O quinto filho, de Doris Lessing

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No que diz respeito à escolha de autores, eu sempre fui uma pessoa um bocado preconceituosa. Na adolescência, recusava-me a ler tudo aquilo que cheirasse a best-seller, mesmo que com isso deixasse passar alguns clássicos: Erich Maria Remarke, Ernst Hemingway, Hermann Hesse… como também uma autora extremamente popular, cujos livros enchiam as prateleiras de qualquer biblioteca dos anos 1980 e 90: a britânica nascida no Irã Doris Lessing.

Fui conhecer Doris Lessing apenas à custa de necessidade. Estava na praia do Tofo, no Moçambique, e como não houvesse meio de carregar meu iPad, uma bolorenta edição alemã de O quinto filho era o único livro que me havia à disposição. E confesso que a espera valeu a pena: trata-se, para mim, do melhor livro do ano até o momento.

O quinto filho é um livro curto, de pouco mais de 100 páginas, concebido como uma espécie de fábula às avessas, e narra a infeliz história de um jovem casal perfeito, Harriet e David, cujo pequeno idílio familiar cai completamente por terra após à chegada de Ben, o quinto rebento. Narrado com um forte tom de crônica jornalística no qual preponderam a acidez e a ironia, o livro oferece-nos uma crítica ferrenha à hipócrita sociedade britânica, ao mesmo tempo em que revela a verdadeira essência do vínculo maternal.

Após conhecerem-se numa festa de escritório, Harriet e David descobrem um no outro o parceiro perfeito para as suas ambições pequeno-burguesas. Avessos às tendências libertárias dos anos 1960, os dois decidem se casar, comprar uma imensa casa vitoriana e enche-la de filhos, levando uma vidinha feliz e sem grandes arrebatamentos, baseada nos princípios da fidelidade e da estabilidade familiar. No começo, tudo corre bem, e a casa se torna o refúgio de uma infinidade de parentes e amigos ansiosos por compartilhar seu paraíso doméstico – as contas até se acumulam devido à eterna romaria de visitantes. Sua sorte, no entanto, mudará drasticamente desde a concepção do quinto filho, cujo desenvolvimento ainda no útero é de tal forma violento que provoca a rejeição imediata de uma mãe até então exemplar. Completamente fora do controle, Harriet tem a impressão de que o filho está a tentar mata-la por dentro, sensação que só tende a agravar com o nascimento difícil, seguido de uma amamentação catastrófica e de um primeiro ano ainda pior. O menino, de aparência estranha e pouco delicada, que em tudo mais parece um neandertal, revela-se rapidamente como uma ameaça aos próprios irmãos e primos, uma espécie de changelin deixado pelos trolls, cujas tendências violentas e ímpeto assassino destroem pouco a pouco a unidade familiar. Gradualmente, a pequena família modelo começa a ruir, seja pela irritabilidade constante de uma mãe à beira de um ataque de nervos, seja pela frieza do pai, ou pela ameaça constante desse estranho no ninho. Os visitantes começam a minguar, a vida torna-se insuportável… Mas haverá uma solução “limpa” para o problema de David e Harriet? Será a mãe capaz de se livrar do próprio filho, mesmo que o seu sentimento por ele tenha sempre sido o de repulsa e aversão?

Ao referir-se posteriormente ao processo criativo de O quinto filho, seu trigésimo-quinto livro, Doris Lessing, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura em 2007, afirma ter simplesmente odiado escreve-lo. Trata-se, de fato, de uma história de horror digna dos clássicos de Edgar Allan Poe, de um Bebê de Rosemary sem efeitos especiais, cujo senso de tragédia não deixará impassível nem o mais crítico dos leitores, e que deve seguramente ter revirado o estômago da própria autora. Trata-se, afinal, de uma metáfora poderosa, cujos ecos dificilmente sairão da memória do leitor, e que certamente trará pesadelos a qualquer leitora grávida ou ansiosa para ter um bebê. Um livro que põe em causa o conceito de maternidade, que questiona aquela ideia de felicidade dos comerciais de margarina, e que nos faz refletir sobre nossa própria humanidade. Em suma, um livro delicioso, apavorante, incontornável!

 

Título original: The Fifth Child

País: Reino Unido

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1988

Edição brasileira: Record (ISBN 85-0103-418-5)

Edição portuguesa: Europa América (ISBN 560-107-2033-04-7)

Número de páginas: 128 (edição brasileira), 173 (edição portuguesa)

A herança de Orhan, de Aline Ohanesian

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Depois de três meses de silêncio, nada melhor para recuperar os velhos hábitos do que trazer-vos um livro cuja leitura me proporcionou grande prazer. Admitamos: mais por razões históricas do que por qualquer outra coisa. Afinal, fazer justiça histórica aos genocídios esquecidos do século XX sempre foi um dos meus grandes focos de interesse.

