Dogeaters, de Jessica Hagedorn

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Enquanto no Brasil a flutuante (e debutante) classe média convulsiona com medo de perder o pedestal e se deixa embalar por delírios midiáticos de golpe de Estado, o livro desta semana faz lembrar o que o “país do futuro” era até bem pouco tempo atrás – uma paradisíaca terra sem lei, marcada pelo contraste entre os muito ricos e os muito pobres. Estamos falando das Filipinas.

Dogeaters, ou “Comedores de cachorro”, foi escrito pela autora filipina Jessica Hagedorn em 1990, uma época em que o seu país ficava conhecido mundialmente pela corrupção deslavada e pela singela coleção de 3.000 pares de sapatos de sua primeira-dama. Enquanto o país engatinhava rumo a uma democracia experimental, a então jovem e ousada escritora radicada nos Estados Unidos oferecia-nos, em inglês, um panorama dos paradoxos históricos de sua terra natal.

Ambientado na década de 1950, romance é composto por uma série de fragmentos da vida cotidiana na cidade de Manila, abarcando desde empregados de loja e prostitutas até políticos de alto-escalão, diretores de cinema internacionais e estrelas de TV. Tendo como moldura as memórias de Rio Gonzaga, uma pré-adolescente abastada, futuramente imigrada (como a autora) para os Estados Unidos, o livro revela-nos as diferentes faces de um país fraturado. Regido por uma elite que se gabava de sua ascendência ariana e costumes europeus, enquanto renegava as idiossincrasias de sua rica cultura de origem, o livro apresenta-nos, com seu olhar aquilino, um retrato ácido e irônico de uma sociedade onde a miséria extrema, a tortura e a exploração sexual infantil convivem lado a lado com as soirées requintadas de uma elite cega e cínica.

Num ano marcado até agora por leituras relativamente medíocres, Dogeaters destaca-se como um livro bom em diferentes sentidos. Sua trama fragmentária, cujo recorte do mundo faz lembrar uma telenovela, flerta com os diferentes gêneros literários, desconstruindo a narrativa romanesca tradicional através de um forte experimentalismo narrativo. Ao mesmo tempo que testa os limites do gênero, Hagedorn o expande e constrói um romance inovador. Afinal, partindo da concepção tradicional do termo, o gênero romanesco caracteriza-se pela sua plurifomidade, bem como pela capacidade de construir um microcosmo perfeito, produzindo um recorte exemplar da realidade que descreve. Como resultado, o leitor de Dogeaters terá diante de si não apenas um texto empolgante e facilmente envolvente, mas também uma verdadeira aula de introdução à sociedade filipina. Trata-se, certamente, de uma realidade geográfica e culturalmente deveras distinta da nossa, mas que, tanto pela sua história recente de um pós-colonialismo mal resolvido, quanto pelas paisagens tropicais, ensolaradas e pseudodemocráticas, remetem-nos de imediato aos desmazelos das terras de cá.

Se ler nos faz viajar para mundos distantes, Dogeaters oferece-nos um exemplo preciso do que as viagens podem nos trazer de melhor, que é a capacidade de traçar paralelos e analisar criticamente nossa própria realidade. Por isso, e sobretudo numa época regida pela desinformação e pela incompetência analítica do cidadão comum, recomendo-o como um contributo essencial a toda biblioteca que se preze.

 

Título original: Dogeaters

País: Filipinas

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição inglesa: Open Road Media, Kindle Edition (ASIN: B00-DZE-JQ9-O)

Edição em português: não há

Número de páginas: 276

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Mãn, de Kim Thúy

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Para escrever a última resenha do ano, tenho ao meu lado um bule de chá de alcachofra, uma das minhas maiores surpresas gastronômicas de 2015, comprado no mercado de Da Lat, no Vietnã. Afinal, se a literatura nos faz viajar para países longínquos, o sabor dos alimentos consumidos em terras distantes trazem-nos de volta até elas. Eis uma verdade que se aplica com perfeição ao livro deste domingo: Ao aliar memória afetiva e gustativa, Mãn, o segundo livro da escritora vietnamita Kim Thúy, transporta o leitor para o universo de odores, vapores e nostalgias agridoces de sua terra natal.

