Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte, de Barbara Demick

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Qualquer pessoa que tente a façanha de ler um livro de cada país do mundo terá diante de si o problema dos países que quase não produzem literatura. Dentre eles, podemos incluir algumas ilhas do Pacífico cuja população é minúscula, uns tantos países africanos em constante estado de guerra, e outros, como o Butão e a Mongólia, nos quais a cultura escrita ainda não suplantou a oralidade. Mas, dentre esses países “exóticos”, também há aquele que corresponde a uma espécie de extraterrestre risível e incômodo, cujo anacronismo de continuar a existir desafia até mesmo as previsões político-econômicas mais pessimistas. Trata-se, obviamente, da Coreia do Norte.

A bem da verdade, ler um autor norte-coreano acaba por não ser tão difícil: pelo menos as livrarias de língua inglesa estão abarrotadas de relatos de dissidentes norte-coreanos, que conseguiram cruzar a fronteira com a China e hoje vivem fora da abençoada terra do Grande Líder. Esta mesma semana, o jornal português “Público” lançou uma reportagem sobre o recém-editado A mulher com sete nomes, da refugiada Hyeonseo Lee. No entanto, a fim de tentar compreender uma realidade tão complexa como aquela da Coreia do Norte, pareceu-me mais adequado recorrer a um livro que abarcasse o maior número de fontes possível – daí a opção pelo premiado Nada a invejar, da jornalista norte-americana Barbara Demick.

O contexto no qual ouvi falar pela primeira vez do livro de Demick não podia ter sido mais anti-socialista: Foi em 2012, durante um jantar na capital das Ilhas Cayman, logo após uma viagem a Cuba que culminara na descoberta nefasta do decrépito sistema de saúde cubano. Nossa anfitriã, uma sul-africana, trabalhava como cozinheira particular para uma família de bilionários cujo nome estava proibida por contrato de mencionar, e era dela o exemplar do livro sobre a Coreia. Na altura, cercada pelo luxo de um dos principais paraísos fiscais do mundo, deixei escapar a oportunidade de o ler.

Nada a invejar compreende o resultado de um trabalho de quase uma década acerca de uma das últimas ditaduras socialistas do século XX. Por meio do retrato de alguns cidadãos norte-coreanos, complementados pela comparação a outras fontes existentes sobre o país, a autora traça um vasto panorama de como é viver no país mais fechado do mundo. Um lugar onde, até pouco tempo, as pessoas sequer tinham ouvido falar de telefones celulares, onde a internet não existe, e a única fonte de informação consiste nos três canais de televisão estatais. Mais do que isso, trata-se de um país que viveu um verdadeiro milagre econômico durante os anos 1960, mas que perdeu absolutamente tudo após a queda da União Soviética: a produção industrial cessou completamente, juntamente com o pagamento de salários, a distribuição de alimentos e a eletricidade, fazendo com que a população esfomeada fosse entregue ao próprio destino. No entanto, contrariamente a Cuba, onde um arremedo do dólar circula abertamente, e o auto-empreendimento e o turismo internacional são fortemente encorajados, a Coreia do Norte continua a punir com a morte qualquer espécie de comercialização, o que faz com que seus índices de pobreza e subnutrição ultrapassem os níveis das piores crises de fome centro-africanas. Por outro lado, as constantes ameaças atômicas às democracias ocidentais, sobretudo aos Estados Unidos, bem como aos vizinhos (e irmãos) sul-coreanos, impossibilitam qualquer intervenção da parte de organizações internacionais, relegando uma população faminta e lobotomizada pela propaganda pró-dinastia Kim a um estado constante de miséria que já dura quase 30 anos.

Embora o excesso de detalhes possa vir a atrapalhar o fluxo de leitura daqueles mais habituados a uma literatura mais fácil, o livro de Demick chega a ser viciante. A autora soube aliar o estilo jornalístico investigativo a uma narrativa mais pessoal, quase romanceada, baseada em longas sessões de entrevistas. Escolhendo a dedo figuras deveras distintas, mas ao mesmo tempo muito semelhantes graças ao histórico de vida num país que aboliu a individualidade, o livro acaba transformando esses heróis e heroínas da vida real em personagens de romance, cujo destino o leitor ficará ansioso para desvendar, à espera, quem sabe, de um final relativamente feliz.

Mas será que se pode falar de relativa felicidade enquanto o pesadelo não acabar?

Título original: Nothing to Envy: Ordinary Lives in North Korea

País: Coreia do Norte

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Título brasileiro: Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-73-8)

Título português: A longa noite de um povo: A vida na Coreia do Norte

Edição portuguesa: Temas e debates (ISBN 978-989-6441-40-1)

Número de páginas: 416 (edição brasileira), 368 (edição portuguesa)

 

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