O quinto filho, de Doris Lessing

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No que diz respeito à escolha de autores, eu sempre fui uma pessoa um bocado preconceituosa. Na adolescência, recusava-me a ler tudo aquilo que cheirasse a best-seller, mesmo que com isso deixasse passar alguns clássicos: Erich Maria Remarke, Ernst Hemingway, Hermann Hesse… como também uma autora extremamente popular, cujos livros enchiam as prateleiras de qualquer biblioteca dos anos 1980 e 90: a britânica nascida no Irã Doris Lessing.

Fui conhecer Doris Lessing apenas à custa de necessidade. Estava na praia do Tofo, no Moçambique, e como não houvesse meio de carregar meu iPad, uma bolorenta edição alemã de O quinto filho era o único livro que me havia à disposição. E confesso que a espera valeu a pena: trata-se, para mim, do melhor livro do ano até o momento.

O quinto filho é um livro curto, de pouco mais de 100 páginas, concebido como uma espécie de fábula às avessas, e narra a infeliz história de um jovem casal perfeito, Harriet e David, cujo pequeno idílio familiar cai completamente por terra após à chegada de Ben, o quinto rebento. Narrado com um forte tom de crônica jornalística no qual preponderam a acidez e a ironia, o livro oferece-nos uma crítica ferrenha à hipócrita sociedade britânica, ao mesmo tempo em que revela a verdadeira essência do vínculo maternal.

Após conhecerem-se numa festa de escritório, Harriet e David descobrem um no outro o parceiro perfeito para as suas ambições pequeno-burguesas. Avessos às tendências libertárias dos anos 1960, os dois decidem se casar, comprar uma imensa casa vitoriana e enche-la de filhos, levando uma vidinha feliz e sem grandes arrebatamentos, baseada nos princípios da fidelidade e da estabilidade familiar. No começo, tudo corre bem, e a casa se torna o refúgio de uma infinidade de parentes e amigos ansiosos por compartilhar seu paraíso doméstico – as contas até se acumulam devido à eterna romaria de visitantes. Sua sorte, no entanto, mudará drasticamente desde a concepção do quinto filho, cujo desenvolvimento ainda no útero é de tal forma violento que provoca a rejeição imediata de uma mãe até então exemplar. Completamente fora do controle, Harriet tem a impressão de que o filho está a tentar mata-la por dentro, sensação que só tende a agravar com o nascimento difícil, seguido de uma amamentação catastrófica e de um primeiro ano ainda pior. O menino, de aparência estranha e pouco delicada, que em tudo mais parece um neandertal, revela-se rapidamente como uma ameaça aos próprios irmãos e primos, uma espécie de changelin deixado pelos trolls, cujas tendências violentas e ímpeto assassino destroem pouco a pouco a unidade familiar. Gradualmente, a pequena família modelo começa a ruir, seja pela irritabilidade constante de uma mãe à beira de um ataque de nervos, seja pela frieza do pai, ou pela ameaça constante desse estranho no ninho. Os visitantes começam a minguar, a vida torna-se insuportável… Mas haverá uma solução “limpa” para o problema de David e Harriet? Será a mãe capaz de se livrar do próprio filho, mesmo que o seu sentimento por ele tenha sempre sido o de repulsa e aversão?

Ao referir-se posteriormente ao processo criativo de O quinto filho, seu trigésimo-quinto livro, Doris Lessing, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura em 2007, afirma ter simplesmente odiado escreve-lo. Trata-se, de fato, de uma história de horror digna dos clássicos de Edgar Allan Poe, de um Bebê de Rosemary sem efeitos especiais, cujo senso de tragédia não deixará impassível nem o mais crítico dos leitores, e que deve seguramente ter revirado o estômago da própria autora. Trata-se, afinal, de uma metáfora poderosa, cujos ecos dificilmente sairão da memória do leitor, e que certamente trará pesadelos a qualquer leitora grávida ou ansiosa para ter um bebê. Um livro que põe em causa o conceito de maternidade, que questiona aquela ideia de felicidade dos comerciais de margarina, e que nos faz refletir sobre nossa própria humanidade. Em suma, um livro delicioso, apavorante, incontornável!

 

Título original: The Fifth Child

País: Reino Unido

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1988

Edição brasileira: Record (ISBN 85-0103-418-5)

Edição portuguesa: Europa América (ISBN 560-107-2033-04-7)

Número de páginas: 128 (edição brasileira), 173 (edição portuguesa)

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Eu sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

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Eu sou Malala é um livro que dispensa apresentações. Mais famoso que Paulo Coelho, mais disputado que o último CD de Justin Bieber, o livro que narra a trajetória da “menina que foi baleada pelo Talibã” correu rapidamente o mundo, fazendo da jovem paquistanesa uma figura carimbada, e servindo de trampolim para que ela se tornasse o mais jovem Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ironicamente, o que Malala não cansa de repetir ao longo das quase 400 páginas de sua autobiografia é que ela não desejava ser conhecida por ter tomado um tiro no rosto, mas sim pela sua luta para promover a educação em seu país de origem. Mas será que o seu ativismo político é realmente o motivo de tão grande celebridade?

