O menino que descobriu o vento, de William Kamkwamba

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Algumas histórias de vida são tão impressionantes que, caso fossem narradas num romance, muita gente torceria dizendo que são inverossímeis. Dos confins do Malaui, esse pequeno e (hoje) relativamente próspero país espetado no sudeste do continente africano, vem uma dessas histórias inspiracionais, dessas que mais parecem conto da carochinha: O menino que descobriu o vento.

William era apenas mais um menino sonhador e irrequieto, oriundo de um paupérrimo vilarejo agrícola, mas cuja curiosidade e capacidade criativa o destacavam da massa de crianças pobres e descalças ao redor. Obrigado a abandonar a escola devido à falta de meios de seu pai para pagar as elevadas mensalidades, o menino ainda assim não desistiu de perseguir o seu sonho de adquirir conhecimentos, devorando a esparsa biblioteca improvisada que uma missão de caridade havia deixado no local. Fascinado por manuais de física e invenções, o menino descobriu os milagres da energia eólia e, com a ajuda de dois amigos e utilizando o tempo livre que lhe sobrava para explorar o ferro-velho local, conseguiu construir uma torre imensa, uma verdadeira aberração de ferro soldado, a qual, diante da risota incrédula de todo o vilarejo, conseguiu transformar na primeira fonte de energia elétrica de toda aquela região do país.

De fato, a história de William Kamkwamba é tão impressionante que, ao ser descoberta, foi capaz de transformar não apenas a sua vida, mas a de todos os nela envolvidos. Adorado pelos repórteres, mas sem o menor auxílio do Estado ou dos diretores de escola locais, sua fortuna só seria traçado após um convite para a renomada conferência TED Global, atraindo a atenção das mídias internacionais e de generosos mecenas gringos. E o seu discurso emocionado, narrado em um inglês alquebrado que ainda torna mais incrível que ele tenha sequer sido capaz de entender os manuais de física que usara, está lá para todo mundo ver, reproduzido milhões de vezes graças às maravilhas da internet.

Mas essa história poderosa de luta e sobrevivência, esse conto de fadas meritocrático de um self-made boy saído das periferias do mundo globalizado, também esconde uma crítica ferrenha às elites africanas, cuja incapacidade de gerir um país submetem seu povo a um constante flerte com a morte, ao desespero da fome e à impotência da miséria, ofuscando os maiores talentos e os condenando ao esquecimento. Crítica justíssima, diga-se de passagem, embora incomode que, no entretempo, o branco seja mostrado como um herói salvador, uma espécie de fada azul capaz de transformar o inventorzinho africano num menino de verdade, abrindo-lhe as portas para um mundo mais digno.

Se desta vez não tenho palavras para a qualidade literária do texto é porque, mais uma vez, se trata de um livro escrito a duas penas, com a ajuda de Brian Mealer, um jornalista estrangeiro. O mesmo, aliás, que transformaria a narrativa num livrinho ilustrado para crianças – mais um sinal de que a trajetória de Kamkwamba se assemelha a um conto de fadas, uma ode ao deus da meritocracia, cuja mensagem consiste em “quem não desiste, persevera”. Toda a gente sabe que não é bem assim.

De todas as formas, se lido com um olhar crítico, não se pode deixar de dizer que se trata de um livro realmente interessante, e de uma história de vida ainda mais, e que por isso recomendo.

 

Título original: The Boy Who Harnessed the Wind: Creating Currents of Electricity and Hope

País: Malaui

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Título brasileiro: O menino que descobriu o vento

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-853-9002-55-9)

Título português: O rapaz que prendeu o vento

Edição portuguesa: Presença (ISBN 978-972-2343-51-0)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 304 (edição portuguesa)

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A evolução de Calpurnia Tate, de Jacqueline Kelly

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Desde que ouvi falar de Calpurnia Tate, o livro tornou-se-me uma pequena obsessão. Encaixá-lo no meu plano geográfico de leitura até que não era difícil, mas não seria algo desonesto? Afinal de contas, mesmo que sua autora seja originária da Nova Zelândia, a história se passa nos confins do Texas. Por fim, venceu a curiosidade: mesmo consciente de que existem centenas de outros livros muito mais neozelandeses à espera de serem lidos, desta vez teve mesmo de ser.

