O bônus da quarta: O invasor, de Marçal Aquino

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Continuando a cruzada pela literatura brasileira contemporânea que iniciamos há duas semanas, revisitamos hoje o trabalho de Marçal Aquino, que tem se destacado no cenário literário brasileiro como um dos mais fieis sucessores do chamado “realismo feroz”. O termo, criado nos anos 1970 pelo crítico literário António Cândido para classificar a obra de Rubem Fonseca, pode (e deve) ser considerado anacrônico. Afinal, estamos a falar de uma literatura jovem, que busca na inovação da forma e da linguagem novos caminhos para tematizar a “violência endêmica” de que falava Sheherazade. Verdade é, no entanto, que na ausência de melhor definição, vamos ficando com esta.

Lançado em 2002 – e republicado recentemente pela Companhia das Letras –, O invasor marca o início da carreira de Aquino como autor de ficção adulta, e foi escrito paralelamente à criação do roteiro para um filme homônimo, lançado no mesmo ano. A trama, que pode ser resumida em poucas linhas, poderia ter sido extraída da seção de atualidades policiais de qualquer jornal brasileiro: dois empresários bem-estabelecidos contratam um matador de aluguel a fim de se livrarem do sócio majoritário da empresa que possuem. O crime, motivado por divergências, digamos, “ideológicas” – o morto não estava de acordo que eles fechassem um contrato milionário, envolvendo lavagem de dinheiro, com representantes do governo –, tem consequências inesperadas quando o matador decide tornar-se “amigo” dos mandantes, e passa a namorar a filha do homem assassinado.

A partir deste breve resumo, temos já uma clara noção do tipo de leitura que nos espera. Trata-se uma narrativa frenética, por vezes mesmo claustrofóbica, marcada pelo ritmo acelerado das películas policiais, mas que no entanto carece do elemento preferido dos filmes hollywoodianos: não existem mocinhos. Quando muito, podemos falar em anti-heróis, sobretudo ao pensarmos no matador Anísio, cujas (más) intenções podem ser compreendidas como uma tentativa de ascensão social levada ao extremo. O livro, aliás, põe em causa até mesmo o próprio conceito de protagonista, já que os protagonistas iniciais, Ivan e Gilberto, vão aos poucos perdendo espaço para o assassino de aluguel, que assume no final o estatuto de personagem principal.

Classificar O matador como um mero romance policial – aos moldes, por exemplo, de uma Patrícia Melo –, seria, no entanto, limitar o trabalho de Aquino a apenas uma de suas muitas facetas. Afinal, as pouco mais de cem páginas nas quais o livro se compõe abarcam não apenas uma história empolgante, mas também uma miniatura da própria realidade brasileira. A crítica político-social torna-se latente com o retrato de uma sociedade na qual os bandidos não são feios e maus, mas sim pessoas comuns, do tipo que chamaríamos mesmo “homens de bem”, capazes no entanto de chegar à barbárie devido à ganância. Uma sociedade na qual se mata em nome do poder, e o poder é caracterizado pela palavra-chave do nosso tempo: a corrupção. Em nome do dinheiro, abdica-se de uma vida inteira de cidadãos-modelo, e entra-se no círculo vicioso de se cometer um crime para esconder o anterior. Parafraseando Nelson Rodrigues, trata-se de um pequeno retrato da vida como ela é.

Título original: O invasor

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2002

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5918-04-5)

Número de páginas: 128 (edição brasileira)

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The Screaming of the Innocent, de Unity Dow

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Alguns livros causam uma impressão tão estranha que é preciso vários dias, por vezes mesmo meses, para digeri-los totalmente. Poucas vezes um livro me deixou tão confusa quanto O grito dos inocentes [tradução livre], da autora botsuana Unity Dow.

Em seu segundo romance, Dow remete-nos a um país do qual quase nunca ouvimos falar, e cuja imagem ela apresenta por meio do contraste entre extremos. Por um lado, acompanhamos a tentativa da juventude citadina de se auto-afirmar como um país moderno e civilizado, diferente, cito, “desses países africanos por aí”. Por outro, essa mesma modernidade auto-imposta é atropelada por males universais, como o machismo e a corrupção, e por outros (assim espero) nem tanto, como uma rusticidade retrógrada, bárbara e supersticiosa, materializada na crença cega no poder da magia negra.

