Eu sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

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Eu sou Malala é um livro que dispensa apresentações. Mais famoso que Paulo Coelho, mais disputado que o último CD de Justin Bieber, o livro que narra a trajetória da “menina que foi baleada pelo Talibã” correu rapidamente o mundo, fazendo da jovem paquistanesa uma figura carimbada, e servindo de trampolim para que ela se tornasse o mais jovem Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ironicamente, o que Malala não cansa de repetir ao longo das quase 400 páginas de sua autobiografia é que ela não desejava ser conhecida por ter tomado um tiro no rosto, mas sim pela sua luta para promover a educação em seu país de origem. Mas será que o seu ativismo político é realmente o motivo de tão grande celebridade?

Para já, chamar o best seller de autobiografia por si só deveria levantar uma série de reticências: sabemos que o livro foi escrito em coautoria com a jornalista inglesa Christina Lamb, especialista em países de democracia duvidosa, como o Oriente Médio, a África do Sul e o Brasil. Se os méritos de uma narrativa tão detalhada – e muitas vezes até mesmo aborrecida – só podem ser atribuídos à própria Malala, foi sem dúvidas a experiente jornalista quem conseguiu transformar a matéria bruta num sucesso comercial, digno dos 3 milhões de dólares que a menina teria recebido pelos direitos autorais.

Seria perda de tempo (meu e vosso) dedicar mais de meia dúzia de linhas ao enredo mais que conhecido: Malala, uma estudante da região de Swat, tornou-se conhecida graças ao seu discurso em prol da escolaridade de meninas em seu país natal, devastado pelo Talibã. Sua loquacidade só se tornou possível graças ao apoio do pai, diretor da escola onde estudava e empenhado combatente pelos Direitos Humanos. O comportamento pouco convencional de pai e filha fez com que terminassem na mira dos fanáticos islamistas, que os acusavam de secularização e ocidentalização. Mas não estamos aqui para julgar a coragem de Malala, mas sim a qualidade de sua biografia.

O livro, bastante recheado, e decorado por uma longa sessão de fotografias em guisa de apêndice, tenta intercalar os quinze anos de vida de Malala a um vasto aparato de informações históricas, no intuito de alinhar a micro e a macro narrativa. Tudo isso, é claro, sem deixar de lado inúmeras anedotas do cotidiano, como as banais historietas de disputas com as amigas pelo título de melhor aluna da escola, a fim de oferecer ao leitor uma Malala mais “humana”, cheia de erros, mas que não deixou que o sucesso e a celebridade lhe subissem à cabeça. Tal fórmula, acrescida das incontáveis frases de efeito motivacional que poderiam ter sido retiradas diretamente de O alquimista, tornam a leitura enervante, e não nos surpreendemos nem um pouco ao descobrir que a heroína pela educação é, de fato, uma fã de carteirinha do escritor brasileiro mais vendido de todos os tempos. Para terminar, o livro surpreende pela falta de espírito crítico de uma menina tão politizada, quando se trata de elogiar sem precedentes um outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, no qual ela parece não ver nem a sombra de boa parte da culpa pela presença dos talibãs em seu amado Paquistão. Ironicamente, os mesmos talibãs que quase conseguiram silenciá-la. Seria a Malala tão ingênua, ou tratar-se-ia apenas de um recurso editorial para fazer o livro mais apresentável, mais conforme à sensibilidade do leitor ocidental? A julgar pelo fato de que, em entrevistas e debates anteriores à publicação da biografia, Malala levantou sim a voz para criticar abertamente a intervenção militar e as políticas estadunidenses no Paquistão, tendo a me deixar levar pela segunda opção.

Obviamente, não estou a colocar em causa a importância da mensagem que Malala veio dar ao mundo, mas sim a parcialidade e o maniqueísmo de um livro feito para agradar as grandes massas. Um livro que perdeu uma excelente oportunidade de contextualizar o crescimento da força de grupos extremistas a partir de 2001, e de questionar o papel dos Estados Unidos e da “luta contra o terror” no crescente estado de guerra que domina o Oriente Médio.

Ao fim de uma leitura não completamente maçante, mas que mesmo assim me custou duas semanas, fica a lição: da próxima vez, eleger uma obra de literatura de verdade.