Antes de mais nada, talvez se pudesse dizer que Mãn é uma declaração de amor de sua protagonista homônima às três mulheres que lhe deram a vida: a adolescente que a trouxe ao mundo, a monja que a recolheu no campo de um convento budista, e sobretudo a última, uma espiã que a criou, educou e mandou para fora do Vietnã, com destino a um casamento arranjado e seguro. Anos mais tarde, no Quebec, nossa protagonista encontrar-se-á trancafiada por dias sem fim na cozinha de um restaurante, e encontrará na gastronomia uma forma de redefinir sua própria identidade. Seus pratos, incomparáveis, atrairão ao restaurante do marido, outrora vazio, cada vez mais clientes, alguns deles se tornando verdadeiros admiradores e amigos, sucesso que a transformará pouco a pouco numa nova mulher.

Não que Mãn não conhecesse o amor ao lado do marido. Tratava-se, no entanto, de um amor oposto ao das novelas, pelo qual se sofre e se tortura, e pelo qual se morre heroicamente. Pelo contrário, seu amor “à vietnamita”, descendente da tradição budista, exprimia-se na renúncia, no silêncio, na discrição, bem como na aceitação zelosa de um papel pré-estabelecido. No entanto, o acaso fará com que essa mulher sem vaidades encontre um homem igualmente perdido entre o passado e o presente, e com que o sentimento inesperado de uma paixão abale as estruturas de toda uma vida composta de renúncias.

Talvez o melhor adjetivo para caracterizar Mãn seja suave. Trata-se de um livro curto, composto por capítulos de no máximo duas páginas, todos eles antecedidos por uma palavra em vietnamita e pela sua tradução. A narrativa, feita em primeira pessoa, não se atém forçosamente à ordem cronológica, fazendo eventuais digressões segundo aquilo que oferece a memória de sua protagonista-narradora. Sua pluma incomparavelmente poética e suave, bem como a descrição detalhada dos pratos preparados pela cozinheira nos momentos mais marcantes de sua existência, provocam no leitor uma sensação sinestésica, combinando o prazer da leitura a uma satisfação quase gustativa.

Por tratar de uma temática vista e revista ao longo desses 365 dias – a questão da imigração e da procura da identidade –, Mãn encerra com chave de ouro um ano de leituras, se me permitem o jogo de palavras, particularmente frutuoso. E que venham outros como este!

 

Título original: Mãn

País: Vietnã

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2013

Edição em português: não há

Edição em inglês: Clerkenwell Press (ISBN: 978-184-6689-96-3)

Edição em francês: Libre Expression (ISBN: 978-276-4804-97-1)

Número de páginas: 152 (edição em francês), 160 (edição em inglês)

The Garden of Evening Mists, de Tan Twan Eng

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Antes de ingressar numa longa viagem, é sempre bom saber um pouco daquilo que nos espera. Algumas pessoas dedicam-se à leitura de guias turísticos, escritos em sua maioria por e para estrangeiros. Eu não: aboli há alguns anos o Lonely Planet. Substitui-o pela literatura. Por isso, em meio a uma semana particularmente cheia de preparativos, encontrei n’O jardim das brumas noturnas a mais perfeita introdução à Malásia.

No final da adolescência, Yun Ling, a protagonista-narradora, é mandada com a irmã Yun Hong a um campo de trabalhos foçados japonês. Yun Hong, que era apaixonada por jardins japoneses, não resiste, e ela, a única sobrevivente de todo o campo, promete mandar construir um jardim em sua memória. Anos mais tarde, encontramos Yun Ling como uma juíza implacável, encarregada de mandar à forca os condenados pelos crimes cometidos durante a guerra. Depois de uma altercação com seus superiores, ela abandona Kuala Lumpur rumo às montanhas malaias, onde vive Aritomo, um homem que fora outrora o jardineiro oficial do imperador do Japão. Em vez de conseguir convence-lo a criar um jardim para Yun Hong, a antiga vítima dos japoneses acaba por se tornar aprendiz desse jardineiro misterioso, que lhe ensina muito mais que a arte da jardinocultura, apontando-lhe talvez um caminho para a libertação.

