A prova do mel, de Salwa al-Neimi

Al Neimi_Honey

Nos últimos tempos, tudo aquilo que temos ouvido falar sobre a Síria diz respeito ao drama dos refugiados, aos ataques atrozes do autodenominado Estado Islâmico, à destruição de cidades milenares, e ao assassinato brutal de milhares de inocentes. Em suma, a Síria se tornou aquilo em que há décadas consistiam o Iraque e o Afeganistão: um lugar perigoso e em ruínas, habitado pelos piores inimigos dos valores e da cultura ocidentais, e de onde não se pode esperar nada de bom. No entanto, até bem pouco tempo atrás, a Síria ainda era um país relativamente aberto para o mundo, berço de uma cultura laica fascinante, e pátria da autora de um dos livros árabes mais polêmicos do século XXI: a escritora e jornalista Salwa al-Neimi.

Publicado originalmente em Beirute, no Líbano, A prova do mel tornou-se pouco depois num best-seller da literatura erótica em vários países, em seguida a ser banido em todo mundo árabe. E não era para menos: escrito em primeira pessoa, o livro tem como protagonista uma mulher síria de idade desconhecida, cuja liberdade sexual e busca por prazer poderiam enrubescer até algumas das mais “avançadas” ocidentais. Graças ao seu trabalho numa biblioteca parisiense, a mulher anônima tem acesso a documentos preciosos da literatura erótica árabe, que lê com sofreguidão, adaptando os dizeres dos antigos especialistas à sua vida cotidiana. Entre livros de erotismo e encontros com o amante, ela vai tentando saciar sua curiosidade também através dos relatos picantes de amigas e conhecidas, numa sede ninfomaníaca por conhecimento sexual. Quando o diretor da biblioteca em que trabalha recomenda-a para integrar um grupo de pesquisa internacional sobre erotismo no mundo árabe, seus prazeres secretos podem finalmente ser expostos à luz do dia.

Quem lê A prova do mel percebe imediatamente o motivo da polêmica que o envolve. Afinal, baseando-se nos escritos de filósofos e poetas da era medieval, al-Neimi tenta provar que as bases da sociedade árabe estão intrinsecamente ligadas ao sexo, que a sua abstinência leva à loucura, e que o aparente puritanismo da sua sociedade acaba por transformar o erotismo numa obsessão quase compulsiva. Em alguns momentos, somos mesmo levados a crer que o sexo, para os árabes, chega a ser muito mais importante que para nós ocidentais – como tudo aquilo que é secreto e socialmente proibido acaba por se tornar. Só por isso, é possível conceber que a autora, residente em Paris, deve se encontrar na lista dos mais procurados inimigos do Estado Islâmico.

Do ponto de vista literário, no entanto, não há tanta coisa assim a ser dita. Até mesmo encontrar uma categoria literária na qual encaixemos A prova do mel consiste numa tarefa deveras difícil, já que o teor filosófico e ensaístico estão presentes em larga escala, em detrimento da própria trama. Quando penso num adjetivo capaz de o caracterizar, nada me vem à mente além de “interessante”. Interessante, sim, de um ponto de vista cultural, mas escrito de tal forma que quase não pode mais ser considerado literatura.

Que isso, no entanto, não sirva de pretexto para não o ler. Afinal, não é todos os dias que encontramos um livro tão exótico, informativo, corajoso e explícito quanto este.

 

Título original: برهان العسل

País: Síria

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2007

Edição portuguesa: Teorema (ISBN 978-972-6958-59-8)

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-857-3029-78-9)

Número de páginas: 114 (edição portuguesa), 152 (edição brasileira)

A esperança é uma travessia, de Laila Lalami

Lalami_Hope

A Europa encontra-se hoje em meio a uma crise de imigração sem precedentes. Todos os dias, refugiados e imigrantes clandestinos de diferentes partes do globo arriscam suas vidas em precários botes apinhados de gente, com os quais esperam cruzar o Mediterrâneo e aterrar em um futuro melhor. Os perigos são muitos, e, para os que acabam por sobreviver, ao chegarem à praia a jornada está apenas começando. Esperam-nos, muitas vezes, a expulsão sem piedade, o depósito em centros de refugiados que mais se assemelham a campos de concentração, e, se tiverem sorte, uma vida de privações, preconceitos e dificuldade de adaptação. Embora a imigração em massa só agora se tenha tornado notícia internacional, trata-se de um fenômeno tudo menos recente. Há exatos dez anos, foi justamente este o tema eleito pela marroquina Laila Lalami para o seu primeiro romance.

