A pequena fortuna de Dorothea Q, de Sharon Maas

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Quem disser que nunca julgou um livro pela capa é um grande mentiroso. Por mais que nos esforcemos, é difícil não nos deixarmos influenciar pelo trabalho de manipulação minuciosamente pensado (ou não) pelo editor para nos convencer (ou não) a consumir o produto livro. No caso de A pequena fortuna de Dorothea Q, um excesso de clichês, uma horrorosa combinação de amarelo, azul e cor de rosa, bem como uma diagramação digna de “romances de mulherzinha” quase iam me fazendo desistir. Mas digamos que não é assim tão fácil encontrar um livro vindo originalmente da Guiana, de modo que, mais do que qualquer outra coisa, o romance da escritora guianesa Sharon Maas me venceu sem convencer. Falou mais alto a falta de opção. E que bom!

Se não será o próximo Prêmio Nobel da Literatura (se bem que nunca se sabe), A pequena fortuna de Dorothea Q é um livro cativante, atraente e divertido. Mais que um romance monofocal, trata-se de uma pequena saga familiar que acompanha três gerações de mulheres da família Quint: a matriarca Dorothea, sua filha Frederika (Rika) e neta Inky. Por meio de uma trama não cronológica, acompanhamos os momentos mais importantes do clã guianense, desde a bucólica Georgetown do início do século XX, até a frenética cidade de Londres nos dias de hoje. No centro da trama encontra-se um pequeno tesouro familiar: um selo extremamente raro, conhecido como o “One Cent Magenta”, emitido na capital da Guiana em 1856, e conhecido globalmente como o selo mais caro do mundo.

Embora não se trate de forma alguma de um sentimento homogêneo, boa parte do tempo temos a impressão de estar lendo um dos romances antigos de Isabel Allende. É certo que o carisma das personagens principais parece que se vai perdendo a cada nova geração, chegando mesmo a ser difícil se relacionar com os dilemas adolescentes da – tirando a curiosidade intercultural – inócua Inky. Mas estas falhas são largamente compensadas por um exotismo bem temperado, por uma trama bem cozida e por um agradável vislumbre desse país tão próximo e ainda assim tão distante, cujas paisagens poderiam ser as mesmas de Jorge Amado, mas cujo ambiente sócio-político-cultural distingue-se em quase tudo da realidade brasileira.

Se é verdade que o excesso de melodrama pode incomodar qualquer leitor menos inclinado à telenovela, a história ainda assim permanece interessante até a última página, e algumas de suas cenas eventualmente permanecerão por um bom tempo no imaginário do leitor. Em suma, pode-se dizer que A pequena fortuna de Dorothea Q é o livro perfeito para aqueles longos dias passados na espreguiçadeira durante as férias de verão, perfeitamente inadequados a um Proust ou a qualquer outra leitura intelectualmente mais exigente, mas nos quais ainda assim ansiamos por um pouco de poesia.

 

Título original: The Small Fortune of Dorothea Q

País: Guiana

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição inglesa: Bookouture (ISBN 978-190-9490-58-1)

Número de páginas: 480

História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, de Luis Sepúlveda

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Embora esteja pela primeira vez em dois anos repetindo um país, esta semana teve que ser. Explico-me: foi uma semana particularmente apertada, na qual estive responsável por 21 pré-adolescentes 24 horas por dia; portanto, entende-se que tinha que ser um livro fácil. Por outro lado, minha decisão por este livro justifica-se facilmente. Afinal, trata-se de uma historieta de valor inigualável, e de um dos mais belos livros da literatura do século XXI, que o meu leitor – sobretudo num dia sombrio como este – merece conhecer: a novela História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, do grande mestre chileno Luis Sepúlveda.