O livro trata de um tema delicado com uma sensibilidade da qual só mesmo os orientais seriam capazes. A começar pelo fato de que é narrado em três planos temporais distintos. O primeiro, o presente, funciona como uma espécie de moldura, e nos revela uma Yun Ling fragilizada pela doença, que tenta registrar suas lembranças para que elas não se percam com a sua memória. O segundo, durante a guerrilha comunista dos anos 1950, consiste no plano principal, e nos mostra uma protagonista forte e rancorosa, tentando vencer seus demônios a fim de construir o jardim. Contrariando as expectativas ocidentais, o terceiro, que embarca a Segunda Guerra, é evocado apenas no fim, como uma espécie de “pretérito mais que perfeito” – passado dentro do passado. Com isso, o livro não foca, como seria de se esperar, no sofrimento Yun Ling no campo de concentração japonês, mas sim no seu longo e interminável processo de cura.

Embora os complexos episódios históricos que definiram a identidade malaia estejam sempre em pano de fundo, não se pode classificar este romance como estritamente histórico. Pelo contrário, pode-se dizer que se trata de um estudo sobre a existência humana, que aborda temas como a importância da memória e do esquecimento, bem como o conceito de culpa (seja ela individual ou coletiva). Com uma escrita ricamente formulada e repleta de simbolismos, o livro de Tan Twan Eng introduz o leitor a um universo que lhe é seguramente desconhecido ao abordar temas históricos como o colonialismo no sudeste asiático, os campos de trabalhos japoneses, bem como, por meio de suas personagens secundárias, a formação da identidade sul-africana. Seu grande mérito consiste em tecer uma intrincada rede entre opostos, como o amor e a guerra, a arte e a destruição, a liberdade e a guerrilha, o jardim e a tortura, de modo a dar vida às paisagens bucólicas do interior malaio.

Ver o mundo sem os livros é como olhar a fotografia de alguém que não conhecemos. Visitar um lugar sobre o qual já lemos faz com que tenhamos a impressão de estarmos a visitar velhos amigos. Afinal, viagens à parte, a literatura continua a ser a melhor maneira de descobrir o mundo.

Título original: The Garden of Evening Mists

País: Malásia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira/portuguesa: não há

Edição inglesa: Myrmidon Books (ISBN: 978-190-5802-49-4)

Número de páginas: 448 (edição inglesa)

Cifra, de Mai Jia

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É possível que um lançamento literário alcance 5 milhões de vendas imediatas sem que o “mundo” ouça dele falar? Sim, se o livro em questão tiver sido lançado na China. Eis o caso de Cifra, o aclamado best seller do escritor Mai Jia.

Cifra explora o misterioso universo da espionagem internacional por meio da criptografia, tema recentemente explorado pelo filme The Imitation Game. No entanto, aquilo que Alan Turing realizou com a ajuda das máquinas, Ron Jhinzen, o misterioso protagonista do livro de Jia, faz usando como único instrumento seu cérebro prodigioso. Órfão de pai e mãe, Jhinzen cresceu largado feito um animalzinho selvagem, criado por um velho estrangeiro especialista na interpretação dos sonhos. Matemático autodidata, o menino é descoberto e colocado sob a tutela de mestres de renome. Para explicar sua genialidade, o narrador, um jornalista curioso, explora primeiro a genealogia, chegando mais tarde à infância, juventude e maturidade, até o seu recrutamento forçado por uma misteriosa agência de inteligência em plena Guerra Fria. Nela, o rapaz tímido e de personalidade autística acaba por se tornar um obscuro herói nacional ao quebrar prodigiosamente os códigos mais complexos. Longe de ser onisciente, o jornalista tenta reconstruir o gênio por meio de entrevistas com figuras que fizeram parte de sua vida, obtendo por resultado um mosaico de informações cuja filtragem cabe ao leitor. Trata-se de um herói tão reservado e misterioso, ele mesmo mais indecifrável que qualquer código secreto, que nem mesmo uma espiadela ao seu diário ajudaria a desvendar sua personalidade. Jhinzen é, ele mesmo, a cifra que devemos decifrar.

