Mãn, de Kim Thúy

Thúy_Mãn

Para escrever a última resenha do ano, tenho ao meu lado um bule de chá de alcachofra, uma das minhas maiores surpresas gastronômicas de 2015, comprado no mercado de Da Lat, no Vietnã. Afinal, se a literatura nos faz viajar para países longínquos, o sabor dos alimentos consumidos em terras distantes trazem-nos de volta até elas. Eis uma verdade que se aplica com perfeição ao livro deste domingo: Ao aliar memória afetiva e gustativa, Mãn, o segundo livro da escritora vietnamita Kim Thúy, transporta o leitor para o universo de odores, vapores e nostalgias agridoces de sua terra natal.

Antes de mais nada, talvez se pudesse dizer que Mãn é uma declaração de amor de sua protagonista homônima às três mulheres que lhe deram a vida: a adolescente que a trouxe ao mundo, a monja que a recolheu no campo de um convento budista, e sobretudo a última, uma espiã que a criou, educou e mandou para fora do Vietnã, com destino a um casamento arranjado e seguro. Anos mais tarde, no Quebec, nossa protagonista encontrar-se-á trancafiada por dias sem fim na cozinha de um restaurante, e encontrará na gastronomia uma forma de redefinir sua própria identidade. Seus pratos, incomparáveis, atrairão ao restaurante do marido, outrora vazio, cada vez mais clientes, alguns deles se tornando verdadeiros admiradores e amigos, sucesso que a transformará pouco a pouco numa nova mulher.

Não que Mãn não conhecesse o amor ao lado do marido. Tratava-se, no entanto, de um amor oposto ao das novelas, pelo qual se sofre e se tortura, e pelo qual se morre heroicamente. Pelo contrário, seu amor “à vietnamita”, descendente da tradição budista, exprimia-se na renúncia, no silêncio, na discrição, bem como na aceitação zelosa de um papel pré-estabelecido. No entanto, o acaso fará com que essa mulher sem vaidades encontre um homem igualmente perdido entre o passado e o presente, e com que o sentimento inesperado de uma paixão abale as estruturas de toda uma vida composta de renúncias.

Talvez o melhor adjetivo para caracterizar Mãn seja suave. Trata-se de um livro curto, composto por capítulos de no máximo duas páginas, todos eles antecedidos por uma palavra em vietnamita e pela sua tradução. A narrativa, feita em primeira pessoa, não se atém forçosamente à ordem cronológica, fazendo eventuais digressões segundo aquilo que oferece a memória de sua protagonista-narradora. Sua pluma incomparavelmente poética e suave, bem como a descrição detalhada dos pratos preparados pela cozinheira nos momentos mais marcantes de sua existência, provocam no leitor uma sensação sinestésica, combinando o prazer da leitura a uma satisfação quase gustativa.

Por tratar de uma temática vista e revista ao longo desses 365 dias – a questão da imigração e da procura da identidade –, Mãn encerra com chave de ouro um ano de leituras, se me permitem o jogo de palavras, particularmente frutuoso. E que venham outros como este!

 

Título original: Mãn

País: Vietnã

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2013

Edição em português: não há

Edição em inglês: Clerkenwell Press (ISBN: 978-184-6689-96-3)

Edição em francês: Libre Expression (ISBN: 978-276-4804-97-1)

Número de páginas: 152 (edição em francês), 160 (edição em inglês)

The Dead Lake, de Hamid Ismailov

Ismailov_Lake

Quantas pessoas saberiam situar o Usbequistão num mapa? Para a maioria, este pequeno país banhado pelo deserto salgado do Aral não passa de um mistério. Oficialmente uma democracia, o Usbequistão ainda preserva muito do seu antigo passado como uma das Doze Repúblicas da União Soviética, nomeadamente no que diz respeito à tendência autoritária, à aversão aos direitos civis e ao fechamento para o resto do mundo. Um exemplo disso é o fato de que Hamid Ismailov, um dos seus mais prolíferos escritores, foi obrigado a deixar o país em 1992, tendo seu nome sido apagado dos anais da literatura uzbeque.

