incomode que, no entretempo, o branco seja mostrado como um herói salvador, uma espécie de fada azul capaz de transformar o inventorzinho africano num menino de verdade, abrindo-lhe as portas para um mundo mais digno.

Se desta vez não tenho palavras para a qualidade literária do texto é porque, mais uma vez, se trata de um livro escrito a duas penas, com a ajuda de Brian Mealer, um jornalista estrangeiro. O mesmo, aliás, que transformaria a narrativa num livrinho ilustrado para crianças – mais um sinal de que a trajetória de Kamkwamba se assemelha a um conto de fadas, uma ode ao deus da meritocracia, cuja mensagem consiste em “quem não desiste, persevera”. Toda a gente sabe que não é bem assim.

De todas as formas, se lido com um olhar crítico, não se pode deixar de dizer que se trata de um livro realmente interessante, e de uma história de vida ainda mais, e que por isso recomendo.

 

Título original: The Boy Who Harnessed the Wind: Creating Currents of Electricity and Hope

País: Malaui

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Título brasileiro: O menino que descobriu o vento

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-853-9002-55-9)

Título português: O rapaz que prendeu o vento

Edição portuguesa: Presença (ISBN 978-972-2343-51-0)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 304 (edição portuguesa)

A herança de Orhan, de Aline Ohanesian

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Depois de três meses de silêncio, nada melhor para recuperar os velhos hábitos do que trazer-vos um livro cuja leitura me proporcionou grande prazer. Admitamos: mais por razões históricas do que por qualquer outra coisa. Afinal, fazer justiça histórica aos genocídios esquecidos do século XX sempre foi um dos meus grandes focos de interesse.

No imaginário coletivo, a palavra genocídio encontra-se intrinsicamente associada à shoah, o genocídio judeu pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. A imagem dos campos de concentração abarrotados e das câmaras de gás chegam a ser tão preponderantes, desde o cinema mainstream até os mais altos níveis da literatura, que quase chega a sufocar. Chega a não sobrar espaço para falarmos de outros extermínios em massa igualmente atrozes e igualmente extremos, cujas feridas talvez se encontrem muito mais abertas que a dos judeus. Pois se pensarmos, por exemplo, no maior desejo de uma vítima ou de seus familiares, este sempre vem relacionado com o conceito de justiça moral, que se estende desde a admissão do crime pelo algoz até o reconhecimento do sofrimento por parte da sociedade. No caso do genocídio armênio, não apenas o primeiro está bem longe de acontecer, como o segundo tem sido conquistado apenas lentamente e a duras penas: a Turquia continua a insistir que o extermínio nunca existiu, enquanto o resto do mundo o tem feito num murmúrio, relutante em cair no desagrado desta potência econômica semidemocrática com ocasionais surtos de violência.

Orhan’s Inheritance, o primeiro romance da historiadora Aline Ohanesian, filha de armênios, nascida no Kuwait e radicada aos três anos nos Estados Unidos, não poderia tratar de outro assunto. Situado em dois períodos históricos distintos, os últimos anos do Império Otomano e meados dos anos 1990, o livro fala justamente não apenas do genocídio, mas também da importância do seu reconhecimento. Orhan, um jovem comerciante turco originário de Sivas, decide viajar para os Estados Unidos depois de descobrir que o avô recém-falecido deixara em testamento a casa familiar para uma total desconhecida, uma senhora de quase noventa anos, residente em um lar de velhos nos arredores de Los Angeles. Lá chegando, com o intuito de persuadir a mulher a abdicar de sua parte da herança, o jovem dá de encontro com Seda, uma mulher misteriosa e arredia, cuja trajetória de vida está intrinsicamente ligada ao passado de sua própria família. Por meio de longas digressões até meados de 1915, período em que se iniciaram os massacres que exterminaram uma população de cerca de 1 milhão de pessoas, Orhan vai aos poucos descobrindo a relação entre Seda e o seu falecido avô, e como o seu legado familiar encontra-se alicerçado sobre uma grande mentira e um crime de Estado.