Muita coisa já foi dita a respeito de Cifra: que é um livro surpreendente “vindo de um autor daquela parte do mundo”, que é um herdeiro legítimo de Kafka e Agatha Christie, ou mesmo que apresenta uma deficiência crônica de profundidade psicológica. Embora os três comentários careçam de pé e cabeça, é o último que realmente me incomoda. Não que não seja verdade: Jia de fato não deixa espaço para explorações subjetivas. O problema são as conclusões esdrúxulas que os críticos tiram daí – como dizer que isso reflete a alienação da cultura chinesa. Balela! Trata-se tão somente de uma escolha narrativa, que aliás nem sequer é tão rara, e cujo resultado é a impossibilidade de profundidade psicológica. Quando o Nobel peruano Vargas Llosa fez exatamente o mesmo em O sonho do Celta, ninguém achou minimamente estranho. Então, em vez de ver aí um resquício da sociedade coletivista dos chineses, ignorantes – coitados! – das maravilhas do individualismo, não seria mais razoável o ver como, simplesmente, um recurso literário? Uma escolha do autor, fruto do livre-arbítrio de que gozam os artistas – tanto aqui como do outro lado do mundo?

Quem diz que Cifra é o tipo de livro que nunca se poderia esperar de um autor chinês 1) não conhece a China, 2) ignora completamente os autores da China, 3) não tem a menor ideia das preferências dos seus leitores. Aliás, eu também não conheço a China. Justamente por isso, em vez de perder o meu – nosso – tempo com comentários baseados em estereótipos made in imprensa ocidental, limito-me a fazer o que sempre faço: uma resenha. De um livro que, aliás, também considero uma obra-prima.

Ainda que os fãs de literatura normalmente sejam alérgicos às ciências exatas, nem a capa nem o título devem preocupar: suas doses de matemática são não apenas digeríveis, mas também parte inextricável de uma leitura apaixonante. Palavra de leitora sem talento aritmético!

 

Título original: 解密

País: China

Idioma original: chinês

Ano de publicação: 2002

Edição brasileira: não há

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN 978-989-7222-00-9)

Número de páginas: 390 (edição portuguesa)

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami

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Amigos grandes leitores, preparem-se para um deleite literário, emocional e auditivo: o mais recente romance do japonês Haruki Murakami, figura carimbada em todas as listas de best sellers que se prezem e diversas vezes cotado como o próximo laureado do Prêmio Nobel da Literatura.

O incolor Tsukuru Tazaki é um desses livros que penetram no pensamento do leitor, e que depois já não lhe saem da cabeça. A história é um paradoxo: simples, porém complexa. Tsukuru, o protagonista, tem 36 anos e sofre de uma espécie de barreira emocional. Quando conhece Sara, uma mulher mais velha por quem se apaixona, decide contar-lhe o grande trauma da sua juventude: há mais de vinte anos, foi expulso sem explicações do grupo de amigos que era a coisa mais importante da sua vida. Quando se conheceram, eram todos adolescentes, e tornaram-se inseparável, formando uma espécie de pentágono perfeito. Eram dois rapazes e duas meninas, cada um deles trazendo no nome o anagrama de uma cor. Exceto ele, Tsukuru, cujo nome significa “fazer”. Daí a ser chamado pelos outros de incolor. Daí também a se sentir inferiorizado, como se os outros fossem se dar conta a qualquer momento que ele não lhes servia para nada. Agora, duas décadas mais tarde, sob influência de Sara, Tsukuru decide procurar os antigos amigos a fim de finalmente tentar desvendar o mistério que lhe deu cabo da existência: por que é que eles resolveram, de uma hora para a outra, deixar de lhe falar?