A esperança é uma travessia consiste num livro curto, que mais poderia ser considerado um apanhado de contos, os quais focam na trajetória de um grupo de imigrantes tentando cruzar o Estreito de Gibraltar num bote inflável. No capítulo introdutório, conhecemo-nos em plena travessia, seguida da ordem de pular em mar aberto e terminar a nado, da aterragem difícil numa praia espanhola, da caçada pela polícia e da ameaça de deportação. Em seguida, o livro divide-se em duas partes, as quais dão conta do passado e do futuro de quatro personagens: Fatem, membro da união dos estudantes islamista recém-expulsa da universidade, Halima, mãe de três filhos casada com um marido abusivo, Aziz, um homem desejoso de sustentar a própria esposa, e, Murad, formado em Literatura Inglesa, que nunca conseguira obter um trabalho. Suas biografias distintas convergem no desespero, que as leva a arriscar a própria vida em nome da duvidosa promessa de um futuro mais digno em território europeu. O que, obviamente, nem sempre é o caso.

É fácil encantar-se com este livro dinâmico e bem escrito, bem-sucedido ao traçar o retrato de personagens deveras diferentes, e que nos abre as portas para quatro microuniversos banais e únicos ao mesmo tempo. Lalami, que foi recentemente indicada para alguns dos maiores prêmios literários da língua inglesa, oferece-nos uma narrativa cativante, da qual o leitor sairá com a impressão de que se despede de velhos amigos, tamanha a empatia despertada em tão poucas páginas. Ao final, somos acometidos pelo inevitável sentimento de que o tema merece uma abordagem mais aprofundada, o que, no entanto, não desmerece o trabalho da autora. Trata-se, pois, de um primeiro esboço, no qual já se pode entrever um pouco da grandeza da qual Lalami provaria ser capaz.

Para uma apaixonada pelo Marrocos como eu, cujo passaporte coleciona carimbos de visita ao Reino de Mohammed VI, A esperança é uma travessia foi como um presente, o qual me permitiu compreender um pouco melhor a realidade um país tão próximo e tão distante.

Título original: Hope and Other Dangerous Pursuits

País: Marrocos

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2005

Edição brasileira: Rocco (ISBN 978-853-2521-78-1)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 184 (edição brasileira)

As consequências do amor, de Sulaiman Addonia

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Correndo o risco de ser acusada de saltar de uma história de amor à outra, a resenha de hoje é dedicada a outro livro de um país ignorado pelo mundo: As consequências do amor, do escritor eritreu Sulaiman Addonia.

Quem lê as primeiras páginas sem saber que o livro foi escrito por um homem pode muito facilmente se confundir: a sutileza da narrativa, bem como a ingenuidade da visão do mundo do protagonista e narrador em primeira pessoa, dão a ilusão de que se trata não apenas de um eu-lírico feminino, mas também de um texto escrito por uma mulher. No entanto, Nasser, figura principal do romance, é um jovem e belo rapaz de origem eritreia que sonha com o primeiro amor, vivendo na inóspita Arábia Saudita dos anos 1980. No passado, ele e o irmão de três anos foram mandados pela mãe para fora da terra natal como forma de fugir à morte certa num país assolado por uma guerra sem fim. Resgatados por um tio de um campo de refugiados sudanês, os meninos foram adotados pelo parente ultrarreligioso e levados a viver no país do Golfo, onde o contato entre homens e mulheres beira o inexistente. Para Nasser, que cresceu entre mulheres no prostíbulo onde trabalhava a mãe, adaptar-se a um mundo sem elas torna-se praticamente impossível, sobretudo após ser expulso pelo tio e passar a sustentar a si próprio ainda aos 15 anos.

A história de amor em si é bastante previsível: o menino, que sonha com o amor, recebe um bilhete romântico que uma mulher escondida por trás de uma burqa deixa cair a seus pés, e se apaixona pela desconhecida, com quem passa a se corresponder. Surge daí uma paixão que nos é estranha, por uma mulher cujo nome e a própria cor da pele desconhece, e que no começo não é mais que a tentativa de suprir uma carência de ambos os lados.