Como seria de se esperar de um romance sobre um holocausto, a trama é bela, porém feita sob medida para comover, repleta de pathos e de tragédias sensacionais, mas nem por isso menos reais. No seu afã de abarcar um longo período de história, a escrita se torna superficial, perdendo o espaço da reflexão mais aprofundada que o tema teria merecido. Por isso não é, e nem jamais chegaria a ser, uma grande pérola da literatura, mas foi sem dúvida bem escrito, e trará a qualquer leitor momentos de agradável leitura. Se de “agradável” se pode falar quando mulheres são violadas, enquanto outras obrigadas a dar à luz em plena marcha da morte. Talvez, no final, o leitor também fique frustrado por ter estado à espera de que as origens do protagonista fossem outras, e o reconhecimento mais pungente. Mas não é verdade que nem sempre os livros acabam como gostaríamos?

Ler para relembrar.

 

Título original: Orhan’s Inheritance

País: Armênia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição em inglês: Algonquin Books (ISBN: 978-161-6203-74-0)

Edição em português: não há

Número de páginas: 352 (edição em inglês)

Vermelho como o sangue, de Salla Simukka

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De partida para sete semanas no sul do continente africano, mas consciente de que estou em dívida para com este blog, bem como para com o meu projeto de ler o mundo, deixo-vos esta breve resenha como presente de despedida.

Não sei se terei tempo e/ou condições (leia-se: uma conexão internet decente) para continuar resenhando as minhas façanhas literárias ao longo das próximas sete semanas, por isso não queria deixar mais um domingo passar batido. Para isso, optei por um livro bastante diferente do cenário no qual minhas viagens reais me levarão daqui a poucas horas. Afinal de contas, Vermelho como sangue tem neve, muita neve. Trata-se, sim, de mais um romance policial escandinavo – embora, infelizmente não na sua melhor forma.

Eis um resumo da trama em poucas linhas: um grupo de adolescentes ricos e drogados na cidade de Tampere encontra uma mala cheia de notas de 500 euros manchadas de sangue, e decide ficar com ela. Seu segredo é descoberto pela protagonista Lumikki Anderson, igualmente adolescente, considerada por todos a “esquisitona” do colégio, no maior formato comédias românticas estadunidenses. A menina, no entanto, não é apenas pobre e estranha, mas também – grande surpresa! – inteligente, e acaba se tornando uma peça essencial para desvendar o mistério da mala misteriosa, envolvendo-se para isso com a máfia local – inevitavelmente russa, e inevitavelmente sem coração.

A boa notícia é que o livro lê-se rápido, e que o mistério, embora facilmente desvendável, apresenta até meia dúzia de pequenas surpresas. A má é que se trata de um livro raso, repleto de clichês, que imita grosseiramente os grandes mestres do policial escandinavo, como Stieg Larsson e Jo Nesbø, sem nem mesmo tentar disfarçar. Como se não fosse o suficiente, a tradução em português feita por Anna Toivola Câmara Leme, está repleta de erros e incoerências, bem como de inversões anglófonas absolutamente inexistentes na língua portuguesa. Se, por um lado, uma série de questões em aberto deixam ao leitor o desejo de conhecer o resto da história – afinal, hoje em dia, sofremos de uma grande praga segundo a qual todo livro tem que logo virar série -, a qualidade deste primeiro faz com que fique difícil convencer-se a continuar.

É claro, podemos argumentar, não estamos diante de um romance a ser levado a sério, mas sim de um thriller para o público jovem. Mas será que os chamados “jovens adultos” não merecem coisa melhor? No meu tempo, devoravam-se os romances de mistério infanto-juvenis de Sidney Sheldon, que também não eram supostos serem levados a sério, mas que sem sombra de dúvida eram muito melhores.

Já não se faz nem mesmo literatura comercial como antigamente!