Para já, chamar o best seller de autobiografia por si só deveria levantar uma série de reticências: sabemos que o livro foi escrito em coautoria com a jornalista inglesa Christina Lamb, especialista em países de democracia duvidosa, como o Oriente Médio, a África do Sul e o Brasil. Se os méritos de uma narrativa tão detalhada – e muitas vezes até mesmo aborrecida – só podem ser atribuídos à própria Malala, foi sem dúvidas a experiente jornalista quem conseguiu transformar a matéria bruta num sucesso comercial, digno dos 3 milhões de dólares que a menina teria recebido pelos direitos autorais.

Seria perda de tempo (meu e vosso) dedicar mais de meia dúzia de linhas ao enredo mais que conhecido: Malala, uma estudante da região de Swat, tornou-se conhecida graças ao seu discurso em prol da escolaridade de meninas em seu país natal, devastado pelo Talibã. Sua loquacidade só se tornou possível graças ao apoio do pai, diretor da escola onde estudava e empenhado combatente pelos Direitos Humanos. O comportamento pouco convencional de pai e filha fez com que terminassem na mira dos fanáticos islamistas, que os acusavam de secularização e ocidentalização. Mas não estamos aqui para julgar a coragem de Malala, mas sim a qualidade de sua biografia.

O livro, bastante recheado, e decorado por uma longa sessão de fotografias em guisa de apêndice, tenta intercalar os quinze anos de vida de Malala a um vasto aparato de informações históricas, no intuito de alinhar a micro e a macro narrativa. Tudo isso, é claro, sem deixar de lado inúmeras anedotas do cotidiano, como as banais historietas de disputas com as amigas pelo título de melhor aluna da escola, a fim de oferecer ao leitor uma Malala mais “humana”, cheia de erros, mas que não deixou que o sucesso e a celebridade lhe subissem à cabeça. Tal fórmula, acrescida das incontáveis frases de efeito motivacional que poderiam ter sido retiradas diretamente de O alquimista, tornam a leitura enervante, e não nos surpreendemos nem um pouco ao descobrir que a heroína pela educação é, de fato, uma fã de carteirinha do escritor brasileiro mais vendido de todos os tempos. Para terminar, o livro surpreende pela falta de espírito crítico de uma menina tão politizada, quando se trata de elogiar sem precedentes um outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, no qual ela parece não ver nem a sombra de boa parte da culpa pela presença dos talibãs em seu amado Paquistão. Ironicamente, os mesmos talibãs que quase conseguiram silenciá-la. Seria a Malala tão ingênua, ou tratar-se-ia apenas de um recurso editorial para fazer o livro mais apresentável, mais conforme à sensibilidade do leitor ocidental? A julgar pelo fato de que, em entrevistas e debates anteriores à publicação da biografia, Malala levantou sim a voz para criticar abertamente a intervenção militar e as políticas estadunidenses no Paquistão, tendo a me deixar levar pela segunda opção.

Obviamente, não estou a colocar em causa a importância da mensagem que Malala veio dar ao mundo, mas sim a parcialidade e o maniqueísmo de um livro feito para agradar as grandes massas. Um livro que perdeu uma excelente oportunidade de contextualizar o crescimento da força de grupos extremistas a partir de 2001, e de questionar o papel dos Estados Unidos e da “luta contra o terror” no crescente estado de guerra que domina o Oriente Médio.

Ao fim de uma leitura não completamente maçante, mas que mesmo assim me custou duas semanas, fica a lição: da próxima vez, eleger uma obra de literatura de verdade.

Título original: I Am Malala: The Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban

País: Paquistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5923-43-8)

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2351-73-7)

Número de páginas: 360 (edição brasileira), 352 (edição portuguesa)

 

 

Unburnable, de Marie-Elena John

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Algumas histórias nos prendem a partir do primeiro parágrafo. Um romance mesclando o realismo fantástico latino-americano e o pragmatismo estadunidense, com forte viés feminista, que narra a trajetória de mulheres peculiares numa ilha perdida no meio do Caribe, estava fortemente fadado a chamar minha atenção. Eis o meu estado de ânimo ao começar a ler Unburnable, da novata Marie-Elena John.

Escritora de primeira viagem, John não tenta mascarar os motivos pelos quais decidiu se embrenhar na literatura. A autora, originária da pequena Dominica (não confundir com a muito mais proeminente República Dominicana), desejava escrever romances comerciais enquanto era obrigada a abdicar da carreira para se dedicar aos filhos pequenos. Que seu primeiro rebento literário se tornasse tudo menos um romance comercial tradicional, foi fruto de uma evolução que nem ela própria havia previsto. Foi como se a história de seu país de origem a tivesse impelido a algo muito mais denso e ousado que suas pretensões iniciais.