Sepúlveda, que já tinha encantado o mundo em 1996 com a história de outro gato, Zorbas, que ensinava uma pequena gaivota órfã a voar, publicou recentemente a fábula de uma amizade improvável, repleta de filosofia e de frases inesquecíveis. A história se passa na cidade de Munique, na Alemanha, onde um pequeno gato negro de peito branco e perfil grego chamado Mix cresce ao lado de seu amigo humano, o menino Max. Com o tempo, o menino se torna homem, deixando a casa dos pais, e mudando-se com o amigo gato para um pequeno apartamento no topo de um prédio. Mix, que já não tem mais a vitalidade de outrora, começa aos poucos a perder a visão. Sem que se dê conta, a cegueira tolhe-lhe as liberdades de gato, impossibilitando seus passeios pelo topo dos prédios, e fazendo com que seus dias transcorram sempre iguais. A monotonia, no entanto, é quebrada pela chegada de Mex, um pequeno e falador ratinho mexicano, fugido de uma gaiola de vidro diretamente para a biblioteca de Max. Assim, os dois animaizinhos passam a coabitar e a compartilhar suas experiências de vida, aprendendo com as diferenças e enriquecendo seus cotidianos por meio do respeito e do companheirismo.

Estamos diante de uma história para crianças, ou de um livro para adultos fantasiado de infantil? Nem uma coisa nem outra, ou as duas ao mesmo tempo: sua mensagem singela, bem como seu valor universal, fazem que ele ecoe no imaginário de qualquer faixa etárea. Com o tempo, estou segura de que esta novela acabará por se tornar num clássico do valor de O Pequeno Príncipe. Para isso, no entanto é preciso descobri-la. Leiam-na, releiam-na, ofereçam-na. A todos aqueles que reconhecem o valor de uma verdadeira amizade. E a todos aqueles que merecem o reconforto de uma boa história.

 

Título original: Historia de Max, de Mix y de Mex

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2012

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN: 978-972-0044-80-8)

Número de páginas: 64

Monasterio, de Eduardo Halfon

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Desde que cheguei à Europa, sempre me incomodou uma pergunta inevitável: qual a sua origem? Pela perspectiva brasileira, a origem de uma pessoa está relacionada ao país onde ela nasceu – afinal, seria absurdo indagar sobre as raízes familiares de alguém num país tão miscigenado, exceto talvez durante as aulas de geografia. A maioria dos brasileiros nem o saberia dizer. Mais tarde, no entanto, descobri que a resposta a esta pergunta não é tão preto no branco assim. Como alguém nascido na Alemanha, com pais e avós nascidos na Alemanha, mas que até hoje não obteve direito à nacionalidade alemã poderia considerar-se alemão? E o que falar da superioridade arrogante de alguém nascido num país “marginal”, criado num gueto cultural do país de seus pais, que nunca fez sequer o esforço de aprender a língua da terra onde veio ao mundo?

Ainda mais complicada é a situação de um guatemalteca judeu, ¾ árabe e ¼ polaco, que não fala uma palavra de polonês, árabe ou hebraico, mas que é tão fisicamente distinto dos homens de sua terra natal que é frequentemente tratado como “gringo”. Eis o dilema que descreve Eduardo Halfon em sua novela Monasterio.

O livro, que poderíamos chamar de autobiografia ficcional, começa com a chegada do protagonista e seu irmão no aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, onde pretendem participar do casamento da irmã caçula, reconvertida em judia ortodoxa, com um judeu americano ultraconservador. Autodeclarado ateu, hispânico e guatemalteca, Eduardo se sente incomodado com a imposição social que o obriga a se sentir judeu, e tenta romper com um passado que não lhe pertence. Ao mesmo tempo, no entanto, percebe que também não se encaixa na sociedade guatemalteca, e acaba se sentindo como uma espécie de híbrido indefinido, eternamente fadado ao meio do caminho.

Em uma série de sequências curtas, que não obedecem forçosamente a ordem cronológica, Halfon faz-nos viajar por três continentes, enquanto percorre as ruas de Tel Aviv, Nova Iorque, Antigua e Łódź, e até mesmo a fronteira entre a Guatemala e o Belize, numa série de situações interligadas pelo tema do sentimento de identidade. Cada uma dessas narrativas curtas e interessantes poderia, por si só, ter dado origem a um romance completo. Assim, é com um certo pesar que o leitor se despede de cada capítulo, embora reconheça que a riqueza deste livro inovador reside justamente em seu caráter fragmentário. O que melhor que o patchwork para definir uma história de vida tão particular?