 

Título original: Punainen kuin veri

País: Finlândia

Idioma original: finlandês

Ano de publicação: 2013

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2354-43-1)

 

Número de páginas: 216

 

 

Eu sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

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Eu sou Malala é um livro que dispensa apresentações. Mais famoso que Paulo Coelho, mais disputado que o último CD de Justin Bieber, o livro que narra a trajetória da “menina que foi baleada pelo Talibã” correu rapidamente o mundo, fazendo da jovem paquistanesa uma figura carimbada, e servindo de trampolim para que ela se tornasse o mais jovem Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ironicamente, o que Malala não cansa de repetir ao longo das quase 400 páginas de sua autobiografia é que ela não desejava ser conhecida por ter tomado um tiro no rosto, mas sim pela sua luta para promover a educação em seu país de origem. Mas será que o seu ativismo político é realmente o motivo de tão grande celebridade?

Para já, chamar o best seller de autobiografia por si só deveria levantar uma série de reticências: sabemos que o livro foi escrito em coautoria com a jornalista inglesa Christina Lamb, especialista em países de democracia duvidosa, como o Oriente Médio, a África do Sul e o Brasil. Se os méritos de uma narrativa tão detalhada – e muitas vezes até mesmo aborrecida – só podem ser atribuídos à própria Malala, foi sem dúvidas a experiente jornalista quem conseguiu transformar a matéria bruta num sucesso comercial, digno dos 3 milhões de dólares que a menina teria recebido pelos direitos autorais.

Seria perda de tempo (meu e vosso) dedicar mais de meia dúzia de linhas ao enredo mais que conhecido: Malala, uma estudante da região de Swat, tornou-se conhecida graças ao seu discurso em prol da escolaridade de meninas em seu país natal, devastado pelo Talibã. Sua loquacidade só se tornou possível graças ao apoio do pai, diretor da escola onde estudava e empenhado combatente pelos Direitos Humanos. O comportamento pouco convencional de pai e filha fez com que terminassem na mira dos fanáticos islamistas, que os acusavam de secularização e ocidentalização. Mas não estamos aqui para julgar a coragem de Malala, mas sim a qualidade de sua biografia.

O livro, bastante recheado, e decorado por uma longa sessão de fotografias em guisa de apêndice, tenta intercalar os quinze anos de vida de Malala a um vasto aparato de informações históricas, no intuito de alinhar a micro e a macro narrativa. Tudo isso, é claro, sem deixar de lado inúmeras anedotas do cotidiano, como as banais historietas de disputas com as amigas pelo título de melhor aluna da escola, a fim de oferecer ao leitor uma Malala mais “humana”, cheia de erros, mas que não deixou que o sucesso e a celebridade lhe subissem à cabeça. Tal fórmula, acrescida das incontáveis frases de efeito motivacional que poderiam ter sido retiradas diretamente de O alquimista, tornam a leitura enervante, e não nos surpreendemos nem um pouco ao descobrir que a heroína pela educação é, de fato, uma fã de carteirinha do escritor brasileiro mais vendido de todos os tempos. Para terminar, o livro surpreende pela falta de espírito crítico de uma menina tão politizada, quando se trata de elogiar sem precedentes um outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, no qual ela parece não ver nem a sombra de boa parte da culpa pela presença dos talibãs em seu amado Paquistão. Ironicamente, os mesmos talibãs que quase conseguiram silenciá-la. Seria a Malala tão ingênua, ou tratar-se-ia apenas de um recurso editorial para fazer o livro mais apresentável, mais conforme à sensibilidade do leitor ocidental? A julgar pelo fato de que, em entrevistas e debates anteriores à publicação da biografia, Malala levantou sim a voz para criticar abertamente a intervenção militar e as políticas estadunidenses no Paquistão, tendo a me deixar levar pela segunda opção.

Obviamente, não estou a colocar em causa a importância da mensagem que Malala veio dar ao mundo, mas sim a parcialidade e o maniqueísmo de um livro feito para agradar as grandes massas. Um livro que perdeu uma excelente oportunidade de contextualizar o crescimento da força de grupos extremistas a partir de 2001, e de questionar o papel dos Estados Unidos e da “luta contra o terror” no crescente estado de guerra que domina o Oriente Médio.