Num país do qual o amor foi banido, está claro que as consequências de um relacionamento amoroso nunca poderiam ser positivas. No entanto, a história, que parecia a princípio não passar de um amontoado de clichês, torna-se aos poucos cada vez mais envolvente. À medida em que as discussões entre ambos transcendem a fase das declarações açucaradas, seus questionamentos acerca da função da mulher no mundo árabe acabam por se tornar um estudo da sociedade saudita. Uma sociedade, aliás, que pode ser considerada a maior prisão a céu aberto do mundo, e cuja fachada moralista e ultraconservadora esconde um submundo muito pouco condizente com os dogmas do islã. Afinal, uma vez que banir as mulheres não significa extirpar o desejo e a luxúria, o homossexualismo e mesmo o abuso sexual de jovens rapazes de castas inferiores acabam por se tornar práticas aceitáveis, desde que devidamente praticadas debaixo dos panos.

Os jovem de As consequências do amor são deveras diferente das “modernas” garotas de Riade de Rajaa Al-Sanea. Em vez da jovem elite citadina, temos aqui refugiados e filhos de imigrantes, membros muito mais fragilizados de uma estrutura social claustrofóbica e hipócrita. Embora jamais venha a ser uma pérola da literatura, e embora não possa ser considerado um romance tecnicamente eritreu, trata-se de um livro interessante, que cresce aos olhos do leitor com o desenrolar da narrativa, e que merece ser lido por oferecer um olhar crítico e sincero a uma das sociedades mais opressoras do mundo.

Título original: The Consequences of Love

País: Eritreia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1082-41-1)

Número de páginas: 400 (edição brasileira)

 

O edifício Yacoubian, de Alaa al-Aswany

Al Aswany_Yacoubian

Vem do Egito aquele que carrega o honroso título de “livro árabe mais vendido de todos os tempos” – e não é sem motivo. Antes de falarmos o que quer que seja a respeito d’O edifício Yacoubian, cabe mencionar que estamos diante daquilo a que os grandes leitores raramente têm direito: um romance perfeito.

O Yacoubian, belo e decadente edifício em estilo europeu dos anos 1930 que dá nome ao romance, situa-se no coração da maior e mais vibrante cidade africana: o Cairo. Nele, convivem os mais diferentes tipos de pessoas, tanto no que diz respeito à classe social, quanto no que compete aos seus estilos de vida e ideologias. Entre os requintados apartamentos dos andares principais e os numerosos e precários cubículos de ferro do telhado, coabitam os diferentes extremos que constituem a sociedade egípcia. Ao longo de quase trezentas páginas, o livro acompanha a trajetória de diferentes personagens cujos destinos se entrecruzam entre as paredes do Yacoubian: um velho dândi metido a Casanova, o diretor homossexual de um renomado jornal francófono, a segunda esposa/concubina de um velho político em ascensão, um dedicado filho de porteiro que sonha em ingressar na Academia de Polícia e mudar de vida, e uma bela e amargurada jovem obrigada a se submeter aos desejos impudicos de patrões asquerosos a fim de garantir o sustento da família. A narrativa em terceira pessoa, que transita de uma personagem a outra como se se tratasse de várias cenas simultâneas de uma peça de teatro, transporta o leitor às ruas poeirentas da “cidade dos mil minaretes”, e apresenta sem pudores nem juízos de valores uma sociedade regida pela lei do mais forte, na qual apenas os corruptos e os facilmente corruptíveis são capazes de sobreviver.

Aquele que se decidir por esse romance incomparável será prontamente cativado por uma escrita excelente, uma história interessante da primeira à última linha, e personagens unanimemente carismáticas – cada qual ao seu estilo. Mas não é só isso que faz de O edifício Yacoubian um livro imperdível, mas sim a sua abordagem única, honesta e sem rodeios, de temas absolutamente essenciais para o mundo árabe contemporâneo. Por meio de uma escrita precisa e facilmente viciante, o decadente edifício transforma-se num microcosmo que reflete as mais importantes mazelas e contradições da sociedade urbana do Egito no final do século XX, como a proliferação das hierarquias e da corrupção, o papel da mulher na sociedade, o tabu envolvendo o homossexualismo, e os motivos que levam uma pessoa a aderir ao extremismo religioso, e mesmo ao terrorismo, como forma de expressar uma “identidade islâmica”.

