O quinto filho, de Doris Lessing

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No que diz respeito à escolha de autores, eu sempre fui uma pessoa um bocado preconceituosa. Na adolescência, recusava-me a ler tudo aquilo que cheirasse a best-seller, mesmo que com isso deixasse passar alguns clássicos: Erich Maria Remarke, Ernst Hemingway, Hermann Hesse… como também uma autora extremamente popular, cujos livros enchiam as prateleiras de qualquer biblioteca dos anos 1980 e 90: a britânica nascida no Irã Doris Lessing.

Fui conhecer Doris Lessing apenas à custa de necessidade. Estava na praia do Tofo, no Moçambique, e como não houvesse meio de carregar meu iPad, uma bolorenta edição alemã de O quinto filho era o único livro que me havia à disposição. E confesso que a espera valeu a pena: trata-se, para mim, do melhor livro do ano até o momento.

O quinto filho é um livro curto, de pouco mais de 100 páginas, concebido como uma espécie de fábula às avessas, e narra a infeliz história de um jovem casal perfeito, Harriet e David, cujo pequeno idílio familiar cai completamente por terra após à chegada de Ben, o quinto rebento. Narrado com um forte tom de crônica jornalística no qual preponderam a acidez e a ironia, o livro oferece-nos uma crítica ferrenha à hipócrita sociedade britânica, ao mesmo tempo em que revela a verdadeira essência do vínculo maternal.

Após conhecerem-se numa festa de escritório, Harriet e David descobrem um no outro o parceiro perfeito para as suas ambições pequeno-burguesas. Avessos às tendências libertárias dos anos 1960, os dois decidem se casar, comprar uma imensa casa vitoriana e enche-la de filhos, levando uma vidinha feliz e sem grandes arrebatamentos, baseada nos princípios da fidelidade e da estabilidade familiar. No começo, tudo corre bem, e a casa se torna o refúgio de uma infinidade de parentes e amigos ansiosos por compartilhar seu paraíso doméstico – as contas até se acumulam devido à eterna romaria de visitantes. Sua sorte, no entanto, mudará drasticamente desde a concepção do quinto filho, cujo desenvolvimento ainda no útero é de tal forma violento que provoca a rejeição imediata de uma mãe até então exemplar. Completamente fora do controle, Harriet tem a impressão de que o filho está a tentar mata-la por dentro, sensação que só tende a agravar com o nascimento difícil, seguido de uma amamentação catastrófica e de um primeiro ano ainda pior. O menino, de aparência estranha e pouco delicada, que em tudo mais parece um neandertal, revela-se rapidamente como uma ameaça aos próprios irmãos e primos, uma espécie de changelin deixado pelos trolls, cujas tendências violentas e ímpeto assassino destroem pouco a pouco a unidade familiar. Gradualmente, a pequena família modelo começa a ruir, seja pela irritabilidade constante de uma mãe à beira de um ataque de nervos, seja pela frieza do pai, ou pela ameaça constante desse estranho no ninho. Os visitantes começam a minguar, a vida torna-se insuportável… Mas haverá uma solução “limpa” para o problema de David e Harriet? Será a mãe capaz de se livrar do próprio filho, mesmo que o seu sentimento por ele tenha sempre sido o de repulsa e aversão?

Ao referir-se posteriormente ao processo criativo de O quinto filho, seu trigésimo-quinto livro, Doris Lessing, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura em 2007, afirma ter simplesmente odiado escreve-lo. Trata-se, de fato, de uma história de horror digna dos clássicos de Edgar Allan Poe, de um Bebê de Rosemary sem efeitos especiais, cujo senso de tragédia não deixará impassível nem o mais crítico dos leitores, e que deve seguramente ter revirado o estômago da própria autora. Trata-se, afinal, de uma metáfora poderosa, cujos ecos dificilmente sairão da memória do leitor, e que certamente trará pesadelos a qualquer leitora grávida ou ansiosa para ter um bebê. Um livro que põe em causa o conceito de maternidade, que questiona aquela ideia de felicidade dos comerciais de margarina, e que nos faz refletir sobre nossa própria humanidade. Em suma, um livro delicioso, apavorante, incontornável!

 

Título original: The Fifth Child

País: Reino Unido

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1988

Edição brasileira: Record (ISBN 85-0103-418-5)

Edição portuguesa: Europa América (ISBN 560-107-2033-04-7)

Número de páginas: 128 (edição brasileira), 173 (edição portuguesa)

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Muito longe de casa, de Ishmael Beah

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Depois de quase 100 livros de países diferentes, é fácil a leitura se tornar repetitiva. Por isso, apesar das incontáveis críticas favoráveis, das traduções em todas as línguas possíveis, e das diversas edições em português (duas no Brasil), vinha adiando a leitura de Ishmael Beah. Afinal, este seria o meu terceiro livro sobre meninos-soldados num país africano.* O que ele me traria de novo?