Ao fim de uma leitura não completamente maçante, mas que mesmo assim me custou duas semanas, fica a lição: da próxima vez, eleger uma obra de literatura de verdade.

Título original: I Am Malala: The Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban

País: Paquistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5923-43-8)

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2351-73-7)

Número de páginas: 360 (edição brasileira), 352 (edição portuguesa)

 

 

Unburnable, de Marie-Elena John

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Algumas histórias nos prendem a partir do primeiro parágrafo. Um romance mesclando o realismo fantástico latino-americano e o pragmatismo estadunidense, com forte viés feminista, que narra a trajetória de mulheres peculiares numa ilha perdida no meio do Caribe, estava fortemente fadado a chamar minha atenção. Eis o meu estado de ânimo ao começar a ler Unburnable, da novata Marie-Elena John.

Escritora de primeira viagem, John não tenta mascarar os motivos pelos quais decidiu se embrenhar na literatura. A autora, originária da pequena Dominica (não confundir com a muito mais proeminente República Dominicana), desejava escrever romances comerciais enquanto era obrigada a abdicar da carreira para se dedicar aos filhos pequenos. Que seu primeiro rebento literário se tornasse tudo menos um romance comercial tradicional, foi fruto de uma evolução que nem ela própria havia previsto. Foi como se a história de seu país de origem a tivesse impelido a algo muito mais denso e ousado que suas pretensões iniciais.

Unburnable narra a história de três gerações de mulheres de uma mesma família, sobre as quais parece pairar uma maldição descendente de sua força e inadequação às regras do mundo machista. Matilde, a avó, foi uma espécie de curandeira descendente de escravos fugidos, vivendo numa espécie de quilombo regido pelo matriarcado e por forte reminiscência do animismo africano. Iris, a mãe, carregava em seu sangue a mescla do sangue negro com o índio nativo, e foi tragada à ruína devido a sua incomparável beleza e ao apetite sexual fora da normalidade. Lilian, a filha, em cujo sangue cafuzo da mãe se mesclava a descendência longínqua do branco colonizador, foi criada por uma mãe de adoção segundo os preceitos da igreja católica, sem sequer desconfiar que as ladainhas cantadas pelas crianças da escola sobre a feiticeira enforcada e o estupro com uma garrafa de Coca-Cola diziam respeito à mãe e à avó. Confrontada com a verdade, isola-se de suas origens num exílio de mais de vinte anos nos Estados Unidos, até que o desejo de descobrir a verdade sobre suas antepassadas – bem como o de provar a inocência da avó, enforcada sob a acusação de assassinatos em série – faz com que retorne à terra natal. Acompanhada, aliás, por uma espécie de namorado, cuja utilidade do ponto de vista narrativo ainda estou por descobrir.

Um enredo como este será capaz de tirar o fôlego de qualquer leitor, sobretudo se levarmos em conta o imenso trabalho historiográfico empreendido pela autora, que procura resgatar por meio de suas personagens um pouco da riqueza de seu país. Contudo, o que sua inexperiência não lhe permitiu fazer foi justamente aquilo que para muitos autores tivesse sido talvez o mais fácil: criar uma protagonista realmente carismática. Ao fim e ao cabo, sobretudo se tomarmos em conta o peso da personalidade de suas duas antepassadas, a heroína Lilian soa-nos simplesmente mimada, egoísta e neurótica. Como se o sangue forte de Matilde se tivesse diluído com o tempo, como tinta negra em contato com a água.

Aliado ao fato de que a trama deixa diversos pontos sem nó, sobretudo no que diz respeito ao final demasiado aberto, a falta de carisma de Lilian faz com que o livro perca uma série de pontos, sem contudo despencar num abismo. Ao pesarmos seus pontos fortes e fracos, chegamos à conclusão de que se trata de uma boa leitura – boa, mas não excelente.

Nada mal para uma primeira tentativa!