Título original: I Am Malala: The Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban

País: Paquistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5923-43-8)

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2351-73-7)

Número de páginas: 360 (edição brasileira), 352 (edição portuguesa)

 

 

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Herege, de Ayaan Hirsi Ali

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É raro que um livro publicado em inglês seja lançado quase simultaneamente no Brasil. Mais raro ainda em se tratando de um livro teórico que debate um tema que nem de longe faz parte da realidade imediata do brasileiro médio. No entanto, a pressa editorial justifica-se facilmente: livros polêmicos sobre o extremismo islâmico vendem bem.

Ayaan Hirsi Ali é mais que conhecida. Sua biografia, na qual relata sua trajetória de islamista devota a respeitada parlamentar da centro-direita holandesa, tornou-se um best-seller comemorado pelos liberais de vários países ocidentais: Finalmente uma mulher muçulmana com culhões para denunciar as atrocidades cometidas em nome de Alá! Herege, seu último livro, foi afortunadamente lançado pouco depois dos ataques ao hebdomadário francês “Charlie Hebdo”, que ela ainda conseguiu incluir em seu extenso inventário de crimes cometidos pelos adoradores de Maomé.

O livro visa provar a tese de que o islã não é uma religião de paz, como normalmente apregoa a esquerda hippie dos países desenvolvidos, mas que a violência lhe é inerente. A violação aos direitos humanos, segundo ela, encontra-se no seu cerne, uma vez que seu livro sagrado, o Corão, descreve um conjunto de regras tribais arcaicas que legitimam o estupro, o linchamento, a submissão feminina, a guerra santa e a imposição forçada de uma pretensa moralidade. Tudo isso é ricamente ilustrado com notícias sensacionalistas das principais comunidades islâmicas, que fazem da violência nas favelas cariocas uma brincadeira de crianças. A ideologia islâmica, diz a autora, ameaça concretamente os direitos adquiridos em séculos de luta no Ocidente, sobretudo agora que as ondas de refugiados trazem consigo futuros potenciais terroristas,* e tendo em conta que os árabes têm muito mais filhos que os ocidentais. Seremos, em breve, excedidos em números em nossas próprias casas, a menos que abramos os olhos e deixemos de ser condescendentes. Afinal, diz ela, o islã odeia seus inimigos mais do que ama seus filhos.

Eis o único aspecto no qual concordo com Ali: O Corão – como já antes a Torá e o Antigo Testamento – está cravado de passagens violentas que, tomadas ao pé da letra por fanáticos, justificam atentados terroristas, e servem de base a grupos como o Estado Islâmico, a Al-Qaïda e o Boko Haram. Ler os textos sagrados literalmente e tentar viver conforme seus ditames é prova de um anacronismo grotesco que não pode ser tolerado. Não podemos aceitar que as meninas do Iêmen se casem aos seis anos de idade porque o “profeta” também o fez, não podemos tolerar as perseguições aos homossexuais, a subjugação das mulheres, o delírio de um califado e o apelo da jihad porque “está escrito”.

Por outro lado, não podemos, ao tomar esses exemplos, deixar comodamente de fora todos os outros nos quais o islamismo provou-se condizente com o século XXI. Por exemplo a Malásia, regida pelo multiculturalismo. Ou a Turquia, o Marrocos, o Senegal, a Bósnia, a Albânia – a lista é longa. Em seu afã progressista, ela se atém à história única de que já falava Chimamanda, e se esquece que a história é cíclica, e que na Idade Média éramos nós os brutamontes e os árabes o pináculo cultural e tecnológico. Que talvez nem tivéssemos chegado à Renascença não fosse a Escolástica, baseada na filosofia grega que eles salvaram para nós.

Mais do que isso, não podemos esquecer, ao louvarmos o avançado Ocidente, de que ele próprio é culpado por muito do imbróglio nos países islâmicos. Tomemos como exemplo o Afeganistão, destinação turística preferida dos bichos-grilos dos anos 1970, e onde as mulheres gozavam de direitos iguais durante a dominação soviética. Quem foi que armou a então minoria ultra religiosa até os dentes, e a botou para lutar contra os capacetes vermelhos, senão os Estados Unidos? Minoria, aliás, que mais tarde ganhou força e se tornou o Talibã. Devemos chamar de kharma ou de efeito borboleta?

