A Beautiful Place to Die, de Malla Nunn

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Depois de dois meses sem escrever, sinto que devo uma explicação. Na verdade, tenho não apenas uma, mas duas boas desculpas: uma mudança de casa, de cidade e de vida, e um bebê à caminho. Tudo isso reduziu o meu ritmo de leituras, reduziu (leia-se: bloqueou) a minha assiduidade neste blog, mas não diminuiu o meu desejo de levar em frente o projeto. Ainda falta pouco mais de cem países a serem lidos. Quase metade do percurso percorrido. 2017 chegou, vamos a isso!

Se ler um bom livro faz com que nos sintamos imediatamente familiares às suas paisagens e personagens, ler um bom livro enquanto se viaja fisicamente pelas terras onde a trama se desenrola é uma emoção inexplicável. Foi assim este ano com A Beautiful Place to Die, primeiro romance policial da escritora suazi Malla Nunn. Ambientado no extremo nordeste da África do Sul em 1952, período de plena ascensão do regime do Apartheid, o livro transporta-nos para um pequeno vilarejo dominado por boers (resumindo grosseiramente: os descendentes de holandeses extremamente racistas que iniciaram o Apartheid), ao mesmo tempo em que questiona as contradições e a hipocrisia da ideologia dominante.

A trama complexa de um romance policial bem escrito talvez já deixe transparecer a imensa quantidade de mensagens subliminares presentes no livro: Logo após a assinatura do “Ato da Imoralidade”, que impedia qualquer tipo de relacionamento íntimo entre brancos e negros, o capitão da polícia do idílico vilarejo de Jacob’s Rest é encontrado morto à beira de um rio, motivo pelo qual o detetive de ascendência inglesa Emmanuel Cooper é enviado para o local. Logo ao chegar, Cooper depara-se com uma comunidade fechada e repleta de incoerências, dominada pelo medo dos negros e pelo racismo dos brancos, na qual ninguém parece disposto a revelar os seus mais infaustos segredos. Com o passar do tempo, e sob a constante vigilância dos brutamontes filhos do capitão assassinado – os quais parecem temer que o detetive se meta em assuntos que não deve – , Cooper acaba por ganhar a confiança do agente negro Shabalala, bem como a do “velho judeu”, uma espécie de pária local no limiar entre os conceitos raciais, possivelmente as única pessoas inteligentes do local. Suas buscas fazem-no enveredar por caminhos sinuosos até a capital do Moçambique, ainda então conhecida como Lourenço Marques, em busca de fotografias comprometedoras, e desvendar uma extensa rede de relações proibidas. Como seria de se esperar, tudo isso fará dele um alvo potencial, já que algumas verdades não foram feitas para serem reveladas.

A todos aqueles que se interessarem por esta excelente leitura, deixo um único spoiler: o mocinho não morre no final. Pelo contrário, ele reaparece como o protagonista de ao menos três outros romances. Àqueles que pensavam que apenas os escandinavos eram dignos do título de melhores séries de literatura policial, fica a minha opinião pessoal – o primeiro romance de Malla Nunn coloca qualquer Jo Nesbø tranquilamente no chinelo. E com que categoria.

Feliz ano novo a todos. E vida a Suazilândia, esse querido país minúsculo com tanto para oferecer!

 

Título original: A Beautiful Place to Die

País: Suazilândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição em português: não há

Edição inglesa: Atria (978-141-6586-20-3)

Título espanhol: Un hermoso lugar para morir

Edição em espanhol: Siruela (978-849-8415-65-0)

Número de páginas: 384 (edição em inglês), 416 (edição em espanhol)

 

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Assando bolos em Kigali, de Gaile Parkin

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Alguns livros são amor à primeira vista. Outros, no entanto, exigem de nós um certo esforço, um apuramento do paladar de modo a apreciar sua grandeza. Assando bolos em Kigali, da autora zâmbia (branca) Gaile Parkin, não foi de maneira alguma um caso de paixão fulminante. Muito pelo contrário: seu excesso de small talks, suas descrições intermináveis, bem como seu tom excessivamente didatizante, chegaram mesmo a me tirar do sério nos primeiros tempos, e a julgar que nunca mais o acabaria. Até que eu me desse conta de que sua beleza reside justamente naquilo que me havia incomodado a princípio.