Unburnable narra a história de três gerações de mulheres de uma mesma família, sobre as quais parece pairar uma maldição descendente de sua força e inadequação às regras do mundo machista. Matilde, a avó, foi uma espécie de curandeira descendente de escravos fugidos, vivendo numa espécie de quilombo regido pelo matriarcado e por forte reminiscência do animismo africano. Iris, a mãe, carregava em seu sangue a mescla do sangue negro com o índio nativo, e foi tragada à ruína devido a sua incomparável beleza e ao apetite sexual fora da normalidade. Lilian, a filha, em cujo sangue cafuzo da mãe se mesclava a descendência longínqua do branco colonizador, foi criada por uma mãe de adoção segundo os preceitos da igreja católica, sem sequer desconfiar que as ladainhas cantadas pelas crianças da escola sobre a feiticeira enforcada e o estupro com uma garrafa de Coca-Cola diziam respeito à mãe e à avó. Confrontada com a verdade, isola-se de suas origens num exílio de mais de vinte anos nos Estados Unidos, até que o desejo de descobrir a verdade sobre suas antepassadas – bem como o de provar a inocência da avó, enforcada sob a acusação de assassinatos em série – faz com que retorne à terra natal. Acompanhada, aliás, por uma espécie de namorado, cuja utilidade do ponto de vista narrativo ainda estou por descobrir.

Um enredo como este será capaz de tirar o fôlego de qualquer leitor, sobretudo se levarmos em conta o imenso trabalho historiográfico empreendido pela autora, que procura resgatar por meio de suas personagens um pouco da riqueza de seu país. Contudo, o que sua inexperiência não lhe permitiu fazer foi justamente aquilo que para muitos autores tivesse sido talvez o mais fácil: criar uma protagonista realmente carismática. Ao fim e ao cabo, sobretudo se tomarmos em conta o peso da personalidade de suas duas antepassadas, a heroína Lilian soa-nos simplesmente mimada, egoísta e neurótica. Como se o sangue forte de Matilde se tivesse diluído com o tempo, como tinta negra em contato com a água.

Aliado ao fato de que a trama deixa diversos pontos sem nó, sobretudo no que diz respeito ao final demasiado aberto, a falta de carisma de Lilian faz com que o livro perca uma série de pontos, sem contudo despencar num abismo. Ao pesarmos seus pontos fortes e fracos, chegamos à conclusão de que se trata de uma boa leitura – boa, mas não excelente.

Nada mal para uma primeira tentativa!

Título original: Unburnable

País: Dominica

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2006

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Harper Collins (ISBN: 978-006-1977-88-6)

Número de páginas: 302

Herege, de Ayaan Hirsi Ali

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É raro que um livro publicado em inglês seja lançado quase simultaneamente no Brasil. Mais raro ainda em se tratando de um livro teórico que debate um tema que nem de longe faz parte da realidade imediata do brasileiro médio. No entanto, a pressa editorial justifica-se facilmente: livros polêmicos sobre o extremismo islâmico vendem bem.

Ayaan Hirsi Ali é mais que conhecida. Sua biografia, na qual relata sua trajetória de islamista devota a respeitada parlamentar da centro-direita holandesa, tornou-se um best-seller comemorado pelos liberais de vários países ocidentais: Finalmente uma mulher muçulmana com culhões para denunciar as atrocidades cometidas em nome de Alá! Herege, seu último livro, foi afortunadamente lançado pouco depois dos ataques ao hebdomadário francês “Charlie Hebdo”, que ela ainda conseguiu incluir em seu extenso inventário de crimes cometidos pelos adoradores de Maomé.

O livro visa provar a tese de que o islã não é uma religião de paz, como normalmente apregoa a esquerda hippie dos países desenvolvidos, mas que a violência lhe é inerente. A violação aos direitos humanos, segundo ela, encontra-se no seu cerne, uma vez que seu livro sagrado, o Corão, descreve um conjunto de regras tribais arcaicas que legitimam o estupro, o linchamento, a submissão feminina, a guerra santa e a imposição forçada de uma pretensa moralidade. Tudo isso é ricamente ilustrado com notícias sensacionalistas das principais comunidades islâmicas, que fazem da violência nas favelas cariocas uma brincadeira de crianças. A ideologia islâmica, diz a autora, ameaça concretamente os direitos adquiridos em séculos de luta no Ocidente, sobretudo agora que as ondas de refugiados trazem consigo futuros potenciais terroristas,* e tendo em conta que os árabes têm muito mais filhos que os ocidentais. Seremos, em breve, excedidos em números em nossas próprias casas, a menos que abramos os olhos e deixemos de ser condescendentes. Afinal, diz ela, o islã odeia seus inimigos mais do que ama seus filhos.

Eis o único aspecto no qual concordo com Ali: O Corão – como já antes a Torá e o Antigo Testamento – está cravado de passagens violentas que, tomadas ao pé da letra por fanáticos, justificam atentados terroristas, e servem de base a grupos como o Estado Islâmico, a Al-Qaïda e o Boko Haram. Ler os textos sagrados literalmente e tentar viver conforme seus ditames é prova de um anacronismo grotesco que não pode ser tolerado. Não podemos aceitar que as meninas do Iêmen se casem aos seis anos de idade porque o “profeta” também o fez, não podemos tolerar as perseguições aos homossexuais, a subjugação das mulheres, o delírio de um califado e o apelo da jihad porque “está escrito”.