Logo nas primeiras páginas, travamos conhecimento com um homem de negócios considerado, sob todos os aspectos, um “homem de bem”. Enquanto leva a mimada filha mais nova para passear, ele observa uma menina pobre, mal chegada à puberdade, a brincar inocentemente. Pouco depois, a mesma menina será dada como desaparecida, e sua morte explicada pela polícia como consequência do ataque de animais selvagens. No entanto, tudo indica que ela fora vítima de algo muito mais brutal: um assassinato ritual (ritual murder), no qual a presa ainda viva tem os seios, as axilas e as partes genitais decepados, para serem em seguida consumidos pelos poderosos locais, como meio de aumentar ainda mais o seu poder. Cinco anos mais tarde, as únicas provas do crime, que haviam convenientemente desaparecido, são reencontradas por uma estagiária no hospital da aldeia onde vivia a menina, o que leva à revolta dos aldeões, bem como a uma eventual tentativa de negociação com as autoridades.

A fim de tematizar o assunto de chocante atualidade, a autora optou acertadamente por uma narrativa em terceira pessoa, que transita de uma personagem a outra. Como resultado, temos contato com diferentes pontos de vista, que são ao mesmo tempo complexos fragmentos de realidades divergentes, formando um dialogismo quase bakhtiniano. Ademais, a autora preocupou-se em explorar o histórico de diversas personagens secundárias, narrado por meio de flashbacks, o que nos permite percebe-las em sua complexidade, e vislumbrar um pouco mais de uma realidade que beira o absurdo. Nesses momentos, fica latente a crítica político-social intendida por Dow, também conhecida por seu trabalho juíza e ativista dos direitos humanos.

Contudo, embora a trama seja por si só um motivo para estranhamento, não é dela que descende o mal-estar causado pelo livro. O que nos parece uma escolha muito menos acertada é o fato de que as personagens que tentam desvendar o mistério são todas surpreendentemente imaturas: estudantes de liceu recém-formadas ou advogadas em início de carreira, cuja frivolidade (estereo)típica da idade conferem ao livro breves interlúdios de um humor inusitado e mesmo incômodo.

A julgar pela acurada construção das personagens e pela boa condução da pluriperspectividade narrativa, somos levados a acreditar que deve haver alguma intenção por trás dessa escolha muito pouco ortodoxa. No entanto, ao cabo de pouco mais de 200 páginas, tenho que confessar que não cheguei a descobrir que intenção era essa. Culpa da autora, culpa da leitora? Eis um mistério que não me arrisco a tentar resolver.

Título original: The Screaming of the Innocent

País: Botsuana

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2002

Edição em português: não há

Edição inglesa: Spinifex (ISBN: 978-187-6756-20-8)

Número de páginas: 215 (edição inglesa)

Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier

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Uma mulher, talvez – talvez não – à beira de cometer suicídio, cruza-se com um homem numa ponte num dia de tormenta. Quando um número de telefone lhe vem à mente, ela, como qualquer pessoa normal, serve-se mais que rapidamente de uma caneta e o escreve… na testa do desconhecido! Ele, enfeitiçado pelo efeito da mulher misteriosa, decide levá-la para assistir uma aula sua num liceu de Berna. Ao olhar-se no espelho do lavabo, decide não apagar o número da testa. No meio da aula, a mulher vai embora, e já nunca mais ouviremos falar dela. Quanto ao número de telefone, diga-se de passagem, também nunca será usado. Mas o arrebatamento pela língua falada pela estranha (o português) é tamanho que o homem decide dirigir-se a uma livraria hispânica, pegar no primeiro livro em português que encontra, e precipitar-se para fora de sua vida monótona em busca… da mulher da ponte? Não! Do autor do livro, está claro. Porque a trama deste livro faz mesmo muito sentido.

Trem, ou Comboio, noturno para Lisboa trata do “encontro” entre duas personagens egoístas, enfadonhas, arrogantes, e incapazes de viver no mundo real: Gregorius, um professor de línguas clássicas suíço, e Amadeus, o escritor, um médico português falecido há algumas décadas. Os nomes dos protagonistas foram mesmo bem escolhidos: condizem fielmente com as suas personalidades.

