Villa Pacífica, de Kapka Kassabova

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O que aconteceria se o realismo fantástico de Isabel Allende colocasse uma mochila nas costas, entrasse no primeiro ônibus, e saísse mundo afora escrevendo guias turísticos? Eis o que aconteceria: o romance Villa Pacífica, da escritora búlgara-anglo-neozelandesa Kapka Kassabova.

Ambientado num país qualquer da América do Sul banhado pelo Pacífico, o livro conta a história de um grupo de gringos entre os vinte-e-muitos e os quarenta-e-poucos hospedados num lugar isolado e misterioso no meio do nada, um misto de hospedagem de ecoturismo e abrigo para animais, onde tudo e nada pode acontecer. Seus protagonistas, uma finlandesa frígida com o rosto comido pela eczema e seu marido so British metido a escritor, dão uma noção dos estereótipos que estão por vir. A seguir, virão um insuportável homem de negócios americano e sua esposa fazedora de filhos, um casal de mexicanos declaradamente indolente, um índio amazônico cheio de sabedoria, um latin lover paraguaio, uma matrona austríaca com as axilas cabeludas, dois australianos atléticos curtindo a vida adoidados, e assim por diante. Desnecessário dizer a que ponto todas essas figuras se revelam planas e previsíveis.

Contrariamente ao que tenta nos convencer o texto da contracapa, o enfoque da trama não se encontra nos acontecimentos de uma nebulosa noite de tempestade – aliás, são várias as noites de tempestade, ao ponto de que nem sequer nos apercebemos a qual delas o editor se refere. Para tornar a coisa mais bonita, poder-se-ia dizer que a ênfase da autora reside muito mais na relação entre esses seres divergentes, cujo único elo em comum parece estar justamente no fato de se encontrarem ao mesmo tempo na famigerada vila.

Para dizer a verdade, a história poderia ter facilmente cabido em 80 páginas a menos. Não que a narrativa seja forçosamente aborrecida – o que até nem é, sobretudo graças à fluidez dos diálogos, que faz com que a leitura avance com imprevista facilidade. O que incomoda mais é a constante impressão de déjà vu, já que boa parte das cenas consiste em repetições inúteis e desnecessárias. Precisava a protagonista perder-se três vezes no meio do mato? Uma só não teria dado conta? A cada novo capítulo ficamos à espera de que algo importante aconteça, a cada calada da noite renovamos a esperança de que uma grande catástrofe bote finalmente lenha na fogueira, queimando com ela a metade do elenco. Mas Villa Pacífica faz mesmo jus ao título que lhe foi dado. Até que chegam as últimas 50 páginas para salvar a lavoura, e Kassabova resolve que afinal quer mesmo é escrever um thriller psicológico. Mas não será, então, tarde demais?

Se fosse um filme de horror, Villa Pacífica estaria mais para Os outros do que para Turistas. O que de certa forma me faz suspirar aliviada – não vou eu ficar com ideias macabras da próxima vez que me encontrar num albergue no meio do nada. Eis um livro para viajantes intrépidos – não porque seja necessária uma dose extra de coragem para o ler, mais sim porque todo mochileiro acabará, de uma forma ou de outra, se identificando com algumas das situações descritas. E se apercebendo de que escrever para o Rough Guide ou para o Lonely Planet não é necessariamente o melhor emprego do mundo.

 

Título original: Villa Pacifica

País: Bulgária

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2010

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Alma Books (ISBN 978-184-6881-86-2)

Número de páginas: 285 (edição inglesa)

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A definição do amor, de Jorge Reis-Sá

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Escrever a resenha de um único romance de cada país do mundo implica uma escolha que só mesmo um grande leitor conseguirá entender. Ao longo dos últimos treze meses, debati-me com as más escolhas, torturei-me após encontrar, poucos dias depois de ter lido um livro do qual não gostei tanto, um outro que me pareceu irresistível, principalmente por saber que não poderei voltar a ele antes de terminar o périplo de mais de 200 países ao qual me lancei. Muitos leitores e amigos me perguntaram porque eu ainda não tinha lido nenhum livro português, e a resposta era simples: queria adiar ao máximo a escolha, sabendo que seguramente iria me arrepender de tê-la feito, por melhor que fosse o romance escolhido. Mas toda espera chega ao fim. Depois de protelar por mais de um ano antes de eleger o meu representante da terra lusa, eis em primeiríssima mão aquela que talvez seja a primeira resenha de um romance lançado há menos de 20 dias: A definição do amor, do escritor português Jorge Reis-Sá.