A evolução de Calpurnia Tate é o primeiro de dois romances históricos infanto-juvenis protagonizados por Calpurnia, ou Callie Vee, uma menina de onze anos que nada tem de conformista. Oriunda de uma família de abastados fazendeiros, Callie cresce como a única filha ao lado de seis irmãos, três mais velhos e três mais novos, tornando-se, graças à ausência de modelos femininos, numa verdadeira maria-rapaz. Em vez de dedicar seu tempo a tarefas convencionalmente femininas, Calpurnia prefere correr livre pelos campos e, estimulada por um avô misantropo, dar asas à sua curiosidade científica e investigar os mistérios da natureza. Tarefa esta em nada reprovável, não fosse pelo fato de estarmos a falar do ano de 1899, uma época em que pouco se esperava das mulheres além de que soubessem costurar, bordar e manejar uma cozinha.

De maneira geral, pode-se dizer que Calpurnia Tate é um livro bem-sucedido: a história é bem escrita, a narrativa em primeira pessoa funciona de fato, e a trama, situada em plena virada do novo século, remete seus jovens leitores a uma época que pode lhes parecer tão distante quanto a Idade Média. Uma época na qual as mulheres tinham poucos direitos, mas na qual, por outro lado, tudo parecia possível: com o advento do telefone, o avanço das vias telegráficas, bem como a invenção do automóvel, antevia-se uma modernidade latente e irrefreável, repleta de maravilhas capazes de revolucionar a micro e a macro-história. Nesse sentido, trata-se de um romance que eu sem dúvida recomendaria aos meus alunos – e sobretudo alunas – de doze anos de idade. Mas, se é assim, qual o problema?

Desta vez, o problema, na verdade, não está no livro, mas sim fora dele: a propaganda, eterna alma do negócio e algoz das nossas expectativas, pintou o romance de Kelly com cores muito diversas, vendendo-o como se fosse um Mundo de Sofia das ciências naturais. Ora, numa época como a nossa, na qual cai por terra o mito da pretensa igualdade entre os sexos, e se tenta reinventar o papel da mulher na sociedade, um livro que fizesse despertar o interesse das meninas pelos mistérios do universo poderia ter sido muito bem vindo. Se bem realizado, ele poderia ter mesmo sido um contributo essencial para fazer despertar na nova geração um interesse por carreiras tipicamente masculinas, revisitando os velhos paradigmas que confinam o “sexo frágil” às ciências humanas. No entanto, realizar tal proeza não é nem nunca foi o intuito de Kelly, muito mais preocupada em oferecer-nos um panorama das relações familiares e dos pequenos dramas cotidianos de uma menina fascinada por Darwin.

Apesar das expectativas frustradas, é preciso admitir que A evolução de Calpurnia Tate é, em seu gênero, um livro bom, que certamente cumprirá o seu intuito de entreter o jovem público ao qual está destinado. No entanto, é inevitável lamentar a oportunidade desperdiçada de fazer algo realmente inovador. Afinal, se quiséssemos tão-somente descobrir a realidade das crianças do século XIX, poderíamos ter ficado com Uma casa na campina.

A revolução feminista ainda não foi desta vez.

 

Título original: The Evolution of Calpurnia Tate

País: Nova Zelândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Única (ISBN 978-856-7028-41-5)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6660-99-4)

Número de páginas: 384 (edição brasileira), 248 (edição portuguesa)

 

 

 

The Screaming of the Innocent, de Unity Dow

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Alguns livros causam uma impressão tão estranha que é preciso vários dias, por vezes mesmo meses, para digeri-los totalmente. Poucas vezes um livro me deixou tão confusa quanto O grito dos inocentes [tradução livre], da autora botsuana Unity Dow.

Em seu segundo romance, Dow remete-nos a um país do qual quase nunca ouvimos falar, e cuja imagem ela apresenta por meio do contraste entre extremos. Por um lado, acompanhamos a tentativa da juventude citadina de se auto-afirmar como um país moderno e civilizado, diferente, cito, “desses países africanos por aí”. Por outro, essa mesma modernidade auto-imposta é atropelada por males universais, como o machismo e a corrupção, e por outros (assim espero) nem tanto, como uma rusticidade retrógrada, bárbara e supersticiosa, materializada na crença cega no poder da magia negra.

Logo nas primeiras páginas, travamos conhecimento com um homem de negócios considerado, sob todos os aspectos, um “homem de bem”. Enquanto leva a mimada filha mais nova para passear, ele observa uma menina pobre, mal chegada à puberdade, a brincar inocentemente. Pouco depois, a mesma menina será dada como desaparecida, e sua morte explicada pela polícia como consequência do ataque de animais selvagens. No entanto, tudo indica que ela fora vítima de algo muito mais brutal: um assassinato ritual (ritual murder), no qual a presa ainda viva tem os seios, as axilas e as partes genitais decepados, para serem em seguida consumidos pelos poderosos locais, como meio de aumentar ainda mais o seu poder. Cinco anos mais tarde, as únicas provas do crime, que haviam convenientemente desaparecido, são reencontradas por uma estagiária no hospital da aldeia onde vivia a menina, o que leva à revolta dos aldeões, bem como a uma eventual tentativa de negociação com as autoridades.