Filho insuportavelmente mimado da aristocracia lisboeta, desses que culpam o pai pelos problemas da humanidade, Amadeus era tão focado na imagem que dele faziam que decidiu tornar-se militante para melhorar sua autoestima. Gregorius, o suíço enfadonho, identifica-se com seus escritos, e decide bancar o Sherlock e reconstruir a trajetória de Amadeus. Se é que se pode chamar Sherlock a alguém predestinado a descobrir a história toda: ele simplesmente tropeça na vida do escritor em cada pedra de uma Lisboa convenientemente “realojada” para se transformar em cenário. No primeiro cemitério em que entra, lá está a sua tumba. A oftalmologista que o atende é logo a sobrinha de um antigo companheiro. E realojamentos é o que não falta: Mercier não apenas reescreve o percurso do Elétrico 28, como também o curso da própria História, falando em “esbirros de Salazar” em plenos anos 1970, embora o ditador tenha pendurado as chuteiras já em 1968. Mas nem são as incoerências históricas, geográficas ou comportamentais o que mais incomoda no Comboio. Mais irritante ainda é o filosofismo carregado de pedantismo, desses de cansar beleza até de estátua de mármore, sobretudo no “livro dentro do livro”: páginas intermináveis do blablá auto-piedoso de Amadeus.

Terá sido por vergonha que o autor, Peter Bieri, optou por publicar o livro sob o cognome de Paul Mercier? Ou terá sido um trocadilho com o inglês, um pedido implícito de mercy (piedade) aos críticos literários? Seja como for, a dura realidade é que Trem noturno tornou-se rapidamente num fenômeno de vendas, ganhando rapidamente uma versão cinematográfica um bocado menos medíocre. Freud explica?

Em um determinado momento, Gregorius, o arrogante número 1, afirma que existem dois tipos de pessoas – as que leem, e as que não leem, e que é fácil distingui-las. Correndo o risco de ofender muita gente, mas mantendo-me fiel ao meu princípio de não empregar eufemismos, permito-me fazer uma correção. O que existe não são dois, mas três tipos de leitores – os que leem, os que não leem, e os que leem livros como o de Pascal Mercier. Infelizmente, sou obrigada a me incluir nesta terceira categoria.

 

Título original: Nachtzug nach Lissabon

País: Suíça

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2004

Título brasileiro: Trem noturno para Lisboa

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1083-48-7)

Título português: Comboio nocturno para Lisboa

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN: 978-972-2029-83-4)

Número de páginas: 462 (edição brasileira), 424 (edição portuguesa)

O amor dos peixes, de Steinunn Sigurðardóttir

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Histórias de amor são universais e facilmente compreensíveis, certo? Errado! Se nunca lhes aconteceu de ler de cabo a rabo um romance – no sentido popular do termo, ou seja: uma história de amor – e, ao chegar ao final da trama, ter a impressão de não ter entendido absolutamente nada, nem se identificado minimamente com os sentimentos das personagens, está na hora de ler “O amor dos peixes”, da complicada islandesa Steinunn Sigurðardóttir.

No plano externo, o livro está recheado de símbolos e metáforas pertencentes ao cliché amoroso. Samanta encontra Hans Örlygsson num castelo no estrangeiro, ela mesma residente eventual de um pequeno palácio remanejado. Ele, um empresário de sucesso de 29 anos; ela, uma editora da mesma idade que dedica seu tempo livre a traduzir velhos poemas de amor indianos. Depois de longas horas de conversa, os dois decidem se conhecer melhor em um restaurante chamado “A rosa negra”. Evidentemente, ele encomenda a garrafa de champanhe mais cara. Os dois sentam-se a uma mesa decorada com uma rosa laranja. Ela diz: “minha cor preferida de rosa.” Ele replica: “Porque é mais vermelha que o vermelho.” Ela responde: “Porque não é vermelho.” E o leitor se desespera: “What the h***?”

No plano interno, no entanto, o lirismo dá lugar a outra coisa. O galã bate à sua porta: ela prefere fingir que não está e observá-lo da janela enquanto corta as unhas dos pés. Os dois se reencontram eventualmente num aeroporto: ele se apresenta aos pais dela, ela se recusa a oferecer-lhe carona. Três anos se arrastam, e os dois só se encontram furtivamente: ele se casa, tem um filho, mas de vez em quando se lembra de bater à sua porta. Ela, que o recusou até o fim, que queria ser uma mulher independente, dona do seu próprio destino, se envolve com um quarentão pai de dois filhos adolescentes e apaixonado pela ex-esposa psicótica. Hans Órlygsson e Samantha continuam a se cruzar magicamente, a trocar palavras incompreensíveis, a caírem nos braços um do outro de vez em quando, e ela eventualmente se apercebe que ele é o homem da sua vida. Mas aí, é claro, já é tarde demais. Quem mandou cortar as unhas dos pés enquanto ele esperava plantado do lado de fora, num jardim habitado por pavões?