Aclamado pela crítica internacional, Eduardo Halfon destaca-se hoje em dia como um dos mais talentosos escritores latino-americanos da chamada “nova geração” – a qual, entretanto, já vai deixando de ser assim tão nova. Monasterio faz certamente justiça à enxurrada de críticas positivas que o autor tem recebido, mas ainda não foi traduzido para o português. Quem não quiser esperar para descobrir o seu trabalho, pode começar por outros livros já traduzidos, como O anjo literário e O boxeador polaco. Afinal, a julgar pela primeira impressão, optar por este autor é uma escolha sempre certa.

 

Título original: Monasterio

País: Guatemala

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição em espanhol: Libros del Asteroide (978-841-5625-77-3)

Número de páginas: 128 (edição em espanhol)

Los Afectos, de Rodrigo Hasbún

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Ouvi falar de Rodrigo Hasbún tão logo iniciei minhas pesquisas para este blog, mas me retive até o momento devido ao preço extraordinariamente caro dos seus livros, cuja comercialização dificilmente chega ao Brasil ou a Portugal.

Boliviano de Cochabamba, Hasbún tem apenas 34 anos, mas já é conhecido como um dos escritores mais talentosos da América Latina. Lançado há poucos meses, Los Afectos consiste no seu mais recente trabalho. Trata-se de um livro curto, contendo pouco menos de 150 páginas, cuja classificação oscila entre a novela e o romance. Baseado em fatos reais, o livro relembra um episódio pouco comentado da história do século XX: o assassinato em Hamburgo do cônsul boliviano Roberto Quintanilla Pereira, um dos principais responsáveis pela morte de Che Guevara, pela bela guerrilheira Monika Ertl, eternamente lembrada como “a vingadora de Che”.

Originariamente de Munique, a família Ertl mudou-se para a Bolívia em meados dos anos 50, trazendo consigo uma biografia pitoresca. Hans Ertl, o patriarca, foi um famoso cinegrafista e aventureiro, tendo não apenas trabalhado ao lado de Leni Riefenstahl nos seus mais famosos trabalhos de propaganda hitleriana, mas também escalado alguns dos mais imponentes picos do mundo. A trama tem início com a expedição realizada por Hans nas profundezas da selva boliviana, em busca do legendário reino de Paitití, uma espécie de Eldorado dos Incas. No livro, cujo caráter ficcional é enfatizado desde o princípio, Hasbún foca nas conturbadas relações familiares do clã Ertl a partir da expedição, até a dissolução completa dos laços existentes entre eles em meados dos anos 1970. Para isso, elege não apenas um único, mas uma série de narradores em primeira pessoa: as filhas Monika, Heide e Trixi, bem como, em menor medida, Reinhard, um dos amantes de Monika.

A julgar pela leitura de Los afectos, é possível dar-se conta dos motivos pelos quais a literatura de Hasbún tem sido tão celebrada. Afinal, o pequeno livro encontra-se repleto de escolhas bem feitas, como por exemplo abdicar de um fundo histórico por si só cativante, em nome de um estudo aprofundado das relações de família. Com isso, o enfoque é retirado das biografias peculiares de seus protagonistas, e passa a residir no que elas partilham com todos os seres humanos: suas dúvidas, frustrações, bem como o desvanecer lento e gradual de todas as suas utopias, desde o amor ou a glória, até a justiça social. O sucesso dessa ousada empreitada na psique humana é obtido através de uma polifonia dura e crua, que confunde o leitor ao ponto de o obrigar a voltar muitas vezes para o início do capítulo, mas que sem dúvida consiste num dos mais bem-sucedidos aspectos do livro.

A julgar por esse livro, nota-se que não é exagero considerar Rodrigo Hasbún uma das maiores promessas da atual literatura latino-americana. Não é mesmo grave o fato de que a literatura de um país vizinho possa nos ser tão pouco acessível?