Aqueles que tiverem o privilégio de descobrir Ismailov não deixarão de lamentar a sorte de seus patrícios. Nascido no Quirguistão, o autor explora em seus textos a realidade das antigas repúblicas soviéticas, respeitando, por um lado, as idiossincrasias históricas que as distinguem, mas focando, todavia, em seu passado recente comum. “Wunderkind Yerzhan” (tradução livre do título original russo), que infelizmente não se encontra traduzido para o português, desenrola-se no Casaquistão, ou mais precisamente no povoado microscópico de Kara-Shagan, aglomerado em volta de uma estação e habitado por apenas duas famílias. O ponto de partida da narrativa é uma viagem de trem pelos confins cazaques nos anos 1990, durante a qual o narrador em primeira pessoa, um forasteiro que não se dá a conhecer, encanta-se com a habilidade de um violinista de doze anos, o qual, no entanto, mostra-se muito ofendido ao ser tratado de “menino”. Trata-se, na verdade, de um homem de 27 anos, aprisionado eternamente num corpo de infante.

Durante as longas horas de viagem pelas estepes, conhecemos a história de Yerzhan, cuja infância é descrita com riqueza de detalhes, cercada por uma atemporalidade que nos remete aos contos de fadas do Romantismo Alemão. Concebido em circunstâncias jamais reveladas pela mãe emudecida, o menino prodígio (Wunderkind) foi criado pelas avós das duas famílias vizinhas, ao lado de sua amada Aisulu, um ano mais nova que ele, e com quem um dia iria se casar. Mas o pequeno paraíso idílico onde as duas crianças cresciam ao som de Dean Reed (o “Elvis Comunista”) avizinhava-se de um lugar terrível: uma usina nuclear em atividade. Seu ritmo de vida era marcado pelas explosões frequentes, algumas delas provocando graves acidentes, embora ninguém parecesse se aperceber do risco iminente que corriam. Até que o ousado Yerzhan, para se mostrar aos coleguinhas da escola, decide mergulhar nas águas insalubres do “lago morto”, uma imensa piscina aberta por uma explosão nuclear. Quando os anos passam e todas as outras crianças continuam a crescer, menos Yerzhan, fica a sugestão de que sua eterna juventude teria sido causada pelo banho no lago da morte.

Chega a ser fascinante observar como o autor dá ao tema contemporâneo – a herança macabra da radioatividade – um tratamento tão atemporal e universal, substituindo poderes sobrenaturais e bruxas malvadas pelo empenho soviético em produzir armas nucleares durante a Guerra Fria. Seu estilo narrativo, repleto de magia, faz lembrar clássicos como E.T.A. Hoffmann no Pequeno Zacarias, ou Adelbert von Chamisso em Peter Schlemihl. O resultado é uma novela tão bonita e tão triste que é quase impossível não ficar comovido, e que hesitamos em terminar conscientes do desfecho inevitavelmente trágico. O que nos consola, no entanto, é saber que o final foi inventado pelo homem do trem, e que, se não ficarmos satisfeitos, podemos deixar o resto a cargo da imaginação.

Se meu empenho em ler um livro de cada país tivesse servido para descobrir apenas este, todas as horas de busca já teriam valido a pena.

Título original: Вундеркинд Ержан

País: Usbequistão

Idioma original: russo

Ano de publicação: 2011

Título inglês: The Dead Lake

Edição inglesa: Peirene (ISBN 978-190-8670-14-4)

Título francês: Dans les eaux du lac interdit

Edição francesa: Denoël (ISBN 978-220-7125-92-2)

Número de páginas: 128 (edição inglesa)

As consequências do amor, de Sulaiman Addonia

Addonia_Love

Correndo o risco de ser acusada de saltar de uma história de amor à outra, a resenha de hoje é dedicada a outro livro de um país ignorado pelo mundo: As consequências do amor, do escritor eritreu Sulaiman Addonia.

Quem lê as primeiras páginas sem saber que o livro foi escrito por um homem pode muito facilmente se confundir: a sutileza da narrativa, bem como a ingenuidade da visão do mundo do protagonista e narrador em primeira pessoa, dão a ilusão de que se trata não apenas de um eu-lírico feminino, mas também de um texto escrito por uma mulher. No entanto, Nasser, figura principal do romance, é um jovem e belo rapaz de origem eritreia que sonha com o primeiro amor, vivendo na inóspita Arábia Saudita dos anos 1980. No passado, ele e o irmão de três anos foram mandados pela mãe para fora da terra natal como forma de fugir à morte certa num país assolado por uma guerra sem fim. Resgatados por um tio de um campo de refugiados sudanês, os meninos foram adotados pelo parente ultrarreligioso e levados a viver no país do Golfo, onde o contato entre homens e mulheres beira o inexistente. Para Nasser, que cresceu entre mulheres no prostíbulo onde trabalhava a mãe, adaptar-se a um mundo sem elas torna-se praticamente impossível, sobretudo após ser expulso pelo tio e passar a sustentar a si próprio ainda aos 15 anos.