O livro, vendido pelo editor estrangeiro como um romance, não passa de uma novela de pouco menos de cem páginas, mas nem por isso fácil de digerir. Vale pelo frio da ilha do fogo e do gelo, pela paisagem bucólica em eterna transformação, pelas eternas geleiras e verões inesquecíveis, e pelo desafio de tentar entender aquela que talvez seja a heroína mais enrolada da história da literatura.

Se um relacionamento amoroso é uma coisa complicada por excelência, essa pequena historieta islandesa prova que suas manifestações podem ser ainda mais estranhas e abstrusas do que se poderia imaginar.

Título original: Ástin fiskanna

País: Islândia

Idioma original: islandês

Ano de publicação: 1993

Edição em português: não há

Outras edições: alemão (rororo, ISBN 978-349-9234-94-1)

Número de páginas: 96 (edição alemã)

Vida dupla, ou As raparigas de Riade, de Rajaa Alsanea

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Quando a editora Caderno lançou a edição portuguesa de Girls of Riyadh, o jornal Diário de Notícias apressou-se em escrever uma reportagem na qual, sem nem sequer mencionar o enredo, enfatizava o escândalo causado pelo livro. O romance, editado no Líbano em 2005, só pode circular no país de origem da jovem autora Rajaa Alsanea por debaixo dos panos. Pouco tempo depois, já tinha sido traduzido para as principais línguas europeias, e editado com subtítulos bombásticos que o anunciavam como “a vida amorosa secreta das mulheres do Golfo”, “o Sex and the City da Arábia Saudita”.

É fato que, além do escândalo, talvez não haja mesmo muito o que dizer. O livro é composto de e-mails *fictícios* enviados por uma narradora desconhecida, uma espécie de Gossip Girl do Oriente Médio, a um grupo de discussões do yahoo. Uma vez por semana, a ilustre desconhecida revela um episódio da vida afetiva de suas quatro amigas, Michelle, Gamrah, Sadeem e Lamee – todas elas filhas da classe média alta de Riad –, não sem antes fazer um breve resumo da reação dos leitores ao e-mail precedente. Talvez a melhor ideia da autora tenha sido justamente essa: compor os capítulos como se fossem mensagens, o que ainda confunde leitores desavisados: seria tudo meramente ficção ou um verdadeiro “documento histórico”, como sugere ardilosamente a edição francesa?

No que diz respeito à qualidade literária, o livro não se destaca nem para cima, nem para baixo: tem uma escrita fácil, despretensiosa, dessas que fluem sem grande dificuldade, o que contribui para a ilusão de verossimilhança. Além disso, a narrativa em primeira pessoa é permeada de citações, reproduções de poemas e letras de música (em sua maioria árabes), todas muito melosas e difíceis de digerir. O todo parece – e é – a escrita de uma pobre menina rica.

Quanto à pimenta que tempera a vida dessas pobres heroínas reprimidas, o leitor encontrará tanta ação quanto se se tratasse de namoricos de crianças da quinta série. Mas não era suposto estarmos diante do livro que chocou a Arábia Saudita? Justamente: a Arábia Saudita – o país mais sexualmente reprimido do mundo. Ou seja, pode até ser a versão saudita de Sex and the City, mas, como tal, sexo é a última coisa que o leitor vai encontrar. À exceção de uns raros momentos que inevitavelmente acabam mal, um dos elementos mais escandalosos do livro é quando a narradora fala de horóscopo e da provável compatibilidade entre os signos x e y. É que, na sociedade saudita, a astrologia é um crime contra a moralidade.

Diferenças à parte, o romance esmiúça uma situação que nem é tão diferente assim da realidade de muitas mulheres emancipadas e desinibidas mundo afora. De fato, a competição feminina, os joguinhos de sedução e a constante humilhação à qual as amigas de Riad se submetem para se fazer interessantes e agarrar os seus homens fazem inevitavelmente pensar em muitas amigas brasileiras. A autora define a posição feminina com um termo extraordinário: “esmola emocional”. Assim, além de criticar a sua sociedade, assumidamente machista, Alsanea nos faz pensar no falocentrismo enrustido que ainda corrói a nossa.