Assando bolos em Kigali é um romance  cuja estrutura se desenrola de maneira similar a uma telenovela, tendo como eixo central a figura materna e benfazeja de Angel, uma avó quarentona da Tanzânia, proprietária de uma pâtisserie no coração de Kigali, capital do Ruanda. Seus clientes, oriundos das mais distintas classes sociais, são estrangeiros expats, funcionários das Nações Unidas, esposas de diplomatas, mas também pessoas simples, como soldados, enfermeiras e professores locais, bem como imigrantes indianos, árabes e de boa parte da África Central. Atraídos por seus excelentes dotes culinários, bem como pelo seu inigualável talento como conselheira, essas pessoas encontram em Angel uma interlocutora fiel e discreta, a quem confiam seus maiores segredos em torno de uma boa xícara de chá. Através da história individual de cada um de seus clientes, a simpática business woman é capaz não apenas de lhes criar um bolo absolutamente sob medida, mas também sair por aí fazendo pequenos remendos na vida cotidiana, pequenos atos de simpatia e bondade capazes de transformar pouco a pouco o mundo à sua volta.

Tudo isso é narrado, como dito anteriormente, num excesso de detalhes e numa lentidão capazes de incomodar o leitor mais afoito, daqueles que se encontram sempre à espera do clímax. Verdade seja dita, não se pode falar aqui de um ponto alto propriamente dito, exceto talvez pelo desenvolvimento progressivo da própria protagonista. Ao se confrontar com os dramas e tragédias pessoais de cada um de seus fregueses – muitos deles envolvidos diretamente no massacre dos tutsis pelos hutus na década de 1990 –, Angel torna-se capaz de enfrentar seus próprios fantasmas, permitindo-se o privilégio do luto, bem como da perda e do perdão. E chega a ser belo, se não um tanto clichê, que o consolo para uma mulher tão sábia venha justamente das palavras de uma jovem prostituta, dessas que fazem pensar na trágica Geni de Chico Buarque.

Ao fim de mais de 300 páginas, não sei dizer se Gaile Parkin é uma autora de verdadeiro talento, ou se o sucesso de seu livro tenha sido fruto de sorte. Afinal, aquilo que me pareceu a princípio ser o seu maior defeito acabou por se tornar a sua principal qualidade. Pois os seus longos diálogos, repletos de repetições e de detalhes aparentemente desnecessários, fazem o que quase nenhum outro livro africano tinha sido até agora capaz de fazer: transportar-me diretamente ao centro da narrativa. Suas descrições detalhadas incidem na memória de modo a que vejamos as cenas como se de um filme se tratasse, e chegássemos mesmo a sentir o perfume dos bolos de Angel. A estrutura novelesca permite a criação de um panafricanismo consciente, de uma exaltação dos aspectos que unem os diversos povos que se entrecruzam, negando assim as barreiras forjadas (pelos brancos) que serviram por séculos para os separar. E, por fim, a falta de pressa da narrativa faz-nos lembrar a temporalidade distinta dos povos menos desenvolvidos, muito menos sobrepujados pelo inexorável relógio, muito mais dispostos a se dedicar àquilo que na vida realmente é importante. Como uma boa xícara de chá tomada com os amigos.

Como se não bastasse, ainda podemos louvar o fato de que o livro, de forte teor feminista, aborda sobretudo questões relacionadas ao empoderamento das mulheres, numa sociedade na qual o feminismo ainda é visto com olhos fortemente desconfiados.

Um livro, afinal, perfeito para o dia de hoje: Feliz dia das mães!

Título original: Baking Cakes in Kigali

País: Zâmbia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Globo (ISBN: 9788525046987)

Número de páginas: 320

The Screaming of the Innocent, de Unity Dow

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Alguns livros causam uma impressão tão estranha que é preciso vários dias, por vezes mesmo meses, para digeri-los totalmente. Poucas vezes um livro me deixou tão confusa quanto O grito dos inocentes [tradução livre], da autora botsuana Unity Dow.

Em seu segundo romance, Dow remete-nos a um país do qual quase nunca ouvimos falar, e cuja imagem ela apresenta por meio do contraste entre extremos. Por um lado, acompanhamos a tentativa da juventude citadina de se auto-afirmar como um país moderno e civilizado, diferente, cito, “desses países africanos por aí”. Por outro, essa mesma modernidade auto-imposta é atropelada por males universais, como o machismo e a corrupção, e por outros (assim espero) nem tanto, como uma rusticidade retrógrada, bárbara e supersticiosa, materializada na crença cega no poder da magia negra.

Logo nas primeiras páginas, travamos conhecimento com um homem de negócios considerado, sob todos os aspectos, um “homem de bem”. Enquanto leva a mimada filha mais nova para passear, ele observa uma menina pobre, mal chegada à puberdade, a brincar inocentemente. Pouco depois, a mesma menina será dada como desaparecida, e sua morte explicada pela polícia como consequência do ataque de animais selvagens. No entanto, tudo indica que ela fora vítima de algo muito mais brutal: um assassinato ritual (ritual murder), no qual a presa ainda viva tem os seios, as axilas e as partes genitais decepados, para serem em seguida consumidos pelos poderosos locais, como meio de aumentar ainda mais o seu poder. Cinco anos mais tarde, as únicas provas do crime, que haviam convenientemente desaparecido, são reencontradas por uma estagiária no hospital da aldeia onde vivia a menina, o que leva à revolta dos aldeões, bem como a uma eventual tentativa de negociação com as autoridades.