Por outro lado, não podemos, ao tomar esses exemplos, deixar comodamente de fora todos os outros nos quais o islamismo provou-se condizente com o século XXI. Por exemplo a Malásia, regida pelo multiculturalismo. Ou a Turquia, o Marrocos, o Senegal, a Bósnia, a Albânia – a lista é longa. Em seu afã progressista, ela se atém à história única de que já falava Chimamanda, e se esquece que a história é cíclica, e que na Idade Média éramos nós os brutamontes e os árabes o pináculo cultural e tecnológico. Que talvez nem tivéssemos chegado à Renascença não fosse a Escolástica, baseada na filosofia grega que eles salvaram para nós.

Mais do que isso, não podemos esquecer, ao louvarmos o avançado Ocidente, de que ele próprio é culpado por muito do imbróglio nos países islâmicos. Tomemos como exemplo o Afeganistão, destinação turística preferida dos bichos-grilos dos anos 1970, e onde as mulheres gozavam de direitos iguais durante a dominação soviética. Quem foi que armou a então minoria ultra religiosa até os dentes, e a botou para lutar contra os capacetes vermelhos, senão os Estados Unidos? Minoria, aliás, que mais tarde ganhou força e se tornou o Talibã. Devemos chamar de kharma ou de efeito borboleta?

Mais que a falta de contextualização histórica, o que me incomoda no livro de Ali são as suas incoerências, como a voz narrativa que adere ora ao “nós” muçulmanos e ora ao “nós” ocidentais. Para não falar da anticlimática conclusão: A autora passa 220 páginas a fazer-nos um terrorismo psicológico, alegando que nosso mundo está ameaçado, que devemos abrir os olhos, que os árabes nos odeiam, para no fim… nada! Em vez de propor uma solução ou fazer sugestões concretas, ela prefere tranquilizar-nos dizendo que afinal as coisas não são tão más assim, e que a reforma já está em marcha, graças a dissidentes corajosos como ela. O que aliás até é verdade.

Ayaan Hirsi Ali consegue ser mais branca que o Michael Jackson, e seu discurso mais ferino que o de Marine Le Pen. Mas seu livro, se lido com olhos críticos, não deixa de ser interessante, sobretudo quando põe em causa a permissividade da esquerda pró-multiculturalismo, que tapa o sol com a peneira e acaba defendendo o algoz e não a vítima. Ela tem toda a razão quando fala que não se pode defender quem não defende os direitos humanos. Para mim, pessoalmente, foi um tapa na cara. Para a maioria dos leitores, no entanto, ele só vai confirmar a ideia preconcebida de que os islamistas são um povo retrógrado, selvagem e preso na Idade Média. O que está longe de ser verdade.

 

* Fez pensar na charge polêmica do Charlie Hebdo. Mas essa, pelo menos, continha ironia.

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Título original: Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now

País: Somália

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5925-87-6)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 272

A irmã de Freud, de Goce Smilevski

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Viena, 1938. Quatro velhas judias imploram ao irmão que as inclua em uma lista para obter um visto para fora de uma Áustria ocupada pelos nazistas. Impassível às suas súplicas, o homem segue caminho para a Inglaterra, onde morrerá pouco depois, deixando para trás as quatro mulheres, que perecerão todas num campo de concentração. O que choca o leitor não é apenas sua frieza, nem o fato de que ele poderia facilmente tê-las salvo, já que conseguiu fazer o mesmo com seu médico, suas criadas, e até mesmo seu adorado cachorro. Mais do que isso, o que incomoda é saber que esse Schindler ao contrário é nada menos que o aclamado psicanalista Sigmund Freud.

Os apologistas de Freud ficarão provavelmente incomodados com sua imagem enigmática e fria tecida pelo escritor macedônio Goce Smilevski. Aqueles que, como eu, consideram o “pai da psicanálise” um enorme charlatão e misógino chauvinista até se divertirão com a ideia do autor. Na verdade, A irmã de Freud será um prato cheio para todos os fãs da belle époque vienense, que encontrarão nele um Gustav Klimt ninfomaníaco e sua irmã sufragista, Martha Freud e sua irmã Minna Bernays, e até mesmo uma envelhecida Ottla Kafka – a irmã preferida do famoso escritor tcheco – pronta a se sacrificar por um grupo de órfãos desconhecidos. Pois o livro de Smilevski é mesmo isso: um livro de irmãs sofredoras, de mulheres fortes e frágeis vivendo à sombra de seus adorados irmãos brilhantes numa sociedade paternalista na qual não lhes era dada a chance de desenvolverem seu potencial.