A fim de tematizar o assunto de chocante atualidade, a autora optou acertadamente por uma narrativa em terceira pessoa, que transita de uma personagem a outra. Como resultado, temos contato com diferentes pontos de vista, que são ao mesmo tempo complexos fragmentos de realidades divergentes, formando um dialogismo quase bakhtiniano. Ademais, a autora preocupou-se em explorar o histórico de diversas personagens secundárias, narrado por meio de flashbacks, o que nos permite percebe-las em sua complexidade, e vislumbrar um pouco mais de uma realidade que beira o absurdo. Nesses momentos, fica latente a crítica político-social intendida por Dow, também conhecida por seu trabalho juíza e ativista dos direitos humanos.

Contudo, embora a trama seja por si só um motivo para estranhamento, não é dela que descende o mal-estar causado pelo livro. O que nos parece uma escolha muito menos acertada é o fato de que as personagens que tentam desvendar o mistério são todas surpreendentemente imaturas: estudantes de liceu recém-formadas ou advogadas em início de carreira, cuja frivolidade (estereo)típica da idade conferem ao livro breves interlúdios de um humor inusitado e mesmo incômodo.

A julgar pela acurada construção das personagens e pela boa condução da pluriperspectividade narrativa, somos levados a acreditar que deve haver alguma intenção por trás dessa escolha muito pouco ortodoxa. No entanto, ao cabo de pouco mais de 200 páginas, tenho que confessar que não cheguei a descobrir que intenção era essa. Culpa da autora, culpa da leitora? Eis um mistério que não me arrisco a tentar resolver.

Título original: The Screaming of the Innocent

País: Botsuana

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2002

Edição em português: não há

Edição inglesa: Spinifex (ISBN: 978-187-6756-20-8)

Número de páginas: 215 (edição inglesa)

A cidade do sol, de Khaled Hosseini

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Estados Unidos, logo após os atentados de 11 de setembro de 2001: toda a população árabe, e particularmente a afegã, sofreu enormes represálias simplesmente pelo fato de existir e viver nessa terra estrangeira. Mulheres vestindo o véu eram agredidas nas ruas, meninos em idade escolar ostracizados como se portassem em suas pequenas mochilas uma bomba pronta a dizimar cidades inteiras. Todos eles pareciam portar o estigma do mal, herdeiros de Osama Bin Laden e dos talibãs. Nesse contexto particularmente difícil, Khaled Hosseini, um escritor afegão radicado nos Estados Unidos, conseguiu realizar aquilo que parecia ser um milagre: transformar um romance belo e simples, ambientado nas ruas de Kabul, num best seller que abriria a mente – e o coração – de milhões de leitores à história recente e à cultura desse país marcado pelo sofrimento. Trata-se de “Os caçadores de pipas”, transformado pouco mais tarde num filme de igual sucesso.

Alguns best sellers e muitos milhões de dólares mais tarde, o porta-voz oficial do Afeganistão no chamado “primeiro mundo” lança um novo romance, aclamado pela crítica e festejado pelos leitores. “A cidade do sol” narra a história de vida de duas mulheres deveras diferentes, Mariam e Laila, cujo destino se entrecruza em consequência da guerra. Mariam, uma bastarda, foi criada num casebre isolado no alto de um monte, e mal teve contato com o mundo até ser coagida a casar-se com um homem trinta anos mais velho em seguida ao suicídio da mãe. Laila, vinte anos mais nova, cresceu perambulando pelas ruas de Kabul ao lado de um amigo perneta, gozando todas as liberdades de ser filha de um ex-professor universitário, em plena época da dominação soviética. Até que o destino fizesse de Laila uma órfã obrigada a tornar-se a segunda esposa do marido de Mariam, as duas certamente pouco teriam a dizer uma à outra; as circunstancias fazem, contudo, nascer da miséria e da tragédia uma amizade com laços inquebrantáveis.

Mulheres belas, oprimidas, e cheias de sonhos, vivendo numa sociedade falocêntrica em tempos de guerra, obrigadas a transformarem-se em verdadeiras mártires em nome dos filhos – sejam eles naturais ou eletivos: eis, colocada em poucas linhas, a fórmula de um romance de sucesso. Tudo isso, é claro, associado às inegáveis capacidades de Hosseini como contador de histórias, de tal forma proeminentes que o leitor dificilmente botará o livro de lado antes de chegar à última página. Mas, então, onde está o problema?