A fim de tematizar o assunto de chocante atualidade, a autora optou acertadamente por uma narrativa em terceira pessoa, que transita de uma personagem a outra. Como resultado, temos contato com diferentes pontos de vista, que são ao mesmo tempo complexos fragmentos de realidades divergentes, formando um dialogismo quase bakhtiniano. Ademais, a autora preocupou-se em explorar o histórico de diversas personagens secundárias, narrado por meio de flashbacks, o que nos permite percebe-las em sua complexidade, e vislumbrar um pouco mais de uma realidade que beira o absurdo. Nesses momentos, fica latente a crítica político-social intendida por Dow, também conhecida por seu trabalho juíza e ativista dos direitos humanos.

Contudo, embora a trama seja por si só um motivo para estranhamento, não é dela que descende o mal-estar causado pelo livro. O que nos parece uma escolha muito menos acertada é o fato de que as personagens que tentam desvendar o mistério são todas surpreendentemente imaturas: estudantes de liceu recém-formadas ou advogadas em início de carreira, cuja frivolidade (estereo)típica da idade conferem ao livro breves interlúdios de um humor inusitado e mesmo incômodo.

A julgar pela acurada construção das personagens e pela boa condução da pluriperspectividade narrativa, somos levados a acreditar que deve haver alguma intenção por trás dessa escolha muito pouco ortodoxa. No entanto, ao cabo de pouco mais de 200 páginas, tenho que confessar que não cheguei a descobrir que intenção era essa. Culpa da autora, culpa da leitora? Eis um mistério que não me arrisco a tentar resolver.

Título original: The Screaming of the Innocent

País: Botsuana

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2002

Edição em português: não há

Edição inglesa: Spinifex (ISBN: 978-187-6756-20-8)

Número de páginas: 215 (edição inglesa)

Beneath the Darkening Sky, de Majok Tulba

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Há poucos meses, ao publicarmos a resenha de Allah n’est pas obligé, do escritor marfinense Ahmadou Kourouma, anunciamos para breve a leitura de outro livro sobre a triste realidade dos meninos-soldados. Pois esse dia chegou mais cedo que esperávamos: Beneath a Darkening Sky – ou, em tradução livre, “Debaixo de um céu escuro” –, primeiro romance do escritor sul-sudanês Majok Tulba, surpreende ao aliar beleza e crueldade, de modo a fazer um buraco até mesmo em corações de pedra.

Protagonizado pelo pequeno Obinna, um menino feliz e sonhador de apenas nove anos, o livro poderia ser classificado como um “romance de formação em tempos de guerra”. Numa bela madrugada, o menino presencia do alto de uma mangueira a invasão de seu vilarejo por rebeldes que incendeiam barracos, decapitam os homens a golpes de facão, violam as mulheres, e levam com eles as crianças maiores como futuros soldados. Ao testemunhar a agressão da própria mãe, Obinna é descoberto e submetido ao teste para ver se já é suficientemente grande para ser recrutado: ser mais alto que um fuzil Kalashnikov (ou seja, cerca de 88 centímetros). A partir daí, a vida do menino que sonhava tornar-se médico é assinalada pelo medo, por torturas diárias, pela presença constante da morte de seus companheiros de sina, e pela impossibilidade de fuga devido às minas antipessoais. Durante muito tempo, Obinna lutará com todas as forças para manter, se não a identidade, ao menos parte de seus valores, num mundo em que a piedade é também sentença de morte. Até que o destino o obriga a disparar o primeiro tiro… Haverá, enfim, uma possibilidade de redenção?

Ao contrário do que ressentimos com Allah n’est pas obligé, Beneath a Darkening Sky promove a identificação imediata do leitor com a personagem principal, sobretudo devido à profundidade psicológica de Obinna, e ao fato de o autor ter feito dele uma criança tão comum: um menino franzino e estudioso, vivendo em um lar amoroso, com planos e sonhos para o futuro. Nesse quesito, é notável a tentativa do autor de mudar o tom da voz narrativa para assinalar a transformação forçada imposta à criança, embora a quebra demasiado brusca se confronte com o credível.

A todos aqueles que tiverem a louvável iniciativa de ler este livro, recomendo assistirem em paralelo uma entrevista com o autor, radicado na Austrália desde 2001, cujo destino poderia ter sido aquele de seu protagonista. Com uma humildade impressionante, Tulba nos conta que também foi colocado ao lado de uma AK-45, mas que felizmente ainda era menor que a arma. E faz um alerta: por mais brutais que sejam as cenas de violência de Beneath the Darkening Sky, o livro não contém exageros. Pelo contrário: ele evitou mencionar suas memórias mais pesadas a fim de poupar a sensibilidade do leitor ocidental. A julgar por suas palavras, acusar o livro de sensacionalismo seria imitar o comportamento de políticos do mundo todo: dar as costas para a dura realidade africana.