 

Título original: Los afectos

País: Bolívia

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2015

Edição em português: não encontrada

Edição em espanhol: Random House (ISBN 978-843-9730-60-6)

Número de páginas: 144

Asco, de Horacio Castellanos Moya

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Dos cerca de cinquenta países nos quais já estive, o El Salvador está certamente no topo da lista. Foi com grande felicidade que encontrei Horacio Castellanos Moya, que, embora um dos nomes mais proeminentes da literatura centroamericana, para boa parte de nós não passa de um ilustre desconhecido. Embora o título já deixasse entrever seu conteúdo, foi com uma certa nostalgia por esse país simpático e bucólico que me aproximei de Asco. Mas o que encontrei foi muito diferente do que estava à espera: uma declaração de ódio explícita e visceral à República do Salvador.

Asco consiste numa espécie de monólogo de pouco mais de cem páginas, sem cortes de capítulos e com muito poucas mudanças de parágrafos, vituperado pela personagem Edgardo Vega, um salvadorenho inconformado com as suas origens, que se encontra na terra natal para o enterro da mãe após um exílio voluntário de dezoito anos no Canadá. Durante quase duas décadas, Edgardo não poupou esforços para apagar de si todas as marcas de seu país de origem, formando-se em História da Arte, adotando a nacionalidade canadense, e até mesmo mudando de nome, passando a se chamar Thomas Bernhard – como o escritor austríaco cujo estilo Moya procura imitar. No entanto, o que todo esse tempo não conseguiu apagar foi a aversão que ainda sente por um povo que considera asqueroso e sem cultura. Por meio de uma verborragia que poderia ser chamada de “vomitório de palavras”, Edgardo, ou Thomas, desconstrói a história e a cultura salvadorenhas recentes, passando da política aos hábitos socioculturais da população, não deixando escapar nem a cerveja, nem o futebol, e nem mesmo as deliciosas pupusas (tortilhas de milho recheadas, cozinhadas muitas vezes ao ar livre, verdadeiro estandarte da culinária salvadorenha).

Mas que ninguém se deixe assustar pelas longas frases e poucas pausas: trata-se de um texto acima de tudo bem escrito, o que gera uma leitura fluida e fácil de seguir. Por vezes, mesmo o leitor mais experiente poderá se deixar confundir pela voz narrativa de Vega: trata-se de um reflexo das opiniões do autor, ou ao contrário de um elogio às avessas, uma crítica àqueles que criticam o país? Quem não gostou da brincadeira foram seus conterrâneos salvadorenhos, de quem Moya chegou a receber ameaças de morte, o que o impediu por um bom tempo de pôr os pés na terra natal.

À exceção das referências à guerra recente, muito da crítica construída por Moya adequa-se à realidade que vivemos no Brasil. E isso acaba por fazer seu discurso tornar-se contagiante: qualquer olhar observador conseguirá traçar paralelos e fazer suas as palavras de Asco. O discurso direitista, reacionário, irracional, construído no melhor estilo metralhadora giratória, faz lembrar algumas baboseiras anti-governo que vemos circular nas redes sociais – mas não é que até o mais esquerdista dentre nós também se deixará identificar com ele? O que não deixa de ser uma descoberta assustadora e dolorosa.

Mas que fique bem claro: as pupusas continuam a ser um dos meus pratos preferidos!

Título original: El asco – Thomas Bernhard en San Salvador

País: El Salvador

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 1997

Edição brasileira: Rocco (ISBN: 978-853-2528-25-4)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 112 (edição brasileira)

O teatro do bem e do mal, de Eduardo Galeano

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No último dia 13 de abril, o mundo perdeu – numa cajadada só – dois dos grandes pilares da literatura do século XX. Um deles, o inesquecível Nobel da Literatura Günter Grass; o outro, um dos mais destacados escritores e pensadores da América Latina: o já saudoso mestre uruguaio Eduardo Galeano. É a este último que a resenha deste domingo é dedicada.