A história de amor em si é bastante previsível: o menino, que sonha com o amor, recebe um bilhete romântico que uma mulher escondida por trás de uma burqa deixa cair a seus pés, e se apaixona pela desconhecida, com quem passa a se corresponder. Surge daí uma paixão que nos é estranha, por uma mulher cujo nome e a própria cor da pele desconhece, e que no começo não é mais que a tentativa de suprir uma carência de ambos os lados.

Num país do qual o amor foi banido, está claro que as consequências de um relacionamento amoroso nunca poderiam ser positivas. No entanto, a história, que parecia a princípio não passar de um amontoado de clichês, torna-se aos poucos cada vez mais envolvente. À medida em que as discussões entre ambos transcendem a fase das declarações açucaradas, seus questionamentos acerca da função da mulher no mundo árabe acabam por se tornar um estudo da sociedade saudita. Uma sociedade, aliás, que pode ser considerada a maior prisão a céu aberto do mundo, e cuja fachada moralista e ultraconservadora esconde um submundo muito pouco condizente com os dogmas do islã. Afinal, uma vez que banir as mulheres não significa extirpar o desejo e a luxúria, o homossexualismo e mesmo o abuso sexual de jovens rapazes de castas inferiores acabam por se tornar práticas aceitáveis, desde que devidamente praticadas debaixo dos panos.

Os jovem de As consequências do amor são deveras diferente das “modernas” garotas de Riade de Rajaa Al-Sanea. Em vez da jovem elite citadina, temos aqui refugiados e filhos de imigrantes, membros muito mais fragilizados de uma estrutura social claustrofóbica e hipócrita. Embora jamais venha a ser uma pérola da literatura, e embora não possa ser considerado um romance tecnicamente eritreu, trata-se de um livro interessante, que cresce aos olhos do leitor com o desenrolar da narrativa, e que merece ser lido por oferecer um olhar crítico e sincero a uma das sociedades mais opressoras do mundo.

Título original: The Consequences of Love

País: Eritreia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1082-41-1)

Número de páginas: 400 (edição brasileira)

 

A definição do amor, de Jorge Reis-Sá

Reis-Sá_Amor

Escrever a resenha de um único romance de cada país do mundo implica uma escolha que só mesmo um grande leitor conseguirá entender. Ao longo dos últimos treze meses, debati-me com as más escolhas, torturei-me após encontrar, poucos dias depois de ter lido um livro do qual não gostei tanto, um outro que me pareceu irresistível, principalmente por saber que não poderei voltar a ele antes de terminar o périplo de mais de 200 países ao qual me lancei. Muitos leitores e amigos me perguntaram porque eu ainda não tinha lido nenhum livro português, e a resposta era simples: queria adiar ao máximo a escolha, sabendo que seguramente iria me arrepender de tê-la feito, por melhor que fosse o romance escolhido. Mas toda espera chega ao fim. Depois de protelar por mais de um ano antes de eleger o meu representante da terra lusa, eis em primeiríssima mão aquela que talvez seja a primeira resenha de um romance lançado há menos de 20 dias: A definição do amor, do escritor português Jorge Reis-Sá.

A definição do amor narra uma história triste e invulgar. O professor de filosofia Francisco, casado há alguns anos com a bela Susana, com quem tem um filho ainda bebê, recebe num dia de primavera a notícia de que sua mulher se encontra no hospital. Ao lá chegar, descobre que a esposa foi vítima de um AVC, e recebe sem compreender o diagnóstico de morte cerebral. Ao lado da notícia avassaladora, chega-lhe a informação de que ela se encontrava na segunda semana de gestação. Nos meses que seguem, Francisco verá a mulher amada transformar-se na passiva incubadora da filha que lhe tirou a existência, uma vez que o AVC foi causado por essa gravidez indesejada, e passará por um processo de transformação capaz de levá-lo não apenas à aceitação da perda inevitável, mas também a uma espécie melancólica de alegria por aquela vida que lhe tolheu a felicidade.

Os fãs de enredos mirabolantes não encontrarão neste romance um terreno muito fértil. Que mais poderíamos esperar, se a heroína está estática, e o herói-narrador, guardião do seu sonho sem sonhos, permanece quase todo o tempo velando por ela? Quase nada de novo se passa – e o pouco que se passa, acontece sobretudo no plano psicológico. A linguagem, um tanto lírica, pode cansar os leitores menos afeitos à prosa poética; no entanto, é mais que adequada ao tratamento dado ao tema. E o que poderia ter havido de piegas é quebrado por um desfecho mais que inesperado, narrado em poucas linhas, que pegará qualquer leitor desprevenido e terá o efeito impactante de um nocaute.