Sabemos que a decisão sobre se um livro deve ou não ser publicado decorre sempre de interesses mercadológicos. Quanto mais polêmico o tema, maior o potencial de um livro vender, portanto maiores as chances de o autor ser editado. Esta limitação à lógica capitalista certamente condena milhões de escritores ao redor do mundo a jamais encontrarem uma editora, sobretudo quando se trata de autores oriundos de países excluídos do mapa cultural. Como resultado, grande parte dos romances africanos que tenho encontrado inserem-se fatidicamente nas mesmas velhas temáticas: a guerra, o massacre, e a miséria. Não que não se trate de sujeitos importantes. Contudo, está claro que a literatura africana não é – e nem poderia ser – só isso! Onde está a boa e bela literatura desengajada, atemporal e universal?

À revelia desta e de outras reflexões, chegou esta semana a vez de Serra Leoa. E é preciso dizer que, ao explorar mais do mesmo, Muito longe de casa traz-nos sem sombra de dúvidas algo ainda não visto. Afinal, não estamos diante de um romance, mas sim de um testemunho (palavra que eu odeio, porque geralmente exclui o valor poético e literário de uma obra) em primeira pessoa, escrito por não apenas uma testemunho ocular, mas também por um agente diretamente envolvido na guerra que nos tenta reconstruir. Mas não é só isso: a boa surpresa é que a experiência de Beah como soldado abarca menos de 20% do livro. Antes disso, temos um detalhado relato do que foi a sua vida desde que seu vilarejo foi tomado pelos rebeldes, perambulando esfomeado por cerca de um ano, a fugir da morte em cada esquina. Depois, uma igualmente extensa exposição de seu lento processo de redenção, de sua ascensão a porta-voz da Serra Leoa numa conferência da ONU em Nova Iorque, e da sua fuga à vizinha Guiné Konakri quando a guerra voltou a bater na sua porta.

Embora alguns dos fatos narrados sejam tão inacreditáveis que quase se poderia pensar numa peripécia literária (por exemplo, o fato de o vilarejo onde sua família se encontrava ter sido inteiramente destruído apenas poucos minutos antes de ele lá chegar, depois de um ano de separação), o que Ishmael Beah alcança com seu relato pungente é justamente o oposto do que eu havia temido: uma total e absoluta desromantização da guerra e de seu suposto heroísmo. Em vez disso, o ex-menino-soldado apaixonado por Shakespeare e de forte veia poética oferece-nos um relato sincero e sem rodeios das consequências de um conflito para os seus envolvidos, sobretudo no que diz respeito à dissolução do humano e à banalização da morte.

Pelo seu caráter honesto, mas também pelo fato de que se trata de um livro realmente envolvente e bem escrito, Muito longe de casa deveria se tornar uma leitura obrigatória.

* Para quem perdeu as outras resenhas:

Alá não é obrigado, de Ahmadou Kouroumá (Costa do Marfim)

Beneath the Darkening Sky, de Majok Tulba (Sudão do Sul)

 

Título original: A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier

País: Serra Leoa

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Título brasileiro: Muito longe de casa: Memórias de um menino-soldado

Edição brasileira: Ediouro (ISBN 978-850-0021-21-3)

Edição brasileira 2: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5925-42-5)

Título português: Uma longa caminhada: Memórias de um menino soldado

Edição portuguesa: Casa das Letras (ISBN 978-972-4617-27-5)

Número de páginas: 224 (Ediouro), 256 (Companhia das Letras), 284 (edição portuguesa)

O dia seguinte, de Rhidian Brook

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Uma viagem de 12 horas, seguida por 8 de espera num aeroporto nada convidativo, e de mais 2 e meia até chegar em casa – eis o pesadelo de qualquer mortal. A menos que se tenha uma excelente companhia. A minha ontem foi o romance O dia seguinte, do escritor galês Rhidian Brook.

Vinha adiando a leitura deste livro porque não sou nem nunca fui uma grande apreciadora de romances históricos, sobretudo quando passados durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, fui agradavelmente surpreendida pelo fato de que O dia seguinte não é mais um livro sobre este tema já batido, mas sim sobre o pós-guerra, ou a tentativa de restabelecimento da Alemanha um ano após a derrocada de Hitler. Para escreve-lo, Brook inspirou-se no próprio avô, que, chamado para ocupar um cargo militar em Hamburgo em 1946, recusou-se a expulsar da mansão a si atribuída a família que lá vivia, optando por coabitar com os antigos inimigos.

Eis a ‘aberração’ – do ponto de vista britânico na época – cometida por Lewis, um dos protagonistas da trama, responsável por trazer a democracia e garantir o processo desnazificação no norte da Alemanha. Recém-chegado a uma Hamburgo em ruínas, o antigo herói de guerra tem a difícil função de reconstruir o país que ajudou a aniquilar, mas comporta-se de maneira oposta a seus conterrâneos: Lewis demonstra compaixão pelos sobreviventes alemães. Atitude, aliás, oposta à de sua esposa Rachael, cega de ódio pelo povo que matou seu filho mais velho, e incomodada pela suntuosidade da vila à beira do Elba que a família passa a habitar. A convivência forçada com os antigos proprietários da mansão, um atraente arquiteto alemão e sua revoltada filha adolescente, serve no entanto para apaziguar a fria senhora e devolver todos à vida.