A definição do amor narra uma história triste e invulgar. O professor de filosofia Francisco, casado há alguns anos com a bela Susana, com quem tem um filho ainda bebê, recebe num dia de primavera a notícia de que sua mulher se encontra no hospital. Ao lá chegar, descobre que a esposa foi vítima de um AVC, e recebe sem compreender o diagnóstico de morte cerebral. Ao lado da notícia avassaladora, chega-lhe a informação de que ela se encontrava na segunda semana de gestação. Nos meses que seguem, Francisco verá a mulher amada transformar-se na passiva incubadora da filha que lhe tirou a existência, uma vez que o AVC foi causado por essa gravidez indesejada, e passará por um processo de transformação capaz de levá-lo não apenas à aceitação da perda inevitável, mas também a uma espécie melancólica de alegria por aquela vida que lhe tolheu a felicidade.

Os fãs de enredos mirabolantes não encontrarão neste romance um terreno muito fértil. Que mais poderíamos esperar, se a heroína está estática, e o herói-narrador, guardião do seu sonho sem sonhos, permanece quase todo o tempo velando por ela? Quase nada de novo se passa – e o pouco que se passa, acontece sobretudo no plano psicológico. A linguagem, um tanto lírica, pode cansar os leitores menos afeitos à prosa poética; no entanto, é mais que adequada ao tratamento dado ao tema. E o que poderia ter havido de piegas é quebrado por um desfecho mais que inesperado, narrado em poucas linhas, que pegará qualquer leitor desprevenido e terá o efeito impactante de um nocaute.

O livro é constituído por quase 300 páginas que se leem muito rapidamente, graças a uma diagramação generosa e à cadência narrativa. A trama principal, narrada em capítulos divididos por meses, é intermeada por capítulos mais curtos, chamados de “Véspera”, cujas vozes narrativas em primeira pessoa serão no princípio difíceis de compreender. Trata-se do eco da existência de pessoas que já se foram, todas elas indiretamente ligadas ao protagonista: os futuros vizinhos de Susana no cemitério. Por meio dessas vozes do passado, o leitor é confrontado com diferentes – e pouco ortodoxas – histórias de amor, e suas consequências: o amor incestuoso entre uma tia e um sobrinho, o amor homossexual e pedófilo entre um padre e seus pupilos, e assim por diante. Caberá ao leitor confrontar essas histórias alquebradas à trama central. Por fim, não é a reação à morte da pessoa amada o que nos permite visualizar a definição do amor de que fala o título, mas sim o desaparecimento daquele sentimento tão inefável que nos define como seres humanos: a esperança.

Se as livrarias de Lisboa estão repletas de candidatos que me seduzem com suas capas como as sereias de Ulisses, provavelmente me arrependerei cedo ou tarde de ter feito a minha escolha. Já agora, fico no entanto com o sossego de que espera valeu a pena.

Título original: A definição do amor

País: Portugal

Idioma original: português

Ano de publicação: 2015

Edição portuguesa: Guerra & Paz (ISBN 978-989-7021-37-4)

Edição brasileira: não há

Número de páginas: 272

O amor dos peixes, de Steinunn Sigurðardóttir

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Histórias de amor são universais e facilmente compreensíveis, certo? Errado! Se nunca lhes aconteceu de ler de cabo a rabo um romance – no sentido popular do termo, ou seja: uma história de amor – e, ao chegar ao final da trama, ter a impressão de não ter entendido absolutamente nada, nem se identificado minimamente com os sentimentos das personagens, está na hora de ler “O amor dos peixes”, da complicada islandesa Steinunn Sigurðardóttir.