No imaginário coletivo, a palavra genocídio encontra-se intrinsicamente associada à shoah, o genocídio judeu pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. A imagem dos campos de concentração abarrotados e das câmaras de gás chegam a ser tão preponderantes, desde o cinema mainstream até os mais altos níveis da literatura, que quase chega a sufocar. Chega a não sobrar espaço para falarmos de outros extermínios em massa igualmente atrozes e igualmente extremos, cujas feridas talvez se encontrem muito mais abertas que a dos judeus. Pois se pensarmos, por exemplo, no maior desejo de uma vítima ou de seus familiares, este sempre vem relacionado com o conceito de justiça moral, que se estende desde a admissão do crime pelo algoz até o reconhecimento do sofrimento por parte da sociedade. No caso do genocídio armênio, não apenas o primeiro está bem longe de acontecer, como o segundo tem sido conquistado apenas lentamente e a duras penas: a Turquia continua a insistir que o extermínio nunca existiu, enquanto o resto do mundo o tem feito num murmúrio, relutante em cair no desagrado desta potência econômica semidemocrática com ocasionais surtos de violência.

Orhan’s Inheritance, o primeiro romance da historiadora Aline Ohanesian, filha de armênios, nascida no Kuwait e radicada aos três anos nos Estados Unidos, não poderia tratar de outro assunto. Situado em dois períodos históricos distintos, os últimos anos do Império Otomano e meados dos anos 1990, o livro fala justamente não apenas do genocídio, mas também da importância do seu reconhecimento. Orhan, um jovem comerciante turco originário de Sivas, decide viajar para os Estados Unidos depois de descobrir que o avô recém-falecido deixara em testamento a casa familiar para uma total desconhecida, uma senhora de quase noventa anos, residente em um lar de velhos nos arredores de Los Angeles. Lá chegando, com o intuito de persuadir a mulher a abdicar de sua parte da herança, o jovem dá de encontro com Seda, uma mulher misteriosa e arredia, cuja trajetória de vida está intrinsicamente ligada ao passado de sua própria família. Por meio de longas digressões até meados de 1915, período em que se iniciaram os massacres que exterminaram uma população de cerca de 1 milhão de pessoas, Orhan vai aos poucos descobrindo a relação entre Seda e o seu falecido avô, e como o seu legado familiar encontra-se alicerçado sobre uma grande mentira e um crime de Estado.

Como seria de se esperar de um romance sobre um holocausto, a trama é bela, porém feita sob medida para comover, repleta de pathos e de tragédias sensacionais, mas nem por isso menos reais. No seu afã de abarcar um longo período de história, a escrita se torna superficial, perdendo o espaço da reflexão mais aprofundada que o tema teria merecido. Por isso não é, e nem jamais chegaria a ser, uma grande pérola da literatura, mas foi sem dúvida bem escrito, e trará a qualquer leitor momentos de agradável leitura. Se de “agradável” se pode falar quando mulheres são violadas, enquanto outras obrigadas a dar à luz em plena marcha da morte. Talvez, no final, o leitor também fique frustrado por ter estado à espera de que as origens do protagonista fossem outras, e o reconhecimento mais pungente. Mas não é verdade que nem sempre os livros acabam como gostaríamos?

Ler para relembrar.

 

Título original: Orhan’s Inheritance

País: Armênia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição em inglês: Algonquin Books (ISBN: 978-161-6203-74-0)

Edição em português: não há

Número de páginas: 352 (edição em inglês)

Vermelho como o sangue, de Salla Simukka

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De partida para sete semanas no sul do continente africano, mas consciente de que estou em dívida para com este blog, bem como para com o meu projeto de ler o mundo, deixo-vos esta breve resenha como presente de despedida.

Não sei se terei tempo e/ou condições (leia-se: uma conexão internet decente) para continuar resenhando as minhas façanhas literárias ao longo das próximas sete semanas, por isso não queria deixar mais um domingo passar batido. Para isso, optei por um livro bastante diferente do cenário no qual minhas viagens reais me levarão daqui a poucas horas. Afinal de contas, Vermelho como sangue tem neve, muita neve. Trata-se, sim, de mais um romance policial escandinavo – embora, infelizmente não na sua melhor forma.

Eis um resumo da trama em poucas linhas: um grupo de adolescentes ricos e drogados na cidade de Tampere encontra uma mala cheia de notas de 500 euros manchadas de sangue, e decide ficar com ela. Seu segredo é descoberto pela protagonista Lumikki Anderson, igualmente adolescente, considerada por todos a “esquisitona” do colégio, no maior formato comédias românticas estadunidenses. A menina, no entanto, não é apenas pobre e estranha, mas também – grande surpresa! – inteligente, e acaba se tornando uma peça essencial para desvendar o mistério da mala misteriosa, envolvendo-se para isso com a máfia local – inevitavelmente russa, e inevitavelmente sem coração.