De burca ou de biquíni, hijab ou babyliss, até que as nossas realidades não são tão diferentes assim.

Título original: بنات الرياض (Banat al-Riyadh)

País: Arábia Saudita

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2005

Título brasileiro: Vida dupla: Um romance sobre o Oriente Médio hoje

Título português: As raparigaz de Riade

Edição brasileira: Nova Fronteira (ISBN 978-852-0920-43-5)

Edição portuguesa: Caderno (ISBN 978-972-4150-71-0)

Número de páginas: 256 (edição brasileira), 320 (edição portuguesa)

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami

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Amigos grandes leitores, preparem-se para um deleite literário, emocional e auditivo: o mais recente romance do japonês Haruki Murakami, figura carimbada em todas as listas de best sellers que se prezem e diversas vezes cotado como o próximo laureado do Prêmio Nobel da Literatura.

O incolor Tsukuru Tazaki é um desses livros que penetram no pensamento do leitor, e que depois já não lhe saem da cabeça. A história é um paradoxo: simples, porém complexa. Tsukuru, o protagonista, tem 36 anos e sofre de uma espécie de barreira emocional. Quando conhece Sara, uma mulher mais velha por quem se apaixona, decide contar-lhe o grande trauma da sua juventude: há mais de vinte anos, foi expulso sem explicações do grupo de amigos que era a coisa mais importante da sua vida. Quando se conheceram, eram todos adolescentes, e tornaram-se inseparável, formando uma espécie de pentágono perfeito. Eram dois rapazes e duas meninas, cada um deles trazendo no nome o anagrama de uma cor. Exceto ele, Tsukuru, cujo nome significa “fazer”. Daí a ser chamado pelos outros de incolor. Daí também a se sentir inferiorizado, como se os outros fossem se dar conta a qualquer momento que ele não lhes servia para nada. Agora, duas décadas mais tarde, sob influência de Sara, Tsukuru decide procurar os antigos amigos a fim de finalmente tentar desvendar o mistério que lhe deu cabo da existência: por que é que eles resolveram, de uma hora para a outra, deixar de lhe falar?

Um resumo dificilmente poderia dar conta da imensidão de um romance como esse, repleto de peças mal-encaixadas e metáforas pairando no ar. Ao passar os olhos pelas últimas linhas, o leitor provavelmente perguntar-se-á se perdeu alguma coisa, se passou ao lado de alguma informação essencial, como a chave para juntar todos os elementos apresentados. O livro fala de projeções e expectativas frustradas, da imagem que fazemos de nós mesmos, daquela que os outros fazem de nós, bem como da que pensamos que eles fazem. Mais do que tudo, ele relembra-nos a importância de resolvermos as nossas pendências, tirando o passado a limpo como forma de nos prepararmos para finalmente seguir em frente. E, como na vida nem sempre temos resposta para tudo, Tsukuru também nos deixará muitas vezes sem resposta. Ou seja, trata-se de um livro que é a cara o Japão: embora saibamos que jamais seremos capazes de compreende-lo totalmente, isso não nos impede de nos apaixonarmos por ele.

Meu maior arrependimento em ter escolhido Murakami como o autor número 35 de um projeto que inclui a leitura de por volta de 200 livros/países é que, para eu finalmente poder ler o meu próximo Murakami, ainda terei que esperar ter lido outros 165. Que bom que a melhor espera é aquela que é por algo que realmente vale a pena!

Para ler ouvindo “Le mal du pays”, de Franz Liszt, na interpretação de Lazar Berman:

Título original: Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi

País: Japão

Idioma original: japonês

Ano de publicação: 2013

Título brasileiro: O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação

Título português: As peregrinações do rapaz sem cor

Edição brasileira: Alfaguara (ISBN 978-857-9623-37-0)

Edição portuguesa: Casa das Letras (ISBN 978-972-4622-66-8)

Número de páginas: 328 (edição brasileira), 360 (edição portuguesa)

Minaret, de Leila Aboulela

Abouleila_MinaretEm meio à enxurrada de notícias sobre o ataque ao periódico francês Charlie Hebdo, o conflito ideológico Ocidente/Oriente Médio tornou-se, nas últimas semanas, um tema de atualidade pungente. Minaret, romance da autora sudanesa nascida no Egito Leila Aboulela, problematiza essa delicada questão sob a perspectiva de uma mulher à procura do próprio destino.