A trama, que se desenrola de forma novelesca, apresenta a história sob o ponto de vista de várias personagens, entre principais e secundárias, oferecendo-nos um panorama do que terá sido viver em meio aos escombros de uma Alemanha vencida. Entre órfãos da guerra (Trümmerkinder) e nazistas camuflados, todos exaustos e famintos, a aversão aos novos colonizadores faz gerar a rebelião e a nostalgia pelo retorno do Führer, sobretudo à medida em que forasteiros ideologicamente programados desprezam os vencidos e os tratam como ratos.

É certo de que Rhidian Brook não escreveu nenhum futuro clássico da literatura ocidental. Muito pelo contrário: o livro é cheio de reviravoltas rocambolescas, personagens pouco profundas, e situações tão previsíveis que quase se tornam inesperadas. É um livro, enfim, descartável, desses feitos para um leitor mediano. No entanto, trata-se ainda assim de um romance bem escrito, cuja trama é viciante, e que nos permite repensar a História. Para mim, conhecedora (e crítica) que sou da cultura alemã, sobreveio a admiração, ao lembrar-me de que o país que é hoje um dos carros-fortes da economia global, e um dos maiores defensores da União Europeia, foi há tão pouco tempo o inimigo público número um, que estrangeiros de todo o mundo aprendiam na escola a temer e a desprezar. Admiração por este país que, citando, “não [estava] acostumado a debater”, mas que não apenas “encontrou sua voz”, como tornou-se um dos maiores oradores de uma Europa pacífica e sem fronteiras.

Tudo isso são divagações minhas, e não chega a ser abordado no livro de Brook. No entanto, costumo dizer que um livro que faz viajar para além dos seus limites, que faz pensar e revisitar paradigmas, que abre pontes para analogias, deve ser sempre vivamente recomendado.

Nada como um bom best-seller para fazer uma viagem longa e aborrecida tornar-se numa experiência memorável!

 

Título original: The Aftermath

País: País de Gales

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Título brasileiro: O dia seguinte

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN: 978-858-0575-92-7)

Título português: O despertar do mundo

Edição portuguesa: Asa (ISBN: 978-989-2325-37-8)

Número de páginas: 272 (edição brasileira), 328 (edição portuguesa)

Herege, de Ayaan Hirsi Ali

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É raro que um livro publicado em inglês seja lançado quase simultaneamente no Brasil. Mais raro ainda em se tratando de um livro teórico que debate um tema que nem de longe faz parte da realidade imediata do brasileiro médio. No entanto, a pressa editorial justifica-se facilmente: livros polêmicos sobre o extremismo islâmico vendem bem.

Ayaan Hirsi Ali é mais que conhecida. Sua biografia, na qual relata sua trajetória de islamista devota a respeitada parlamentar da centro-direita holandesa, tornou-se um best-seller comemorado pelos liberais de vários países ocidentais: Finalmente uma mulher muçulmana com culhões para denunciar as atrocidades cometidas em nome de Alá! Herege, seu último livro, foi afortunadamente lançado pouco depois dos ataques ao hebdomadário francês “Charlie Hebdo”, que ela ainda conseguiu incluir em seu extenso inventário de crimes cometidos pelos adoradores de Maomé.

O livro visa provar a tese de que o islã não é uma religião de paz, como normalmente apregoa a esquerda hippie dos países desenvolvidos, mas que a violência lhe é inerente. A violação aos direitos humanos, segundo ela, encontra-se no seu cerne, uma vez que seu livro sagrado, o Corão, descreve um conjunto de regras tribais arcaicas que legitimam o estupro, o linchamento, a submissão feminina, a guerra santa e a imposição forçada de uma pretensa moralidade. Tudo isso é ricamente ilustrado com notícias sensacionalistas das principais comunidades islâmicas, que fazem da violência nas favelas cariocas uma brincadeira de crianças. A ideologia islâmica, diz a autora, ameaça concretamente os direitos adquiridos em séculos de luta no Ocidente, sobretudo agora que as ondas de refugiados trazem consigo futuros potenciais terroristas,* e tendo em conta que os árabes têm muito mais filhos que os ocidentais. Seremos, em breve, excedidos em números em nossas próprias casas, a menos que abramos os olhos e deixemos de ser condescendentes. Afinal, diz ela, o islã odeia seus inimigos mais do que ama seus filhos.

Eis o único aspecto no qual concordo com Ali: O Corão – como já antes a Torá e o Antigo Testamento – está cravado de passagens violentas que, tomadas ao pé da letra por fanáticos, justificam atentados terroristas, e servem de base a grupos como o Estado Islâmico, a Al-Qaïda e o Boko Haram. Ler os textos sagrados literalmente e tentar viver conforme seus ditames é prova de um anacronismo grotesco que não pode ser tolerado. Não podemos aceitar que as meninas do Iêmen se casem aos seis anos de idade porque o “profeta” também o fez, não podemos tolerar as perseguições aos homossexuais, a subjugação das mulheres, o delírio de um califado e o apelo da jihad porque “está escrito”.