O livro é constituído por quase 300 páginas que se leem muito rapidamente, graças a uma diagramação generosa e à cadência narrativa. A trama principal, narrada em capítulos divididos por meses, é intermeada por capítulos mais curtos, chamados de “Véspera”, cujas vozes narrativas em primeira pessoa serão no princípio difíceis de compreender. Trata-se do eco da existência de pessoas que já se foram, todas elas indiretamente ligadas ao protagonista: os futuros vizinhos de Susana no cemitério. Por meio dessas vozes do passado, o leitor é confrontado com diferentes – e pouco ortodoxas – histórias de amor, e suas consequências: o amor incestuoso entre uma tia e um sobrinho, o amor homossexual e pedófilo entre um padre e seus pupilos, e assim por diante. Caberá ao leitor confrontar essas histórias alquebradas à trama central. Por fim, não é a reação à morte da pessoa amada o que nos permite visualizar a definição do amor de que fala o título, mas sim o desaparecimento daquele sentimento tão inefável que nos define como seres humanos: a esperança.

Se as livrarias de Lisboa estão repletas de candidatos que me seduzem com suas capas como as sereias de Ulisses, provavelmente me arrependerei cedo ou tarde de ter feito a minha escolha. Já agora, fico no entanto com o sossego de que espera valeu a pena.

Título original: A definição do amor

País: Portugal

Idioma original: português

Ano de publicação: 2015

Edição portuguesa: Guerra & Paz (ISBN 978-989-7021-37-4)

Edição brasileira: não há

Número de páginas: 272

O amor dos peixes, de Steinunn Sigurðardóttir

Sigurdardottir_fiskanna

Histórias de amor são universais e facilmente compreensíveis, certo? Errado! Se nunca lhes aconteceu de ler de cabo a rabo um romance – no sentido popular do termo, ou seja: uma história de amor – e, ao chegar ao final da trama, ter a impressão de não ter entendido absolutamente nada, nem se identificado minimamente com os sentimentos das personagens, está na hora de ler “O amor dos peixes”, da complicada islandesa Steinunn Sigurðardóttir.

No plano externo, o livro está recheado de símbolos e metáforas pertencentes ao cliché amoroso. Samanta encontra Hans Örlygsson num castelo no estrangeiro, ela mesma residente eventual de um pequeno palácio remanejado. Ele, um empresário de sucesso de 29 anos; ela, uma editora da mesma idade que dedica seu tempo livre a traduzir velhos poemas de amor indianos. Depois de longas horas de conversa, os dois decidem se conhecer melhor em um restaurante chamado “A rosa negra”. Evidentemente, ele encomenda a garrafa de champanhe mais cara. Os dois sentam-se a uma mesa decorada com uma rosa laranja. Ela diz: “minha cor preferida de rosa.” Ele replica: “Porque é mais vermelha que o vermelho.” Ela responde: “Porque não é vermelho.” E o leitor se desespera: “What the h***?”

No plano interno, no entanto, o lirismo dá lugar a outra coisa. O galã bate à sua porta: ela prefere fingir que não está e observá-lo da janela enquanto corta as unhas dos pés. Os dois se reencontram eventualmente num aeroporto: ele se apresenta aos pais dela, ela se recusa a oferecer-lhe carona. Três anos se arrastam, e os dois só se encontram furtivamente: ele se casa, tem um filho, mas de vez em quando se lembra de bater à sua porta. Ela, que o recusou até o fim, que queria ser uma mulher independente, dona do seu próprio destino, se envolve com um quarentão pai de dois filhos adolescentes e apaixonado pela ex-esposa psicótica. Hans Órlygsson e Samantha continuam a se cruzar magicamente, a trocar palavras incompreensíveis, a caírem nos braços um do outro de vez em quando, e ela eventualmente se apercebe que ele é o homem da sua vida. Mas aí, é claro, já é tarde demais. Quem mandou cortar as unhas dos pés enquanto ele esperava plantado do lado de fora, num jardim habitado por pavões?

O livro, vendido pelo editor estrangeiro como um romance, não passa de uma novela de pouco menos de cem páginas, mas nem por isso fácil de digerir. Vale pelo frio da ilha do fogo e do gelo, pela paisagem bucólica em eterna transformação, pelas eternas geleiras e verões inesquecíveis, e pelo desafio de tentar entender aquela que talvez seja a heroína mais enrolada da história da literatura.