Se este é o lado positivo da história, é preciso dizer que o negativo também faz pensar no médico vienense que A irmã de Freud tenta demonizar. Afinal, chega a ser uma ironia que um livro dedicado ao maior estudioso das camadas profundas da mente humana tenha uma profundidade psicológica na construção das personagens beirando o zero. Adolfina, a protagonista-narradora, narra-nos sua vida atendo-se mais aos fatos que a suas causas e consequências, e o faz numa tal velocidade que temos a impressão de que mal chegamos a conhece-la de fato. Isso se aplica, pelo menos, até o seu ingresso num hospital psiquiátrico, a partir do que as páginas se arrastam em descrições longas e fastidiosas, citações de famosos sobre doenças mentais, num verdadeiro (e desnecessário) ensaio sobre a loucura. As relações familiares, os vínculos afetivos entre Adolfina e as outras irmãs, os motivos pelos quais uma delas ficou cega, e até mesmo a razão pela qual Sigmund teria decidido “abandonar” a própria família num ninho de antissemitas – tudo isso, ao contrário, permanece inexplicado. Falta o elo que interliga os elementos da trama, falta o fio de Ariadne que nos permite compreender a chocante primeira cena, que por isso mesmo acaba se tornando desnecessária, polêmica, sensacionalista. Fórmula barata para se fazer best sellers, para se vender milhões de cópias no mundo, mas de maneira alguma fórmula para se escrever um livro de qualidade.

Tudo isso, na verdade, é mesmo uma grande pena, já que o material histórico era fascinante, o ponto de partida excelente, e a qualidade narrativa também não era das piores. Uma excelente ideia, enfim, nas mãos de um escritor sem o talento necessário para a desenvolver. Pérolas jogadas aos porcos.

 

Título original: Sestrata na Sigmund Frojd

País: Macedônia

Idioma original: macedônio

Ano de publicação: 2007

Edição brasileira: Bertrand Brasil (ISBN978-852-8617-28-3)

Edição portuguesa: Alfaguara (ISBN 978-989-6721-65-7)

Número de páginas: 336 (edição brasileira), 332 (edição portuguesa)

A evolução de Calpurnia Tate, de Jacqueline Kelly

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Desde que ouvi falar de Calpurnia Tate, o livro tornou-se-me uma pequena obsessão. Encaixá-lo no meu plano geográfico de leitura até que não era difícil, mas não seria algo desonesto? Afinal de contas, mesmo que sua autora seja originária da Nova Zelândia, a história se passa nos confins do Texas. Por fim, venceu a curiosidade: mesmo consciente de que existem centenas de outros livros muito mais neozelandeses à espera de serem lidos, desta vez teve mesmo de ser.

A evolução de Calpurnia Tate é o primeiro de dois romances históricos infanto-juvenis protagonizados por Calpurnia, ou Callie Vee, uma menina de onze anos que nada tem de conformista. Oriunda de uma família de abastados fazendeiros, Callie cresce como a única filha ao lado de seis irmãos, três mais velhos e três mais novos, tornando-se, graças à ausência de modelos femininos, numa verdadeira maria-rapaz. Em vez de dedicar seu tempo a tarefas convencionalmente femininas, Calpurnia prefere correr livre pelos campos e, estimulada por um avô misantropo, dar asas à sua curiosidade científica e investigar os mistérios da natureza. Tarefa esta em nada reprovável, não fosse pelo fato de estarmos a falar do ano de 1899, uma época em que pouco se esperava das mulheres além de que soubessem costurar, bordar e manejar uma cozinha.

De maneira geral, pode-se dizer que Calpurnia Tate é um livro bem-sucedido: a história é bem escrita, a narrativa em primeira pessoa funciona de fato, e a trama, situada em plena virada do novo século, remete seus jovens leitores a uma época que pode lhes parecer tão distante quanto a Idade Média. Uma época na qual as mulheres tinham poucos direitos, mas na qual, por outro lado, tudo parecia possível: com o advento do telefone, o avanço das vias telegráficas, bem como a invenção do automóvel, antevia-se uma modernidade latente e irrefreável, repleta de maravilhas capazes de revolucionar a micro e a macro-história. Nesse sentido, trata-se de um romance que eu sem dúvida recomendaria aos meus alunos – e sobretudo alunas – de doze anos de idade. Mas, se é assim, qual o problema?

Desta vez, o problema, na verdade, não está no livro, mas sim fora dele: a propaganda, eterna alma do negócio e algoz das nossas expectativas, pintou o romance de Kelly com cores muito diversas, vendendo-o como se fosse um Mundo de Sofia das ciências naturais. Ora, numa época como a nossa, na qual cai por terra o mito da pretensa igualdade entre os sexos, e se tenta reinventar o papel da mulher na sociedade, um livro que fizesse despertar o interesse das meninas pelos mistérios do universo poderia ter sido muito bem vindo. Se bem realizado, ele poderia ter mesmo sido um contributo essencial para fazer despertar na nova geração um interesse por carreiras tipicamente masculinas, revisitando os velhos paradigmas que confinam o “sexo frágil” às ciências humanas. No entanto, realizar tal proeza não é nem nunca foi o intuito de Kelly, muito mais preocupada em oferecer-nos um panorama das relações familiares e dos pequenos dramas cotidianos de uma menina fascinada por Darwin.