Minaret narra em primeira pessoa a história de Najwa, uma estudante universitária mimada e ingênua, filha da elite sudanesa, que perde tudo durante o Golpe de Estado de 1985, e passa as duas décadas seguintes tentando redescobrir a própria identidade na cidade de Londres. Seu pai, um empresário de sucesso, é capturado e morto acusado de corrupção, tornando-se um símbolo do Regime derrubado. Intercalando “presente” (2004) e passado, a narrativa de Najwa revela de forma simples como uma menina aparentemente independente, criada para tornar-se esposa e mãe, tenta sobreviver sozinha num mundo que não é o seu, e depois muitos erros, consegue dar sentido à própria vida através de algo novo: a religião.

Ao explorar o Sudão a partir da perspectiva de sua antiga elite nos anos 1980, o livro revela uma Cartum (ou Khartoum, a capital do país) inusitada. Ora, muito antes da implantação da Sharia (a Lei Islâmica), Cartum era uma capital moderna e cosmopolita como outra qualquer, na qual a juventude bebia, fumava e ouvia Michael Jackson, as meninas andavam de minissaia e conduziam, e a prática religiosa era apenas cultivada pelos provincianos e pelas classes sociais inferiores.

No entanto, não se pode dizer que o livro oferece uma imagem honesta do que representa converter-se ao islamismo. Embora os ocidentais sejam deixado de lado, evitando assim a crítica e o conflito de ideologias, o que Aboulela acaba por mostrar é como o estilo de vida ocidental é insatisfatório e inadequado a uma mulher muçulmana. Na verdade, os motivos que levam a protagonista a se tornar uma islamista fervorosa não diferem em nada daqueles pelos quais milhares de brasileiros são levados anualmente às igrejas evangélicas: o vazio existencial e a falta de perspectiva. Mesmo assim, incomoda o crescente maniqueísmo da narrativa, e o fato de que as mulheres muçulmanas que não respeitam as tradições, bem como os árabes ateus e comunistas, sejam forçosamente retratados como insensíveis e maus, enquanto que as mulheres vestindo o hijab e os islamistas fervorosos sejam pais de família honestos e bondosos. Ora, sabemos que as coisas não são tão preto-e-branco assim. Simplesmente, mesmo compreendendo suas limitações inerentes, é difícil simpatizar com uma personagem tão fraca.

Apesar dos pesares, Minaret é um livro que merece ser lido. Nem que seja pelo fato de que não é todos os dias que temos a sorte de nos deparamos com um romance de uma autora sudanesa. Mas que fique bem claro: seria hipocrisia chama-lo, apenas graças a esse exoticismo, de “um livro maravilhoso”. Não se trata, desta vez, de grande literatura – nem no que diz respeito à qualidade narrativa, nem ao desenvolvimento de um tema tão rico e interessante – , mas sim de uma leitura fácil, rápida, mas nem por isso desagradável.

Título original: Minaret

País: Sudão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2005

Edição em português: não há

Edição inglesa: Bloomsbury (ISBN 978-074-7579-42-7)

Edição espanhola: Icaria (ISBN 978-847-4269-53-6)

Número de páginas: 276 (edição inglesa), 264 (edição espanhola)

O jantar, de Herman Koch

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Dois irmãos e suas respectivas mulheres encontram-se num restaurante de luxo de uma cidade tranquila da Holanda. O encontro, que ao primeiro olhar parecia não passar de uma confraternização corriqueira, revela-se aos poucos como uma reunião de emergência para decidir que atitude tomar acerca de um grave crime cometido pelos filhos adolescentes de ambos. Eis o ponto de partida de O jantar, do escritor e ator holandês Herman Koch – talvez um dos romances mais bem-sucedidos dos últimos tempos.

O jantar é um daqueles raros livros que conseguem prender o leitor desde a primeira página. A trama, construída em moldes aristotélicos, apresenta uma unidade perfeita de tempo, espaço e ação: à exceção dos flashbacks, tudo se passa num afetado restaurante cinco estrelas durante o breve intervalo de uma refeição em família. A voz narrativa é dada a Paul, um dos irmãos, antigo professor de história aposentado por invalidez, que demonstra grande rivalidade para com o irmão mais velho, verdadeiro “Sr. Perfeito”, futuro candidato à presidência do país.