No plano externo, o livro está recheado de símbolos e metáforas pertencentes ao cliché amoroso. Samanta encontra Hans Örlygsson num castelo no estrangeiro, ela mesma residente eventual de um pequeno palácio remanejado. Ele, um empresário de sucesso de 29 anos; ela, uma editora da mesma idade que dedica seu tempo livre a traduzir velhos poemas de amor indianos. Depois de longas horas de conversa, os dois decidem se conhecer melhor em um restaurante chamado “A rosa negra”. Evidentemente, ele encomenda a garrafa de champanhe mais cara. Os dois sentam-se a uma mesa decorada com uma rosa laranja. Ela diz: “minha cor preferida de rosa.” Ele replica: “Porque é mais vermelha que o vermelho.” Ela responde: “Porque não é vermelho.” E o leitor se desespera: “What the h***?”

No plano interno, no entanto, o lirismo dá lugar a outra coisa. O galã bate à sua porta: ela prefere fingir que não está e observá-lo da janela enquanto corta as unhas dos pés. Os dois se reencontram eventualmente num aeroporto: ele se apresenta aos pais dela, ela se recusa a oferecer-lhe carona. Três anos se arrastam, e os dois só se encontram furtivamente: ele se casa, tem um filho, mas de vez em quando se lembra de bater à sua porta. Ela, que o recusou até o fim, que queria ser uma mulher independente, dona do seu próprio destino, se envolve com um quarentão pai de dois filhos adolescentes e apaixonado pela ex-esposa psicótica. Hans Órlygsson e Samantha continuam a se cruzar magicamente, a trocar palavras incompreensíveis, a caírem nos braços um do outro de vez em quando, e ela eventualmente se apercebe que ele é o homem da sua vida. Mas aí, é claro, já é tarde demais. Quem mandou cortar as unhas dos pés enquanto ele esperava plantado do lado de fora, num jardim habitado por pavões?

O livro, vendido pelo editor estrangeiro como um romance, não passa de uma novela de pouco menos de cem páginas, mas nem por isso fácil de digerir. Vale pelo frio da ilha do fogo e do gelo, pela paisagem bucólica em eterna transformação, pelas eternas geleiras e verões inesquecíveis, e pelo desafio de tentar entender aquela que talvez seja a heroína mais enrolada da história da literatura.

Se um relacionamento amoroso é uma coisa complicada por excelência, essa pequena historieta islandesa prova que suas manifestações podem ser ainda mais estranhas e abstrusas do que se poderia imaginar.

Título original: Ástin fiskanna

País: Islândia

Idioma original: islandês

Ano de publicação: 1993

Edição em português: não há

Outras edições: alemão (rororo, ISBN 978-349-9234-94-1)

Número de páginas: 96 (edição alemã)

Antichrista, de Amélie Nothomb

Nothomb_Anthéchrista Amélie Nothomb não é uma autora para qualquer um. Conhecida por sua obsessão pelo sadismo, pela ousadia no tratamento do sombrio, assim como pelo mélange entre fantasia e realidade, essa notável escritora belga de poucas palavras encanta tantos quanto incomoda. Antichrista, lançado em 2003, não faz exceção à regra.

O livro, que em sua edição original não passa das 150 páginas numa formatação generosa, conta a história de Blanche, uma adolescente que, apesar de mal ter completado os 16 anos, cursa o primeiro ano de Ciências Políticas na Universidade de Bruxelas. À exceção da precocidade nos estudos, a menina não sobressai em mais nada – é tímida, introvertida, e tem o físico de uma tábua. Mas sua vida sem eventos se transforma quando uma estudante igualmente jovem interessa-se por ela. Christa, a menina em questão, é o seu antônimo absoluto: linda, extrovertida, cativante, capaz de chamar a atenção e conquistar admiradores por onde passa. Ansiosa por finalmente fazer uma amizade, e ainda mais com uma pessoa da categoria de Christa, Blanche torna-se facilmente sua presa. No entanto, o idílio dura pouco: desprezada por aquela que tão desesperadamente procura agradar, mas que a elegeu como vítima de um jogo marcado pela perfídia, a (anti)Christa não se cansará enquanto não tirar dela absolutamente tudo: seu quarto, o amor de seus pais, seu corpo, sua dignidade. Tomando como premissa a rivalidade feminina na adolescência, a autora explora de maneira ímpar um tema de atualidade universal: a miséria afetiva do século XXI.