Embora eu costume evitar superlativos, dessa vez é inevitável: O edifício Yacoubian é certamente o melhor livro da história deste blog.

PS: Para os viajantes, fica a dica: embora um pouco diferente daquele retratado pelo livro, o edifício Yacoubian existe de verdade. E para os cinéfilos, resta ainda saborear uma aclamada versão cinematográfica de 2006.

Título original: عمارة يعقوبيان

País: Egito

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2002

Edição portuguesa: Presença (978-972-2340-40-3)

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5914-24-5)

Número de páginas: 236 (edição portuguesa), 288 (edição brasileira)

Alá não é obrigado, de Ahmadou Kourouma

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A realidade dos meninos-soldados no final do século XX é um dos temas mais recorrentes da produção cultural africana, tendo dado origem a romances, documentários, filmes e memoirs.* Trata-se de um daqueles temas polêmicos de forte tendência sensacionalista e sucesso garantido, como a sobrevivência dos judeus na Segunda Guerra Mundial, os casamentos forçados no Oriente Médio, e o tráfico de mulheres para a prostituição internacional. Afinal, que grande leitor não se deixa seduzir por uma narrativa em primeira pessoa sobre uma das maiores mazelas do nosso tempo?

Birahima é um menino guineense “sem medo nem censura”. Apesar da miséria do meio em que vive, ele cresce com pai e mãe até por volta dos dez anos, quando a mãe deficiente falece depois de uma agonia de anos. Fica decidido então que ele será criado por uma tia materna que vive na Libéria, mas a tia, que foge em carreira aberta ao ouvir o rumor da chegada do ex-marido, esquece de levar o menino com ela. Como mais ninguém se habilitasse a atravessar os cenários de guerra de Sierra Leone e Libéria para acompanhar o menino numa trajetória suicida, ele acaba sendo acompanhado por um conhecido trambiqueiro, o “multiplicador de bilhetes” Yacouba, que se faz passar por feiticeiro muçulmano a fim de cair nas graças dos senhores de guerra que eles vão cruzando pelo caminho. Trata-se de uma viagem sem volta, de um rito iniciatório durante o qual o então inocente Birahima confrontar-se-á com um mundo de uma crueza inimaginável, repleto de estupros, drogas, torturas e massacres, tornando-se ele mesmo um menino-soldado.

Mas quem lê apenas a sinopse dificilmente ganha uma ideia do romance em questão. O livro, que ganhou o disputado prêmio Renaudot do ano 2000, retraça esse período trágico da história da África Ocidental sob a perspectiva de uma criança, que decide, com a ajuda de alguns dicionários, retraçar ele mesmo a sua biografia. E o grande mérito do escritor marfinense Ahmadou Kourouma consiste em faze-lo de forma direta, sem qualquer emotividade ou sensacionalismo, utilizando uma perspectiva tão distanciada que poderíamos interpretar como consequência de stress pós-traumático e distúrbio dissociativo. Se Allah não é obrigado a ser justo com os seres a quem dá vida, é preciso enfrentar o sofrimento com estoicismo. Eis a mensagem semi-religiosa deste romance híbrido e profano.

Mas que o leitor não pense que se trata de uma leitura facilmente digerível. Muito pelo contrário: ler Alá não é obrigado é uma verdadeira tortura! Não porque a violência narrada seja difícil de suportar, mas sim porque a voz narrativa simplesmente não convence. O romance é permeado de digressões de cunho histórico-político, as quais servem sim para contextualizar a leitura, mas que mais deveriam estar em notas de rodapé. Talvez o autor, que já tinha quase oitenta anos quando o escreveu, simplesmente já não fosse capaz de se colocar na pele de uma criança. O resultado é um relato sociológico disfarçado de romance. Uma pena!