Apesar das expectativas frustradas, é preciso admitir que A evolução de Calpurnia Tate é, em seu gênero, um livro bom, que certamente cumprirá o seu intuito de entreter o jovem público ao qual está destinado. No entanto, é inevitável lamentar a oportunidade desperdiçada de fazer algo realmente inovador. Afinal, se quiséssemos tão-somente descobrir a realidade das crianças do século XIX, poderíamos ter ficado com Uma casa na campina.

A revolução feminista ainda não foi desta vez.

 

Título original: The Evolution of Calpurnia Tate

País: Nova Zelândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Única (ISBN 978-856-7028-41-5)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6660-99-4)

Número de páginas: 384 (edição brasileira), 248 (edição portuguesa)

 

 

 

A prova do mel, de Salwa al-Neimi

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Nos últimos tempos, tudo aquilo que temos ouvido falar sobre a Síria diz respeito ao drama dos refugiados, aos ataques atrozes do autodenominado Estado Islâmico, à destruição de cidades milenares, e ao assassinato brutal de milhares de inocentes. Em suma, a Síria se tornou aquilo em que há décadas consistiam o Iraque e o Afeganistão: um lugar perigoso e em ruínas, habitado pelos piores inimigos dos valores e da cultura ocidentais, e de onde não se pode esperar nada de bom. No entanto, até bem pouco tempo atrás, a Síria ainda era um país relativamente aberto para o mundo, berço de uma cultura laica fascinante, e pátria da autora de um dos livros árabes mais polêmicos do século XXI: a escritora e jornalista Salwa al-Neimi.

Publicado originalmente em Beirute, no Líbano, A prova do mel tornou-se pouco depois num best-seller da literatura erótica em vários países, em seguida a ser banido em todo mundo árabe. E não era para menos: escrito em primeira pessoa, o livro tem como protagonista uma mulher síria de idade desconhecida, cuja liberdade sexual e busca por prazer poderiam enrubescer até algumas das mais “avançadas” ocidentais. Graças ao seu trabalho numa biblioteca parisiense, a mulher anônima tem acesso a documentos preciosos da literatura erótica árabe, que lê com sofreguidão, adaptando os dizeres dos antigos especialistas à sua vida cotidiana. Entre livros de erotismo e encontros com o amante, ela vai tentando saciar sua curiosidade também através dos relatos picantes de amigas e conhecidas, numa sede ninfomaníaca por conhecimento sexual. Quando o diretor da biblioteca em que trabalha recomenda-a para integrar um grupo de pesquisa internacional sobre erotismo no mundo árabe, seus prazeres secretos podem finalmente ser expostos à luz do dia.

Quem lê A prova do mel percebe imediatamente o motivo da polêmica que o envolve. Afinal, baseando-se nos escritos de filósofos e poetas da era medieval, al-Neimi tenta provar que as bases da sociedade árabe estão intrinsecamente ligadas ao sexo, que a sua abstinência leva à loucura, e que o aparente puritanismo da sua sociedade acaba por transformar o erotismo numa obsessão quase compulsiva. Em alguns momentos, somos mesmo levados a crer que o sexo, para os árabes, chega a ser muito mais importante que para nós ocidentais – como tudo aquilo que é secreto e socialmente proibido acaba por se tornar. Só por isso, é possível conceber que a autora, residente em Paris, deve se encontrar na lista dos mais procurados inimigos do Estado Islâmico.

Do ponto de vista literário, no entanto, não há tanta coisa assim a ser dita. Até mesmo encontrar uma categoria literária na qual encaixemos A prova do mel consiste numa tarefa deveras difícil, já que o teor filosófico e ensaístico estão presentes em larga escala, em detrimento da própria trama. Quando penso num adjetivo capaz de o caracterizar, nada me vem à mente além de “interessante”. Interessante, sim, de um ponto de vista cultural, mas escrito de tal forma que quase não pode mais ser considerado literatura.

Que isso, no entanto, não sirva de pretexto para não o ler. Afinal, não é todos os dias que encontramos um livro tão exótico, informativo, corajoso e explícito quanto este.

 

Título original: برهان العسل

País: Síria

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2007

Edição portuguesa: Teorema (ISBN 978-972-6958-59-8)

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-857-3029-78-9)

Número de páginas: 114 (edição portuguesa), 152 (edição brasileira)

As consequências do amor, de Sulaiman Addonia

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Correndo o risco de ser acusada de saltar de uma história de amor à outra, a resenha de hoje é dedicada a outro livro de um país ignorado pelo mundo: As consequências do amor, do escritor eritreu Sulaiman Addonia.