Talvez este não seja o livro perfeito, mas é certamente o perfeito livro para chorar, se revoltar e refletir.

Eis aqui a entrevista:

Título original: Beneath the Darkening Sky

País: Sudão do Sul

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira/portuguesa: não há

Edição inglesa: Oneworld Publications (ISBN 978-178-0742-41-0)

Número de páginas: 256 (edição inglesa)

Alá não é obrigado, de Ahmadou Kourouma

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A realidade dos meninos-soldados no final do século XX é um dos temas mais recorrentes da produção cultural africana, tendo dado origem a romances, documentários, filmes e memoirs.* Trata-se de um daqueles temas polêmicos de forte tendência sensacionalista e sucesso garantido, como a sobrevivência dos judeus na Segunda Guerra Mundial, os casamentos forçados no Oriente Médio, e o tráfico de mulheres para a prostituição internacional. Afinal, que grande leitor não se deixa seduzir por uma narrativa em primeira pessoa sobre uma das maiores mazelas do nosso tempo?

Birahima é um menino guineense “sem medo nem censura”. Apesar da miséria do meio em que vive, ele cresce com pai e mãe até por volta dos dez anos, quando a mãe deficiente falece depois de uma agonia de anos. Fica decidido então que ele será criado por uma tia materna que vive na Libéria, mas a tia, que foge em carreira aberta ao ouvir o rumor da chegada do ex-marido, esquece de levar o menino com ela. Como mais ninguém se habilitasse a atravessar os cenários de guerra de Sierra Leone e Libéria para acompanhar o menino numa trajetória suicida, ele acaba sendo acompanhado por um conhecido trambiqueiro, o “multiplicador de bilhetes” Yacouba, que se faz passar por feiticeiro muçulmano a fim de cair nas graças dos senhores de guerra que eles vão cruzando pelo caminho. Trata-se de uma viagem sem volta, de um rito iniciatório durante o qual o então inocente Birahima confrontar-se-á com um mundo de uma crueza inimaginável, repleto de estupros, drogas, torturas e massacres, tornando-se ele mesmo um menino-soldado.

Mas quem lê apenas a sinopse dificilmente ganha uma ideia do romance em questão. O livro, que ganhou o disputado prêmio Renaudot do ano 2000, retraça esse período trágico da história da África Ocidental sob a perspectiva de uma criança, que decide, com a ajuda de alguns dicionários, retraçar ele mesmo a sua biografia. E o grande mérito do escritor marfinense Ahmadou Kourouma consiste em faze-lo de forma direta, sem qualquer emotividade ou sensacionalismo, utilizando uma perspectiva tão distanciada que poderíamos interpretar como consequência de stress pós-traumático e distúrbio dissociativo. Se Allah não é obrigado a ser justo com os seres a quem dá vida, é preciso enfrentar o sofrimento com estoicismo. Eis a mensagem semi-religiosa deste romance híbrido e profano.

Mas que o leitor não pense que se trata de uma leitura facilmente digerível. Muito pelo contrário: ler Alá não é obrigado é uma verdadeira tortura! Não porque a violência narrada seja difícil de suportar, mas sim porque a voz narrativa simplesmente não convence. O romance é permeado de digressões de cunho histórico-político, as quais servem sim para contextualizar a leitura, mas que mais deveriam estar em notas de rodapé. Talvez o autor, que já tinha quase oitenta anos quando o escreveu, simplesmente já não fosse capaz de se colocar na pele de uma criança. O resultado é um relato sociológico disfarçado de romance. Uma pena!

*Para quem quiser saber mais sobre o assunto, eis uma pequena bibliografia: Johnny Mad-Dog (filme de 2008), Rebelle (excelente filme de 2012), A Long Way Gone, de Ishmael Beah (memoir de um ex-soldado de Sierra Leone), e First Kill Your Family (livro-documentário do jornalista Peter Eichstaedt sobre o exército de crianças de Joseph Kony no Uganda). O blog oquevcestalendo resenhará brevemente – e inevitavelmente – outros textos sobre meninos-soldados.

 

Título original: Allah n’est pas obligé

País: Costa do Marfim

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2000

Título brasileiro: Alá e as crianças-soldados

Edição brasileira: Estação Liberdade (ISBN 978-857-4480-82-4)

Título português: Alá não é obrigado

Edição portuguesa: ASA (ISBN 978-972-4133-14-0 )

Outras edições: francês (Seuil, ISBN 978-202-0525-71-8) inglês (Knopf, ISBN 978-030-7793-84-3)

Número de páginas: 232(edição brasileira), 176 (edição portuguesa)

A rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa

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Se o acaso não existe, foi obra da providência o comentário de A rainha Ginga incidir em pleno Dia Internacional da Mulher. Quantos dos grandes leitores mundo afora terão ouvido falar dessa mítica rainha africana?