*Para quem quiser saber mais sobre o assunto, eis uma pequena bibliografia: Johnny Mad-Dog (filme de 2008), Rebelle (excelente filme de 2012), A Long Way Gone, de Ishmael Beah (memoir de um ex-soldado de Sierra Leone), e First Kill Your Family (livro-documentário do jornalista Peter Eichstaedt sobre o exército de crianças de Joseph Kony no Uganda). O blog oquevcestalendo resenhará brevemente – e inevitavelmente – outros textos sobre meninos-soldados.

 

Título original: Allah n’est pas obligé

País: Costa do Marfim

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2000

Título brasileiro: Alá e as crianças-soldados

Edição brasileira: Estação Liberdade (ISBN 978-857-4480-82-4)

Título português: Alá não é obrigado

Edição portuguesa: ASA (ISBN 978-972-4133-14-0 )

Outras edições: francês (Seuil, ISBN 978-202-0525-71-8) inglês (Knopf, ISBN 978-030-7793-84-3)

Número de páginas: 232(edição brasileira), 176 (edição portuguesa)

O russo é alguém que ama bétulas, de Olga Grjasnowa

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Falar outros idiomas permite-nos descobrir algumas pérolas literárias que dificilmente chegarão a ser traduzidas. Minha mais recente descoberta é Olga Grjasnowa, uma jovem e bela judia de apenas trinta anos, que imigrou para a Alemanha nos anos 1990 em consequência da sangrenta guerra de Nagorno-Karabakh. Seu país de origem: o Azerbaijão.

Seu primeiro livro, cujo título, traduzido para o português, daria algo como O russo é aquele que ama bétulas, é um daqueles raros romances que, de tão bem escritos, poderiam ser lidos em pouco mais de uma tarde. Para uma autora tão jovem e pouco experiente, chega a ser impressionante a sua capacidade de transportar o leitor para o universo narrativo, dando-lhe os instrumentos necessários para “ver” as cenas como num filme. Isso tudo sem se perder em descrições desnecessárias, mas exigindo-nos a dose necessária de criatividade para preencher as lacunas.

A trama, de forte teor autobiográfico, narra a história de Masha, uma bela imigrante com incrível talento para as línguas, que estuda para tornar-se intérprete e sonha trabalhar na ONU. Se o seu talento linguístico e a sua capacidade de adaptação fazem dela uma “cidadã do mundo”, Masha sofre ao mesmo tempo por não se sentir em casa em lugar nenhum, e carrega em si os traumas de ter vivido parte da infância num cenário de guerra. Quando tem de se confrontar com a morte absurda de uma pessoa que ama, é como se lhe abrissem no peito uma caixa de Pandora: todos os horrores vividos no passado vêm à tona, fazendo com que ela se perca no labirinto de seus próprios pesadelos, enquanto busca desesperadamente por algo que não sabe definir.

Particularmente, uma das surpresas mais agradáveis do livro diz respeito ao olhar crítico de Grjasnowa sobre a Alemanha, bem como à maestria com a qual ela aborda temas tão complexos como as experiências dos “imigrantes” no país. Qualquer pessoa que tenha sido jovem na Alemanha dos anos 2000 identifica-se de imediato com a linguagem, as situações, e os conflitos da protagonista. Mas, como boa parte dessas experiências são universais, todos aqueles que já tenha vivido como estrangeiro em algum lugar poderão também se ver refletir no cotidiano descrito por Masha.

O livro, que começa claro e fácil de ler, vai se tornando turvo à medida em que a protagonista-narradora se afunda em seu estado depressivo, infelizmente ao ponto de ser confuso perto do fim. Ele também acaba mudando de foco, dando mais e mais espaço à crítica a Israel, que faz ecoar as vozes femininas de dois outros livros já resenhados aqui: O povo eterno não tem medo e As madrugadas em Jenin.

Grjasnowa, que esteve no Brasil para a Bienal do Rio de 2013, foi muito comentada na época – portanto, pode ser que seu livro ainda seja traduzido para o português. Só é pena que aqueles que não conheciam o Azerbaijão antes de o lerem vão continuar a não o conhecer depois de fazê-lo. É que, à exceção dos flashbacks nos quais Masha revê episódios da infância, o presente da narrativa transcorre entre Frankfurt, Israel e a Palestina (diga-se de passagem, em Jenin, como no livro de Susan Abulhawa). É certo que as digressões sempre nos permitem conhecer um pouco da história do Azerbaijão após a queda da União Soviética, mas elas não aplacam o desejo de conhecer a Baku dos dias de hoje.