O que falta, na minha opinião, aos romances de Khaled Hosseini, é algo que o grande público estadunidense dificilmente aceitaria: profundidade histórica. Ao falar da guerra e do cenário que tanto fascina e assusta os leitores – a ascensão dos talibãs -, Hosseini deixa claro quem são mocinhos e bandidos, e evita tocar em questões essenciais que nos permitiriam entender o intricado contexto no qual os terroristas do 11/09 se inserem. Como, por exemplo, a própria (e não pouca) participação dos Estados Unidos nesse imbróglio. O resultado é uma literatura naif, repleta de belas e tristes histórias de amor e amizade, situadas num cenário exótico e distantes, mas que perde uma oportunidade essencial de fazer aquilo que a verdadeira boa literatura geralmente costuma fazer: um convite à reflexão.

Como literatura de entretenimento, “A cidade do sol” é certamente uma escolha acertada, que não deixará de extrair bons baldes de lágrimas do mais cético dos leitores. Mas é só. Embora – e eis o que é imperdoável – pudesse ter sido muito mais.

Título original: A Thousand Splendid Suns 

País: Afeganistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Titulo brasileiro: A cidade do sol

Edição brasileira: Nova Fronteira (ISBN: 978-852-0935-52-1)

Título português: Mil sóis resplandecentes

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2339-08-7)

Número de páginas: 368 (edição brasileira), 324 (edição portuguesa)

Artemis Fowl, de Eoin Colfer

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O que esperar de um livro envolvendo duendes e fadas, cujo protagonista é um gênio do crime de onze anos de idade? Ao ouvir falar da famosa série irlandesa Artemis Fowl, pensei que seria a leitura perfeita para as férias: um livro relativamente curto (cerca de 300 páginas), fácil e rápido de ler, que far-me-ia reviver, embora com espírito crítico, as impressões do primeiro Harry Potter há mais de uma década.

Pensando bem, o enredo poderia ter dado uma noção do que viria a seguir. Artemis II, um milionário mimado, descende de uma família de vigaristas profissionais, e se encontra à disposição de seus maiores devaneios em seguida ao desaparecimento do pai e à loucura da mãe. Acompanhado tão somente por seu mordomo fisiculturista Butler e a irmã adolescente deste, o menino tristonho e sem amigos decide empreender uma façanha ousada a fim de recuperar a riqueza da família: roubar o ouro das fadas. Para isso, consegue usurpar um exemplar do livro mágico do povo belo, que traduz com a ajuda de um computador superpotente. Enquanto isso, nas profundezas da terra, a agente especial da LEP (a polícia dos leprechaums) Holly recebe uma importante missão junto ao “povo da lama” (ou seja, nós, os humanos), e em um momento de distração acaba sendo raptada pelo ardiloso Artemis. Nem toda a tecnologia e sabedoria milenar do povo subterrâneo é capaz de proteger o mundo mágico das artimanhas do anti-herói mais antipático da história da literatura.

A milionária série infanto-juvenil Artemis Fowl, cujo sucesso pode ser comparado ao de outras do gênero, como Desventuras em Série, insere-e num nicho comercial bastante específico: o dos leitores pré-adolescentes, uma camada da população cada vez mais ativa no mercado de consumo. Como tal, seria de se esperar que estivéssemos diante de um “easy read”, o que no entanto não forçosamente quereria dizer que seus livros fossem de tal forma descartáveis. Ora, a julgar pelo primeiro, é mesmo este o caso. Não existe profundidade psicológica, nenhuma das personagens principais é minimamente carismática, e a história poderia ser considerada estrambólica até mesmo por uma criança da escola primária. A começar pela facilidade absurda com a qual o mimado e intragável menino humano consegue driblar um povo cujas capacidades bélicas e tecnológicas deveriam, a princípio, ser incorruptíveis. Basta dizer que o mordomo truculento consegue dar cabo facilmente de um troll – portanto muito diferente daqueles a que estamos habituados na tradição da literatura fantasy (O Senhor dos Anéis, Harry Potter e companhia). Aos poucos, tem-se a impressão de que o único motivo pelo qual o ouro das fadas nunca foi roubado antes é ninguém jamais ter reparado nelas. E, na falta de personagens suficientemente simpáticas com quem nos identificar e para quem torcer, não seria de surpreender se resolvêssemos simplesmente fechar o livro.

Será esta resenha cínica e rabugenta um sinal da velhice de sua autora? Será a sua vontade incessante de dar umas boas chineladas no traseiro doprotagonista uma amostra de que já não tenho mais idade – ou disposição – para entender um livro destinado ao público jovem? É possível, mas duvido. Afinal, embora não seja uma fã assumida do gênero, continuo a saber apreciar os bons exemplares da literatura infanto-juvenil. Simplesmente, o primeiro livro da série Artemis Fowl não é um deles.