Se um relacionamento amoroso é uma coisa complicada por excelência, essa pequena historieta islandesa prova que suas manifestações podem ser ainda mais estranhas e abstrusas do que se poderia imaginar.

Título original: Ástin fiskanna

País: Islândia

Idioma original: islandês

Ano de publicação: 1993

Edição em português: não há

Outras edições: alemão (rororo, ISBN 978-349-9234-94-1)

Número de páginas: 96 (edição alemã)

Vida dupla, ou As raparigas de Riade, de Rajaa Alsanea

Alsanea_Riad

Quando a editora Caderno lançou a edição portuguesa de Girls of Riyadh, o jornal Diário de Notícias apressou-se em escrever uma reportagem na qual, sem nem sequer mencionar o enredo, enfatizava o escândalo causado pelo livro. O romance, editado no Líbano em 2005, só pode circular no país de origem da jovem autora Rajaa Alsanea por debaixo dos panos. Pouco tempo depois, já tinha sido traduzido para as principais línguas europeias, e editado com subtítulos bombásticos que o anunciavam como “a vida amorosa secreta das mulheres do Golfo”, “o Sex and the City da Arábia Saudita”.

É fato que, além do escândalo, talvez não haja mesmo muito o que dizer. O livro é composto de e-mails *fictícios* enviados por uma narradora desconhecida, uma espécie de Gossip Girl do Oriente Médio, a um grupo de discussões do yahoo. Uma vez por semana, a ilustre desconhecida revela um episódio da vida afetiva de suas quatro amigas, Michelle, Gamrah, Sadeem e Lamee – todas elas filhas da classe média alta de Riad –, não sem antes fazer um breve resumo da reação dos leitores ao e-mail precedente. Talvez a melhor ideia da autora tenha sido justamente essa: compor os capítulos como se fossem mensagens, o que ainda confunde leitores desavisados: seria tudo meramente ficção ou um verdadeiro “documento histórico”, como sugere ardilosamente a edição francesa?

No que diz respeito à qualidade literária, o livro não se destaca nem para cima, nem para baixo: tem uma escrita fácil, despretensiosa, dessas que fluem sem grande dificuldade, o que contribui para a ilusão de verossimilhança. Além disso, a narrativa em primeira pessoa é permeada de citações, reproduções de poemas e letras de música (em sua maioria árabes), todas muito melosas e difíceis de digerir. O todo parece – e é – a escrita de uma pobre menina rica.

Quanto à pimenta que tempera a vida dessas pobres heroínas reprimidas, o leitor encontrará tanta ação quanto se se tratasse de namoricos de crianças da quinta série. Mas não era suposto estarmos diante do livro que chocou a Arábia Saudita? Justamente: a Arábia Saudita – o país mais sexualmente reprimido do mundo. Ou seja, pode até ser a versão saudita de Sex and the City, mas, como tal, sexo é a última coisa que o leitor vai encontrar. À exceção de uns raros momentos que inevitavelmente acabam mal, um dos elementos mais escandalosos do livro é quando a narradora fala de horóscopo e da provável compatibilidade entre os signos x e y. É que, na sociedade saudita, a astrologia é um crime contra a moralidade.

Diferenças à parte, o romance esmiúça uma situação que nem é tão diferente assim da realidade de muitas mulheres emancipadas e desinibidas mundo afora. De fato, a competição feminina, os joguinhos de sedução e a constante humilhação à qual as amigas de Riad se submetem para se fazer interessantes e agarrar os seus homens fazem inevitavelmente pensar em muitas amigas brasileiras. A autora define a posição feminina com um termo extraordinário: “esmola emocional”. Assim, além de criticar a sua sociedade, assumidamente machista, Alsanea nos faz pensar no falocentrismo enrustido que ainda corrói a nossa.

De burca ou de biquíni, hijab ou babyliss, até que as nossas realidades não são tão diferentes assim.

Título original: بنات الرياض (Banat al-Riyadh)

País: Arábia Saudita

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2005

Título brasileiro: Vida dupla: Um romance sobre o Oriente Médio hoje

Título português: As raparigaz de Riade

Edição brasileira: Nova Fronteira (ISBN 978-852-0920-43-5)

Edição portuguesa: Caderno (ISBN 978-972-4150-71-0)

Número de páginas: 256 (edição brasileira), 320 (edição portuguesa)

O museu da inocência, de Orhan Pamuk

Pamuk_Museu

Sabem aqueles romances que, ao chegarem ao fim, deixam o leitor com a sensação de se terem tornado órfãos? Pois assim é O museu da inocência: seiscentas páginas que passam a voar e que provam os motivos pelos quais Orhan Pamuk, Prêmio Nobel da Literatura de 2006, é um dos maiores autores do século XXI.