Título original: Unburnable

País: Dominica

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2006

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Harper Collins (ISBN: 978-006-1977-88-6)

Número de páginas: 302

Assando bolos em Kigali, de Gaile Parkin

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Alguns livros são amor à primeira vista. Outros, no entanto, exigem de nós um certo esforço, um apuramento do paladar de modo a apreciar sua grandeza. Assando bolos em Kigali, da autora zâmbia (branca) Gaile Parkin, não foi de maneira alguma um caso de paixão fulminante. Muito pelo contrário: seu excesso de small talks, suas descrições intermináveis, bem como seu tom excessivamente didatizante, chegaram mesmo a me tirar do sério nos primeiros tempos, e a julgar que nunca mais o acabaria. Até que eu me desse conta de que sua beleza reside justamente naquilo que me havia incomodado a princípio.

Assando bolos em Kigali é um romance  cuja estrutura se desenrola de maneira similar a uma telenovela, tendo como eixo central a figura materna e benfazeja de Angel, uma avó quarentona da Tanzânia, proprietária de uma pâtisserie no coração de Kigali, capital do Ruanda. Seus clientes, oriundos das mais distintas classes sociais, são estrangeiros expats, funcionários das Nações Unidas, esposas de diplomatas, mas também pessoas simples, como soldados, enfermeiras e professores locais, bem como imigrantes indianos, árabes e de boa parte da África Central. Atraídos por seus excelentes dotes culinários, bem como pelo seu inigualável talento como conselheira, essas pessoas encontram em Angel uma interlocutora fiel e discreta, a quem confiam seus maiores segredos em torno de uma boa xícara de chá. Através da história individual de cada um de seus clientes, a simpática business woman é capaz não apenas de lhes criar um bolo absolutamente sob medida, mas também sair por aí fazendo pequenos remendos na vida cotidiana, pequenos atos de simpatia e bondade capazes de transformar pouco a pouco o mundo à sua volta.

Tudo isso é narrado, como dito anteriormente, num excesso de detalhes e numa lentidão capazes de incomodar o leitor mais afoito, daqueles que se encontram sempre à espera do clímax. Verdade seja dita, não se pode falar aqui de um ponto alto propriamente dito, exceto talvez pelo desenvolvimento progressivo da própria protagonista. Ao se confrontar com os dramas e tragédias pessoais de cada um de seus fregueses – muitos deles envolvidos diretamente no massacre dos tutsis pelos hutus na década de 1990 –, Angel torna-se capaz de enfrentar seus próprios fantasmas, permitindo-se o privilégio do luto, bem como da perda e do perdão. E chega a ser belo, se não um tanto clichê, que o consolo para uma mulher tão sábia venha justamente das palavras de uma jovem prostituta, dessas que fazem pensar na trágica Geni de Chico Buarque.

Ao fim de mais de 300 páginas, não sei dizer se Gaile Parkin é uma autora de verdadeiro talento, ou se o sucesso de seu livro tenha sido fruto de sorte. Afinal, aquilo que me pareceu a princípio ser o seu maior defeito acabou por se tornar a sua principal qualidade. Pois os seus longos diálogos, repletos de repetições e de detalhes aparentemente desnecessários, fazem o que quase nenhum outro livro africano tinha sido até agora capaz de fazer: transportar-me diretamente ao centro da narrativa. Suas descrições detalhadas incidem na memória de modo a que vejamos as cenas como se de um filme se tratasse, e chegássemos mesmo a sentir o perfume dos bolos de Angel. A estrutura novelesca permite a criação de um panafricanismo consciente, de uma exaltação dos aspectos que unem os diversos povos que se entrecruzam, negando assim as barreiras forjadas (pelos brancos) que serviram por séculos para os separar. E, por fim, a falta de pressa da narrativa faz-nos lembrar a temporalidade distinta dos povos menos desenvolvidos, muito menos sobrepujados pelo inexorável relógio, muito mais dispostos a se dedicar àquilo que na vida realmente é importante. Como uma boa xícara de chá tomada com os amigos.

Como se não bastasse, ainda podemos louvar o fato de que o livro, de forte teor feminista, aborda sobretudo questões relacionadas ao empoderamento das mulheres, numa sociedade na qual o feminismo ainda é visto com olhos fortemente desconfiados.