Por outro lado, não podemos, ao tomar esses exemplos, deixar comodamente de fora todos os outros nos quais o islamismo provou-se condizente com o século XXI. Por exemplo a Malásia, regida pelo multiculturalismo. Ou a Turquia, o Marrocos, o Senegal, a Bósnia, a Albânia – a lista é longa. Em seu afã progressista, ela se atém à história única de que já falava Chimamanda, e se esquece que a história é cíclica, e que na Idade Média éramos nós os brutamontes e os árabes o pináculo cultural e tecnológico. Que talvez nem tivéssemos chegado à Renascença não fosse a Escolástica, baseada na filosofia grega que eles salvaram para nós.

Mais do que isso, não podemos esquecer, ao louvarmos o avançado Ocidente, de que ele próprio é culpado por muito do imbróglio nos países islâmicos. Tomemos como exemplo o Afeganistão, destinação turística preferida dos bichos-grilos dos anos 1970, e onde as mulheres gozavam de direitos iguais durante a dominação soviética. Quem foi que armou a então minoria ultra religiosa até os dentes, e a botou para lutar contra os capacetes vermelhos, senão os Estados Unidos? Minoria, aliás, que mais tarde ganhou força e se tornou o Talibã. Devemos chamar de kharma ou de efeito borboleta?

Mais que a falta de contextualização histórica, o que me incomoda no livro de Ali são as suas incoerências, como a voz narrativa que adere ora ao “nós” muçulmanos e ora ao “nós” ocidentais. Para não falar da anticlimática conclusão: A autora passa 220 páginas a fazer-nos um terrorismo psicológico, alegando que nosso mundo está ameaçado, que devemos abrir os olhos, que os árabes nos odeiam, para no fim… nada! Em vez de propor uma solução ou fazer sugestões concretas, ela prefere tranquilizar-nos dizendo que afinal as coisas não são tão más assim, e que a reforma já está em marcha, graças a dissidentes corajosos como ela. O que aliás até é verdade.

Ayaan Hirsi Ali consegue ser mais branca que o Michael Jackson, e seu discurso mais ferino que o de Marine Le Pen. Mas seu livro, se lido com olhos críticos, não deixa de ser interessante, sobretudo quando põe em causa a permissividade da esquerda pró-multiculturalismo, que tapa o sol com a peneira e acaba defendendo o algoz e não a vítima. Ela tem toda a razão quando fala que não se pode defender quem não defende os direitos humanos. Para mim, pessoalmente, foi um tapa na cara. Para a maioria dos leitores, no entanto, ele só vai confirmar a ideia preconcebida de que os islamistas são um povo retrógrado, selvagem e preso na Idade Média. O que está longe de ser verdade.

 

* Fez pensar na charge polêmica do Charlie Hebdo. Mas essa, pelo menos, continha ironia.

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Título original: Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now

País: Somália

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5925-87-6)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 272

A irmã de Freud, de Goce Smilevski

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Viena, 1938. Quatro velhas judias imploram ao irmão que as inclua em uma lista para obter um visto para fora de uma Áustria ocupada pelos nazistas. Impassível às suas súplicas, o homem segue caminho para a Inglaterra, onde morrerá pouco depois, deixando para trás as quatro mulheres, que perecerão todas num campo de concentração. O que choca o leitor não é apenas sua frieza, nem o fato de que ele poderia facilmente tê-las salvo, já que conseguiu fazer o mesmo com seu médico, suas criadas, e até mesmo seu adorado cachorro. Mais do que isso, o que incomoda é saber que esse Schindler ao contrário é nada menos que o aclamado psicanalista Sigmund Freud.

Os apologistas de Freud ficarão provavelmente incomodados com sua imagem enigmática e fria tecida pelo escritor macedônio Goce Smilevski. Aqueles que, como eu, consideram o “pai da psicanálise” um enorme charlatão e misógino chauvinista até se divertirão com a ideia do autor. Na verdade, A irmã de Freud será um prato cheio para todos os fãs da belle époque vienense, que encontrarão nele um Gustav Klimt ninfomaníaco e sua irmã sufragista, Martha Freud e sua irmã Minna Bernays, e até mesmo uma envelhecida Ottla Kafka – a irmã preferida do famoso escritor tcheco – pronta a se sacrificar por um grupo de órfãos desconhecidos. Pois o livro de Smilevski é mesmo isso: um livro de irmãs sofredoras, de mulheres fortes e frágeis vivendo à sombra de seus adorados irmãos brilhantes numa sociedade paternalista na qual não lhes era dada a chance de desenvolverem seu potencial.

Se este é o lado positivo da história, é preciso dizer que o negativo também faz pensar no médico vienense que A irmã de Freud tenta demonizar. Afinal, chega a ser uma ironia que um livro dedicado ao maior estudioso das camadas profundas da mente humana tenha uma profundidade psicológica na construção das personagens beirando o zero. Adolfina, a protagonista-narradora, narra-nos sua vida atendo-se mais aos fatos que a suas causas e consequências, e o faz numa tal velocidade que temos a impressão de que mal chegamos a conhece-la de fato. Isso se aplica, pelo menos, até o seu ingresso num hospital psiquiátrico, a partir do que as páginas se arrastam em descrições longas e fastidiosas, citações de famosos sobre doenças mentais, num verdadeiro (e desnecessário) ensaio sobre a loucura. As relações familiares, os vínculos afetivos entre Adolfina e as outras irmãs, os motivos pelos quais uma delas ficou cega, e até mesmo a razão pela qual Sigmund teria decidido “abandonar” a própria família num ninho de antissemitas – tudo isso, ao contrário, permanece inexplicado. Falta o elo que interliga os elementos da trama, falta o fio de Ariadne que nos permite compreender a chocante primeira cena, que por isso mesmo acaba se tornando desnecessária, polêmica, sensacionalista. Fórmula barata para se fazer best sellers, para se vender milhões de cópias no mundo, mas de maneira alguma fórmula para se escrever um livro de qualidade.