O livro narra a história de um amor – ou, se preferirem, de uma obsessão – entre um abastado playboy, filho da nata de Istambul, e uma humilde balconista, sua prima afastada. Kemal, jovem rico e bem-sucedido, oriundo de uma família tradicional turca, está prestes a se casar com Sibel, uma moça bonita, educada na França, e parece estar se encaminhando para o que poderíamos chamar de uma vida perfeita. No entanto, ao se deparar com Füsun, uma ‘prima’ doze anos mais nova, toda possibilidade de viver sem ela se torna literalmente impossível. A trama, que a princípio se assemelha a uma releitura banal de Romeu e Julieta, revela ser tudo, menos corriqueira – principalmente porque Kemal não é o homem de sonhos de ninguém. Muito pelo contrário: ele bem tenta manter as aparências e conciliar as duas vidas, casando-se com a mulher exemplar e fazendo da voluptuosa prima sua amante, e é só diante da sua impossibilidade que ele se curva – e que sua vida desmorona. Condenado a viver das memórias de uma promessa, o amante desafortunado encontra um alento ao se tornar o obsessivo colecionador dos objetos que um dia estiveram em contato com mulher amada: da xícara em que ela bebeu às bitucas dos cigarros que ela fumou.

Abarcando sobretudo os anos 1970 e 1980, o livro desvela, com uma maestria incomparável, os conflitos e o modo de pensar da sociedade turca, dividida entre a aparência, moderna e europeia, e a essência, tradicional e machista. Ao explorar as mazelas e incoerências da burguesia, assemelha-se não apenas a Flaubert e Balzac, mas faz pensar igualmente em alguns textos já clássicos da literatura brasileira, como Hilda Furacão, de Roberto Drummond. Mas a semelhança termina por aí. O que O museu da inocência tem de inovador é uma premissa narrativa única: a de contar uma história como um guia de museu, a partir dos objetos expostos numa vitrine.

E é com prazer que o leitor descobre, ao final da narrativa, que o “Museu da Inocência” não é um lugar imaginário: ele realmente existe, e não apenas pode ser visitado, mas o bilhete de entrada se encontra impresso nas últimas páginas do livro. É que, para escrever a sua história, Pamuk inspirou-se em objetos que ia encontrando por acaso, e acabou transformando a coleção daí advinda num museu em Istambul. Visitá-lo será certamente o motivo que faltava para (re)visitar essa cidade encantadora. Sob essa perspectiva, a declaração de amor de Kemal a Füsun pode ser entendida como uma declaração de amor à cidade, enquanto que o culto aos objetos se torna uma tentativa literal de resgatar a memória de uma época, bem como de homenagear as pessoas que a fizeram.

Dos objetos ao livro – do livro aos objetos. Eis o romance perfeito para todos aqueles que admiram uma bela história de amor. Mas eis também o romance perfeito para todos aqueles que não as podem suportar. Afinal, seja como for, O museu da inocência não é, nem nunca poderia ser, o livro errado para nenhum grande leitor.

Para quem pedir por mais, eis a página do Museu: www.masumiyetmuzesi.org

Título original: Masumiyet Müzesi

País: Turquia

Idioma original: turco

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5918-57-1)

Edição portuguesa: Presença (ISBN 978-972-2343-55-8)

Número de páginas: 639 (edição portuguesa), 568 (edição brasileira)

Ensurdecedor, de Frances Itani

Itani_Deafening

A primeira resenha de 2015 transportar-nos-á dos confins do Canadá para as trincheiras da Primeira Guerra: trata-se de Ensurdecedor, romance histórico da canadense Frances Itani.

O livro foi lançado no Brasil em 2004, mas não obteve, em terras tupiniquins, o sucesso que merecia. Para escreve-lo, a autora inspirou-se na biografia de sua avó, que, como a protagonista, perdeu a audição ainda na infância. O livro é protagonizado pela bela Grania O’Neil, uma jovem surda, filha de imigrantes irlandeses radicados numa pequena cidade de Ontário no final do século XIX. Aos cinco anos, a pequena Grania perdeu a audição em consequência de uma forte febre. Sua mãe, que nunca se perdoou pela deficiência da filha, não é capaz de perceber o quanto é dura com ela. Mas, a despeito do inevitável isolamento causado pela surdez, Grania leva uma infância feliz, protegida pelo amor da avó que lhe ensina a ler e a falar, bem como pelos irmãos que a tratam como igual. Mais tarde, Grania é mandada para um internato especializado na educação de surdos-mudos, onde passa sete anos a aprimorar sua capacidade de leitura labial. Lá, conhece o auxiliar de enfermagem Jim, por quem se apaixona, mas que pouco depois do casamento é mandado para o campo de batalha durante a Primeira Guerra.