Um livro, afinal, perfeito para o dia de hoje: Feliz dia das mães!

Título original: Baking Cakes in Kigali

País: Zâmbia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Globo (ISBN: 9788525046987)

Número de páginas: 320

Negro e prata, de Paolo Giordano

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Eu sempre fui uma rebelde. Na adolescência, embora passasse pelo menos 60% do meu tempo livre lendo, nunca lia aquilo que os professores pediam. Preferia (e ainda hoje prefiro) Crime e Castigo, Os três mosqueteiros e Jane Eyre a Amor de perdição, Iracema e Lucíola. Por isso, embora aos quinze anos já tivesse lido mais que todos os meus colegas de classe juntos, minhas notas nas chamadas “provas do livro”, baseadas como as deles em resumos, nunca foram as melhores.

Mas a menina rebelde tornou-se uma adulta com senso de responsabilidade. Por isso, embora já tenha lido a Itália, dediquei-me esta semana ao meu primeiro livro italiano lido em língua italiana. Tinha mesmo que ser: em breve, terei de fazer uma temida “prova do livro” sobre ele. Por sorte, a leitura de Paolo Giordano transformou o senso de obrigação num prazer inigualável. Tanto pelo deleite da bella língua em que foi escrito, quanto pela deliciosa descoberta de uma das personagens mais bem desenvolvidas da literatura contemporânea.

Eles a chamam Senhora A., ou Babette, jamais pelo seu verdadeiro nome. Viúva, 68 anos, sem filhos. Da vida privada, só lhe conhecemos um amigo anão. Ela é uma espécie de ama, misto de empregada doméstica, babá e secretária do lar, agregada tão íntima à família que eles mesmos (mas não ela!) se confundem, e já não sabem se ela trabalha de fato ou se os serve por prazer, como se se tratassem de filhos adotivos. Sua retribuição financeira lhe é paga semanalmente, segundo uma tabela obtusa que só a patroa compreende – e que ela nunca questiona. Mas mais que organizar a vida do jovem casal e de seu filho pequeno, a “nossa Babette” serve como pilar de sustentação para relações familiares que só se descobrirão frágeis e repletas de rancor quando ela se ausentar por definitivo.

Negro e prata é um romance curto, escrito em primeira pessoa segundo a perspectiva do pai da família, e trata de um intrincado jogo de relações humana tão conhecido por qualquer brasileiro, mas quase inexistente no Velho Continente – as relações entre patrões e empregados domésticos. Relações estas que se desdobram num caleidoscópio de sentimentos a partir do dia em que a Senhora A. telefona para lhes dizer que já não virá mais. Ela está doente, muito doente, e ainda lhe restam poucos meses de vida. Eventualmente, a doença fará com que eles a vejam pela pessoa que é, ou ao menos que se dêem conta de que nunca a tinham visto. Até lá, no entanto, eles terão de aprender a lidar com um forte sentimento de rejeição, como mimados filhos adultos postos para fora de casa, e reorganizar os escombros de suas vidas, mantidas intactas ao longo dos anos graças à presença pacificadora da ama do lar.

Nascido em Torino em 1982, Paolo Giordano é um autor jovem que escreve como um velho. Sua escolha acertada das palavras, sua linguagem límpida, porém repleta de entrelinhas, faz com que nos sintamos a ler um sábio de 80 anos, e não um menino de 30. Seu livro é um daqueles que quase já não se fazem, focados muito mais na profundidade psicológica de suas personagens que na trama propriamente dita. Pela sua análise ponderada das relações humanas, pela sua gentil dissecação dos laços de família, bem como pela acertada criação narrativa de personagens fortes e inesquecíveis, temos aqui um romance que merece ser saboreado como um bom vinho do Piemonte.

Embora tenha sido lançado há apenas dois anos, Negro e prata já foi traduzido para uma dezena de línguas, dentre as quais o português. Vale a pena conferir!

Mais tarde vos conto a nota da minha “prova do livro”!

