Curtain of Rain, de Tew Bunnag

Bunnag_Rain

Imagine o que seria, quarenta anos mais tarde, deparar-nos com uma cena de um livro da qual temos certeza de sermos uma das personagens? E se esta cena fizesse lembrar um dos momentos cruciais da nossa existência? E se, com isso, nos apercebêssemos de que, como diria Calderón de la Barca, a vida é sonho? Eis o sentimento trazido por Cortina de chuva, do escritor tailandês Tew Bunnag.

Achar um livro tailandês foi muito mais difícil do que o esperado, já que nem na própria Tailândia encontram-se livros tai publicados em língua estrangeira. Depois de muita procura, foi numa filial da gigante japonesa Kinokuniya, a maior rede de livrarias de toda a Ásia, em pleno centro comercial de Siam Paragon, que dei de cara com o livro de Bunnag. O qual, aliás, confesso ter comprado por falta de opção – afinal, o que esperar de um livro obscuro, recém-lançado, sem qualquer crítica na internet e, ainda por cima, escrito pelo autor em língua estrangeira? Por outro lado, nada melhor do que se deixar surpreender.

Cortina de chuva (tradução literal do título original Curtain of Rain) é um romance único, composto por uma intricada série de histórias que se interconectam, as quais desafiam o conceito de veracidade e se emaranham numa teia existencialista que faz pensar nos melhores textos de Sartre. A trama é emoldurada por duas personagens recorrentes: uma editora londrina especializada em autores asiáticos, e um escritor tailandês, cujas histórias são baseadas em pessoas reais cujos caminhos vai cruzando pelas ruas de Bangkok.

Aos poucos, o acaso faz com que o destino de pessoas distintas se aproxime, seja naquilo que chamamos de “vida real”, seja ao se tornarem personagens de um dos contos do escritor, grande orquestrador dessa sinfonia urbana. São elas pessoas simples, camponeses pobres e iletrados, prostitutas a morrer de AIDS, e condutores de automóveis, mas também grandes personalidades públicas, como empresários e políticos. Em sua pluralidade, eles compõem o retrato da Tailândia do século XXI, um país marcado pela simbiose entre as tradições budistas e a modernidade, pelo conflito entre sua essência oriental e o desenfreado processo de ocidentalização. Trata-se de um livro com poucos diálogos, marcado sobretudo pela presença onisciente de um narrador quase paternal, o qual retrata até mesmo suas mais duvidosas personagens como seres frágeis e sonhadores, pequenas peças de um quebra-cabeças do tamanho do universo, pelas quais dificilmente será possível não se apaixonar.

Apesar de algumas pequenas falhas de edição facilmente corrigíveis, como frases demasiado longas e a ausência de pontuações, o livro de Tew Bunnag inclui-se facilmente na minha lista de melhores de 2015. Chegar ao final de um ano marcado por um livro por semana e ainda se surpreender com uma nova leitura – eis o que faz meu projeto continuar a valer a pena.

 

Título original: Curtain of Rain

País: Tailândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição tailandesa: Riverbooks (ISBN 978-616-7339-49-8)

Número de páginas: 224 (edição tailandesa)

 

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