Quem lê as primeiras páginas sem saber que o livro foi escrito por um homem pode muito facilmente se confundir: a sutileza da narrativa, bem como a ingenuidade da visão do mundo do protagonista e narrador em primeira pessoa, dão a ilusão de que se trata não apenas de um eu-lírico feminino, mas também de um texto escrito por uma mulher. No entanto, Nasser, figura principal do romance, é um jovem e belo rapaz de origem eritreia que sonha com o primeiro amor, vivendo na inóspita Arábia Saudita dos anos 1980. No passado, ele e o irmão de três anos foram mandados pela mãe para fora da terra natal como forma de fugir à morte certa num país assolado por uma guerra sem fim. Resgatados por um tio de um campo de refugiados sudanês, os meninos foram adotados pelo parente ultrarreligioso e levados a viver no país do Golfo, onde o contato entre homens e mulheres beira o inexistente. Para Nasser, que cresceu entre mulheres no prostíbulo onde trabalhava a mãe, adaptar-se a um mundo sem elas torna-se praticamente impossível, sobretudo após ser expulso pelo tio e passar a sustentar a si próprio ainda aos 15 anos.

A história de amor em si é bastante previsível: o menino, que sonha com o amor, recebe um bilhete romântico que uma mulher escondida por trás de uma burqa deixa cair a seus pés, e se apaixona pela desconhecida, com quem passa a se corresponder. Surge daí uma paixão que nos é estranha, por uma mulher cujo nome e a própria cor da pele desconhece, e que no começo não é mais que a tentativa de suprir uma carência de ambos os lados.

Num país do qual o amor foi banido, está claro que as consequências de um relacionamento amoroso nunca poderiam ser positivas. No entanto, a história, que parecia a princípio não passar de um amontoado de clichês, torna-se aos poucos cada vez mais envolvente. À medida em que as discussões entre ambos transcendem a fase das declarações açucaradas, seus questionamentos acerca da função da mulher no mundo árabe acabam por se tornar um estudo da sociedade saudita. Uma sociedade, aliás, que pode ser considerada a maior prisão a céu aberto do mundo, e cuja fachada moralista e ultraconservadora esconde um submundo muito pouco condizente com os dogmas do islã. Afinal, uma vez que banir as mulheres não significa extirpar o desejo e a luxúria, o homossexualismo e mesmo o abuso sexual de jovens rapazes de castas inferiores acabam por se tornar práticas aceitáveis, desde que devidamente praticadas debaixo dos panos.

Os jovem de As consequências do amor são deveras diferente das “modernas” garotas de Riade de Rajaa Al-Sanea. Em vez da jovem elite citadina, temos aqui refugiados e filhos de imigrantes, membros muito mais fragilizados de uma estrutura social claustrofóbica e hipócrita. Embora jamais venha a ser uma pérola da literatura, e embora não possa ser considerado um romance tecnicamente eritreu, trata-se de um livro interessante, que cresce aos olhos do leitor com o desenrolar da narrativa, e que merece ser lido por oferecer um olhar crítico e sincero a uma das sociedades mais opressoras do mundo.

Título original: The Consequences of Love

País: Eritreia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1082-41-1)

Número de páginas: 400 (edição brasileira)

 

The Screaming of the Innocent, de Unity Dow

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Alguns livros causam uma impressão tão estranha que é preciso vários dias, por vezes mesmo meses, para digeri-los totalmente. Poucas vezes um livro me deixou tão confusa quanto O grito dos inocentes [tradução livre], da autora botsuana Unity Dow.

Em seu segundo romance, Dow remete-nos a um país do qual quase nunca ouvimos falar, e cuja imagem ela apresenta por meio do contraste entre extremos. Por um lado, acompanhamos a tentativa da juventude citadina de se auto-afirmar como um país moderno e civilizado, diferente, cito, “desses países africanos por aí”. Por outro, essa mesma modernidade auto-imposta é atropelada por males universais, como o machismo e a corrupção, e por outros (assim espero) nem tanto, como uma rusticidade retrógrada, bárbara e supersticiosa, materializada na crença cega no poder da magia negra.

Logo nas primeiras páginas, travamos conhecimento com um homem de negócios considerado, sob todos os aspectos, um “homem de bem”. Enquanto leva a mimada filha mais nova para passear, ele observa uma menina pobre, mal chegada à puberdade, a brincar inocentemente. Pouco depois, a mesma menina será dada como desaparecida, e sua morte explicada pela polícia como consequência do ataque de animais selvagens. No entanto, tudo indica que ela fora vítima de algo muito mais brutal: um assassinato ritual (ritual murder), no qual a presa ainda viva tem os seios, as axilas e as partes genitais decepados, para serem em seguida consumidos pelos poderosos locais, como meio de aumentar ainda mais o seu poder. Cinco anos mais tarde, as únicas provas do crime, que haviam convenientemente desaparecido, são reencontradas por uma estagiária no hospital da aldeia onde vivia a menina, o que leva à revolta dos aldeões, bem como a uma eventual tentativa de negociação com as autoridades.