Mais que a falta de contextualização histórica, o que me incomoda no livro de Ali são as suas incoerências, como a voz narrativa que adere ora ao “nós” muçulmanos e ora ao “nós” ocidentais. Para não falar da anticlimática conclusão: A autora passa 220 páginas a fazer-nos um terrorismo psicológico, alegando que nosso mundo está ameaçado, que devemos abrir os olhos, que os árabes nos odeiam, para no fim… nada! Em vez de propor uma solução ou fazer sugestões concretas, ela prefere tranquilizar-nos dizendo que afinal as coisas não são tão más assim, e que a reforma já está em marcha, graças a dissidentes corajosos como ela. O que aliás até é verdade.

Ayaan Hirsi Ali consegue ser mais branca que o Michael Jackson, e seu discurso mais ferino que o de Marine Le Pen. Mas seu livro, se lido com olhos críticos, não deixa de ser interessante, sobretudo quando põe em causa a permissividade da esquerda pró-multiculturalismo, que tapa o sol com a peneira e acaba defendendo o algoz e não a vítima. Ela tem toda a razão quando fala que não se pode defender quem não defende os direitos humanos. Para mim, pessoalmente, foi um tapa na cara. Para a maioria dos leitores, no entanto, ele só vai confirmar a ideia preconcebida de que os islamistas são um povo retrógrado, selvagem e preso na Idade Média. O que está longe de ser verdade.

 

* Fez pensar na charge polêmica do Charlie Hebdo. Mas essa, pelo menos, continha ironia.

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Título original: Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now

País: Somália

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5925-87-6)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 272

I, the Divine, de Rabih Alameddine

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Parecia quase impossível ler um livro de mais de trezentas páginas em plena semana mais cheia do ano: é o Natal à porta, são provas para corrigir, notas para entregar… Por isso mesmo, decidi NÃO ler o livro de Rabih Alameddine desta vez. Em vez disso, passaria os olhos pelas duas primeiras páginas, sem nenhum compromisso, para ver se valia a pena colocá-lo no topo da minha lista de prioridades para 2016. Certo? Errado!

Existem dezenas de motivos pelos quais é impossível parar de ler Eu, a Divina, mas é fácil resumi-los usando um argumento muito pouco acadêmico: trata-se de um romance simplesmente genial. Não só pela trama extremamente cativante, ou pela sua estrutura decididamente inovadora, mas por uma mistura disso tudo. De fato, todos os elementos que o compõem amalgamam-se de maneira a tal ponto bem-sucedida, que acaba por se tornar difícil saber por onde começar o elogio.

Eu, a Divina conta a história de Sarah, uma mulher libanesa muito pouco convencional. Filha de uma família pertencente à comunidade religiosa drusa, mas para a qual a religião não parece assumir um papel importante, a menina, nomeada pelo avô em homenagem à “divina” Sarah Bernhardt, cresce em meio a uma família disfuncional, tendo o pai enviado a mãe norte-americana de volta à terra natal por esta não ser capaz de lhe dar um descendente de sexo masculino. De certa forma, pode-se dizer que a menina cresce a tentar suprir o desejo do pai por um herdeiro, seja pela sua maestria em dominar todo o linguajar sujo das ruas libanesas, seja pelo talento incontestável como jogadora de futebol. De fato, Sarah parece ter vindo ao mundo para romper paradigmas, acumulando, mais tarde, relacionamentos frustrados, casamentos mal-sucedidos, e tentando se ajustar entre identidades opostas: a megalomaníaca Sarah Bernhardt, a mãe que abandona seus filhos, a imigrante a fugir dos traumas de um passado sombrio. Constrói-se, aos poucos, uma espécie de caleidoscópio, através do qual o leitor vai conhecendo não apenas a protagonista, mas também boa parte dos membros da sua família e amigos íntimos, todos eles personagens de rara complexidade: um irmão homossexual, uma mãe com tendências suicidas, uma irmã que se tornaria uma assassina em série, um filho inesperadamente bem-ajustado, um amante sádico, e assim por diante.

Embora a trama bem construída e a capacidade única do autor em explorar a voz lírica de um Eu feminino fossem, por si só, motivo para surpreender o mais crítico dos leitores, o grande diferencial do livro reside, no entanto, na ousadia de sua estrutura. Afinal, Alameddine fez uma escolha arriscada: escrever um romance composto de primeiros capítulos. Trata-se, poder-se-ia dizer, de uma série infindável de tentativas abandonadas de escrever uma (auto-)biografia, oscilando entre a primeira e a terceira pessoa, e até mesmo entre o inglês e o francês. Com isso, Eu, a Divina é composto de fragmentos, títulos e prefácios, os quais desrespeitam a ordem cronológica, todos eles abordando um período distinto da vida de sua protagonista. Fragmentos, estes, que capturam com uma maestria ímpar alguns dos momentos mais dramáticos de uma vida repleta de eventos, e que se complementam com a beleza de uma colcha de retalhos.