A boa notícia é que o livro lê-se rápido, e que o mistério, embora facilmente desvendável, apresenta até meia dúzia de pequenas surpresas. A má é que se trata de um livro raso, repleto de clichês, que imita grosseiramente os grandes mestres do policial escandinavo, como Stieg Larsson e Jo Nesbø, sem nem mesmo tentar disfarçar. Como se não fosse o suficiente, a tradução em português feita por Anna Toivola Câmara Leme, está repleta de erros e incoerências, bem como de inversões anglófonas absolutamente inexistentes na língua portuguesa. Se, por um lado, uma série de questões em aberto deixam ao leitor o desejo de conhecer o resto da história – afinal, hoje em dia, sofremos de uma grande praga segundo a qual todo livro tem que logo virar série -, a qualidade deste primeiro faz com que fique difícil convencer-se a continuar.

É claro, podemos argumentar, não estamos diante de um romance a ser levado a sério, mas sim de um thriller para o público jovem. Mas será que os chamados “jovens adultos” não merecem coisa melhor? No meu tempo, devoravam-se os romances de mistério infanto-juvenis de Sidney Sheldon, que também não eram supostos serem levados a sério, mas que sem sombra de dúvida eram muito melhores.

Já não se faz nem mesmo literatura comercial como antigamente!

 

Título original: Punainen kuin veri

País: Finlândia

Idioma original: finlandês

Ano de publicação: 2013

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2354-43-1)

 

Número de páginas: 216

 

 

O homem é um grande faisão no mundo, de Herta Müller

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Tenho estudado a língua de Goethe desde exatamente a metade dos meus anos de vida. E se tanto esforço e dedicação serviram para me permitir hoje ler Herta Müller no original, então o esforço valeu a pena: O homem é um grande faisão no mundo, de autoria da premiada escritora romena de expressão alemã, é simplesmente um soco na boca do estômago!

Escrito em 1986, o livro conta a história de uma pequena família de ascendência alemã vivendo num minúsculo vilarejo perdido na região de Banat, no oeste da Romênia, em plenos anos de ferro da ditadura de Nicolae Ceaușescu. Culturalmente germânicos, os três membros da família Windisch aguardam sem grande esperança a chegada da tão sonhada autorização que lhes permitirá imigrar para a Alemanha Ocidental, enquanto a maioria de seus conhecidos romeno-alemães já partiu em debandada. Seu cotidiano difícil e sofrido, como vítimas de exclusão e corrupção por não serem romenos, bem como seus demônios internos e seu passado traumático, são narrados de forma arrastada, enquanto a vida parece se encontrar em stand-by… Até que eles se deparam com a dura realidade: a fim de obter a tão esperada carta, é preciso enviar sua única filha para saciar o apetite sexual dos poderosos de plantão.

Superada uma eventual dificuldade inicial, o livro curto – com pouco mais de cem páginas – pode ser lido numa só assentada. É verdade que pode não ser fácil habituar-se ao estilo literário da escritora, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura de 2009. Suas frases extremamente curtas e concisas, que dispensam orações subordinadas e flertam com o vocabulário da língua alemã numa espécie de prosa poética, podem gerar no leitor desavisado uma certa resistência inicial, a qual no entanto se desvanece ao cabo de uma dezena de páginas, dando lugar a uma latente admiração. Afinal, a densidade de seus escritos, sua prosa honesta e dolorosa, bem como seu alto teor poético, fazem da escritora uma verdadeira alquimista das letras, daquelas que conseguem transpor todo um universo psicológico por meio da junção de meia dúzia de palavras. Uma prosa lacônica, de fato, mas muito bem colocada, na qual não se dispersa energia em adornos desnecessários, colocando-se o dedo imediatamente na ferida.

Alguns de seus curtos capítulos, como aquela que descreve em pouco mais de três páginas os anos de guerra da mãe, Katharina, passados numa barraca na Rússia, ficarão para sempre ecoando na minha memória. Só mesmo um grande gênio literário é capaz de transcender as barreiras da narrativa, gerando uma identificação imediata que vai além dos limites da escrita, e permitindo-nos chorar o destino de homens e mulheres ficcionais como se de verdadeiros amigos ou familiares se tratasse. Eis a mágica de que é capaz Herta Müller. E eis o motivo pelo qual todos devemos lê-la.

Boa leitura!