Uma semana após publicarmos um texto sobre a condição das mulheres na Arábia Saudita, talvez o país mais opressor do sexo feminino no século XXI, a resenha de hoje nos remete a uma época distante e bem pouco conhecida, na qual Nzinga Mbande Cakombe, também conhecida como Dona Ana de Souza, desafiou a Coroa Portuguesa, liderou exércitos pessoalmente e lutou com todas as forças para manter a hegemonia de seu reino. Estamos falando do princípio do século XVII, entre o início da colonização (ou invasão) portuguesa e a ocupação dos holandeses.

Ginga, figura mítica que seduziu gerações desde o Marquês de Sade até as feministas do século XX, tornou-se rainha após envenenar o próprio irmão, descontente por ele não tomar medidas mais drásticas a fim de impedir os avanços dos portugueses. Para isso, formou uma aliança com o povo guerreiro dos Jaga – uma espécie de Esparta do sudoeste africano –, e, décadas mais tarde, com os holandeses, aos quais ajudou aquando da ocupação de Luanda. Para termos uma ideia de sua importância histórica, basta dizer que seu título real em quimbundo – Ngola – deu origem ao nome do país em que viveu. Embora tenha se convertido ao catolicismo numa tentativa de reforçar os laços com os portugueses, Ginga ficou famosa por seus hábitos “devassos”, como manter um harém de homens travestidos de mulher para fins sexuais. Quanto de verdade há nos mitos que a envolvem, fabulados pelos portugueses que eram os donos da escrita, só nos resta imaginar.

No livro de Agualusa, a monarca é retratada a partir das memórias do pernambucano Francisco da Santa Cruz, agregado à corte de Ginga como uma espécie de secretário, que decide trair suas origens e abandonar as funções sacerdotais, tornando-se aliado dos africanos contra a Coroa Portuguesa. O ex-padre, tornado um apóstata e perseguido pela Inquisição, acaba por se juntar a um grupo de marginais, dentre os quais um judeu com nome de anjo, um mouro de vida tripla, um príncipe do Reino de Ndongo, e um pirata com uma perna de pau. Mesclando personagens fictícias a figuras históricas obscuras, o romance tece um retrato irresistível de uma época fascinante, e cruza oceanos de Angola até o Brasil holandês.

Nele, Ginga surge como uma mulher de pulso firme, não sem uma forte pitada de mistério e exotismo, capaz de seduzir e reger com a força de cem homens. Preocupada com o despovoamento de seu reino devido ao sequestro de homens e mulheres para serem vendidos no Brasil, Ginga é ela mesma senhora de inúmeros escravos, mas condena os portugueses pelo tratamento desumano ao qual estes submetem os seus. Assim, Agualusa oferece uma perspectiva lúcida e crítica sob a história das colonizações. Mas que o leitor não esteja à espera de uma biografia da rainha. Se existe algo que podemos criticar ao autor, é a disparidade entre título e conteúdo: embora a aventura tenha como pano de fundo o reinado de Nzinga, ela está muito longe de ser a sua protagonista.

José Eduardo Agualusa não é um autor desconhecido. Nascido em Huambo quando Angola ainda era uma colônia portuguesa, o autor de ascendência lusa vem caindo nas graças de leitores mundo afora – e quem ainda não o conhece não sabe o que está a perder! Autor de uma prosa inteligente, crítica e ao mesmo tempo divertida, trata-se de uma das grandes promessas da literatura lusófona contemporânea. Para descobrir a Angola, seus heróis e seus encantos, bem como os efeitos nefastos da escravidão do lado de lá, dificilmente poderíamos encontrar melhor ponto de partida.

 

Título original: A rainha Ginga, E de como os africanos inventaram o mundo

País: Angola

Idioma original: português

Ano de publicação: 2014

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN 9789897221606)

Número de páginas: 280

Top 2014 & Perspectivas 2015

Queridos grandes leitores,

antes de abrir um novo capítulo, cheio de perspectivas & novas resoluções, é sempre bom passar o ano em perspectiva, e relembrar os melhores momentos do capítulo que acabamos de acabar.

Assim, antes de publicar a primeira resenha do ano  – que já está a caminho – e lançar o meu desafio de leitura para 2015, gostaria de homenagear os melhores livros de 2014. A seleção é curta, e não segue ordem de preferência (até porque seria impossível escolher), mas dá conta da vastidão geográfica abrangida por esses primeiros 8 meses do meu projeto de “ler o mundo”:

Hwang_HenCoreia do Sul

The Hen Who Thought She Could Fly, de Sun-Mi Hwang – uma bela fábula sobre o amor materno, uma história sobre amor e entrega, capaz de derreter corações de gelo: eis a história de Sprout, uma corajosa galinha que enfrenta o possível e o impossível em busca daquilo que lhe é mais precioso.