Quem quiser conhecer o Cáucaso terá de esperar por outra resenha!

Título original: Der Russe ist einer, der Birken liebt

País: Azerbaijão

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição original: Carl Hanser Verlag (ISBN 978-344-6238-54-1)

Edição em inglês: Other Press (ISBN 978-159-0515-84-6)

Número de páginas: 288 (edição alemã), 336 (edição em inglês)

As madrugadas em Jenin, de Susan Abulhawa

Abulhawa_Jenin

Quem se emocionou com Os caçadores de pipas não pode deixar de ler As madrugadas em Jenin, seu contraparte feminino na Palestina.

O livro acompanha quatro gerações de uma família de camponeses do singelo vilarejo de Ein Hod, no norte de Israel, desde a sua expulsão pelos israelitas em 1948 até o século XXI. Em meio ao caos que sobreveio à auto-declaração do Estado de Israel, uma jovem mãe berbere tem seu filho mais novo raptado por um soldado, que deseja presentear o bebê à esposa judia, devolvendo-lhe assim o alento perdido num campo de concentração. Eis o início de uma história marcada por perdas e humilhações, narrada sobretudo a partir da perspectiva de Amal (“esperança”), irmã mais nova do menino desaparecido, nascida no campo de refugiados de Jenin. Mais tarde, os irmãos serão reunidos pelas circunstâncias da guerra, mas infelizmente lutarão em lados opostos. Assim, a mãe que enlouquece de tristeza ao ter seu filho brutalmente arrancado de seus braços torna-se um arquétipo da história da própria Palestina.

Para a maioria das pessoas, o conflito entre israelitas e palestinos parece tão complicado que nem vale a pena tentar entender. Porém, as coisas são simples assim: desde há pelo menos mil anos, a Palestina era a pátria de um povo simples de camponeses muçulmanos, até que, com a conivência do mundo ocidental, terroristas judeus sobreviventes da Segunda Guerra invadiram, ocuparam e expulsaram os verdadeiros donos da terra. “Uma terra sem povo para um povo sem terra” – eis o lema segundo o qual o mundo fechou os olhos, permitindo um dos processos de desapropriação mais vergonhosos do século XX: a criação do Estado de Israel. Só que a “terra sem povo” tinha povo, sim – os palestinos –, que desde então vem lutando pelo simples direito de continuar existindo e, Inshallah, um dia, voltar a pisar na terra de seus ancestrais.

Não deixa de ser interessante traçar um paralelo entre a imagem do conflito árabe-israelita presente em As madrugadas em Jenin – ou seja, uma luta de vida ou morte movida pelo mais primitivo instinto de sobrevivência –, e em O povo eterno não tem medo de Shani Boianjiu, que resenhamos no mês de junho. Ora, a crítica ao Estado de Israel torna-se ainda mais plausível ao pensarmos nas soldadas de Boianjiu, que matam por automatismo ou para aplacar o tédio, sem o menor comprometimento com a causa.

Fica claro que, para Susan Abulhawa, marinheira de primeira viagem, a mensagem é mais importante que a palavra. Mas, leitores magnânimos, perdoamos as pequenas fraquezas de seu livro, advindas sobretudo do excesso de idealização à cultura palestina (Por que o soldado que luta pela boa causa tem que ser invariavelmente o homem perfeito? Por que não criar personagens mais complexas e “humanas”, que carregam o bem e o mal dentro de si?). Importante dizer: se o fazemos, não somos apenas movidos pela importância da causa defendida pela autora, mas também pela inegável qualidade de sua sua escrita.

As madrugadas em Jenin foi lançado em Portugal em 2008, embora infelizmente tenha passado quase desapercebido no país. Quanto ao Brasil, ainda não há informação se haverá ou não uma edição tupiniquim. Enquanto fica à espera, o grande leitor brasileiro poderá baixar a edição Kindle em português, lançada no último mês de junho. Afinal de contas, vale tudo, menos deixar de ler este romance imperdível, que fará chorar até mesmo o leitor mais cético.

Título original: Mornings in Jenin

País: Palestina

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Quidnovi (ISBN 978-989-6281-74-8)

Número de páginas: 384