Título original: Artemis Fowl

País: Irlanda

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2001

Título brasileiro: Artemis Fowl: O menino prodígio do crime

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1060-88-4)

Título português: Artemis Fowl: O ouro das fadas

Edição portuguesa: Dom Quixote (978-972-2022-24-8)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 264 (edição portuguesa)

Beneath the Darkening Sky, de Majok Tulba

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Há poucos meses, ao publicarmos a resenha de Allah n’est pas obligé, do escritor marfinense Ahmadou Kourouma, anunciamos para breve a leitura de outro livro sobre a triste realidade dos meninos-soldados. Pois esse dia chegou mais cedo que esperávamos: Beneath a Darkening Sky – ou, em tradução livre, “Debaixo de um céu escuro” –, primeiro romance do escritor sul-sudanês Majok Tulba, surpreende ao aliar beleza e crueldade, de modo a fazer um buraco até mesmo em corações de pedra.

Protagonizado pelo pequeno Obinna, um menino feliz e sonhador de apenas nove anos, o livro poderia ser classificado como um “romance de formação em tempos de guerra”. Numa bela madrugada, o menino presencia do alto de uma mangueira a invasão de seu vilarejo por rebeldes que incendeiam barracos, decapitam os homens a golpes de facão, violam as mulheres, e levam com eles as crianças maiores como futuros soldados. Ao testemunhar a agressão da própria mãe, Obinna é descoberto e submetido ao teste para ver se já é suficientemente grande para ser recrutado: ser mais alto que um fuzil Kalashnikov (ou seja, cerca de 88 centímetros). A partir daí, a vida do menino que sonhava tornar-se médico é assinalada pelo medo, por torturas diárias, pela presença constante da morte de seus companheiros de sina, e pela impossibilidade de fuga devido às minas antipessoais. Durante muito tempo, Obinna lutará com todas as forças para manter, se não a identidade, ao menos parte de seus valores, num mundo em que a piedade é também sentença de morte. Até que o destino o obriga a disparar o primeiro tiro… Haverá, enfim, uma possibilidade de redenção?

Ao contrário do que ressentimos com Allah n’est pas obligé, Beneath a Darkening Sky promove a identificação imediata do leitor com a personagem principal, sobretudo devido à profundidade psicológica de Obinna, e ao fato de o autor ter feito dele uma criança tão comum: um menino franzino e estudioso, vivendo em um lar amoroso, com planos e sonhos para o futuro. Nesse quesito, é notável a tentativa do autor de mudar o tom da voz narrativa para assinalar a transformação forçada imposta à criança, embora a quebra demasiado brusca se confronte com o credível.

A todos aqueles que tiverem a louvável iniciativa de ler este livro, recomendo assistirem em paralelo uma entrevista com o autor, radicado na Austrália desde 2001, cujo destino poderia ter sido aquele de seu protagonista. Com uma humildade impressionante, Tulba nos conta que também foi colocado ao lado de uma AK-45, mas que felizmente ainda era menor que a arma. E faz um alerta: por mais brutais que sejam as cenas de violência de Beneath the Darkening Sky, o livro não contém exageros. Pelo contrário: ele evitou mencionar suas memórias mais pesadas a fim de poupar a sensibilidade do leitor ocidental. A julgar por suas palavras, acusar o livro de sensacionalismo seria imitar o comportamento de políticos do mundo todo: dar as costas para a dura realidade africana.

Talvez este não seja o livro perfeito, mas é certamente o perfeito livro para chorar, se revoltar e refletir.

Eis aqui a entrevista:

Título original: Beneath the Darkening Sky

País: Sudão do Sul

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira/portuguesa: não há

Edição inglesa: Oneworld Publications (ISBN 978-178-0742-41-0)

Número de páginas: 256 (edição inglesa)

O menino que via demônios, de Carolyn Jess-Cooke

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Histórias que se situam no limiar entre a doença mental e o sobrenatural são por natureza perturbadoras. Histórias que exploram este tema sob a perspectiva de uma criança são capazes de causar ainda mais desconforto. Acrescente a isso uma boa dose de trauma coletivo (uma guerra civil recente com três décadas de duração), e certamente terá a fórmula para arrepiar os cabelos de jovens leitores do mundo todo.