Do ponto de vista narrativo, Ensurdecedor faz pensar num tipo de literatura que já não se pratica, sendo parecido com clássicos de séculos anteriores, como por exemplo Jane Eyre, de Charlotte Brontë. A trama, a exemplo deste grande clássico, pode ser dividida em duas partes. A primeira, focada na infância de Grania, tem a menina como única protagonista. Já na segunda, o foco narrativo é dividido entre a heroína e seu marido, e “viaja” a cada capítulo do Canadá às trincheiras na Europa. Se, por um lado, a escolha da autora permite abarcar um maior conteúdo histórico, por outro, é perfeitamente possível que o leitor incomodado a acuse de falta de foco.

A fim de atestar a veracidade do pano de fundo, cada um dos capítulos de Ensurdecedor é iniciado por uma epígrafe retirada de documentos de época. Trata-se, em sua maioria, de trechos de artigos de jornais, mas também de relatos, cartas e poemas. No entanto, aquele que prestar atenção no conteúdo dessas epígrafes pode se decepcionar: embora, na primeira parte, muitas delas tratem da realidade das escolas para surdos e da brutalidade dos seus métodos educacionais, quase nenhum espaço é realmente dedicado a esse tema particularmente interessante, e, à exceção da saudade da família, os anos de formação de Grania são lembrados como um mundo cor-de-rosa.

Aqueles que não estiverem suficientemente familiarizados com o gênero poderão se incomodar com seu ritmo lento e suas longas descrições; no entanto, os verdadeiros fãs de romances históricos encontrarão em Ensurdecedor todos os elementos de um livro bem-sucedido. E, se ficarem com gostinho de quero-mais, ainda podem se deliciar com a sua continuação, Tell, focada na irmã de Grania e em seu marido, mutilado pela guerra.

Título original: Deafening

País: Canadá

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2003

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-857-3025-63-7)

Número de páginas: 360

O projeto Rosie, de Graeme Simsion

Simsion_Rosie

Fãs de A culpa é das estrelas, tomem nota: Um geneticista antissocial em busca de esposa, uma excêntrica garçonete à procura do pai biológico, e um projeto tão maluco quanto os dois ao mesmo tempo são os ingredientes principais de um romance australiano que fará felizes a todos os leitores de John Green.

O projeto Rosie é narrado pelo seu protagonista, e aí reside justamente o maior mérito do livro: trata-se de um professor universitário à beira dos quarenta anos, que de repente decide que quer se casar. O problema é que ele, embora não o saiba, sofre da síndrome de Asperger. Ou seja, embora dotado de uma inteligência extraordinária, sua capacidade de expressar emoções é similar à de uma pedra de gelo. Não por acaso, sua vida vai mudar ao se deparar com a mais improvável das candidatas a esposa: uma mulher linda, porém cheia de defeitos, que ademais quer descobrir quem é o verdadeiro pai, mas a única coisa que sabe sobre ele é que se formou com a mãe, numa turma de mais de 120 alunos.

O enredo em si até que seria ordinário, não fosse ele contado pela perspectiva inusitada de alguém alheio aos sentimentos. Tinha tudo para ter sido um livro perfeito, não fosse… tão perfeito que até cansa. Afinal, é possível uma pessoa com espectro de autismo se apaixonar, e não apenas isso, mas também se tornar, de livre e espontânea vontade, o protótipo do homem dos sonhos? Trata-se de uma ideia tão simplista que até foi recentemente explorada por uma novela da Rede Globo. Ao desafiar as leis da lógica para criar um protagonista unanimemente cativante, o livro acaba por ganhar a previsibilidade de uma comédia romântica hollywoodiana, na qual o universo sempre conspira em prol de um inevitável happy end. Simplificar demais as coisas e apostar em fórmulas feitas não deixa de ser uma forma de subestimar o leitor. Embora provavelmente já tenhamos abusado das referências a Stieg Larsson esta semana, é impossível falar na imagem do Asperger na literatura sem pensar em Lisbeth Salander. E o que fazia dela a protagonista perfeita, se não justamente o fato de que fosse tão cheia de defeitos?