A fim de tematizar o assunto de chocante atualidade, a autora optou acertadamente por uma narrativa em terceira pessoa, que transita de uma personagem a outra. Como resultado, temos contato com diferentes pontos de vista, que são ao mesmo tempo complexos fragmentos de realidades divergentes, formando um dialogismo quase bakhtiniano. Ademais, a autora preocupou-se em explorar o histórico de diversas personagens secundárias, narrado por meio de flashbacks, o que nos permite percebe-las em sua complexidade, e vislumbrar um pouco mais de uma realidade que beira o absurdo. Nesses momentos, fica latente a crítica político-social intendida por Dow, também conhecida por seu trabalho juíza e ativista dos direitos humanos.

Contudo, embora a trama seja por si só um motivo para estranhamento, não é dela que descende o mal-estar causado pelo livro. O que nos parece uma escolha muito menos acertada é o fato de que as personagens que tentam desvendar o mistério são todas surpreendentemente imaturas: estudantes de liceu recém-formadas ou advogadas em início de carreira, cuja frivolidade (estereo)típica da idade conferem ao livro breves interlúdios de um humor inusitado e mesmo incômodo.

A julgar pela acurada construção das personagens e pela boa condução da pluriperspectividade narrativa, somos levados a acreditar que deve haver alguma intenção por trás dessa escolha muito pouco ortodoxa. No entanto, ao cabo de pouco mais de 200 páginas, tenho que confessar que não cheguei a descobrir que intenção era essa. Culpa da autora, culpa da leitora? Eis um mistério que não me arrisco a tentar resolver.

Título original: The Screaming of the Innocent

País: Botsuana

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2002

Edição em português: não há

Edição inglesa: Spinifex (ISBN: 978-187-6756-20-8)

Número de páginas: 215 (edição inglesa)

A mulher sem sepultura, de Assia Djebar

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A mulher sem sepultura, um dos últimos romances escritos pela escritora e feminista argelina Assia Djebar, não é um livro para qualquer um. Djebar, pseudônimo literário de Fatema Zohra Imalayen, morreu em Paris no último mês de fevereiro aos 78 anos, deixando um legado que vai muito além dos livros que escreveu. A autora, que foi por diversas vezes mencionada como uma das possíveis ganhadoras do Prêmio Nobel da Literatura, não é apenas conhecida por sua escrita singular, mas também pelo seu empenho em defender diversas causas relacionadas à emancipação das mulheres no Magreb.*

O livro que escolhemos como representante da Argélia não poderia ser mais emblemático – tanto no que se refere ao trabalho da autora, quanto à história recente do seu país. Trata-se da biografia de Zoulinkha Oudai, uma mulher à frente do seu tempo, que desafiou o exército francês e a opressora sociedade paternalista ao se tornar uma militante durante a sangrenta Guerra da Independência (1954-1962). Filha de um proprietário de terras orgulhoso em poder lhe oferecer instrução formal, Zoulinkha contrasta fortemente com a imagem da típica mulher argelina, a começar pelo fato de que se casou três vezes, todas elas por amor. Mãe de cinco filhos, um deles assassinado pelo exército francês logo após a morte de seu terceiro marido, Zoulinkha é motivada pela tragédia familiar a abandonar a pacata vida familiar, tornando-se a líder local da Frente de Libertação Nacional. Ao abdicar do papel de mãe de dois filhos ainda pequenos a fim de se tornar um ícone da luta armada pela independência do seu povo, a heroína torna-se uma espécie de lenda, cujo nome desperta em seus familiares um misto de respeito e ressentimento.

Mas quem não conhece a história de Zoulinkha Oudai terá grande dificuldade em entende-la por meio do livro de Djebar. É que a trama de A mulher sem sepultura, narrada a partir das lembranças de suas duas filhas – Hania, a mais velha, que já estava casada à época do falecimento da mãe, e Mina, a caçula –, bem como de sua mais fiel companheira, a Dama Leoa, é marcada pela frequente mudança de voz narrativa, por um vai-e-vem entre passado e presente, e pelo constante lamento das narradoras polifônicas. O resultado dessa busca arqueológica é o que poderíamos chamar de uma “biografia afetiva”, ficcional embora baseada numa história verídica, um puzzle repleto de símbolos, pontos de exclamação e reticências. Exageros narrativos esses que, embora o livro tenha lá os seus não poucos momentos de ouro, são lamentavelmente capazes de cansar a paciência até do mais perseverante leitor.

Por honrar a participação feminina na Guerra da Independência, por dar voz a uma história condenada às sombras do esquecimento, e por deixar entrever aquilo que o futuro poderia ter sido, A mulher sem sepultura é um livro digno de grande respeito. No entanto, se levarmos em conta aquela que deveria ser a função primeira da literatura de ficção – o prazer da leitura –, é escusado dizer que o combate de Djebar dificilmente pode ser dado como ganho.

* Para quem não sabe, nome dado ao conjunto de países do norte da África que inclui o Marrocos, o Sahara Oriental, a Argélia e a Tunísia, ou, em sentido mais amplo, também a Mauritânia e a Líbia.

 

Título original: La femme sans sépulture

País: Argélia

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2002

Edição brasileira: não há

Edição portuguesa: Círculo dos Leitores (ISBN 978-972-7599-86-8)

Número de páginas: 191 (edição portuguesa)