Título original: Der Mensch ist ein großer Fasan auf der Welt

País: Romênia

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 1986

Título brasileiro: O homem é um grande faisão no mundo

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-16-5)

Título português: O homem é um grande faisão sobre a Terra

Edição portuguesa: Cotovia (ISBN: 978-972-8028-18-3)

Número de páginas: 136 (edição brasileira), 112 (edição portuguesa)

Negro e prata, de Paolo Giordano

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Eu sempre fui uma rebelde. Na adolescência, embora passasse pelo menos 60% do meu tempo livre lendo, nunca lia aquilo que os professores pediam. Preferia (e ainda hoje prefiro) Crime e Castigo, Os três mosqueteiros e Jane Eyre a Amor de perdição, Iracema e Lucíola. Por isso, embora aos quinze anos já tivesse lido mais que todos os meus colegas de classe juntos, minhas notas nas chamadas “provas do livro”, baseadas como as deles em resumos, nunca foram as melhores.

Mas a menina rebelde tornou-se uma adulta com senso de responsabilidade. Por isso, embora já tenha lido a Itália, dediquei-me esta semana ao meu primeiro livro italiano lido em língua italiana. Tinha mesmo que ser: em breve, terei de fazer uma temida “prova do livro” sobre ele. Por sorte, a leitura de Paolo Giordano transformou o senso de obrigação num prazer inigualável. Tanto pelo deleite da bella língua em que foi escrito, quanto pela deliciosa descoberta de uma das personagens mais bem desenvolvidas da literatura contemporânea.

Eles a chamam Senhora A., ou Babette, jamais pelo seu verdadeiro nome. Viúva, 68 anos, sem filhos. Da vida privada, só lhe conhecemos um amigo anão. Ela é uma espécie de ama, misto de empregada doméstica, babá e secretária do lar, agregada tão íntima à família que eles mesmos (mas não ela!) se confundem, e já não sabem se ela trabalha de fato ou se os serve por prazer, como se se tratassem de filhos adotivos. Sua retribuição financeira lhe é paga semanalmente, segundo uma tabela obtusa que só a patroa compreende – e que ela nunca questiona. Mas mais que organizar a vida do jovem casal e de seu filho pequeno, a “nossa Babette” serve como pilar de sustentação para relações familiares que só se descobrirão frágeis e repletas de rancor quando ela se ausentar por definitivo.

Negro e prata é um romance curto, escrito em primeira pessoa segundo a perspectiva do pai da família, e trata de um intrincado jogo de relações humana tão conhecido por qualquer brasileiro, mas quase inexistente no Velho Continente – as relações entre patrões e empregados domésticos. Relações estas que se desdobram num caleidoscópio de sentimentos a partir do dia em que a Senhora A. telefona para lhes dizer que já não virá mais. Ela está doente, muito doente, e ainda lhe restam poucos meses de vida. Eventualmente, a doença fará com que eles a vejam pela pessoa que é, ou ao menos que se dêem conta de que nunca a tinham visto. Até lá, no entanto, eles terão de aprender a lidar com um forte sentimento de rejeição, como mimados filhos adultos postos para fora de casa, e reorganizar os escombros de suas vidas, mantidas intactas ao longo dos anos graças à presença pacificadora da ama do lar.

Nascido em Torino em 1982, Paolo Giordano é um autor jovem que escreve como um velho. Sua escolha acertada das palavras, sua linguagem límpida, porém repleta de entrelinhas, faz com que nos sintamos a ler um sábio de 80 anos, e não um menino de 30. Seu livro é um daqueles que quase já não se fazem, focados muito mais na profundidade psicológica de suas personagens que na trama propriamente dita. Pela sua análise ponderada das relações humanas, pela sua gentil dissecação dos laços de família, bem como pela acertada criação narrativa de personagens fortes e inesquecíveis, temos aqui um romance que merece ser saboreado como um bom vinho do Piemonte.

Embora tenha sido lançado há apenas dois anos, Negro e prata já foi traduzido para uma dezena de línguas, dentre as quais o português. Vale a pena conferir!

Mais tarde vos conto a nota da minha “prova do livro”!

Título original: Il nero e l’argento

País: Itália

Idioma original: Italiano

Ano de publicação: 2014

Edição portuguesa: Relógio d’Água (ISBN 978-989-6415-24-2)

Número de páginas: 120

A virgem fria e outros contos, de Jørn Riel

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É tão difícil para um leitor experiente surpreender-se com um livro como o é para um viajante experiente surpreender-se com um novo lugar. Em ambos os casos, é preciso ir cada vez mais longe para se chegar ao inesperado. E que lugar é, afinal, mais longe que a Groenlândia?