Um resumo dificilmente poderia dar conta da imensidão de um romance como esse, repleto de peças mal-encaixadas e metáforas pairando no ar. Ao passar os olhos pelas últimas linhas, o leitor provavelmente perguntar-se-á se perdeu alguma coisa, se passou ao lado de alguma informação essencial, como a chave para juntar todos os elementos apresentados. O livro fala de projeções e expectativas frustradas, da imagem que fazemos de nós mesmos, daquela que os outros fazem de nós, bem como da que pensamos que eles fazem. Mais do que tudo, ele relembra-nos a importância de resolvermos as nossas pendências, tirando o passado a limpo como forma de nos prepararmos para finalmente seguir em frente. E, como na vida nem sempre temos resposta para tudo, Tsukuru também nos deixará muitas vezes sem resposta. Ou seja, trata-se de um livro que é a cara o Japão: embora saibamos que jamais seremos capazes de compreende-lo totalmente, isso não nos impede de nos apaixonarmos por ele.

Meu maior arrependimento em ter escolhido Murakami como o autor número 35 de um projeto que inclui a leitura de por volta de 200 livros/países é que, para eu finalmente poder ler o meu próximo Murakami, ainda terei que esperar ter lido outros 165. Que bom que a melhor espera é aquela que é por algo que realmente vale a pena!

Para ler ouvindo “Le mal du pays”, de Franz Liszt, na interpretação de Lazar Berman:

Título original: Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi

País: Japão

Idioma original: japonês

Ano de publicação: 2013

Título brasileiro: O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação

Título português: As peregrinações do rapaz sem cor

Edição brasileira: Alfaguara (ISBN 978-857-9623-37-0)

Edição portuguesa: Casa das Letras (ISBN 978-972-4622-66-8)

Número de páginas: 328 (edição brasileira), 360 (edição portuguesa)

Persépolis, de Marjane Satrapi

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Marje é uma menina como outra qualquer. Ou talvez não exatamente. Filha única de intelectuais de esquerda, seu livro preferido é uma versão em quadrinhos de Marx e Descartes. Com apenas dez anos, é dona de uma língua afiadíssima, sonha em reparar as injustiças do mundo, e deseja, quando crescer, tornar-se profeta. Marje não vê problemas em dizer o que pensa, e foi educada pelos pais de forma a não conhecer limitações – nem por ser mulher, nem por ser iraniana. Ou seja: tudo exatamente ao contrário dos preceitos da Revolução que transformou seu país, de uma monarquia laica e aberta ao mundo, em um Estado islâmico fechado e conservador.

Persépolis, título da autobiografia em quadrinhos da artista gráfica iraniana Marjane Satrapi, refere-se ao nome da antiga capital do Império Persa, e pretende lembrar-nos que o país hoje conhecido pelo extremismo religioso foi outrora o berço de uma civilização moderna e sofisticada, e que o Islamismo lhe foi impingido com violência. Com isso, presta uma homenagem a todos os seus antepassados que morreram lutando pelos ideais democráticos e pela igualdade de direitos.

O livro, originalmente publicado em quatro tomos, acompanha a conturbada vida da protagonista do final dos anos 70 até meados da década de 90. A primeira parte – e talvez a mais interessante – mostra-nos a revolução sob a perspectiva inocente de uma criança, cuja vida é lentamente transformada quando as escolas estrangeiras são fechadas, meninos e meninas separados, e as meninas obrigadas a portar o véu. A segunda mostra-nos uma Marje corajosa e rebelde, em plena pré-adolescência durante a Guerra Irã-Iraque, cada vez mais confrontada com a violência à sua volta, mas que não se dá conta dos perigos aos quais sua insubordinação a sujeita. A terceira acompanha os anos de solidão, desraizamento e perdas em que a adolescente, mandada para Viena a fim de terminar seus estudos, torna-se uma estrangeira, distanciando-se cada vez mais de si mesma e das suas origens. Por fim, a última parte trata do seu retorno ao Irã, da readaptação impossível, do choque de mentalidades, e das reviravoltas da vida até tornar-se suficientemente madura ao ponto de finalmente deixar o país.