Tudo isso, na verdade, é mesmo uma grande pena, já que o material histórico era fascinante, o ponto de partida excelente, e a qualidade narrativa também não era das piores. Uma excelente ideia, enfim, nas mãos de um escritor sem o talento necessário para a desenvolver. Pérolas jogadas aos porcos.

 

Título original: Sestrata na Sigmund Frojd

País: Macedônia

Idioma original: macedônio

Ano de publicação: 2007

Edição brasileira: Bertrand Brasil (ISBN978-852-8617-28-3)

Edição portuguesa: Alfaguara (ISBN 978-989-6721-65-7)

Número de páginas: 336 (edição brasileira), 332 (edição portuguesa)

A evolução de Calpurnia Tate, de Jacqueline Kelly

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Desde que ouvi falar de Calpurnia Tate, o livro tornou-se-me uma pequena obsessão. Encaixá-lo no meu plano geográfico de leitura até que não era difícil, mas não seria algo desonesto? Afinal de contas, mesmo que sua autora seja originária da Nova Zelândia, a história se passa nos confins do Texas. Por fim, venceu a curiosidade: mesmo consciente de que existem centenas de outros livros muito mais neozelandeses à espera de serem lidos, desta vez teve mesmo de ser.

A evolução de Calpurnia Tate é o primeiro de dois romances históricos infanto-juvenis protagonizados por Calpurnia, ou Callie Vee, uma menina de onze anos que nada tem de conformista. Oriunda de uma família de abastados fazendeiros, Callie cresce como a única filha ao lado de seis irmãos, três mais velhos e três mais novos, tornando-se, graças à ausência de modelos femininos, numa verdadeira maria-rapaz. Em vez de dedicar seu tempo a tarefas convencionalmente femininas, Calpurnia prefere correr livre pelos campos e, estimulada por um avô misantropo, dar asas à sua curiosidade científica e investigar os mistérios da natureza. Tarefa esta em nada reprovável, não fosse pelo fato de estarmos a falar do ano de 1899, uma época em que pouco se esperava das mulheres além de que soubessem costurar, bordar e manejar uma cozinha.

De maneira geral, pode-se dizer que Calpurnia Tate é um livro bem-sucedido: a história é bem escrita, a narrativa em primeira pessoa funciona de fato, e a trama, situada em plena virada do novo século, remete seus jovens leitores a uma época que pode lhes parecer tão distante quanto a Idade Média. Uma época na qual as mulheres tinham poucos direitos, mas na qual, por outro lado, tudo parecia possível: com o advento do telefone, o avanço das vias telegráficas, bem como a invenção do automóvel, antevia-se uma modernidade latente e irrefreável, repleta de maravilhas capazes de revolucionar a micro e a macro-história. Nesse sentido, trata-se de um romance que eu sem dúvida recomendaria aos meus alunos – e sobretudo alunas – de doze anos de idade. Mas, se é assim, qual o problema?

Desta vez, o problema, na verdade, não está no livro, mas sim fora dele: a propaganda, eterna alma do negócio e algoz das nossas expectativas, pintou o romance de Kelly com cores muito diversas, vendendo-o como se fosse um Mundo de Sofia das ciências naturais. Ora, numa época como a nossa, na qual cai por terra o mito da pretensa igualdade entre os sexos, e se tenta reinventar o papel da mulher na sociedade, um livro que fizesse despertar o interesse das meninas pelos mistérios do universo poderia ter sido muito bem vindo. Se bem realizado, ele poderia ter mesmo sido um contributo essencial para fazer despertar na nova geração um interesse por carreiras tipicamente masculinas, revisitando os velhos paradigmas que confinam o “sexo frágil” às ciências humanas. No entanto, realizar tal proeza não é nem nunca foi o intuito de Kelly, muito mais preocupada em oferecer-nos um panorama das relações familiares e dos pequenos dramas cotidianos de uma menina fascinada por Darwin.

Apesar das expectativas frustradas, é preciso admitir que A evolução de Calpurnia Tate é, em seu gênero, um livro bom, que certamente cumprirá o seu intuito de entreter o jovem público ao qual está destinado. No entanto, é inevitável lamentar a oportunidade desperdiçada de fazer algo realmente inovador. Afinal, se quiséssemos tão-somente descobrir a realidade das crianças do século XIX, poderíamos ter ficado com Uma casa na campina.

A revolução feminista ainda não foi desta vez.