Depois de muito procurar, parecia-me que encontrar um livro groenlandês seria uma tarefa beirando o impossível: se quase nada do pouco que é escrito na ilha gigante ao norte do mundo encontra-se traduzido do groenlandês para o dinamarquês, que dirá para outras línguas mais acessíveis? Ao fim e ao cabo, pareceu-me que um autor nascido na Dinamarca, mas que passou boa parte de sua vida (16 anos) numa base científica no norte do país habilitava-se bem ao quesito. Afinal de contas, embora haja vida no topo do mundo, trata-se normalmente de gente de passagem: das cerca de 50 mil pessoas que vivem na Groenlândia (0,03 por m2!), poucas, bem poucas nasceram efetivamente na ilha.

A virgem fria e outros contos consiste numa peculiar compilação de uma dezena de histórias, todas elas em torno das mesmas personagens: um grupo de caçadores e aventureiros habitando o inóspito norte da Groenlândia. Embora obviamente não existam habitantes nativos nesses confins, eles são aquilo que mais facilmente poderíamos chamar de “homens do ártico”, uma vez que sua origem e seu passado parecem não ter a menor importância neste espaço no qual tempo e espaço encontram-se em suspensão. Trata-se de histórias divertidas, inteligentes, mas sobretudo humanas, centradas muito menos em atos extraordinários ou feitos memoráveis, e mais na banalidade de um cotidiano totalmente fora do nosso normal.

Nesse universo de gelo, a solidão e o isolamento extremo fazem com que as regras do mundo “civilizado” deem lugar a uma série de códigos próprios, adaptados para melhor servir ao ambiente inóspito em que vivem. Mais surpreendente chega a ser o fato de que, em vez de constituírem comunidades, estes homens prefiram o isolamento, chegando a habitar sozinhos por meses a fio em um fiorde perdido no meio do nada, acompanhados dos ursos polares, raposas e focas que caçam para sobreviver. Quando se cansam de sua solidão – ou por exemplo quando sofrem pela perda de um galo de estimação –, empreendem viagens de semanas até chegar ao próximo vilarejo de um único habitante, onde entretêm-se a esvaziar a alma e a embebedar-se até cansarem de companhia e preferirem o silêncio do monólogo interior. Quando falece um companheiro, podem amarrar o cadáver sentado a um trenó e sair passeando com ele numa espécie de cortejo funerário festivo por semanas a fio. Quando se apaixonam, é por mulheres inventadas pela imaginação de um eventual companheiro, com quem conviverão num mundo inventado beirando a loucura. E quando decidem adotar os parâmetros da civilização, construindo por exemplo uma latrina, quase terminam arruinados, de tão habituados a viverem fora dela.

Ao longo de 150 páginas, Jørn Riel dá-nos a conhecer um universo tão inimaginável que poderia se tratar de ficção científica, mas ao mesmo tempo tão humano que nos remete ao mais íntimo que há em nós. Um universo que merece ser descoberto – nem que seja por meio da leitura –, e que de tão apaixonante até se tornou história em quadrinhos:

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PS: Antes mesmo de terminar a leitura, eu já tinha ido espiar os preços de voos para a Groenlândia! Alguém se habilita a me acompanhar?

 

Título original: Den kolde jomfru og andre skrøner

País: Groenlândia

Idioma original: dinamarquês

Ano de publicação: 1973

Edição em português: não encontrada

Título francês: La virge froide et autres racontars

Edição francesa: Domaine Étranger (ISBN 978-226-4022-94-3)

Número de páginas: 157 (edição francesa)

O dia seguinte, de Rhidian Brook

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Uma viagem de 12 horas, seguida por 8 de espera num aeroporto nada convidativo, e de mais 2 e meia até chegar em casa – eis o pesadelo de qualquer mortal. A menos que se tenha uma excelente companhia. A minha ontem foi o romance O dia seguinte, do escritor galês Rhidian Brook.

Vinha adiando a leitura deste livro porque não sou nem nunca fui uma grande apreciadora de romances históricos, sobretudo quando passados durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, fui agradavelmente surpreendida pelo fato de que O dia seguinte não é mais um livro sobre este tema já batido, mas sim sobre o pós-guerra, ou a tentativa de restabelecimento da Alemanha um ano após a derrocada de Hitler. Para escreve-lo, Brook inspirou-se no próprio avô, que, chamado para ocupar um cargo militar em Hamburgo em 1946, recusou-se a expulsar da mansão a si atribuída a família que lá vivia, optando por coabitar com os antigos inimigos.