Aos pouco, a medida em que detalhes da vida privada de suas personagens vão sendo revelados, aquela que parecia ser uma inocente noitada em família marcada por uma competitividade ‘normal’ entre irmãos ganha proporções inicialmente inimagináveis. Graças a uma estrutura impecável e a um desenvolvimento narrativo que leva ao clímax sem deixar a peteca cair, o narrador faz do leitor a sua marionete, retirando-o de sua zona de conforto e o convidando a vislumbrar as camadas mais complexas e profundas da psique humana. Condenado a se deixar conduzir por esse narrador nem um pouco imparcial, o leitor vai ganhando a impressão de que se enganou de filme, e o que tinha começado como uma comédia familiar irônica e deliciosa com as cores de O deus da carnificina (Roman Polanski, 2011) se transforma gradativamente num thriller sombrio e indigesto aos moldes de Precisamos falar sobre o Kevin (Lynne Ramsay, 2011). Afinal, até onde uma pessoa honesta, um assim chamado ‘homem de bem’ é capaz de chegar para proteger aqueles que ama? E quantas monstruosidades não se escondem por detrás do inocente retrato de uma família feliz?

Apesar do seu inegável mérito literário, não deixa de ser surpreendente que o livro de Herman Koch tenha se tornado um best seller internacional traduzido para mais de 20 idiomas: o leitor médio de hoje em dia tem tendência a preferir personagens carismáticas, histórias edificantes, dessas que fazem chorar no final e dão-nos a impressão de nos termos tornado pessoas melhores. Pois se é disso que está a procura, melhor procurar em outra parte: Paul Lohman tem tanto de simpático quanto o jantar que lhe está a ser servido tem de apetitoso. Mas se, pelo contrário, estiver disposto a encarar o desafio de um livro incômodo, pouco convencional e sem sombra de dúvidas eletrizante, saiba que encontrará em O jantar uma grande leitura do qual não irá se esquecer tão cedo – nem que o queira.

Título original: Het diner

País: Holanda

Idioma original: holandês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN 978-858-0574-18-0)

Número de páginas: 256

A festa da insignificância, de Milan Kundera

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No final do ano passado, grandes leitores do mundo todo puderam se alegrar com um inesperado presente: Milan Kundera, autor de um dos maiores sucessos editoriais do final do século XX, quebrou finalmente um silêncio de mais de uma década. Em seu mais recente trabalho, o escritor tcheco de 85 anos, radicado na França desde 1975, provou que continua em sua melhor forma: A festa da insignificância é um deleite poético e filosófico, digno herdeiro do inesquecível A insustentável leveza do ser (1983).

A exemplo de outros livros de Kundera, A festa da insignificância é uma obra inclassificável, resultado de um patchwork entre ensaio, prosa poética, peça de teatro e fábula. O texto, de forte veia existencialista, tem como foco um grupo de amigos, todos eles homens maduros e solitários vivendo no coração da cidade de Paris. Alain dialoga com o retrato da mãe ausente, enquanto se interroga sobre os motivos do abandono; Caliban, ator falhado, entretém-se durante o trabalho como garçom a falar uma língua inventada, e se dá conta de que não existe personagem sem um público que a veja; Charles, cuja mãe se encontra no leito de morte, sonha em escrever uma peça de marionetes sobre Stalin e Kalinin, e se entretém com a ausência do riso na sociedade contemporânea; D’Ardelo, um narcisista, reencontra os prazeres da vida ao inventar a iminência da própria morte; e Ramon, aposentado, sente-se cada vez mais afastado do seu tempo, e descobre com leveza as vantagens da insignificância. Na pluma de Kundera, essas vozes inventadas ganham vida ao se cruzarem em torno do Jardim do Luxemburgo, e compartilham conosco, tout en passant, um pouco de sua fragilidade, de suas angústias, sonhos e verdades.

Se uma das principais características do romance tradicional é tentar abarcar em suas páginas um fragmento completo da realidade, Kundera nunca pretendeu escrever um romance tradicional. Pelo contrário, seu narrador deixa claro que trata tão-somente de personagens de ficção. A provocação daí advinda é ampliada pelo fato de que, à narrativa central, vão se mesclando aqui e ali histórias inventadas pelas próprias figuras centrais, como a pungente fábula da suicida que opta pela vida ao matar seu salvador, ou as diversas interferências sobre os últimos dias do regime stalinista. Apesar disso – ou talvez até por esse mesmo motivo –, as personagens de A festa da insignificância são tão coerentes e verossímeis, como se se tratassem de pessoas que conhecemos há tempos, até mesmo por seus medos e anseios serem tão parecidos com os nossos.