A maioria dos grandes leitores já deve ter ouvido falar de Persépolis, nem que seja graças ao filme homônimo ganhador do prêmio do jury no Festival de Cannes de 2007. Àqueles que já viram o filme e estavam até agora postergando a decisão de ler o livro: não esperem mais. Se o filme já era bom, o livro nem se compara. A grande diferença fica por conta do ritmo: enquanto o filme se atropela para fazer caberem 360 páginas em meros 95 minutos, o livro agracia-nos com o compasso mais lento e a riqueza de detalhes. A diferença é impressionante.

Com um argumento pungente e extremamente bem escrito, o livro prova ao mais cético dos leitores que a graphic novel é, sim, literatura, enquanto a imagem complementa, dá vida e movimento à palavra escrita. O traço em preto e branco é simples e agradável aos olhos, o texto é sério e ao mesmo tempo divertido. Uma leitura que entrará para os favoritos de muita gente.

E para quem já leu o livro, mas ainda não viu o filme:

Para o filme completo, clique aqui.

Título original: Persepolis

País: Irã

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2000-2003

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5911-62-6)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6661-12-0)

Número de páginas: 352

O museu da inocência, de Orhan Pamuk

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Sabem aqueles romances que, ao chegarem ao fim, deixam o leitor com a sensação de se terem tornado órfãos? Pois assim é O museu da inocência: seiscentas páginas que passam a voar e que provam os motivos pelos quais Orhan Pamuk, Prêmio Nobel da Literatura de 2006, é um dos maiores autores do século XXI.

O livro narra a história de um amor – ou, se preferirem, de uma obsessão – entre um abastado playboy, filho da nata de Istambul, e uma humilde balconista, sua prima afastada. Kemal, jovem rico e bem-sucedido, oriundo de uma família tradicional turca, está prestes a se casar com Sibel, uma moça bonita, educada na França, e parece estar se encaminhando para o que poderíamos chamar de uma vida perfeita. No entanto, ao se deparar com Füsun, uma ‘prima’ doze anos mais nova, toda possibilidade de viver sem ela se torna literalmente impossível. A trama, que a princípio se assemelha a uma releitura banal de Romeu e Julieta, revela ser tudo, menos corriqueira – principalmente porque Kemal não é o homem de sonhos de ninguém. Muito pelo contrário: ele bem tenta manter as aparências e conciliar as duas vidas, casando-se com a mulher exemplar e fazendo da voluptuosa prima sua amante, e é só diante da sua impossibilidade que ele se curva – e que sua vida desmorona. Condenado a viver das memórias de uma promessa, o amante desafortunado encontra um alento ao se tornar o obsessivo colecionador dos objetos que um dia estiveram em contato com mulher amada: da xícara em que ela bebeu às bitucas dos cigarros que ela fumou.

Abarcando sobretudo os anos 1970 e 1980, o livro desvela, com uma maestria incomparável, os conflitos e o modo de pensar da sociedade turca, dividida entre a aparência, moderna e europeia, e a essência, tradicional e machista. Ao explorar as mazelas e incoerências da burguesia, assemelha-se não apenas a Flaubert e Balzac, mas faz pensar igualmente em alguns textos já clássicos da literatura brasileira, como Hilda Furacão, de Roberto Drummond. Mas a semelhança termina por aí. O que O museu da inocência tem de inovador é uma premissa narrativa única: a de contar uma história como um guia de museu, a partir dos objetos expostos numa vitrine.

E é com prazer que o leitor descobre, ao final da narrativa, que o “Museu da Inocência” não é um lugar imaginário: ele realmente existe, e não apenas pode ser visitado, mas o bilhete de entrada se encontra impresso nas últimas páginas do livro. É que, para escrever a sua história, Pamuk inspirou-se em objetos que ia encontrando por acaso, e acabou transformando a coleção daí advinda num museu em Istambul. Visitá-lo será certamente o motivo que faltava para (re)visitar essa cidade encantadora. Sob essa perspectiva, a declaração de amor de Kemal a Füsun pode ser entendida como uma declaração de amor à cidade, enquanto que o culto aos objetos se torna uma tentativa literal de resgatar a memória de uma época, bem como de homenagear as pessoas que a fizeram.