O teatro do bem e do mal consiste numa compilação de textos escritos entre o final dos anos noventa e a aurora do século XXI, que contemplam os mais diversos temas, como a política internacional, a economia, o comércio, e a ecologia, mas reúne igualmente frases pichadas em muros e epitáfios extraídos de igrejas latinas. Vale lembrar que a compilação não foi realizada pelo próprio autor, e que, embora os textos originais tenham sido escritos em espanhol, estamos diante de uma edição exclusivamente brasileira. Nos fragmentos curtos e certeiros que compõem o livro, é possível entrever o espírito crítico de Galeano, bem como seu olhar clínico sobre a realidade e sua impressionante capacidade de fazer analogias, dando a vislumbrar um imenso repertório cultural. No centro das críticas, encontra-se não poucas vezes aquele que o autor, com ironia, denomina “o centro do mundo”: os Estados Unidos.

De maneira fácil, direta, e sem o peso de grandes aparatos teóricos, os textos de Galeano contemplam uma diversidade de situações que ao menos mereciam ter se tornado polêmicas. Dentre elas, é possível citar o fato de que o dinheiro gasto pelos “donos do mundo” para desenvolver apenas uma arma letal teria sido suficiente para acabar com a fome no mundo por um ano inteiro, ou que, embora tenham plena consciência dos danos incomensuráveis causados pelo chumbo nos seres humanos, as companhias petrolíferas continuam vendendo combustível com o aditivo aos países do chamado terceiro mundo. Trata-se de questões cruciais para a sociedade como um todo, formuladas de modo a serem facilmente compreendidas não apenas por aqueles habituados às questões sociopolíticas, mas por todo e qualquer cidadão interessado. Uma espécie de “Galeano em 90 minutos”, que certamente fará o leitor que ainda não teve a oportunidade de ler o trabalho do autor ter vontade de descobri-lo em toda a sua grandeza. Informativo, educativo, e irônico na medida certa.

Embora pudesse – e merecesse – ter pelo menos um terço a mais de páginas, a coletânea tupiniquim é extremamente bem-sucedida no sentido de dar a conhecer a um público mais vasto a pena de um dos mais importantes, originais e críticos pensadores da aurora do século XXI. Quanto ao efeito que fará aos leitores, asseguro que até mesmo os menos politizados terão vontade de o ler em voz alta, em praça pública, em plena hora do rush. Deveria tornar-se leitura obrigatória não apenas em escolas e universidades, mas também em presídios, creches, hospitais, e toda espécie de lugar público. Simplesmente, todo mundo merecia ter o direito de ouvir as palavras de Eduardo Galeano.

Eis aqui a vídeo-propaganda da compilação, dirigida por Saturnino Rocha:

 

Título original: O teatro do bem e do mal

País: Uruguai*

Idioma original: português

Ano de publicação: 2006

Edição brasileira: L&PM Pocket (ISBN: 978-85-2541-206-5)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 124 (edição brasileira)

*embora a edição seja exclusivamente brasileira.

Festa no covil & Se vivêssemos em um lugar normal, de Juan Pablo Villalobos

Villalobos_Lugar Para compensar a ausência na primeira semana de abril, a resenha deste domingo será dupla: até porque os livros em questão são tão curtinhos que, mesmo que fossem um, ainda assim teria poucas páginas: trata-se de Festa no covil e Se vivêssemos em um lugar normal, do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos.

Marinheiro de primeira viagem à altura do lançamento de Festa no covil, Villalobos começou logo por uma trilogia, cujo foco é retratar as diferentes facetas da sociedade mexicana “contemporânea”. Lançado em 2010, Festa no covil só pode ter sido classificado como romance por alguém sem a menor noção de gênero narrativo: trata-se nitidamente de uma novela. O narrador em primeira pessoa é um menino de idade indefinida, herdeiro de um poderoso narcotraficante, que vive isolado em um palácio no meio do nada. Uma vez que seu parco conhecimento do mundo seja oriundo da tevê, bem como das “treze ou quatorze pessoas” que conhece, o menino alcunhado Tochtli apresenta uma visão deveras distorcida da realidade, e tenta romper a monotonia de uma solidão forçada cultivando caprichos. O mais novo deles, obter um hipopótamo anão da Libéria para completar seu mini-zoológico, levá-lo-á a esse inóspito país africano, embora as coisas não saiam exatamente como planejado.