Eis a ‘aberração’ – do ponto de vista britânico na época – cometida por Lewis, um dos protagonistas da trama, responsável por trazer a democracia e garantir o processo desnazificação no norte da Alemanha. Recém-chegado a uma Hamburgo em ruínas, o antigo herói de guerra tem a difícil função de reconstruir o país que ajudou a aniquilar, mas comporta-se de maneira oposta a seus conterrâneos: Lewis demonstra compaixão pelos sobreviventes alemães. Atitude, aliás, oposta à de sua esposa Rachael, cega de ódio pelo povo que matou seu filho mais velho, e incomodada pela suntuosidade da vila à beira do Elba que a família passa a habitar. A convivência forçada com os antigos proprietários da mansão, um atraente arquiteto alemão e sua revoltada filha adolescente, serve no entanto para apaziguar a fria senhora e devolver todos à vida.

A trama, que se desenrola de forma novelesca, apresenta a história sob o ponto de vista de várias personagens, entre principais e secundárias, oferecendo-nos um panorama do que terá sido viver em meio aos escombros de uma Alemanha vencida. Entre órfãos da guerra (Trümmerkinder) e nazistas camuflados, todos exaustos e famintos, a aversão aos novos colonizadores faz gerar a rebelião e a nostalgia pelo retorno do Führer, sobretudo à medida em que forasteiros ideologicamente programados desprezam os vencidos e os tratam como ratos.

É certo de que Rhidian Brook não escreveu nenhum futuro clássico da literatura ocidental. Muito pelo contrário: o livro é cheio de reviravoltas rocambolescas, personagens pouco profundas, e situações tão previsíveis que quase se tornam inesperadas. É um livro, enfim, descartável, desses feitos para um leitor mediano. No entanto, trata-se ainda assim de um romance bem escrito, cuja trama é viciante, e que nos permite repensar a História. Para mim, conhecedora (e crítica) que sou da cultura alemã, sobreveio a admiração, ao lembrar-me de que o país que é hoje um dos carros-fortes da economia global, e um dos maiores defensores da União Europeia, foi há tão pouco tempo o inimigo público número um, que estrangeiros de todo o mundo aprendiam na escola a temer e a desprezar. Admiração por este país que, citando, “não [estava] acostumado a debater”, mas que não apenas “encontrou sua voz”, como tornou-se um dos maiores oradores de uma Europa pacífica e sem fronteiras.

Tudo isso são divagações minhas, e não chega a ser abordado no livro de Brook. No entanto, costumo dizer que um livro que faz viajar para além dos seus limites, que faz pensar e revisitar paradigmas, que abre pontes para analogias, deve ser sempre vivamente recomendado.

Nada como um bom best-seller para fazer uma viagem longa e aborrecida tornar-se numa experiência memorável!

 

Título original: The Aftermath

País: País de Gales

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Título brasileiro: O dia seguinte

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN: 978-858-0575-92-7)

Título português: O despertar do mundo

Edição portuguesa: Asa (ISBN: 978-989-2325-37-8)

Número de páginas: 272 (edição brasileira), 328 (edição portuguesa)

Exercícios da perda, de Agata Tuszyńska

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A representação literária da morte, sobretudo quando baseada numa experiência autobiográfica, consiste num eterno motivo de controvérsia. Normalmente, esse tipo de narrativa resulta da necessidade do autor de ordenar a experiência da perda, e, como parte do processo de luto, não pode ser submetida aos mesmos paradigmas críticos que textos “verdadeiramente” literários. Um dos textos mais icônicos sobre o assunto é certamente Uma morte serena, da inigualável Simone de Beauvoir, dedicado aos últimos meses de vida de sua mãe. No ano retrasado, resenhamos outro texto que se encaixa nesta categoria: o premiado A onda, de Sonali Deraniyagala, que trata da morte de toda a sua família no Tsunami de 2004. Indo um pouco além, podemos inserir aqui também toda a chamada “literatura da Shoah”, ou literatura de testemunho dos grandes crimes contra a humanidade, seja o Holocausto judeu retratado por Kertész, seja o massacre dos Tutsis no Ruanda descrito por Mukasonga, ou até mesmo a miséria dos favelados nos diários de Carolina Maria de Jesus.

Em Exercícios da perda, a já consagrada escritora judaico-polonesa Agata Tuszyńska dedica-se aos últimos dezoito meses de vida de seu marido, o também escritor Henryk Dasko. Para isso, a autora escolhe partir exatamente do momento do diagnóstico de tumor cerebral, deixando de lado os quinze anos de vida em comum que antecederam a doença. Desta forma, é como se Tuszyńska afirmasse que a realidade esmagadora da perda iminente ofusca toda uma história de vida pré-doença, ou como se quisesse proteger a sua intimidade dos holofotes da escrita. Assim, o livro contém muito pouco de um amor romântico, quase não deixando entrever os motivos pelos quais essas duas pessoas de passada meia-idade, vindas de relacionamentos anteriores, apaixonaram-se uma pela outra. Sabemos que Henryk era um homem mais velho, que assumia para ela a função de pai e mentor, e que os papeis vão sendo trocados pouco a pouco a medida em que a morte se aproxima. Um relacionamento, enfim, muito pouco idealizado. Mas como não estamos aqui para julgar o relacionamento da autora, passemos à crítica do texto.

