Mãn, de Kim Thúy

Thúy_Mãn

Para escrever a última resenha do ano, tenho ao meu lado um bule de chá de alcachofra, uma das minhas maiores surpresas gastronômicas de 2015, comprado no mercado de Da Lat, no Vietnã. Afinal, se a literatura nos faz viajar para países longínquos, o sabor dos alimentos consumidos em terras distantes trazem-nos de volta até elas. Eis uma verdade que se aplica com perfeição ao livro deste domingo: Ao aliar memória afetiva e gustativa, Mãn, o segundo livro da escritora vietnamita Kim Thúy, transporta o leitor para o universo de odores, vapores e nostalgias agridoces de sua terra natal.

Antes de mais nada, talvez se pudesse dizer que Mãn é uma declaração de amor de sua protagonista homônima às três mulheres que lhe deram a vida: a adolescente que a trouxe ao mundo, a monja que a recolheu no campo de um convento budista, e sobretudo a última, uma espiã que a criou, educou e mandou para fora do Vietnã, com destino a um casamento arranjado e seguro. Anos mais tarde, no Quebec, nossa protagonista encontrar-se-á trancafiada por dias sem fim na cozinha de um restaurante, e encontrará na gastronomia uma forma de redefinir sua própria identidade. Seus pratos, incomparáveis, atrairão ao restaurante do marido, outrora vazio, cada vez mais clientes, alguns deles se tornando verdadeiros admiradores e amigos, sucesso que a transformará pouco a pouco numa nova mulher.

Não que Mãn não conhecesse o amor ao lado do marido. Tratava-se, no entanto, de um amor oposto ao das novelas, pelo qual se sofre e se tortura, e pelo qual se morre heroicamente. Pelo contrário, seu amor “à vietnamita”, descendente da tradição budista, exprimia-se na renúncia, no silêncio, na discrição, bem como na aceitação zelosa de um papel pré-estabelecido. No entanto, o acaso fará com que essa mulher sem vaidades encontre um homem igualmente perdido entre o passado e o presente, e com que o sentimento inesperado de uma paixão abale as estruturas de toda uma vida composta de renúncias.

Talvez o melhor adjetivo para caracterizar Mãn seja suave. Trata-se de um livro curto, composto por capítulos de no máximo duas páginas, todos eles antecedidos por uma palavra em vietnamita e pela sua tradução. A narrativa, feita em primeira pessoa, não se atém forçosamente à ordem cronológica, fazendo eventuais digressões segundo aquilo que oferece a memória de sua protagonista-narradora. Sua pluma incomparavelmente poética e suave, bem como a descrição detalhada dos pratos preparados pela cozinheira nos momentos mais marcantes de sua existência, provocam no leitor uma sensação sinestésica, combinando o prazer da leitura a uma satisfação quase gustativa.

Por tratar de uma temática vista e revista ao longo desses 365 dias – a questão da imigração e da procura da identidade –, Mãn encerra com chave de ouro um ano de leituras, se me permitem o jogo de palavras, particularmente frutuoso. E que venham outros como este!

 

Título original: Mãn

País: Vietnã

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2013

Edição em português: não há

Edição em inglês: Clerkenwell Press (ISBN: 978-184-6689-96-3)

Edição em francês: Libre Expression (ISBN: 978-276-4804-97-1)

Número de páginas: 152 (edição em francês), 160 (edição em inglês)

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