Se o próprio autor define Festa no covil como um “experimento”, é preciso reconhecer que o sucesso do mesmo tem limites. Embora a cadência seja leve e a história interessante, o narrador infantil nem sempre convence – mesmo sendo a criança em questão um pequeno príncipe maníaco que vive numa fortaleza sem contato com o mundo exterior. Simplesmente, ao compararmos com outros livros contemporâneos que exploram o recurso da voz narrativa infantil – como o arrebatador Quarto, de Emma Donoghue, e Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawaio –, o “menino” de Festa no covil parece demasiado forçado. Nada mal para um experimento, mas tampouco bom o suficientemente.

Se vivêssemos em um lugar normal, segundo volume da trilogia, apresenta uma história com um núcleo mais amplo. A ação se desenrola no pequeno povoado de Lagos de Moreno, exatamente no centro do México, em meados dos anos 1980. Orestes, o narrador-protagonista, é filho de um professor de escola pública esquerdista, e vive com os pais e seis irmãos num casebre do “Morro da Puta que Pariu”. Em meio à crise econômica, às tentativas de tomada de poder de rebeldes opositores e ao turbilhão hormonal típico da pré-adolescente, uma de suas maiores preocupações é descobrir se é de fato “pobre” ou se pertence à “classe média”. Quando seus irmãos mais novos, os “gêmeos falsos”, desaparecem, Oreo vê na tragédia familiar a possibilidade de uma ligeira ascensão social, já que as duas bocas a menos significam um aumento considerável no número de tortilhas que lhe cabem. Mais tarde, quando um empreendedor polonês descobre o potencial imobiliário do “Morro da Puta que Pariu”, a família lutará com todas as forças para não ser desalojada – embora saibamos que, na vida real, David é sempre esmagado por Golias.

Narrado com uma linguagem ácida e repleta de palavrões, o livro tece uma acurada crítica sociopolítica, ao mesmo tempo em que explora a questão da identidade social mexicana. Em suas curtas páginas, o autor é capaz de levar o leitor, através da perspectiva do menino, a uma espécie de elucidação dos mecanismos de poder que regem o chamado terceiro mundo, da encruzilhada em que se encontram aqueles que estão na base da pirâmide social, e da ilusão de se poder fugir do sistema. Nesse sentido, e apesar dos contextos histórico-econômicos deveras diferentes, é possível ver no livro um claro paralelo com a condição do pobre no Brasil, em Portugal, ou em qualquer outra parte do mundo.Por tudo isso, e não só pelas detalhadas descrições gastronômicas que deixam qualquer leitor de água na boca, Se vivêssemos em um lugar normal pode ser considerado um livrinho delicioso.

Te vendo un perro, terceiro volume da trilogia, foi lançado em espanhol em outubro do último ano, e ainda não foi traduzido para o português. Se o primeiro não é mal e o segundo é mesmo bom, basta esperar que o terceiro venha a ser ainda melhor!  

Títulos originais: Fiesta en la madriguera e Se viviéramos en un lugar normal

País: México

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2010 e 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5920-26-0 e 978-853-5923-24-7)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 96 (Festa…) e 160 (Se vivêssemos…)

O país das mulheres, de Gioconda Belli

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Como seria um país regido inteiramente por mulheres?

Desde a segunda metade do século XX, as mulheres têm ganhado cada vez mais espaço na vida pública. Brasil, Alemanha, Nicarágua, Islândia, Irlanda, Argentina, Chile e Suíça são apenas alguns dos países que têm ou já tiveram uma mulher como chefe de Estado. Contudo, para sobreviver num meio predominantemente masculino, as “presidentas” do mundo têm de ser como a Lady Macbeth: mais “macho” que os próprios homens. Ora, se ter uma mulher no poder significasse uma sociedade menos machista, paternalista ou falocêntrica, no Brasil ninguém mais estaria dançando o “Lepo Lepo”. Mas como seria um país onde todos os cargos públicos fossem preenchidos por mulheres, meninos e meninas recebessem aulas de maternidade, e estupradores fossem expostos e recebessem uma tatuagem na testa? Eis o ponto de partida de O país das mulheres, da premiada escritora nicaraguense Gioconda Belli.