Se tem uma coisa da qual não se pode acusar Amélie Nothomb é de verborragia. Muito pelo contrário: a escritora é famosa pela pluma que não faz rodeios, que vai direto ao ponto e mete o dedo na ferida. Não é que ela não se perde em descrições desnecessárias: simplesmente, ela não descreve, deixando a cargo do leitor o prazer de imaginar. E ao mencionarmos prazer, temos justamente em mente uma cena de sadismo de fazer corar o mais fiel dos leitores de Cinquenta Tons de Cinza. Vantagem de um lado, desvantagem de outro: verdade é que a escassez de palavras, característica de seus outros livros, atinge em Antichrista um extremo absoluto, fazendo com que a história, que facilmente poderia ter rendido no mínimo o dobro de páginas, seja praticamente abortada. Como resultado, não dá tempo de haver um verdadeiro desenvolvimento das personagens, e o livro se torna plano ao ponto do inverossímil: nem a juventude de Blanche condiz com sua serenidade de espírito, nem sua inicial passividade bovina com a rápida capacidade de reação.

Dessa forma, desperdiça-se uma boa oportunidade de contar uma história marcante, e aquele que facilmente poderia ter sido o Nabokov do século XXI torna-se uma novela divertida, que ninguém será capaz de abandonar antes de chegar à última página – até porque ela é tão curta que seria quase impossível –, mas que nada tem de inesquecível.

Apesar dos pesares, verdade seja dita: para seus súditos fiéis, a escrita de Nothomb é sempre um deleite. Tão cínica e manipuladora quanto a própria personagem que dá nome ao livro. Ame-a ou deixe-a.

Título original: Antéchrista

País: Bélgica

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2003

Edição em português: Edições Asa (ISBN 978-972-4145-32-7)

Número de páginas: 96

Boneco de neve, de Jo Nesbø

Nesbø, Snø

Para além do heavy metal, do design de interiores, e dos baixos índices de corrupção, já faz alguns anos que a Escandinávia vem se destacando também pela qualidade de sua literatura policial de suspense. Se, há alguns anos, o sueco Stieg Larsson tornou o thriller escandinavo num fenômeno mundial com sua trilogia Millenium, pouco depois foi a vez de o norueguês Jo Nesbø confirmar a regra, tornando-se em mais um best-seller de alto calibre.

Boneco de neve é o sétimo (!) livro da série protagonizada pelo investigador policial Harry Hole, e considerado por muitos o mais sombrio de todos. A boa notícia para os grandes leitores que não se importam em começar pelo meio é que as histórias são independentes, o que faz com que seja perfeitamente possível saborear o Boneco de neve sem antes ter lido os seis romances precedentes.

A ação principal se passa em 2004, quando o já famoso detetive investiga uma série de desaparecimentos de mulheres nos arredores de Oslo. Ajudado pela recém-chegada Katrine Bratt, Hole descobre uma bizarra semelhança entre os casos em questão e uma série de desaparecimentos ocorridos em toda a Noruega nos últimos 20 anos. Para além de se tratar quase sempre do sumiço não esclarecido de mulheres casadas, com filhos e aparentemente felizes, quase todos os registros policiais mencionam a existência de um boneco de neve nos arredores do local onde a vítima foi vista pela última vez. Assim, revirando uma lista interminável de cold cases, Hole depara-se com aquele que seria talvez o primeiro caso de serial killer da história da Noruega.

Não tem como negar o fato de que Boneco de neve é um livro cativante, desses que é difícil largar antes de chegarmos à última página, e com o qual se perde de bom grado umas tantas noites de sono. Mas talvez isso se deva mais ao carisma do protagonista e à habilidade narrativa do autor para construir cenas de suspense do que ao mistério a ser investigado. Pois durante a investigação interminável na qual o assassino “falso” é apontado diversas vezes como sendo o verdadeiro e tudo sempre recomeça do princípio, só mesmo o leitor mais distraído não perceberá que o “infalível” detetive norueguês dorme no ponto, e se cansa de deixar passar o óbvio.

Em suma, um bom livro, mas longe, muito longe, de ser um Stieg Larsson.