 

Título original: The Evolution of Calpurnia Tate

País: Nova Zelândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Única (ISBN 978-856-7028-41-5)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6660-99-4)

Número de páginas: 384 (edição brasileira), 248 (edição portuguesa)

 

 

 

O tempo entre costuras, de María Dueñas

Dueñas, Costuras

Depois de pouco mais de um mês de ausência, o blog oquevcestalendo volta à ativa com a resenha de um livro de peso – pelo menos no que compete ao tamanho do calhamaço: trata-se de O tempo entre costuras, o primeiro e aclamado romance da escritora espanhola María Dueñas, que mescla história e ficção numa narrativa rápida e levemente viciante.

O livro narra a trajetória de uma costureirinha madrilena, filha de mãe solteira, tornada, graças a uma série de coincidências, em espiã pró-inglesa em plena Segunda Guerra Mundial. Sira Quiroga, uma autêntica filha da classe operária, está às vésperas de se casar quando conhece Ramiro, um charmoso vendedor de máquinas de escrever. Por ele, a rapariga abandona o noivo, a mãe, a religião, e os planos pequeno-burgueses, tornando-se a amante de um homem cobiçado, frequentador de círculos aos quais jamais adaptar-se-ia. Quando, às vésperas da Guerra Civil Espanhola, seu pai biológico surge do nada e lhe oferece uma parte da herança familiar, Sira não hesita em entregar a pequena fortuna nas mãos do amante. Como seria de se esperar, o amor não duraria para sempre, e Sira logo será descartada em pleno protetorado marroquino: grávida, sem um centavo, com uma dívida pendente, e um processo judicial à sua espera numa Espanha arrasada pela guerra. Para sobreviver, a menina fútil de outrora terá que se reinventar, e se tornará a talentosa costureira Sirah, uma espécie de Coco Chanel de pouca cultura; e, mais tarde, a misteriosa Arish, suposta mulher do mundo, trabalhando para os ingleses “porque calhou”, mesmo sem entender de fato os mecanismos da guerra.

O romance, que já se encontrava na minha lista há quase um ano, foi-me calorosamente recomendado durante uma viagem a Sevilha, mas precisava de tempo para ser lido, e por isso foi sendo deixado para depois. O que, aliás, acabou por ser uma escolha acertada, já que faz mesmo o gênero de leitura para as férias de verão: leve e ligeiramente naïve, mas ao mesmo tempo bem escrito e interessante, abordando um tema complexo de forma quase simplista (os críticos mais machistas diriam mesmo que se trata de “literatura para mulherzinha”). O que, no entanto, não desmerece de todo o trabalho da autora. Afinal, os méritos da então iniciante Dueñas são irrefutáveis: o livro obteve sucesso sem igual no mercado literário, sendo traduzido quase instantaneamente para 25 idiomas, e ganhando mesmo, um ano após o seu lançamento, uma versão televisiva. Ou seja, o sonho de qualquer escritor de primeira viagem.

Embora não chegue a um livro bom, trata-se ainda assim um bom livro. Seu grande sucesso se deve à escolha do tema, sempre atual, que faz o leitor viajar de Madrid a Tanger, de Tetuan e Lisboa, mas também à forma leve escolhida para dar forma ao material histórico, à linguagem simples, e à opção narrativa acertada pela primeira pessoa. Embora o leitor mais exigente não deixe de franzir o cenho diante dos lugares-comuns, do maniqueísmo sem profundidade na fórmula ingleses = mocinhos e alemães = vilões, da facilidade com que as peças se encaixam, e do inevitável happy end, O tempo entre costuras será certamente um bom companheiro para longas viagens de ônibus, noites insones de verão, e tardes à beira da praia.

Título original: El tempo entre costuras

País: Espanha

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2009

Título em português: O tempo entre costuras

Edição brasileira: Planeta do Brasil (ISBN: 978-857-6655-43-5)

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN: 978-972-0045-58-4)

Número de páginas: 480 (edição brasileira), 624 (edição portuguesa)

A cidade do sol, de Khaled Hosseini

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Estados Unidos, logo após os atentados de 11 de setembro de 2001: toda a população árabe, e particularmente a afegã, sofreu enormes represálias simplesmente pelo fato de existir e viver nessa terra estrangeira. Mulheres vestindo o véu eram agredidas nas ruas, meninos em idade escolar ostracizados como se portassem em suas pequenas mochilas uma bomba pronta a dizimar cidades inteiras. Todos eles pareciam portar o estigma do mal, herdeiros de Osama Bin Laden e dos talibãs. Nesse contexto particularmente difícil, Khaled Hosseini, um escritor afegão radicado nos Estados Unidos, conseguiu realizar aquilo que parecia ser um milagre: transformar um romance belo e simples, ambientado nas ruas de Kabul, num best seller que abriria a mente – e o coração – de milhões de leitores à história recente e à cultura desse país marcado pelo sofrimento. Trata-se de “Os caçadores de pipas”, transformado pouco mais tarde num filme de igual sucesso.