Koch_JantarHolanda

O Jantar, de Herman Koch – uma espécie de thriller ácido e cheio de cinismo, repleto de personagens nada carismáticas, mas que é simplesmente impossível deixar de ler: O Jantar tem todos os elementos para ser considerado “um livro perfeito”.

5Nigéria

O mundo se despedaça, de Chinua Achebe – um clássico da literatura universal, considerado um dos melhores livros africanos de todos os tempos, e que com certeza mereceria figurar em todas as bibliotecas do mundo ao lado de Victor Hugo, Charles Dickens e Dostoievski.

14Sri-Lanka

A onda, de Sonali Deraniyagala – a tocante autobiografia de uma mulher que perdeu tudo o que mais amava no Tsunami de 2004. Uma bela homenagem não só àqueles que perdemos, como também à memória do que deles resta dentro de nós.

PRECISAMOS_DE_NOVOS_NOMES_capa.pdfZimbábue

Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawaio – o imperdível romance de formação sobre uma menina africana, narrado com uma sensibilidade ímpar na literatura contemporânea (e que agora já saiu em português!!!)

Desde abril de 2014, o blog tem se mantido firme no propósito de recomendar a leitores de língua portuguesa UM LIVRO de CADA PAÍS DO MUNDO, chegando, nesses primeiros 8 meses, à marca de 30 países. Parece pouco comparado ao tamanho do que falta – segundo a ONU, existem 191 países no mundo -, mas, a cada nova descoberta, o objetivo tem se tornado cada vez mais firme.

No final de 2015, esperamos poder alcançar a marca de 80 países. Pode ser um objetivo ambicioso, mas dá conta do prazer que a descoberta tem proporcionado.

Feliz leituras & bom 2015!

Gabriela Antunes

Verre Cassé, de Alain Mabanckou

Mabanckou_Verre

Para fechar o ano de 2014 com chave de ouro, mais um livro do qual você nunca teria ouvido falar se não fosse oquevcestalendo.wordpress.com – é ou não é? Trata-se de do romance Verre Cassé, do aclamando escritor congolês Alain Mabanckou.

O livro – que para variar quando se trata de autores africanos ainda não tem edição em português – conferiu ao autor uma série de prêmios literários, dentre os quais o Prix des Cinq Continents de la Francophonie, cujo objetivo é revelar o talento de autores do mundo todo que escrevem em língua francesa. Pois é: ao contrário das nossas, as livrarias francesas estão cheias de livros escritos por autores oriundos de suas antigas colônias.

Verre Cassé (em português: “copo partido”) é uma espécie de Karnak Café congolês, centrado na vida dos frequentadores de um bar chamado Le crédit a voyagé. No entanto, em vez de intelectuais e jovens politizados, o que temos é um botequim de quinta categoria frequentado por indigentes, alcoólatras e prostitutas. Narrado em primeira pessoa por um bêbado sexagenário, a quem incumbem a tarefa de traçar a biografia dos clientes do boteco, o livro apresenta um delicioso emaranhado de destinos tragicômicos, mostrando-nos a famigerada África central a partir de uma perspectiva inusitada e divertida. Usando uma linguagem ultramoderna que desconhece pontos finais e ultrapassa os limites de um Saramago, o narrador dá-nos a conhecer figuras memoráveis, engraçadas, absurdas, mas ao mesmo tempo perfeitamente verossímeis.

Nos termos de Aristóteles, o livro transita nas “partes baixas do corpo”, e surpreende – poder-se-ia mesmo dizer “choca” – pela crueza e falta de papas nas línguas. Por exemplo, na cena em que o narrador, surpreendido cagando em praça pública, é obrigado a recolher a porcaria, e o faz de muito bom grado – com as próprias mãos. É a festa da marginalidade, de gente que não tem nada a perder: gente que fede, que incomoda, mas que por isso mesmo se torna cada vez mais apaixonante.

E, quando falamos de uma linguagem que desconhece pontos finais, dizemo-lo literalmente: o leitor que se aventurar a descobrir este romance memorável terá diante de si um livro sem nenhum ponto final, mas que, estranhamente, torna-se logo no começo muito fácil de ser lido. A narrativa lembra um longo monólogo – o monólogo de um bêbado –, mas o talento do escritor faz com que o leitor não se perca, e não consiga parar de ler. Tudo isso é permeado por um discurso repleto de referências literárias e de citações ocultas que todo conhecedor da literatura universal terá enorme prazer em desvendar.