Título original: Il nero e l’argento

País: Itália

Idioma original: Italiano

Ano de publicação: 2014

Edição portuguesa: Relógio d’Água (ISBN 978-989-6415-24-2)

Número de páginas: 120

Muito longe de casa, de Ishmael Beah

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Depois de quase 100 livros de países diferentes, é fácil a leitura se tornar repetitiva. Por isso, apesar das incontáveis críticas favoráveis, das traduções em todas as línguas possíveis, e das diversas edições em português (duas no Brasil), vinha adiando a leitura de Ishmael Beah. Afinal, este seria o meu terceiro livro sobre meninos-soldados num país africano.* O que ele me traria de novo?

Sabemos que a decisão sobre se um livro deve ou não ser publicado decorre sempre de interesses mercadológicos. Quanto mais polêmico o tema, maior o potencial de um livro vender, portanto maiores as chances de o autor ser editado. Esta limitação à lógica capitalista certamente condena milhões de escritores ao redor do mundo a jamais encontrarem uma editora, sobretudo quando se trata de autores oriundos de países excluídos do mapa cultural. Como resultado, grande parte dos romances africanos que tenho encontrado inserem-se fatidicamente nas mesmas velhas temáticas: a guerra, o massacre, e a miséria. Não que não se trate de sujeitos importantes. Contudo, está claro que a literatura africana não é – e nem poderia ser – só isso! Onde está a boa e bela literatura desengajada, atemporal e universal?

À revelia desta e de outras reflexões, chegou esta semana a vez de Serra Leoa. E é preciso dizer que, ao explorar mais do mesmo, Muito longe de casa traz-nos sem sombra de dúvidas algo ainda não visto. Afinal, não estamos diante de um romance, mas sim de um testemunho (palavra que eu odeio, porque geralmente exclui o valor poético e literário de uma obra) em primeira pessoa, escrito por não apenas uma testemunho ocular, mas também por um agente diretamente envolvido na guerra que nos tenta reconstruir. Mas não é só isso: a boa surpresa é que a experiência de Beah como soldado abarca menos de 20% do livro. Antes disso, temos um detalhado relato do que foi a sua vida desde que seu vilarejo foi tomado pelos rebeldes, perambulando esfomeado por cerca de um ano, a fugir da morte em cada esquina. Depois, uma igualmente extensa exposição de seu lento processo de redenção, de sua ascensão a porta-voz da Serra Leoa numa conferência da ONU em Nova Iorque, e da sua fuga à vizinha Guiné Konakri quando a guerra voltou a bater na sua porta.

Embora alguns dos fatos narrados sejam tão inacreditáveis que quase se poderia pensar numa peripécia literária (por exemplo, o fato de o vilarejo onde sua família se encontrava ter sido inteiramente destruído apenas poucos minutos antes de ele lá chegar, depois de um ano de separação), o que Ishmael Beah alcança com seu relato pungente é justamente o oposto do que eu havia temido: uma total e absoluta desromantização da guerra e de seu suposto heroísmo. Em vez disso, o ex-menino-soldado apaixonado por Shakespeare e de forte veia poética oferece-nos um relato sincero e sem rodeios das consequências de um conflito para os seus envolvidos, sobretudo no que diz respeito à dissolução do humano e à banalização da morte.

Pelo seu caráter honesto, mas também pelo fato de que se trata de um livro realmente envolvente e bem escrito, Muito longe de casa deveria se tornar uma leitura obrigatória.

* Para quem perdeu as outras resenhas:

Alá não é obrigado, de Ahmadou Kouroumá (Costa do Marfim)

Beneath the Darkening Sky, de Majok Tulba (Sudão do Sul)

 

Título original: A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier

País: Serra Leoa

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Título brasileiro: Muito longe de casa: Memórias de um menino-soldado

Edição brasileira: Ediouro (ISBN 978-850-0021-21-3)

Edição brasileira 2: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5925-42-5)

Título português: Uma longa caminhada: Memórias de um menino soldado

Edição portuguesa: Casa das Letras (ISBN 978-972-4617-27-5)

Número de páginas: 224 (Ediouro), 256 (Companhia das Letras), 284 (edição portuguesa)