Alguns best sellers e muitos milhões de dólares mais tarde, o porta-voz oficial do Afeganistão no chamado “primeiro mundo” lança um novo romance, aclamado pela crítica e festejado pelos leitores. “A cidade do sol” narra a história de vida de duas mulheres deveras diferentes, Mariam e Laila, cujo destino se entrecruza em consequência da guerra. Mariam, uma bastarda, foi criada num casebre isolado no alto de um monte, e mal teve contato com o mundo até ser coagida a casar-se com um homem trinta anos mais velho em seguida ao suicídio da mãe. Laila, vinte anos mais nova, cresceu perambulando pelas ruas de Kabul ao lado de um amigo perneta, gozando todas as liberdades de ser filha de um ex-professor universitário, em plena época da dominação soviética. Até que o destino fizesse de Laila uma órfã obrigada a tornar-se a segunda esposa do marido de Mariam, as duas certamente pouco teriam a dizer uma à outra; as circunstancias fazem, contudo, nascer da miséria e da tragédia uma amizade com laços inquebrantáveis.

Mulheres belas, oprimidas, e cheias de sonhos, vivendo numa sociedade falocêntrica em tempos de guerra, obrigadas a transformarem-se em verdadeiras mártires em nome dos filhos – sejam eles naturais ou eletivos: eis, colocada em poucas linhas, a fórmula de um romance de sucesso. Tudo isso, é claro, associado às inegáveis capacidades de Hosseini como contador de histórias, de tal forma proeminentes que o leitor dificilmente botará o livro de lado antes de chegar à última página. Mas, então, onde está o problema?

O que falta, na minha opinião, aos romances de Khaled Hosseini, é algo que o grande público estadunidense dificilmente aceitaria: profundidade histórica. Ao falar da guerra e do cenário que tanto fascina e assusta os leitores – a ascensão dos talibãs -, Hosseini deixa claro quem são mocinhos e bandidos, e evita tocar em questões essenciais que nos permitiriam entender o intricado contexto no qual os terroristas do 11/09 se inserem. Como, por exemplo, a própria (e não pouca) participação dos Estados Unidos nesse imbróglio. O resultado é uma literatura naif, repleta de belas e tristes histórias de amor e amizade, situadas num cenário exótico e distantes, mas que perde uma oportunidade essencial de fazer aquilo que a verdadeira boa literatura geralmente costuma fazer: um convite à reflexão.

Como literatura de entretenimento, “A cidade do sol” é certamente uma escolha acertada, que não deixará de extrair bons baldes de lágrimas do mais cético dos leitores. Mas é só. Embora – e eis o que é imperdoável – pudesse ter sido muito mais.

Título original: A Thousand Splendid Suns 

País: Afeganistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Titulo brasileiro: A cidade do sol

Edição brasileira: Nova Fronteira (ISBN: 978-852-0935-52-1)

Título português: Mil sóis resplandecentes

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2339-08-7)

Número de páginas: 368 (edição brasileira), 324 (edição portuguesa)

Artemis Fowl, de Eoin Colfer

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O que esperar de um livro envolvendo duendes e fadas, cujo protagonista é um gênio do crime de onze anos de idade? Ao ouvir falar da famosa série irlandesa Artemis Fowl, pensei que seria a leitura perfeita para as férias: um livro relativamente curto (cerca de 300 páginas), fácil e rápido de ler, que far-me-ia reviver, embora com espírito crítico, as impressões do primeiro Harry Potter há mais de uma década.

Pensando bem, o enredo poderia ter dado uma noção do que viria a seguir. Artemis II, um milionário mimado, descende de uma família de vigaristas profissionais, e se encontra à disposição de seus maiores devaneios em seguida ao desaparecimento do pai e à loucura da mãe. Acompanhado tão somente por seu mordomo fisiculturista Butler e a irmã adolescente deste, o menino tristonho e sem amigos decide empreender uma façanha ousada a fim de recuperar a riqueza da família: roubar o ouro das fadas. Para isso, consegue usurpar um exemplar do livro mágico do povo belo, que traduz com a ajuda de um computador superpotente. Enquanto isso, nas profundezas da terra, a agente especial da LEP (a polícia dos leprechaums) Holly recebe uma importante missão junto ao “povo da lama” (ou seja, nós, os humanos), e em um momento de distração acaba sendo raptada pelo ardiloso Artemis. Nem toda a tecnologia e sabedoria milenar do povo subterrâneo é capaz de proteger o mundo mágico das artimanhas do anti-herói mais antipático da história da literatura.

A milionária série infanto-juvenil Artemis Fowl, cujo sucesso pode ser comparado ao de outras do gênero, como Desventuras em Série, insere-e num nicho comercial bastante específico: o dos leitores pré-adolescentes, uma camada da população cada vez mais ativa no mercado de consumo. Como tal, seria de se esperar que estivéssemos diante de um “easy read”, o que no entanto não forçosamente quereria dizer que seus livros fossem de tal forma descartáveis. Ora, a julgar pelo primeiro, é mesmo este o caso. Não existe profundidade psicológica, nenhuma das personagens principais é minimamente carismática, e a história poderia ser considerada estrambólica até mesmo por uma criança da escola primária. A começar pela facilidade absurda com a qual o mimado e intragável menino humano consegue driblar um povo cujas capacidades bélicas e tecnológicas deveriam, a princípio, ser incorruptíveis. Basta dizer que o mordomo truculento consegue dar cabo facilmente de um troll – portanto muito diferente daqueles a que estamos habituados na tradição da literatura fantasy (O Senhor dos Anéis, Harry Potter e companhia). Aos poucos, tem-se a impressão de que o único motivo pelo qual o ouro das fadas nunca foi roubado antes é ninguém jamais ter reparado nelas. E, na falta de personagens suficientemente simpáticas com quem nos identificar e para quem torcer, não seria de surpreender se resolvêssemos simplesmente fechar o livro.