PS: Não costumo comentar as traduções, porque geralmente costumo ler os livros em língua original, mas como meu norueguês não chega para 420 páginas em uma semana, deixo aqui uma nota sobre a edição brasileira: Se, por um lado, temos o prazer de ler uma tradução direta, ou seja, mais fiel ao original, esse prazer transforma-se em tortura pelo fato de que a tradutora, norueguesa, não conhece a língua portuguesa o suficiente. O resultado é uma narrativa sem ritmo, permeada de excessos sintáticos, gírias fora de moda, erros de concordância e, até mesmo, de digitação. O trabalho de Grete Skevik, infelizmente, faz-nos lembrar o porquê de uma regra de ouro do mundo da tradução: jamais se deve traduzir da língua materna para uma língua estrangeira!

Título original: Snømannen

País: Noruega

Idioma original: norueguês

Ano de publicação: 2007

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1094-80-3)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2053-59-4)

Número de páginas: 420 (edição brasileira), 472 (edição portuguesa)

O jantar, de Herman Koch

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Dois irmãos e suas respectivas mulheres encontram-se num restaurante de luxo de uma cidade tranquila da Holanda. O encontro, que ao primeiro olhar parecia não passar de uma confraternização corriqueira, revela-se aos poucos como uma reunião de emergência para decidir que atitude tomar acerca de um grave crime cometido pelos filhos adolescentes de ambos. Eis o ponto de partida de O jantar, do escritor e ator holandês Herman Koch – talvez um dos romances mais bem-sucedidos dos últimos tempos.

O jantar é um daqueles raros livros que conseguem prender o leitor desde a primeira página. A trama, construída em moldes aristotélicos, apresenta uma unidade perfeita de tempo, espaço e ação: à exceção dos flashbacks, tudo se passa num afetado restaurante cinco estrelas durante o breve intervalo de uma refeição em família. A voz narrativa é dada a Paul, um dos irmãos, antigo professor de história aposentado por invalidez, que demonstra grande rivalidade para com o irmão mais velho, verdadeiro “Sr. Perfeito”, futuro candidato à presidência do país.

Aos pouco, a medida em que detalhes da vida privada de suas personagens vão sendo revelados, aquela que parecia ser uma inocente noitada em família marcada por uma competitividade ‘normal’ entre irmãos ganha proporções inicialmente inimagináveis. Graças a uma estrutura impecável e a um desenvolvimento narrativo que leva ao clímax sem deixar a peteca cair, o narrador faz do leitor a sua marionete, retirando-o de sua zona de conforto e o convidando a vislumbrar as camadas mais complexas e profundas da psique humana. Condenado a se deixar conduzir por esse narrador nem um pouco imparcial, o leitor vai ganhando a impressão de que se enganou de filme, e o que tinha começado como uma comédia familiar irônica e deliciosa com as cores de O deus da carnificina (Roman Polanski, 2011) se transforma gradativamente num thriller sombrio e indigesto aos moldes de Precisamos falar sobre o Kevin (Lynne Ramsay, 2011). Afinal, até onde uma pessoa honesta, um assim chamado ‘homem de bem’ é capaz de chegar para proteger aqueles que ama? E quantas monstruosidades não se escondem por detrás do inocente retrato de uma família feliz?

Apesar do seu inegável mérito literário, não deixa de ser surpreendente que o livro de Herman Koch tenha se tornado um best seller internacional traduzido para mais de 20 idiomas: o leitor médio de hoje em dia tem tendência a preferir personagens carismáticas, histórias edificantes, dessas que fazem chorar no final e dão-nos a impressão de nos termos tornado pessoas melhores. Pois se é disso que está a procura, melhor procurar em outra parte: Paul Lohman tem tanto de simpático quanto o jantar que lhe está a ser servido tem de apetitoso. Mas se, pelo contrário, estiver disposto a encarar o desafio de um livro incômodo, pouco convencional e sem sombra de dúvidas eletrizante, saiba que encontrará em O jantar uma grande leitura do qual não irá se esquecer tão cedo – nem que o queira.