Dos objetos ao livro – do livro aos objetos. Eis o romance perfeito para todos aqueles que admiram uma bela história de amor. Mas eis também o romance perfeito para todos aqueles que não as podem suportar. Afinal, seja como for, O museu da inocência não é, nem nunca poderia ser, o livro errado para nenhum grande leitor.

Para quem pedir por mais, eis a página do Museu: www.masumiyetmuzesi.org

Título original: Masumiyet Müzesi

País: Turquia

Idioma original: turco

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5918-57-1)

Edição portuguesa: Presença (ISBN 978-972-2343-55-8)

Número de páginas: 639 (edição portuguesa), 568 (edição brasileira)

Brief in die Auberginenrepublik, de Abbas Khider

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Em 1999, um jovem em exílio escreve uma carta de amor para a mulher da sua vida. Eis o ponto de partida do livro de Abbas Khider, escritor iraquiano radicado na Alemanha. “Carta à República da Berinjela”, seu terceiro romance, nos transporta a uma época não muito distante, na qual a internet, para a maior parte do globo, ainda era coisa de outro planeta, e Facebook, Twitter e Skype nem sequer haviam sido sonhados. Como se comunicar antes da chamada “era da comunicação”, sobretudo se as vias telefônicas e postais estivessem vigiadas? Como manter contato com a pessoa amada, principalmente se esse mesmo contato pudesse pôr em risco a vida de seu destinatário?

Narrado em primeira pessoa segundo perspectivas distintas, “Carta à República da Berinjela” pode ser considerado uma espécie de road book (termo derivado de road movie, gênero de filme que se desenrola durante uma viagem). Nele, acompanhamos a complicada trajetória de uma carta de amor das mãos de seu remetente, um iraquiano muçulmano exilado na Líbia, até sua destinatária, uma jovem cristã da periferia de Bagdá. Forçado a abandonar a terra natal por participar de um clube do livro considerado subversivo, o remetente da carta que dá título ao romance perde o contato com sua namorada, que ele acredita ainda viver no subúrbio de Saddam City. Ao ouvir falar de um correio clandestino ao “país das berinjelas”, o jovem apaixonado não pensa duas vezes antes de trocar todas as suas economias pelo caro e pouco fiável serviço de entrega. Enquanto a carta vai passando de mão em mão, vamos conhecendo paisagens distintas porém muito parecidas, personagens diferentes envolvidas nos mesmos dilemas, e dando uma espiadela na situação política de vários países do mundo árabe: a Líbia de Khadafi, o Egito de Mubarak, a Síria de Hafiz al-Assad, a Jordânia de Abdullah II bin Hussein e, é claro, o Iraque de Saddam Hussein.

Como sua personagem, Abbas Khider foi condenado e preso por motivos políticos, e imigrou há pouco mais de uma década para a Alemanha como asilado. Se, ao chegar, não falava nem uma palavra de alemão, não deixa de ser admirável como, em tão pouco tempo, conseguiu não apenas dominar essa língua estranha e difícil, mas também construir nela sua obra literária. Narrado numa prosa limpa, lacônica e certeira, que deixa transparecer agradavelmente o “estrangeirismo” do autor, “Carta à República da Berinjela” é um romance divertido e fácil de ler, que denuncia com humor e ironia a brutalidade e a incoerência das ditaduras dos países árabes, bem como a lei do mais forte e o sistema de corrupção por elas gerado. De modo geral, o bom humor e a leveza narrativa predominam, mas, talvez por dar voz a alguém outrora silenciado pelo regime de Saddam, o livro deixa claro que sua prioridade é passar uma mensagem política. Mensagem esta sem dúvida importante, mas que talvez não precisasse ser trabalhada de maneira tão óbvia: a bom entendedor, meia palavra teria bastado.