Verre Cassé foi considerado pelo The Guardian como um dos dez melhores romances africanos contemporâneos. Enquanto os leitores lusófonos continuam a não saber o que estão perdendo, o livro já foi traduzido para o inglês, o espanhol, o norueguês, o húngaro, o sueco, o hebreu, o italiano, e até mesmo o coreano. Será que não está na hora de abrirmos os olhos para a literatura universal, e exigirmos que o mercado editorial expanda as suas fronteiras para além da Inglaterra e dos Estados Unidos?

Dito isto, feliz Ano Novo!

Título original: Verre cassé

País: Congo

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2005

Edição em português: não há

Edição francesa: Éditions du Seuil (ISBN 978-202-0849-53-1)

Número de páginas: 248

Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawayo

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Romance de estreia da escritora zimbabuana NoViolet Bulawayo, We need new names é um verdadeiro soco no estômago. Narrado pela perspectiva de uma menina de dez anos, é um daqueles raros livros que trazem o leitor do riso às lágrimas desde as primeiras páginas.

Darling vive numa favela insalubre, ironicamente chamada de Paraíso, em algum lugar do Zimbábue. Apesar da extrema miséria, sua infância é tão inocente e cheia de fantasias como outra qualquer. Ao lado de Bastard, Chipo, Stina, Sbho e Godknows, desfruta da liberdade para descobrir o mundo à sua maneira, enquanto se entretém a roubar goiabas no bairro dos ricos. Mas, ao contrário dos amigos, prisioneiros da miséria que os cerca, Darling tem a oportunidade de escapar, imigrando para a tão sonhada “Destroyedmichygan”, embora o sonho seja deveras distante da realidade.

Ao adotar a narrativa em primeira pessoa, Bulawayo demonstra uma extrema sensibilidade literária, recriando por meio da linguagem o universo psicológico de sua protagonista. Na primeira metade, na qual Darling é apenas uma criança, a linguagem acompanha seus pensamentos e sua maneira de ver o mundo, e o leitor tem a impressão de estar lendo os pensamentos de uma criança. Mais tarde, com o passar dos anos, o amadurecimento da menina faz-se notar pela escolha das palavras, pela cadência da fala, assim como pela nova linearidade da sequência de ideias.

O romance pode ser dividido em duas metades: a primeira acompanha as perambulações de Darling no país natal, enquanto a segunda, tempos mais tarde, mostra sua vida nos Estados Unidos. Na primeira parte, é possível conhecer um pouco da história recente do Zimbábue. Ao lado das misérias comuns a todas as favelas do mundo – a violência, a fome, a desigualdade, a AIDS, o abuso sexual, a gravidez precoce –, o livro também trata de problemas específicos. Darling passou a viver na pobreza absoluta após o bairro em que vivia ser demolido pela “Operação Murambatsvina” (retirar o lixo), campanha de desalojamento forçado do ditador Robert Mugabe para obrigar as populações pobres a abandonarem as cidades. Seu pai, que retorna da África do Sul corroído pela doença, é um homem diplomado, cujos estudos universitários de nada serviram num país tomado pela corrupção. O aspecto político é ressaltado na descrição das eleições, da esperança dos adultos por mudança, e na cena do enterro de um jovem líder da oposição. Além disso, o capítulo em que as crianças testemunham o ataque a um casal rico por um grupo de homens entoando “Kill the boer, kill the farmer!” faz alusão à violência contra os brancos, que se espalhou da África do Sul ao país vizinho graças às incitações racistas do próprio Mugabe. Em segundo plano, nota-se igualmente a crítica às ONGs, bem como às igrejas evangélicas, tão corruptas como o próprio governo.

Embora a ruptura seja suave, a segunda parte do romance aborda uma temática bastante distinta. Aqui, o leitor acompanha uma Darling adolescente, conhecendo sua rotina, seus sonhos e frustrações. Diante de uma realidade hostil às suas raízes, o passado duro e distante torna-se-lhe aos poucos uma memória doce e idílica. A partir da perspectiva da jovem americanizada, o romance trata da imigração, da perda da identidade e necessidade de abdicar de si mesmo para poder se adaptar, do vazio da saudade e da culpa por abandonar o próprio país, bem como da distância lenta e dura em relação aos que ficaram. Nesse sentido, o livro faz pensar no igualmente premiado Americanah da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, bem como em Vidas provisórias do brasileiro Edney Silvestre, ambos também de 2013. Os três romances compartilham não apenas o tema, como também o balanço de que, com o desterro, a própria vida é deixada para trás, bem como a crítica à terra natal incapaz de dar pátria aos seus filhos.

Recebido com euforia pela crítica internacional, We need new names foi o primeiro romance escrito por uma autora negra africana a ser selecionado para o aclamado Man Booker Prize, um dos mais prestigiados prêmios literários da língua inglesa. Graças à grande visibilidade obtida, o público brasileiro será brevemente agraciado com uma tradução em português, a ser publicada na coleção Biblioteca Azul da Editora Globo.