A julgar por este livro, não seria de se espantar se ouvíssemos falar de Rabih Alameddine como um futuro ganhador do Nobel da Literatura. Enquanto isso não acontece, deixo aos leitores a forte recomendação de acompanhar de perto o trabalho deste talentoso escritor.

 

Título original: I, the Divine

País: Líbano

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2001

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Northon & Company (ISBN 978-039-3323-56-6)

Número de páginas: 320 (edição em inglês)

As madrugadas em Jenin, de Susan Abulhawa

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Quem se emocionou com Os caçadores de pipas não pode deixar de ler As madrugadas em Jenin, seu contraparte feminino na Palestina.

O livro acompanha quatro gerações de uma família de camponeses do singelo vilarejo de Ein Hod, no norte de Israel, desde a sua expulsão pelos israelitas em 1948 até o século XXI. Em meio ao caos que sobreveio à auto-declaração do Estado de Israel, uma jovem mãe berbere tem seu filho mais novo raptado por um soldado, que deseja presentear o bebê à esposa judia, devolvendo-lhe assim o alento perdido num campo de concentração. Eis o início de uma história marcada por perdas e humilhações, narrada sobretudo a partir da perspectiva de Amal (“esperança”), irmã mais nova do menino desaparecido, nascida no campo de refugiados de Jenin. Mais tarde, os irmãos serão reunidos pelas circunstâncias da guerra, mas infelizmente lutarão em lados opostos. Assim, a mãe que enlouquece de tristeza ao ter seu filho brutalmente arrancado de seus braços torna-se um arquétipo da história da própria Palestina.

Para a maioria das pessoas, o conflito entre israelitas e palestinos parece tão complicado que nem vale a pena tentar entender. Porém, as coisas são simples assim: desde há pelo menos mil anos, a Palestina era a pátria de um povo simples de camponeses muçulmanos, até que, com a conivência do mundo ocidental, terroristas judeus sobreviventes da Segunda Guerra invadiram, ocuparam e expulsaram os verdadeiros donos da terra. “Uma terra sem povo para um povo sem terra” – eis o lema segundo o qual o mundo fechou os olhos, permitindo um dos processos de desapropriação mais vergonhosos do século XX: a criação do Estado de Israel. Só que a “terra sem povo” tinha povo, sim – os palestinos –, que desde então vem lutando pelo simples direito de continuar existindo e, Inshallah, um dia, voltar a pisar na terra de seus ancestrais.

Não deixa de ser interessante traçar um paralelo entre a imagem do conflito árabe-israelita presente em As madrugadas em Jenin – ou seja, uma luta de vida ou morte movida pelo mais primitivo instinto de sobrevivência –, e em O povo eterno não tem medo de Shani Boianjiu, que resenhamos no mês de junho. Ora, a crítica ao Estado de Israel torna-se ainda mais plausível ao pensarmos nas soldadas de Boianjiu, que matam por automatismo ou para aplacar o tédio, sem o menor comprometimento com a causa.

Fica claro que, para Susan Abulhawa, marinheira de primeira viagem, a mensagem é mais importante que a palavra. Mas, leitores magnânimos, perdoamos as pequenas fraquezas de seu livro, advindas sobretudo do excesso de idealização à cultura palestina (Por que o soldado que luta pela boa causa tem que ser invariavelmente o homem perfeito? Por que não criar personagens mais complexas e “humanas”, que carregam o bem e o mal dentro de si?). Importante dizer: se o fazemos, não somos apenas movidos pela importância da causa defendida pela autora, mas também pela inegável qualidade de sua sua escrita.

As madrugadas em Jenin foi lançado em Portugal em 2008, embora infelizmente tenha passado quase desapercebido no país. Quanto ao Brasil, ainda não há informação se haverá ou não uma edição tupiniquim. Enquanto fica à espera, o grande leitor brasileiro poderá baixar a edição Kindle em português, lançada no último mês de junho. Afinal de contas, vale tudo, menos deixar de ler este romance imperdível, que fará chorar até mesmo o leitor mais cético.

