A cidade do sol, de Khaled Hosseini

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Estados Unidos, logo após os atentados de 11 de setembro de 2001: toda a população árabe, e particularmente a afegã, sofreu enormes represálias simplesmente pelo fato de existir e viver nessa terra estrangeira. Mulheres vestindo o véu eram agredidas nas ruas, meninos em idade escolar ostracizados como se portassem em suas pequenas mochilas uma bomba pronta a dizimar cidades inteiras. Todos eles pareciam portar o estigma do mal, herdeiros de Osama Bin Laden e dos talibãs. Nesse contexto particularmente difícil, Khaled Hosseini, um escritor afegão radicado nos Estados Unidos, conseguiu realizar aquilo que parecia ser um milagre: transformar um romance belo e simples, ambientado nas ruas de Kabul, num best seller que abriria a mente – e o coração – de milhões de leitores à história recente e à cultura desse país marcado pelo sofrimento. Trata-se de “Os caçadores de pipas”, transformado pouco mais tarde num filme de igual sucesso.

Alguns best sellers e muitos milhões de dólares mais tarde, o porta-voz oficial do Afeganistão no chamado “primeiro mundo” lança um novo romance, aclamado pela crítica e festejado pelos leitores. “A cidade do sol” narra a história de vida de duas mulheres deveras diferentes, Mariam e Laila, cujo destino se entrecruza em consequência da guerra. Mariam, uma bastarda, foi criada num casebre isolado no alto de um monte, e mal teve contato com o mundo até ser coagida a casar-se com um homem trinta anos mais velho em seguida ao suicídio da mãe. Laila, vinte anos mais nova, cresceu perambulando pelas ruas de Kabul ao lado de um amigo perneta, gozando todas as liberdades de ser filha de um ex-professor universitário, em plena época da dominação soviética. Até que o destino fizesse de Laila uma órfã obrigada a tornar-se a segunda esposa do marido de Mariam, as duas certamente pouco teriam a dizer uma à outra; as circunstancias fazem, contudo, nascer da miséria e da tragédia uma amizade com laços inquebrantáveis.

Mulheres belas, oprimidas, e cheias de sonhos, vivendo numa sociedade falocêntrica em tempos de guerra, obrigadas a transformarem-se em verdadeiras mártires em nome dos filhos – sejam eles naturais ou eletivos: eis, colocada em poucas linhas, a fórmula de um romance de sucesso. Tudo isso, é claro, associado às inegáveis capacidades de Hosseini como contador de histórias, de tal forma proeminentes que o leitor dificilmente botará o livro de lado antes de chegar à última página. Mas, então, onde está o problema?

O que falta, na minha opinião, aos romances de Khaled Hosseini, é algo que o grande público estadunidense dificilmente aceitaria: profundidade histórica. Ao falar da guerra e do cenário que tanto fascina e assusta os leitores – a ascensão dos talibãs -, Hosseini deixa claro quem são mocinhos e bandidos, e evita tocar em questões essenciais que nos permitiriam entender o intricado contexto no qual os terroristas do 11/09 se inserem. Como, por exemplo, a própria (e não pouca) participação dos Estados Unidos nesse imbróglio. O resultado é uma literatura naif, repleta de belas e tristes histórias de amor e amizade, situadas num cenário exótico e distantes, mas que perde uma oportunidade essencial de fazer aquilo que a verdadeira boa literatura geralmente costuma fazer: um convite à reflexão.

Como literatura de entretenimento, “A cidade do sol” é certamente uma escolha acertada, que não deixará de extrair bons baldes de lágrimas do mais cético dos leitores. Mas é só. Embora – e eis o que é imperdoável – pudesse ter sido muito mais.

Título original: A Thousand Splendid Suns 

País: Afeganistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Titulo brasileiro: A cidade do sol

Edição brasileira: Nova Fronteira (ISBN: 978-852-0935-52-1)

Título português: Mil sóis resplandecentes

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2339-08-7)

Número de páginas: 368 (edição brasileira), 324 (edição portuguesa)

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