Alex Broccoli é um menino pobre, muito pobre, que vive com a mãe depressiva num decrépito casebre na periferia de Belfast. Habituado à solidão, seu único “amigo” é um demônio chamado Ruel, que assume formas distintas de acordo com seu estado de espírito. Após presenciar uma nova tentativa de suicídio da mãe, Alex é atendido pela doutora Anya, uma especialista em esquizofrenia infantil recém chegada de volta ao país natal, que acredita que os “Problemas” que marcaram a história recente da Irlanda do Norte exercem uma forte influência sobre a saúde mental de seus habitantes. Anya identifica-se de imediato com o menino, que lhe faz pensar na filha que tirou a própria vida durante um surto de esquizofrenia aos doze anos de idade, e vê em Alex e seus demônios uma oportunidade única de se conciliar com seu passado.

A trama é narrada em paralelo, sob a forma de entradas num diário, a partir de duas perspectivas distintas: a do perturbado menino e a da não menos atormentada doutora. Trata-se de um recurso interessante, que contrapõe as diferentes percepções da realidade, e contrasta a visão científica da médica à experiência empírica do menino. Embora muitos dos elementos sobrenaturais sejam facilmente explicáveis por meio da psicologia, o livro também nos reserva um grande número de pontos sem nó, desses que a razão não consegue explicar. Afinal, demônios existem?

Infelizmente, aqui termina o lado positivo do livro. É que, do ponto de vista estrutural, o romance de Jess-Cooke está carregado de pequenas falhas. A começar por um estilo narrativo alquebrado, que favorece os saltos temporais, e que não dá ao leitor o direito a nem o mais curto momento de distração: num piscar de olhos, encontramo-nos há três horas, ou três meses, atrás, sem sequer nos termos dado conta de como isso aconteceu. Às vezes, temos a impressão que a culpa não é da autora, mas sim de cortes (mal-)feitos por um editor ávido em reduzir o número de páginas – por exemplo, quando Anya menciona “ainda estar usando seu tênis de corrida”, sem ter antes feito nenhuma alusão a ter estado a correr. A isso, acrescentam-se incontáveis incoerências e informações cruzadas, que deixarão qualquer leitor observador com a pulga atrás da orelha: Primeiro, a mãe de Alex fora adotada quando tinha a sua idade; depois, aos 15 anos – Alex tem apenas dez. Estranho? Basta fazer as contas!

Seriam essas perturbações intencionais? Um reflexo do alterado estado de espírito de seus protagonistas? Ou simplesmente falhas no enredo? É escusado dizer que a última hipótese não pode ser totalmente descartada. Embora a tradução brasileira, repleta de expressões pobres e de erros de concordância, também não favoreça uma visão mais favorável do livro. Lamentavelmente, o número de defeitos iguala-se ao de qualidades, fazendo com que O menino que via demônios, apesar da trama cativante e difícil de largar, não passe no crivo de leitores ligeiramente mais exigentes. Eis uma boa leitura para um público jovem e pouco experiente, mas só.

Para se fazer grandes livros, não bastam os grandes enredos.

 

Título original: The Boy Who Could See Demons

País: Irlanda do Norte

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Rocco (ISBN 978-853-2528-13-1)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 384 (edição brasileira)

Crime, de Irvine Welsh

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Mesmo quem não conhece Irvine Welsh já deve ter ouvido falar do seu trabalho. Monstro sagrado da literatura de submundo, o escritor escocês de longa carreira é autor do livro que deu origem a Trainspotting, filme que lançou a carreira de Ewan McGregor nos anos 1990. Fascinado por temas polêmicos como o mundo das drogas, a pornografia, a corrupção e a violência gratuita, seu décimo livro, intitulado simplesmente Crime, penetra nas águas turbas de um tema ainda mais controverso: a pedofilia.

Frequentemente citado como o seu trabalho mais perturbador, o livro é protagonizado pelo atormentado investigador policial escocês Ray Lennox, que chega à cidade de Miami com a noiva a fim de organizar os preparativos para o iminente casamento após um colapso nervoso. Especialista em crimes sexuais, Lennox se encontra à beira do abismo após o desfecho trágico de sua mais recente investigação: o desaparecimento de uma menina de apenas sete anos. Torturado pelo fantasma da criança, bem como pelo inexorável sentimento de culpa por não ter sido capaz de salvá-la, o acaso lhe dá uma nova chance quando seu caminho se cruza com o da pequena Tianna, uma vítima de abusos sexuais de apenas dez anos. Lennox, que não medirá esforços para protegê-la daquilo que mais tarde descobrirá tratar-se de uma rede nacional de pedófilos, será ele mesmo tentado por essa desajeitada Lolita incapaz de expressar afeto de outra forma que não oferecendo o próprio corpo.