Ao contrário de quase qualquer outro escritor centro-americano, Belli é relativamente conhecida nos países de língua portuguesa, tendo sua autobiografia O país debaixo da minha pele sido recentemente publicada em Portugal. Em O país das mulheres, um grupo de amigas de personalidades distintas funda, meio que por brincadeira, o Partido da Esquerda Erótica, que acaba, devido a uma série de circunstâncias inesperadas, crescendo ao ponto de vencer as eleições. A história se passa na pequena e imaginária república de Fáguas, supostamente situada na América Central, e tem início quando, durante um comício, a sensual presidente Viviana Sansón é vítima de um atentado a bala e entra em estado de coma. A partir daí, a trama é narrada em dois planos. O primeiro descreve os acontecimentos ocorridos no presente, isto é, após o atentado: da comoção nas ruas às tentativas de golpe de Estado. O segundo acompanha as memórias de Viviana desde a espécie de limbo em que a mesma se encontra, de como ela se tornou uma personalidade importante em seu país até chegar a presidência. Tudo isso é permeado por uma série de documentos históricos fictícios, desde entrevistas e planos de governo até reportagens da imprensa internacional.

De certa forma, a utopia de Fáguas inscreve o romance na tradição literária do realismo fantástico de Márquez, Borges e Allende. No que compete à escolha do tema, a autora acertou em cheio: O mito das Amazonas, que permeia a fantasia dos homens (e das mulheres) desde os tempos de Alexandre o Grande, adaptado ao século XXI, faz de O país das mulheres um livro irresistível. No entanto, é preciso reconhecer que a semelhança com os grandes nomes da literatura hispano-americana termina aí.

Lamentavelmente, aquela que poderia ter sido uma excelente oportunidade para refletir os papéis sociais e a posição da mulher na aurora do novo milênio acaba numa superficialidade digna de telenovela: todos os problemas resolvem-se por encanto, toda a oposição desaparece como num conto de fadas. A própria ideia de que, ao prendermos o bandido, o final sempre é feliz, é em si uma traição ao próprio ideal feminista pregado pelo romance. Primeiro, porque nesse caso o “bandido” é uma ideologia arcaica arraigada nas nossas mentalidades. Segundo, porque não existe nada mais machista e antirrevolucionário que contos de fadas e seus finais felizes.

Por fim, prepondera a decepção. Não que se trate um mau livro: muito pelo contrário, a prosa é boa, agradável, interessante e divertida. Mas aí é que mora o problema: no País dos Grandes Leitores, transformar uma ideia tão original num romance “agradável, interessante e divertido” deveria ser considerado crime digno das mais altas punições.

Título original: El país de las mujeres

País: Nicarágua

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2010

Edição brasileira: Verus (ISBN 978-857-6861-22-5)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 220

La librería quemada, de Sergio Galarza

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Mesmo que não o admita, todo grande leitor já passou pela degradante experiência de levar um livro pela capa, pagar por ele mais do que devia, e terminar a leitura com vontade de dar um tiro na cabeça. Por mais que tentemos dizer que não, que não nos deixamos iludir pelas maléficas aparências de uma capa bem-feita, e que ademais nossa experiência literária nos permite fazer um julgamento acurado mal passamos os olhos pelas primeiras páginas de um volume, quem não se deixa levar de vez em quando pelo trabalho de um artista gráfico talentoso, ou pelo texto sedutor de um editor sanguessuga?