Será esta resenha cínica e rabugenta um sinal da velhice de sua autora? Será a sua vontade incessante de dar umas boas chineladas no traseiro doprotagonista uma amostra de que já não tenho mais idade – ou disposição – para entender um livro destinado ao público jovem? É possível, mas duvido. Afinal, embora não seja uma fã assumida do gênero, continuo a saber apreciar os bons exemplares da literatura infanto-juvenil. Simplesmente, o primeiro livro da série Artemis Fowl não é um deles.

Título original: Artemis Fowl

País: Irlanda

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2001

Título brasileiro: Artemis Fowl: O menino prodígio do crime

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1060-88-4)

Título português: Artemis Fowl: O ouro das fadas

Edição portuguesa: Dom Quixote (978-972-2022-24-8)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 264 (edição portuguesa)

Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier

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Uma mulher, talvez – talvez não – à beira de cometer suicídio, cruza-se com um homem numa ponte num dia de tormenta. Quando um número de telefone lhe vem à mente, ela, como qualquer pessoa normal, serve-se mais que rapidamente de uma caneta e o escreve… na testa do desconhecido! Ele, enfeitiçado pelo efeito da mulher misteriosa, decide levá-la para assistir uma aula sua num liceu de Berna. Ao olhar-se no espelho do lavabo, decide não apagar o número da testa. No meio da aula, a mulher vai embora, e já nunca mais ouviremos falar dela. Quanto ao número de telefone, diga-se de passagem, também nunca será usado. Mas o arrebatamento pela língua falada pela estranha (o português) é tamanho que o homem decide dirigir-se a uma livraria hispânica, pegar no primeiro livro em português que encontra, e precipitar-se para fora de sua vida monótona em busca… da mulher da ponte? Não! Do autor do livro, está claro. Porque a trama deste livro faz mesmo muito sentido.

Trem, ou Comboio, noturno para Lisboa trata do “encontro” entre duas personagens egoístas, enfadonhas, arrogantes, e incapazes de viver no mundo real: Gregorius, um professor de línguas clássicas suíço, e Amadeus, o escritor, um médico português falecido há algumas décadas. Os nomes dos protagonistas foram mesmo bem escolhidos: condizem fielmente com as suas personalidades.

Filho insuportavelmente mimado da aristocracia lisboeta, desses que culpam o pai pelos problemas da humanidade, Amadeus era tão focado na imagem que dele faziam que decidiu tornar-se militante para melhorar sua autoestima. Gregorius, o suíço enfadonho, identifica-se com seus escritos, e decide bancar o Sherlock e reconstruir a trajetória de Amadeus. Se é que se pode chamar Sherlock a alguém predestinado a descobrir a história toda: ele simplesmente tropeça na vida do escritor em cada pedra de uma Lisboa convenientemente “realojada” para se transformar em cenário. No primeiro cemitério em que entra, lá está a sua tumba. A oftalmologista que o atende é logo a sobrinha de um antigo companheiro. E realojamentos é o que não falta: Mercier não apenas reescreve o percurso do Elétrico 28, como também o curso da própria História, falando em “esbirros de Salazar” em plenos anos 1970, embora o ditador tenha pendurado as chuteiras já em 1968. Mas nem são as incoerências históricas, geográficas ou comportamentais o que mais incomoda no Comboio. Mais irritante ainda é o filosofismo carregado de pedantismo, desses de cansar beleza até de estátua de mármore, sobretudo no “livro dentro do livro”: páginas intermináveis do blablá auto-piedoso de Amadeus.

Terá sido por vergonha que o autor, Peter Bieri, optou por publicar o livro sob o cognome de Paul Mercier? Ou terá sido um trocadilho com o inglês, um pedido implícito de mercy (piedade) aos críticos literários? Seja como for, a dura realidade é que Trem noturno tornou-se rapidamente num fenômeno de vendas, ganhando rapidamente uma versão cinematográfica um bocado menos medíocre. Freud explica?

Em um determinado momento, Gregorius, o arrogante número 1, afirma que existem dois tipos de pessoas – as que leem, e as que não leem, e que é fácil distingui-las. Correndo o risco de ofender muita gente, mas mantendo-me fiel ao meu princípio de não empregar eufemismos, permito-me fazer uma correção. O que existe não são dois, mas três tipos de leitores – os que leem, os que não leem, e os que leem livros como o de Pascal Mercier. Infelizmente, sou obrigada a me incluir nesta terceira categoria.

 

Título original: Nachtzug nach Lissabon

País: Suíça

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2004

Título brasileiro: Trem noturno para Lisboa

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1083-48-7)

Título português: Comboio nocturno para Lisboa

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN: 978-972-2029-83-4)

Número de páginas: 462 (edição brasileira), 424 (edição portuguesa)