Título original: Mornings in Jenin

País: Palestina

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Quidnovi (ISBN 978-989-6281-74-8)

Número de páginas: 384

Brief in die Auberginenrepublik, de Abbas Khider

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Em 1999, um jovem em exílio escreve uma carta de amor para a mulher da sua vida. Eis o ponto de partida do livro de Abbas Khider, escritor iraquiano radicado na Alemanha. “Carta à República da Berinjela”, seu terceiro romance, nos transporta a uma época não muito distante, na qual a internet, para a maior parte do globo, ainda era coisa de outro planeta, e Facebook, Twitter e Skype nem sequer haviam sido sonhados. Como se comunicar antes da chamada “era da comunicação”, sobretudo se as vias telefônicas e postais estivessem vigiadas? Como manter contato com a pessoa amada, principalmente se esse mesmo contato pudesse pôr em risco a vida de seu destinatário?

Narrado em primeira pessoa segundo perspectivas distintas, “Carta à República da Berinjela” pode ser considerado uma espécie de road book (termo derivado de road movie, gênero de filme que se desenrola durante uma viagem). Nele, acompanhamos a complicada trajetória de uma carta de amor das mãos de seu remetente, um iraquiano muçulmano exilado na Líbia, até sua destinatária, uma jovem cristã da periferia de Bagdá. Forçado a abandonar a terra natal por participar de um clube do livro considerado subversivo, o remetente da carta que dá título ao romance perde o contato com sua namorada, que ele acredita ainda viver no subúrbio de Saddam City. Ao ouvir falar de um correio clandestino ao “país das berinjelas”, o jovem apaixonado não pensa duas vezes antes de trocar todas as suas economias pelo caro e pouco fiável serviço de entrega. Enquanto a carta vai passando de mão em mão, vamos conhecendo paisagens distintas porém muito parecidas, personagens diferentes envolvidas nos mesmos dilemas, e dando uma espiadela na situação política de vários países do mundo árabe: a Líbia de Khadafi, o Egito de Mubarak, a Síria de Hafiz al-Assad, a Jordânia de Abdullah II bin Hussein e, é claro, o Iraque de Saddam Hussein.

Como sua personagem, Abbas Khider foi condenado e preso por motivos políticos, e imigrou há pouco mais de uma década para a Alemanha como asilado. Se, ao chegar, não falava nem uma palavra de alemão, não deixa de ser admirável como, em tão pouco tempo, conseguiu não apenas dominar essa língua estranha e difícil, mas também construir nela sua obra literária. Narrado numa prosa limpa, lacônica e certeira, que deixa transparecer agradavelmente o “estrangeirismo” do autor, “Carta à República da Berinjela” é um romance divertido e fácil de ler, que denuncia com humor e ironia a brutalidade e a incoerência das ditaduras dos países árabes, bem como a lei do mais forte e o sistema de corrupção por elas gerado. De modo geral, o bom humor e a leveza narrativa predominam, mas, talvez por dar voz a alguém outrora silenciado pelo regime de Saddam, o livro deixa claro que sua prioridade é passar uma mensagem política. Mensagem esta sem dúvida importante, mas que talvez não precisasse ser trabalhada de maneira tão óbvia: a bom entendedor, meia palavra teria bastado.

Nos últimos anos, temos tido vários exemplos do poder trazido ao povo por essa arma poderosa que é a internet, capaz de reunir multidões, semear a revolta e derrubar ditadores. Foi este o caso durante a chamada “Primavera Árabe”, para a qual as redes sociais exerceram um papel fundamental, informando, mobilizando e unindo milhões de pessoas ao redor do mundo. Nesse contexto, a mensagem de “República da Berinjela” não nos parece anacrônica: muito pelo contrário, ela nos lembra a importância de poder se comunicar.

Infelizmente, o livro não tem previsão de ser traduzido para a língua de Camões.

Título original: Brief in die Auberginenrepublik

País: Iraque

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2013

Edição alemã: (ISBN 978-389-4017-70-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 160

O povo eterno não tem medo, de Shani Boianjiu

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Quando o mundo resolve esconder-se por trás do silêncio, a literatura de ficção é muitas vezes o único veículo capaz de dar voz a realidades reprimidas, de revelar verdades incômodas, de exteriorizar pesadelos. Ao abrir a caixa de pandora e romper o silêncio que envolve a vida das jovens israelenses do século XXI, o romance de estreia de Shani Boianjiu, considerado um dos melhores livros de 2012, faz justamente isso.