Nos últimos anos, temos tido vários exemplos do poder trazido ao povo por essa arma poderosa que é a internet, capaz de reunir multidões, semear a revolta e derrubar ditadores. Foi este o caso durante a chamada “Primavera Árabe”, para a qual as redes sociais exerceram um papel fundamental, informando, mobilizando e unindo milhões de pessoas ao redor do mundo. Nesse contexto, a mensagem de “República da Berinjela” não nos parece anacrônica: muito pelo contrário, ela nos lembra a importância de poder se comunicar.

Infelizmente, o livro não tem previsão de ser traduzido para a língua de Camões.

Título original: Brief in die Auberginenrepublik

País: Iraque

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2013

Edição alemã: (ISBN 978-389-4017-70-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 160

The Hen Who Dreamed She Could Fly, de Sun-mi Hwang

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A maternidade pode ser considerada um dos mais longevos temas da arte universal, e muitos grandes autores, como Jean-Jacques Rousseau, Máximo Gorkhi, Bertold Brecht, e J. M. Coetzee, já se debruçaram sobre esse tantas vezes estudado estado de graça.

Quer a sabedoria popular que ser mãe é padecer no paraíso, e que boa mesmo é a mãe-galinha. Pois eis que vem da Coreia do Sul um livro que não apenas toma a segunda expressão ao pé da letra, mas que também oferece uma das mais singelas e comoventes imagens da maternidade que a literatura já conheceu.

A galinha que sonhava que podia voar é uma espécie de fábula que narra a história de Sprout (em português, Broto ou Rebento), uma galinha que não se encaixa bem nos padrões da sua espécie. Condenada a uma vida de prisioneira botando ovos em uma fazenda, Sprout nunca deixou de sonhar com o impossível: levar uma vida em liberdade podendo enfim ter a alegria de chocar um de seus ovos. Mas a realidade não sai nada como na sua ilusão: descartada para o degoladouro tão logo se torna improdutiva, escapa por um triz da faca dos fazendeiros, e por pouco não acaba presa de uma doninha. No celeiro, é vítima do ostracismo até mesmo dos de sua espécie, e encontra num pato selvagem igualmente excluído o único amigo de uma vida. Quando, um dia, encontra um ovo abandonado e resolve sentar-se nele, esta pequena personagem acaba ganhando asas para o infinito. Mas como nem só de rosas consiste a maternidade, Sprout enfrenta suas alegrias e dores com firmeza, enquanto se transforma numa verdadeira mãe-coragem e luta contra todas as forças da natureza para proteger o filho adotivo, até que ele abandone enfim o ninho e a mãe, caminho natural de todos os filhos.

A trama, que se tornou quase instantaneamente um best-seller mundial, deu origem ao filme de animação Leafie, uma galinha rumo à natureza selvagem (2011), um dos maiores sucessos do cinema infantil sul-coreano. Mas, embora histórias com animais quase sempre sejam compatíveis com o público jovem, o livro de Sun-Mi Hwang é muito mais que uma narrativa para crianças. A história de Sprout, comovente metáfora das flores e espinhos da maternidade, propõe-nos refletir sobre o poder desse amor solitário e incondicional, que transcende as diferenças e não espera recompensas, bem como sobre temas como a velhice, o ciclo da vida e a mortalidade.

Contrariamente ao filme de animação, o livro ainda não foi traduzido para a língua de Camões. Mas o grande leitor que se aventurar em outro idioma terá diante de si uma novela inesquecível, à qual se acresce a imensa força narrativa de Sun-Mi Hwang, bem como sua capacidade de tornar épica uma história tão simples, e contar de forma tão simples uma história tão imensa. E haverá de concordar que Sprout entrou para o rol das grandes mães da literatura universal, que A galinha que sonhava que podia voar é uma bela homenagem a todas as mães de mundo, e que faz com que o leitor sinta vontade de ir correndo abraçar a sua.

 

Título original: 마당을 나온 암탉 (The Hen Who Dreamed She Could Fly)

País: Coréia do Sul

Idioma original: coreano

Ano de publicação: 2000

Edição em inglês: Penguin (ISBN 978-014-3123-20-0)

Tradução para o inglês: Chi-Young Kim

Edição brasileira/portuguesa: não há

Número de páginas: 144 (edição em inglês)