I, the Divine, de Rabih Alameddine

Alameddine_Divine

Parecia quase impossível ler um livro de mais de trezentas páginas em plena semana mais cheia do ano: é o Natal à porta, são provas para corrigir, notas para entregar… Por isso mesmo, decidi NÃO ler o livro de Rabih Alameddine desta vez. Em vez disso, passaria os olhos pelas duas primeiras páginas, sem nenhum compromisso, para ver se valia a pena colocá-lo no topo da minha lista de prioridades para 2016. Certo? Errado!

Existem dezenas de motivos pelos quais é impossível parar de ler Eu, a Divina, mas é fácil resumi-los usando um argumento muito pouco acadêmico: trata-se de um romance simplesmente genial. Não só pela trama extremamente cativante, ou pela sua estrutura decididamente inovadora, mas por uma mistura disso tudo. De fato, todos os elementos que o compõem amalgamam-se de maneira a tal ponto bem-sucedida, que acaba por se tornar difícil saber por onde começar o elogio.

Eu, a Divina conta a história de Sarah, uma mulher libanesa muito pouco convencional. Filha de uma família pertencente à comunidade religiosa drusa, mas para a qual a religião não parece assumir um papel importante, a menina, nomeada pelo avô em homenagem à “divina” Sarah Bernhardt, cresce em meio a uma família disfuncional, tendo o pai enviado a mãe norte-americana de volta à terra natal por esta não ser capaz de lhe dar um descendente de sexo masculino. De certa forma, pode-se dizer que a menina cresce a tentar suprir o desejo do pai por um herdeiro, seja pela sua maestria em dominar todo o linguajar sujo das ruas libanesas, seja pelo talento incontestável como jogadora de futebol. De fato, Sarah parece ter vindo ao mundo para romper paradigmas, acumulando, mais tarde, relacionamentos frustrados, casamentos mal-sucedidos, e tentando se ajustar entre identidades opostas: a megalomaníaca Sarah Bernhardt, a mãe que abandona seus filhos, a imigrante a fugir dos traumas de um passado sombrio. Constrói-se, aos poucos, uma espécie de caleidoscópio, através do qual o leitor vai conhecendo não apenas a protagonista, mas também boa parte dos membros da sua família e amigos íntimos, todos eles personagens de rara complexidade: um irmão homossexual, uma mãe com tendências suicidas, uma irmã que se tornaria uma assassina em série, um filho inesperadamente bem-ajustado, um amante sádico, e assim por diante.

Embora a trama bem construída e a capacidade única do autor em explorar a voz lírica de um Eu feminino fossem, por si só, motivo para surpreender o mais crítico dos leitores, o grande diferencial do livro reside, no entanto, na ousadia de sua estrutura. Afinal, Alameddine fez uma escolha arriscada: escrever um romance composto de primeiros capítulos. Trata-se, poder-se-ia dizer, de uma série infindável de tentativas abandonadas de escrever uma (auto-)biografia, oscilando entre a primeira e a terceira pessoa, e até mesmo entre o inglês e o francês. Com isso, Eu, a Divina é composto de fragmentos, títulos e prefácios, os quais desrespeitam a ordem cronológica, todos eles abordando um período distinto da vida de sua protagonista. Fragmentos, estes, que capturam com uma maestria ímpar alguns dos momentos mais dramáticos de uma vida repleta de eventos, e que se complementam com a beleza de uma colcha de retalhos.

A julgar por este livro, não seria de se espantar se ouvíssemos falar de Rabih Alameddine como um futuro ganhador do Nobel da Literatura. Enquanto isso não acontece, deixo aos leitores a forte recomendação de acompanhar de perto o trabalho deste talentoso escritor.

 

Título original: I, the Divine

País: Líbano

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2001

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Northon & Company (ISBN 978-039-3323-56-6)

Número de páginas: 320 (edição em inglês)

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