Título original: Het diner

País: Holanda

Idioma original: holandês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN 978-858-0574-18-0)

Número de páginas: 256

O cemitério de Praga, de Umberto Eco

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Umberto Eco é um autor que dispensa apresentações. Mestre do romance histórico de ficção, sua obra é caracterizada por tramas rocambolescas e personagens marcantes, pelo entrelaçamento entre ficção e realidade, pela narrativa daquilo que poderia ter acontecido, assim como por uma declarada paixão pelo texto. Não é de agora que o trabalho do autor se concentra em trazer à tona um grande clássico perdido: enquanto seu maior sucesso O nome da rosa focava na descoberta do suposto manuscrito perdido da Comédia de Aristoteles, o mais recente Baudolino tomava como tema a pretensa carta do legendário Prestes João ao imperador Manuel Comneno. Em seu mais recente trabalho, o italiano de 82 anos, diretor da Escola Superior de Ciências Humanas da Universidade de Bolonha, remete o leitor a um passado mais recente – a segunda metade do século XIX -, e explora os bastidores da concepção de um dos mais infames documentos anti-semitas da história: Os Protocolos dos Sábios de Sião.

Simonino Simonini, o protagonista, é um anti-herói com problemas de memória e de dupla personalidade, dividido entre o que julga ser si mesmo e a persona de um certo Abade Dalla Piccola. Talentoso falsificador e mestre nos disfarces, é um homem desprezível e sem escrúpulos, movido apenas pela ganância e pelo próprio estômago, que trabalha como uma espécie de espião mercenário, sempre disposto a deixar de lado suas próprias convicções a fim de servir aquele que pagar mais. Privilegiado pelo anonimato, vai construindo e desconstruindo a história segundo as missões que recebe, estando por trás de alguns dos acontecimentos mais marcantes da história do século XIX. Embora despreze as mulheres como seres inferiores, tenha ódio aos jesuítas, socialistas e a todo tipo de estrangeiro – inclusive ao próprio italiano -, sua maior paixão é o anti-semitismo. Tendo herdado do avô o ódio aos judeus, considera destruir o judaísmo sua maior missão, e faz uso da palavra – assim como do seu grande talento para a falsificação -, para construir um relato infame, que associa a religião judaica ao satanismo e à maçonaria.

A trama de O cemitério de Praga é contada por três narradores, que se desdobram em dois níveis narrativos diferentes: o relato em primeira pessoa num diário, meio de comunicação entre as duas personas de Simonini, e o narrador onisciente em terceira pessoa, que se permite algumas intromissões, complementos e tomadas de partido. A partir desse entrelaçamento de vozes e versões, constrói-se uma narrativa interessante e divertida, repleta de flashbacks e excertos culinários, e enriquecida por materiais iconográficos originais, que visam provar ao leitor a verdade dos fatos, por mais absurda que a narrativa às vezes possa parecer.

O único problema é que O cemitério de Praga peca pelo excesso. O livro oferece um vasto panorama do contexto histórico italiano e francês na segunda metade do século XIX, indo muito além do seu tema primeiro. Assim, enquanto o leitor acompanha as desaventuras de Simonini em meio à Itália de Garibaldi, que se estendem por mais de um terço do livro, ele não deixa de se perguntar onde foram parar os judeus: a primeira parte da vida do protagonista poderia ter sido um livro à parte. Se os diversos excursos históricos, que compõem mais da metade da narrativa, deixam entrever as dimensões do imensurável conhecimento histórico de Umberto Eco, o leitor que não conhecer bem a história européia do século XIX perder-se-á em meio aos nomes e fatos, e não deixará de se perguntar se um excesso de zelo tão grande não chega a ser exagero. Também é possível ressaltar a ausência de mulheres, à exceção de uma. Por um lado, é verdade que a história política é feita de homens; por outro, se Umberto Eco utiliza a macro-história como ponto de partida para um romance de ficção, seria necessária tamanha misoginia? No posfácio, o autor coloca à disposição um quadro que relaciona os acontecimentos narrados aos fatos históricos, e diz que o “leitor competente” poderia desfrutar a história sem a necessidade do mesmo. Seria mesmo o caso da competência do leitor, ou do escritor? Em suma, O cemitério de Praga é um romance interessante, por vezes divertido, e sem dúvidas bastante informativo, mas não reflete Umberto Eco em sua melhor forma.

Título original: Il cimitero di Praga

País: Itália

Idioma original: italiano

Ano de publicação: 2010

Edição portuguesa: Gradiva (ISBN 978-989-6164-08-9)

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1092-84-7)

Número de páginas: 572 (edição portuguesa), 480 (edição brasileira)