O povo eterno não tem medo é uma espécie de mosaico composto de cacos de vidros de tamanhos, formas e cores diferentes. A cada capítulo, o leitor tem diante de si uma nova perspectiva, um novo estilo narrativo, um novo estilhaço de realidade. No eixo central, temos a história de três israelitas – Yael, Avishag e Lea –, amigas de infância de personalidades distintas, cujo destino implacável e comum torna cada vez mais parecidas através do sofrimento. Conhecemos as meninas ainda na infância, num vilarejo poeirento e sem história na fronteira com o Líbano, e acompanhamos suas trajetórias do final da adolescência à passagem pelo exército, e depois até meados dos vinte anos. Para além, conhecemos um pouco do universo das pessoas ao seu redor, como pais e colegas, mas também refugiados, escravas sexuais e trabalhadores palestinos. Assim, e sobretudo graças à constante mudança de foco narrativo, o livro de Boianjiu oferece ao leitor um amplo panorama não somente da juventude, mas também de todas as camadas humanas que compõem Israel. E talvez um dos maiores méritos do romance resida justamente aí – na capacidade da autora de dar voz a extremos opostos, sem tomar partido ou se identificar com quem quer que seja, sem nomear heróis ou vilões, ignorando deliberadamente diferenças étnicas e religiosas em prol do que há de comum a todos os homens. Em todo caso, não deixa de impressionar o leitor como essas vidas tão inimaginavelmente distintas podem ao mesmo tempo ser tão parecidas com as de cada um de nós.

A vida das soldadas israelenses pode ser considerada um tema tabu. Com exceção de esporádicos vídeos exuberantes e fotos sensuais tornados virais graças à internet, pouco se ouve falar sobre a realidade dessas meninas. No país em guerra praticamente desde a Declaração de Independência em 1948, o alistamento é obrigatório tanto para meninos como para meninas, e a passagem pelo exército é obrigatória por dois anos. Boa parte das forças armadas de Israel é constituída por adolescentes recém-saídos da escola, cujas vidas são colocadas em stand-by ao serem designados, depois de um curto treinamento de choque, para defender o país. Quando têm sorte, são postos diante de monitores de vigilância e telefones vermelhos que nunca tocarão, e têm de lutar contra a monotonia a fim de não enlouquecerem. Quando não têm, são mandados para postos de fronteira e esquadrões anti-terroristas, nos quais ficam à mercê de homens-bomba e de agressões de toda espécie.

Por meio da história das três protagonistas, o romance revela o contraste entre as granadas e metralhadoras e as mãos pequenas daquelas que as disparam, forçadas a lutar por uma causa pela qual nem sequer se interessam. Entre momentos de excitação e de tédio, são obrigadas a se desumanizar para sobreviver num ambiente que não tolera fraquezas, e vão deixando de ser indivíduos dotados de sonhos, desejos e valores, para se tornarem autômatos auto-destrutivos desprovidos de essência, capazes de abrir o próprio peito a golpes de faca num esforço desesperado para voltarem a sentir. Com isso, o livro nos revela um povo destroçado, cansado de uma luta sem fim, e condena com voz abafada não apenas o Estado que envia à morte aqueles que mais deveria proteger, como também a sociedade, que peca pela omissão e pela aceitação do absurdo.

Mas não era intenção de Shani Boianjiu escrever apenas um livro sobre mulheres-soldado, como também não é sob essa perspectiva unilateral que o romance deve ser lido. O que o trabalho da jovem escritora de pouco mais de 25 anos, ela mesma ex-soldada do exército israelense, pretende mostrar é muito maior: o que significa ser mulher e jovem no Israel de hoje em dia.

Por vezes, temos a impressão de que alguns livros simplesmente precisavam ser escritos. O povo eterno não tem medo é sem dúvida um desses livros.

Título original: The People of Forever are not Afraid

País: Israel

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Alfaguara (ISBN 978-857-9622-17-5)

Edição portuguesa: Objectiva (ISBN 978-989-6721-88-6)

Número de páginas: 280 (edição brasileira), 368 (edição portuguesa)