Isso tudo não impede que o livro seja um excelente passatempo, inteligentemente escrito, e inegavelmente divertido. Só é pena que, no final, a impressão que prepondere seja a de que O projeto Rosie não vai muito além de um livro fofinho, desses que não se tem vontade de parar de ler, com uma história cativante, escrita por um autor que sabe usar as palavras, cheia de boas sacadas… mas, a exemplo de um John Green, não vai mais além do que isso. Também é pena que, não por acaso, este seja sempre o tipo de livro que, mal lançado no estrangeiro, domina as livrarias do Brasil e de Portugal. E que as respectivas edições se esgotem quase instantaneamente. Afinal de contas, a gente é o que a gente lê.

Título original: The Rosie Project

País: Austrália

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1402-21-9)

Edição portuguesa: Divina Comédia (ISBN 978-989-8633-18-7)

Número de páginas: 320 (edição brasileira), 336 (edição portuguesa)

As madrugadas em Jenin, de Susan Abulhawa

Abulhawa_Jenin

Quem se emocionou com Os caçadores de pipas não pode deixar de ler As madrugadas em Jenin, seu contraparte feminino na Palestina.

O livro acompanha quatro gerações de uma família de camponeses do singelo vilarejo de Ein Hod, no norte de Israel, desde a sua expulsão pelos israelitas em 1948 até o século XXI. Em meio ao caos que sobreveio à auto-declaração do Estado de Israel, uma jovem mãe berbere tem seu filho mais novo raptado por um soldado, que deseja presentear o bebê à esposa judia, devolvendo-lhe assim o alento perdido num campo de concentração. Eis o início de uma história marcada por perdas e humilhações, narrada sobretudo a partir da perspectiva de Amal (“esperança”), irmã mais nova do menino desaparecido, nascida no campo de refugiados de Jenin. Mais tarde, os irmãos serão reunidos pelas circunstâncias da guerra, mas infelizmente lutarão em lados opostos. Assim, a mãe que enlouquece de tristeza ao ter seu filho brutalmente arrancado de seus braços torna-se um arquétipo da história da própria Palestina.

Para a maioria das pessoas, o conflito entre israelitas e palestinos parece tão complicado que nem vale a pena tentar entender. Porém, as coisas são simples assim: desde há pelo menos mil anos, a Palestina era a pátria de um povo simples de camponeses muçulmanos, até que, com a conivência do mundo ocidental, terroristas judeus sobreviventes da Segunda Guerra invadiram, ocuparam e expulsaram os verdadeiros donos da terra. “Uma terra sem povo para um povo sem terra” – eis o lema segundo o qual o mundo fechou os olhos, permitindo um dos processos de desapropriação mais vergonhosos do século XX: a criação do Estado de Israel. Só que a “terra sem povo” tinha povo, sim – os palestinos –, que desde então vem lutando pelo simples direito de continuar existindo e, Inshallah, um dia, voltar a pisar na terra de seus ancestrais.

Não deixa de ser interessante traçar um paralelo entre a imagem do conflito árabe-israelita presente em As madrugadas em Jenin – ou seja, uma luta de vida ou morte movida pelo mais primitivo instinto de sobrevivência –, e em O povo eterno não tem medo de Shani Boianjiu, que resenhamos no mês de junho. Ora, a crítica ao Estado de Israel torna-se ainda mais plausível ao pensarmos nas soldadas de Boianjiu, que matam por automatismo ou para aplacar o tédio, sem o menor comprometimento com a causa.

Fica claro que, para Susan Abulhawa, marinheira de primeira viagem, a mensagem é mais importante que a palavra. Mas, leitores magnânimos, perdoamos as pequenas fraquezas de seu livro, advindas sobretudo do excesso de idealização à cultura palestina (Por que o soldado que luta pela boa causa tem que ser invariavelmente o homem perfeito? Por que não criar personagens mais complexas e “humanas”, que carregam o bem e o mal dentro de si?). Importante dizer: se o fazemos, não somos apenas movidos pela importância da causa defendida pela autora, mas também pela inegável qualidade de sua sua escrita.

As madrugadas em Jenin foi lançado em Portugal em 2008, embora infelizmente tenha passado quase desapercebido no país. Quanto ao Brasil, ainda não há informação se haverá ou não uma edição tupiniquim. Enquanto fica à espera, o grande leitor brasileiro poderá baixar a edição Kindle em português, lançada no último mês de junho. Afinal de contas, vale tudo, menos deixar de ler este romance imperdível, que fará chorar até mesmo o leitor mais cético.

Título original: Mornings in Jenin

País: Palestina

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Quidnovi (ISBN 978-989-6281-74-8)

Número de páginas: 384