O livro, que alterna a narrativa convencional do presente a flashbacks em segunda pessoa, nos quais o leitor é convidado a penetrar nas camadas mais profundas da mente atormentada de seu protagonista, é certamente seco, cru e direto, contendo passagens claustrofóbicas e difíceis de digerir. Nele, estão ausentes boa parte do cinismo e do humor negro característicos de Welsh, uma vez que o próprio tema não deixa margem a gracejos. Por outro lado, temos na persona de Lennox uma espécie de justiceiro alheio ao próprio ego, capaz de se autodestruir sem hesitar em nome daquilo que considera certo. Aos poucos, o leitor se apercebe dos motivos de sua obsessão em defender crianças vítimas de agressão sexual: se todo homem carrega em si a semente da maldade, a dele só está voltada para si mesmo. E isso faz com que Crime, apesar de seu tema sinistro, traga uma mensagem positiva: trata-se de um livro sobre a procura de redenção através do altruísmo.

O leitor que optar por ler o romance em seu idioma original confrontar-se-á com uma inevitável barreira: o fato de que Welsh adora ressaltar o sotaque de suas personagens, grafando os diálogos “foneticamente”. Particularmente, demorei um pouco a percebeu que Skatlin era simplesmente a maneira com a qual a pequena Tianna pronunciava o nome do país de origem do seu protetor. Mas que fique como um desafio: embora complexa, a linguagem de Welsh é uma das razões que fazem de Crime um livro que não se pode deixar de ler.

Confira o trailer do livro:

Título original: Crime

País: Escócia

Idioma original: inglês

Ano de publicação:

Edição brasileira: Rocco (ISBN 978-853-2526-73-1)

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN 978-972-5648-11-7)

Número de páginas: 416 (edição brasileira), 464 (edição portuguesa)

Alá não é obrigado, de Ahmadou Kourouma

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A realidade dos meninos-soldados no final do século XX é um dos temas mais recorrentes da produção cultural africana, tendo dado origem a romances, documentários, filmes e memoirs.* Trata-se de um daqueles temas polêmicos de forte tendência sensacionalista e sucesso garantido, como a sobrevivência dos judeus na Segunda Guerra Mundial, os casamentos forçados no Oriente Médio, e o tráfico de mulheres para a prostituição internacional. Afinal, que grande leitor não se deixa seduzir por uma narrativa em primeira pessoa sobre uma das maiores mazelas do nosso tempo?

Birahima é um menino guineense “sem medo nem censura”. Apesar da miséria do meio em que vive, ele cresce com pai e mãe até por volta dos dez anos, quando a mãe deficiente falece depois de uma agonia de anos. Fica decidido então que ele será criado por uma tia materna que vive na Libéria, mas a tia, que foge em carreira aberta ao ouvir o rumor da chegada do ex-marido, esquece de levar o menino com ela. Como mais ninguém se habilitasse a atravessar os cenários de guerra de Sierra Leone e Libéria para acompanhar o menino numa trajetória suicida, ele acaba sendo acompanhado por um conhecido trambiqueiro, o “multiplicador de bilhetes” Yacouba, que se faz passar por feiticeiro muçulmano a fim de cair nas graças dos senhores de guerra que eles vão cruzando pelo caminho. Trata-se de uma viagem sem volta, de um rito iniciatório durante o qual o então inocente Birahima confrontar-se-á com um mundo de uma crueza inimaginável, repleto de estupros, drogas, torturas e massacres, tornando-se ele mesmo um menino-soldado.

Mas quem lê apenas a sinopse dificilmente ganha uma ideia do romance em questão. O livro, que ganhou o disputado prêmio Renaudot do ano 2000, retraça esse período trágico da história da África Ocidental sob a perspectiva de uma criança, que decide, com a ajuda de alguns dicionários, retraçar ele mesmo a sua biografia. E o grande mérito do escritor marfinense Ahmadou Kourouma consiste em faze-lo de forma direta, sem qualquer emotividade ou sensacionalismo, utilizando uma perspectiva tão distanciada que poderíamos interpretar como consequência de stress pós-traumático e distúrbio dissociativo. Se Allah não é obrigado a ser justo com os seres a quem dá vida, é preciso enfrentar o sofrimento com estoicismo. Eis a mensagem semi-religiosa deste romance híbrido e profano.

Mas que o leitor não pense que se trata de uma leitura facilmente digerível. Muito pelo contrário: ler Alá não é obrigado é uma verdadeira tortura! Não porque a violência narrada seja difícil de suportar, mas sim porque a voz narrativa simplesmente não convence. O romance é permeado de digressões de cunho histórico-político, as quais servem sim para contextualizar a leitura, mas que mais deveriam estar em notas de rodapé. Talvez o autor, que já tinha quase oitenta anos quando o escreveu, simplesmente já não fosse capaz de se colocar na pele de uma criança. O resultado é um relato sociológico disfarçado de romance. Uma pena!