Não é todo dia que a boa literatura africana consegue chegar desse lado do Atlântico. Por isso, vale a pena esperar por esse romance, do qual o leitor não se esquecerá tão cedo.

UPDATE 04/01/2015: Saiu a tradução em português!

Título original: We need new names

País: Zimbábue

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Biblioteca Azul (ISBN 978-852-5057-78-5)

Título português: A neve e as goiabas

Edição portuguesa: Teorema (ISBN 978-972-4746-92-0)

Número de páginas: 254 (edição brasileira), 272 (edição portuguesa)

O mundo se despedaça, de Chinua Achebe

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A obra-prima de Chinua Achebe, escritor nigeriano aclamado mundialmente, retorna ao Brasil com mais de sessenta anos de atraso.* Tal anacronismo somente se justifica pelo triste fato de que a literatura africana, embora tão acessível do ponto de vista linguístico, dificilmente obtém a visibilidade que merece.

Okonkwo é um homem como outro qualquer. Desde cedo, trabalhou para fugir à miséria e deixar aos filhos um legado maior que aquele que seu pai, um homem fraco e endividado, lhe deixara. Na juventude, participou em várias batalhas em nome de seu povo, e usou a força física para se destacar em torneios de luta. Arou a terra com o suor do rosto, e construiu aos poucos um pequeno império do qual se orgulhava. Por sorte, cresceu numa sociedade na qual a hereditariedade não determina o sucesso de um homem, mas sim a coragem e a força do próprio trabalho. Aos poucos, adquiriu uma posição no clã, sendo respeitado como um homem justo, honesto e trabalhador. Seu único defeito é, talvez, o excesso de dureza: avesso à preguiça e à fraqueza, trata os membros da família a braço firme, e se impede de demonstrar qualquer tipo de sentimento, à exceção da ira. Apesar dos percalços, segue uma vida tranquila, fiel aos seus princípios e às tradições dos seus antepassados, até que uma fatalidade dá início à destruição do seu mundo.

Tematicamente, o romance pode ser dividido em duas partes. A primeira, que consiste em mais da metade da narrativa, acompanha o cotidiano de Okonkwo, antigo guerreiro e proprietário de terras de uma tribo igbo, grupo étnico do sudeste da Nigéria. Aqui, o leitor familiariza-se com seus costumes, suas leis, crenças e práticas religiosas, e se depara com algumas tradições muito distantes das do chamado “mundo civilizado”, como a poligamia, a exposição de gêmeos, e até mesmo o sacrifício humano. A segunda, após um acidente que o obriga a abandonar a aldeia natal, mostra como tais tradições são confrontadas com outras: as do branco colonizador.

Seguindo o ponto de vista dos igbo, o acidente provocado por Okonkwo pode ser interpretado como a quebra involuntária de um tabu, o que leva todo o seu povo à desgraça. A partir do momento em que ele parte em exílio, o homem branco se instala, trazendo consigo uma religião incompreensível e uma lei implacável. Vistos por uma perspectiva neutra, os costumes estrangeiros acabam se mostrando como, pelo menos, igualmente brutais e sem sentido como os seus. Diante da violência e da agressão dos invasores, o mundo dos verdadeiros donos da terra se desmorona, enquanto até mesmo o mais honrado dos homens é desprovido do seu bem mais precioso: a sua dignidade.

O que mais surpreende no livro de Achebe é a capacidade do autor de colocar no papel, de forma neutra e sem romantismos, a mentalidade ancestral do homem igbo, abrindo ao leitor as portas para um universo psicológico totalmente alheio ao seu, mas igualmente complexo, e incontestavelmente apaixonante. O choque entre as culturas e a incompreensão dos nativos são narrados com um enorme respeito aos costumes e tradições da tribo ancestral, numa narrativa que cativa justamente por não tomar partido, desprovida de julgamento de valores, e por isso muito próxima de um universo perdido, massacrado pelo implacável processo de colonização europeu.

E é justamente aí que reside a beleza e o inigualável valor de O mundo se despedaça: na lição de que não é preciso romantizar para mostrar a beleza e a sabedoria do outro. Basta, tão-somente, trata-lo com o respeito e a igualdade que ele merece. Por esse e tantos outros motivos, o romance do mestre nigeriano deveria ser uma leitura obrigatória, não apenas para os amantes de literatura ou para aqueles que se interessam pelo continente africano, como também para todos aqueles que pertencem à raça humana. A julgar por esse livro, Achebe é sem sombra de dúvida um dos maiores autores do século XX.

* O mundo se despedaça tinha sido anteriormente publicado no Brasil na década de 1980. Em Portugal, o livro foi publicado sob o nome de Quando tudo se desmorona. Ambas as edições estão esgotadas.

Título original: Things Fall Apart

País: Nigéria

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1958

Ano de lançamento no Brasil: 2009

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-591-550-1)

Número de páginas: 240