Humanas, demasiado humanas – eis o que se pode dizer das vozes que se intercalam para compor o novo livro de Kundera. O autor, que apesar de ser muitas vezes considerado um escritor secundário, já foi mencionado diversas vezes como possível laureado do prêmio Nobel, mostra que continua a ser um mestre refinado e perspicaz no que diz respeito à capacidade de captar a essência do seu tempo, uma época que perdeu o contato com o bom-humor, por não ser mais capaz de distinguir os méritos da autocrítica.

Viva a insignificância!

Título original: La fête de l’insignifiance

País: República Tcheca

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Companhia das Letras (978-853-5924-66-4)

Edição portuguesa: Dom Quixote (em breve)

Número de páginas: 136 (edição brasileira)

The Hen Who Dreamed She Could Fly, de Sun-mi Hwang

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A maternidade pode ser considerada um dos mais longevos temas da arte universal, e muitos grandes autores, como Jean-Jacques Rousseau, Máximo Gorkhi, Bertold Brecht, e J. M. Coetzee, já se debruçaram sobre esse tantas vezes estudado estado de graça.

Quer a sabedoria popular que ser mãe é padecer no paraíso, e que boa mesmo é a mãe-galinha. Pois eis que vem da Coreia do Sul um livro que não apenas toma a segunda expressão ao pé da letra, mas que também oferece uma das mais singelas e comoventes imagens da maternidade que a literatura já conheceu.

A galinha que sonhava que podia voar é uma espécie de fábula que narra a história de Sprout (em português, Broto ou Rebento), uma galinha que não se encaixa bem nos padrões da sua espécie. Condenada a uma vida de prisioneira botando ovos em uma fazenda, Sprout nunca deixou de sonhar com o impossível: levar uma vida em liberdade podendo enfim ter a alegria de chocar um de seus ovos. Mas a realidade não sai nada como na sua ilusão: descartada para o degoladouro tão logo se torna improdutiva, escapa por um triz da faca dos fazendeiros, e por pouco não acaba presa de uma doninha. No celeiro, é vítima do ostracismo até mesmo dos de sua espécie, e encontra num pato selvagem igualmente excluído o único amigo de uma vida. Quando, um dia, encontra um ovo abandonado e resolve sentar-se nele, esta pequena personagem acaba ganhando asas para o infinito. Mas como nem só de rosas consiste a maternidade, Sprout enfrenta suas alegrias e dores com firmeza, enquanto se transforma numa verdadeira mãe-coragem e luta contra todas as forças da natureza para proteger o filho adotivo, até que ele abandone enfim o ninho e a mãe, caminho natural de todos os filhos.

A trama, que se tornou quase instantaneamente um best-seller mundial, deu origem ao filme de animação Leafie, uma galinha rumo à natureza selvagem (2011), um dos maiores sucessos do cinema infantil sul-coreano. Mas, embora histórias com animais quase sempre sejam compatíveis com o público jovem, o livro de Sun-Mi Hwang é muito mais que uma narrativa para crianças. A história de Sprout, comovente metáfora das flores e espinhos da maternidade, propõe-nos refletir sobre o poder desse amor solitário e incondicional, que transcende as diferenças e não espera recompensas, bem como sobre temas como a velhice, o ciclo da vida e a mortalidade.

Contrariamente ao filme de animação, o livro ainda não foi traduzido para a língua de Camões. Mas o grande leitor que se aventurar em outro idioma terá diante de si uma novela inesquecível, à qual se acresce a imensa força narrativa de Sun-Mi Hwang, bem como sua capacidade de tornar épica uma história tão simples, e contar de forma tão simples uma história tão imensa. E haverá de concordar que Sprout entrou para o rol das grandes mães da literatura universal, que A galinha que sonhava que podia voar é uma bela homenagem a todas as mães de mundo, e que faz com que o leitor sinta vontade de ir correndo abraçar a sua.

 

Título original: 마당을 나온 암탉 (The Hen Who Dreamed She Could Fly)

País: Coréia do Sul

Idioma original: coreano

Ano de publicação: 2000

Edição em inglês: Penguin (ISBN 978-014-3123-20-0)

Tradução para o inglês: Chi-Young Kim

Edição brasileira/portuguesa: não há

Número de páginas: 144 (edição em inglês)