Exercícios da perda é um livro interessante, embora se encontre num limbo editorial, e certamente não teria sido publicado não fosse o fato de a sua autora ser famosa. Trata-se de um desses livros escritos para fazer bem ao autor, e não ao leitor, e que oscila entre a narrativa pessoal e o ensaio filosófico. Como não poderia deixar de ser, Tuszyńska, cuja carreira literária está quase totalmente dedicada à herança do holocausto no judeu contemporâneo, traça um paralelo eloquente e refinado entre sua perda pessoal e a de seus antepassados, vítimas da Kristallnacht e das câmaras de Auschwitz. Tudo isso é certamente muito interessante, mas acaba se tornando demasiado teórico, ofuscando parte da identificação do leitor com aquele outro tipo de amor que descende da perda, feito da resiliência e da negação de si mesmo. Falta às vezes o piegas, a declaração de amor, o que deveria ser um aspecto positivo, mas não nesse caso: afinal, esses elementos são substituídos por um eruditismo excessivo, às vezes pedante. Um desabafo que não chega a o ser devido ao excesso de autoafirmação intelectual.

Agata Tuszyńska é inegavelmente uma escritora de primeira, mas eu não recomendaria a nenhum leitor começar por este livro. Para descobri-la, mais vale dedicar-se a sua obra-prima, História familiar do medo, que refaz os passos de sua família durante a Segunda Guerra. E a quem esteja à procura de um “relato do câncer”, recomenda-se muito mais o singelo blog “Até à lua” da atriz portuguesa Marlene Barreto Frazão, dedicado ao marido morto em dezembro passado. Este sim emociona pela beleza despretensiosa, revelando, na sua cotidiana simplicidade, um verdadeiro valor de pérola literária.

 

Título original: Ćwiczenia z utraty

País: Polônia

Idioma original: polonês

Ano de publicação: 2007

Edição em português: não há

Título francês: Exercices de la perte

Edição francesa: Grasset (ISBN 978-224-6739-31-9)

Número de páginas: 320 (edição francesa)

Vozes de Chernobyl, de Svetlana Aleksievitch

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No dia 26 de abril de 1986, uma explosão provocada por um teste malsucedido num reator da usina nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética, entraria para a história. Cerca de 10 anos após a tragédia, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch iniciou uma série de cerca de 500 entrevistas às vítimas, as quais dariam lugar ao impressionante Vozes de Chernobyl: Crônica do Futuro.

O livro consiste numa coletânea de relatos em primeira pessoa narrados por sobreviventes da catástrofe, bem como por seus parentes, e revelam um lado ainda mais sombrio – e até então desconhecido – da maior catástrofe nuclear de todos os tempos: a ignorância da população local perante à tragédia. Para dar voz às vítimas silenciosas de Chernobyl, Svetlana recorre à técnica do recorte, recurso já empregado em seus trabalhos anteriores, de modo a que o livro seja composto como uma espécie de patchwork, permitindo o entrecruzamento de vozes em uma pluriperspectividade dialética.

Em vez de se ater aos grandes fatos, já demasiadamente esmiuçados, Svetlana preocupa-se com o aspecto humano do acidente, privilegiando a micro-história. Desta forma, tomamos conhecimento da catástrofe através do relato daqueles que a viveram pessoalmente, desde moradores de Pripiat, soldados, liquidadores (pessoas recrutadas pelo governo soviético para dar fim aos resquícios radioativos), e caçadores encarregados de exterminar os animais domésticos e selvagem, até físicos e diretores dos principais centros de pesquisas atômicas da URSS. O resultado é o registro chocante de uma sequência dantesca de erros que facilmente poderiam ter sido minimizados, não fossem os interesses políticos terem decidido ocultar covardemente as dimensões da situação. A desinformação gritante sobre as possíveis consequências de uma contaminação radioativa, aliada ao coletivismo e ao senso de dever cívico dos povos socialistas, são ainda hoje responsáveis por um prejuízo humano de dimensões incalculáveis, cujas consequências ainda poderão ser observadas por centenas de gerações.

Quanto ao aspecto literário do texto, é preciso estar atento ao fato de que a leitura nem sempre será fácil. Tal dificuldade não se deve apenas ao tema obviamente chocante, mas sobretudo ao seu caráter repetitivo – essencial do ponto de vista histórico e antropológico, mas cansativo do ponto de vista literário. Enquanto a semelhança de muitos dos relatos os valida como testemunho documental, ela também obriga o leitor a uma grande disciplina. Não se trata, enfim, de um livro facilmente digerível, nem muito menos de um registro sensacionalista: eis, do ponto de vista narrativo, o principal mérito da autora.