*Para quem quiser saber mais sobre o assunto, eis uma pequena bibliografia: Johnny Mad-Dog (filme de 2008), Rebelle (excelente filme de 2012), A Long Way Gone, de Ishmael Beah (memoir de um ex-soldado de Sierra Leone), e First Kill Your Family (livro-documentário do jornalista Peter Eichstaedt sobre o exército de crianças de Joseph Kony no Uganda). O blog oquevcestalendo resenhará brevemente – e inevitavelmente – outros textos sobre meninos-soldados.

 

Título original: Allah n’est pas obligé

País: Costa do Marfim

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2000

Título brasileiro: Alá e as crianças-soldados

Edição brasileira: Estação Liberdade (ISBN 978-857-4480-82-4)

Título português: Alá não é obrigado

Edição portuguesa: ASA (ISBN 978-972-4133-14-0 )

Outras edições: francês (Seuil, ISBN 978-202-0525-71-8) inglês (Knopf, ISBN 978-030-7793-84-3)

Número de páginas: 232(edição brasileira), 176 (edição portuguesa)

Persépolis, de Marjane Satrapi

Satrapi_Persepolis

Marje é uma menina como outra qualquer. Ou talvez não exatamente. Filha única de intelectuais de esquerda, seu livro preferido é uma versão em quadrinhos de Marx e Descartes. Com apenas dez anos, é dona de uma língua afiadíssima, sonha em reparar as injustiças do mundo, e deseja, quando crescer, tornar-se profeta. Marje não vê problemas em dizer o que pensa, e foi educada pelos pais de forma a não conhecer limitações – nem por ser mulher, nem por ser iraniana. Ou seja: tudo exatamente ao contrário dos preceitos da Revolução que transformou seu país, de uma monarquia laica e aberta ao mundo, em um Estado islâmico fechado e conservador.

Persépolis, título da autobiografia em quadrinhos da artista gráfica iraniana Marjane Satrapi, refere-se ao nome da antiga capital do Império Persa, e pretende lembrar-nos que o país hoje conhecido pelo extremismo religioso foi outrora o berço de uma civilização moderna e sofisticada, e que o Islamismo lhe foi impingido com violência. Com isso, presta uma homenagem a todos os seus antepassados que morreram lutando pelos ideais democráticos e pela igualdade de direitos.

O livro, originalmente publicado em quatro tomos, acompanha a conturbada vida da protagonista do final dos anos 70 até meados da década de 90. A primeira parte – e talvez a mais interessante – mostra-nos a revolução sob a perspectiva inocente de uma criança, cuja vida é lentamente transformada quando as escolas estrangeiras são fechadas, meninos e meninas separados, e as meninas obrigadas a portar o véu. A segunda mostra-nos uma Marje corajosa e rebelde, em plena pré-adolescência durante a Guerra Irã-Iraque, cada vez mais confrontada com a violência à sua volta, mas que não se dá conta dos perigos aos quais sua insubordinação a sujeita. A terceira acompanha os anos de solidão, desraizamento e perdas em que a adolescente, mandada para Viena a fim de terminar seus estudos, torna-se uma estrangeira, distanciando-se cada vez mais de si mesma e das suas origens. Por fim, a última parte trata do seu retorno ao Irã, da readaptação impossível, do choque de mentalidades, e das reviravoltas da vida até tornar-se suficientemente madura ao ponto de finalmente deixar o país.

A maioria dos grandes leitores já deve ter ouvido falar de Persépolis, nem que seja graças ao filme homônimo ganhador do prêmio do jury no Festival de Cannes de 2007. Àqueles que já viram o filme e estavam até agora postergando a decisão de ler o livro: não esperem mais. Se o filme já era bom, o livro nem se compara. A grande diferença fica por conta do ritmo: enquanto o filme se atropela para fazer caberem 360 páginas em meros 95 minutos, o livro agracia-nos com o compasso mais lento e a riqueza de detalhes. A diferença é impressionante.

Com um argumento pungente e extremamente bem escrito, o livro prova ao mais cético dos leitores que a graphic novel é, sim, literatura, enquanto a imagem complementa, dá vida e movimento à palavra escrita. O traço em preto e branco é simples e agradável aos olhos, o texto é sério e ao mesmo tempo divertido. Uma leitura que entrará para os favoritos de muita gente.

E para quem já leu o livro, mas ainda não viu o filme:

Para o filme completo, clique aqui.

Título original: Persepolis

País: Irã

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2000-2003

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5911-62-6)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6661-12-0)

Número de páginas: 352