Chega a ser impressionante que a obra de Svetlana, laureada com o Prêmio Nobel da Literatura em 2015, ainda seja tão desconhecida no mundo lusófono. Assim, o leitor que se interessar por Vozes de Chernobyl terá que se contentar, por enquanto, com uma edição em língua estrangeira (ver algumas sugestões abaixo). Por outro lado, a boa notícia é que O fim do homem soviético, considerado sua obra-prima, já ganhou uma edição portuguesa, e que outras traduções já se encontram a caminho.

 

Título original: Чернобыльская молитва. Хроника будущего

País: Bielorrússia

Idioma original: russo

Ano de publicação: 1997

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Picador (ISBN 978-031-2425-84-5)

Edição espanhola: Debolsillo (ISBN 978-849-0624-40-1)

Edição francesa: J’ai lu (ISBN 978-229-0343-60-9)

Número de páginas: 256 (edição inglesa), 408 (edição espanhola), 250 (edição francesa)

Villa Pacífica, de Kapka Kassabova

Kassabova_Pacifica

O que aconteceria se o realismo fantástico de Isabel Allende colocasse uma mochila nas costas, entrasse no primeiro ônibus, e saísse mundo afora escrevendo guias turísticos? Eis o que aconteceria: o romance Villa Pacífica, da escritora búlgara-anglo-neozelandesa Kapka Kassabova.

Ambientado num país qualquer da América do Sul banhado pelo Pacífico, o livro conta a história de um grupo de gringos entre os vinte-e-muitos e os quarenta-e-poucos hospedados num lugar isolado e misterioso no meio do nada, um misto de hospedagem de ecoturismo e abrigo para animais, onde tudo e nada pode acontecer. Seus protagonistas, uma finlandesa frígida com o rosto comido pela eczema e seu marido so British metido a escritor, dão uma noção dos estereótipos que estão por vir. A seguir, virão um insuportável homem de negócios americano e sua esposa fazedora de filhos, um casal de mexicanos declaradamente indolente, um índio amazônico cheio de sabedoria, um latin lover paraguaio, uma matrona austríaca com as axilas cabeludas, dois australianos atléticos curtindo a vida adoidados, e assim por diante. Desnecessário dizer a que ponto todas essas figuras se revelam planas e previsíveis.

Contrariamente ao que tenta nos convencer o texto da contracapa, o enfoque da trama não se encontra nos acontecimentos de uma nebulosa noite de tempestade – aliás, são várias as noites de tempestade, ao ponto de que nem sequer nos apercebemos a qual delas o editor se refere. Para tornar a coisa mais bonita, poder-se-ia dizer que a ênfase da autora reside muito mais na relação entre esses seres divergentes, cujo único elo em comum parece estar justamente no fato de se encontrarem ao mesmo tempo na famigerada vila.

Para dizer a verdade, a história poderia ter facilmente cabido em 80 páginas a menos. Não que a narrativa seja forçosamente aborrecida – o que até nem é, sobretudo graças à fluidez dos diálogos, que faz com que a leitura avance com imprevista facilidade. O que incomoda mais é a constante impressão de déjà vu, já que boa parte das cenas consiste em repetições inúteis e desnecessárias. Precisava a protagonista perder-se três vezes no meio do mato? Uma só não teria dado conta? A cada novo capítulo ficamos à espera de que algo importante aconteça, a cada calada da noite renovamos a esperança de que uma grande catástrofe bote finalmente lenha na fogueira, queimando com ela a metade do elenco. Mas Villa Pacífica faz mesmo jus ao título que lhe foi dado. Até que chegam as últimas 50 páginas para salvar a lavoura, e Kassabova resolve que afinal quer mesmo é escrever um thriller psicológico. Mas não será, então, tarde demais?

Se fosse um filme de horror, Villa Pacífica estaria mais para Os outros do que para Turistas. O que de certa forma me faz suspirar aliviada – não vou eu ficar com ideias macabras da próxima vez que me encontrar num albergue no meio do nada. Eis um livro para viajantes intrépidos – não porque seja necessária uma dose extra de coragem para o ler, mais sim porque todo mochileiro acabará, de uma forma ou de outra, se identificando com algumas das situações descritas. E se apercebendo de que escrever para o Rough Guide ou para o Lonely Planet não é necessariamente o melhor emprego do mundo.

 

Título original: Villa Pacifica

País: Bulgária

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2010

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Alma Books (ISBN 978-184-6881-86-2)

Número de páginas: 285 (edição inglesa)