Pois a primeira coisa que se pode dizer acerca de La librería quemada, romance recém-saído do forno do escritor peruano Sergio Galarza, é justamente isso – que a editora não poupou esforços na capa e no texto de apresentação. Não que La librería quemada seja um livro de todo ruim. É verdade que se trata de mais um daqueles romances contemporâneos sem história nem clímax, que parecem ter saído de uma bebedeira ou do chicote da editora obrigando a produzir, como uma descarga de fluxo de consciência de um autor que não sabe o que quer. Ou seja, nem mais nem menos medíocre que tantos outros romances que nos enchem as livrarias, como por exemplo Reprodução, o mais recente trabalho de Bernardo Soares, que resenhamos em abril. O problema é que a orelha nos promete uma coisa completamente diferente: um romance inovador e pós-moderno, que pretende levar o conceito de Fahrenheit 451 ao extremo, e mostrar-nos uma distopia na qual atear fogo em livro é coisa do passado: a moda agora é… – e que me perdoem os leitores mais sensíveis pelo empréstimo da música do Axé Bahia – … é livreiro queimado.

Mas, então, onde foi parar o fogo? Pois o que o leitor vai encontrar é bem diferente: as misérias do aborrecido cotidiano dos funcionários de uma livraria sem charme no centro de Madrid. Homens e mulheres que acordam cedo, que passam horas de pé aguentando clientes mal-educados tratando-nos como autômatos, odiando a vida, sendo humilhados e jurando vingança, sonhos e juventude esmagados debaixo de uma pilha de livros mal-arranjada… mas morrendo de medo de perder o emprego em tempos de crise econômica.

Verdade seja dita: o livro de Galarza até tem os seus momentos. É certo que suas personagens não são nada cativantes, mas conhece-las é como flanar feito um voyeur pelas ruas e descobrir os detalhes da vida de um monte de gente, medíocre e desinteressante como qualquer um de nós, ou como ver um daqueles programas de reality show na TV: por mais que saibamos que não ganhamos nada com isso, às vezes a gente se pega contando os minutos para o próximo capítulo.

Quem nunca comprou um livro pela capa que atire a primeira pedra.

Título original: La librería quemada

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição espanhola: Candaya (ISBN 978-841-5934-09-7)

Edição brasileira: não há

Número de páginas: 208

La casa de los conejos, de Laura Alcoba

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Quando pensamos nos nossos vizinhos do sul, é impossível não nos referirmos à rivalidade no futebol. Enquanto os brasileiros se gabam de Pelé e Ronaldinho, os argentinos revidam com Maradona, e quando mencionamos com orgulho as cinco estrelas na camisa, nossos eternos adversários ironizam a derrota na última Copa do Mundo. Frivolidades à parte, existe um campo no qual a Argentina parece vencer o Brasil a muito mais que 7×1: no questionamento das atrocidades cometidas durante a ditadura e na busca pela verdade.

La casa de los conejos retoma um gênero de grande importância na América Latina do século XX, porém muito pouco explorado em terras tupiniquins: a literatura de memória ou de testemunho. À exceção de exemplos esparsos, como Fernando Gabeira, e, mais recentemente, Edney Silvestre, a Ditadura Militar de 1964-1985, embora fortemente presente no cinema nacional, raramente tem obtido espaço na literatura de ficção. Mais preocupada em reproduzir fórmulas gastas e imitar modelos norte-americanos, a literatura brasileira, refletindo a sociedade, cala, enquanto a de nossos vizinhos hispânicos não tem medo de falar – pelo menos a julgar pela nova leva de autores argentinos, como Martín Kohan, Félix Bruzzone e Laura Alcoba.

La casa de los conejos é narrado a partir da perspectiva de Laura, nove anos, filha de militantes de esquerda envolvidos na organização Montoneros, oposta ao brutal regime militar da época. A trama, que se desenrola no ano de 1976, é focada nos meses em que a menina, acompanhando a mãe foragida, compartilhou o teto com outros nomes da guerrilha, vivendo numa célula onde funcionava a imprensa montonera: a chamada “casa dos coelhos”. Romance modesto de pouco mais de cem páginas, o livro impressiona ao reconstruir o universo da resistência e narrar o cotidiano dos clandestinos políticos sob um ponto de vista tão peculiar. Incapaz de compreender as dimensões do embate que testemunha, a menina arrancada dos confortos da infância compreende no entanto que não faz parte de um jogo de crianças. Laura, que vê serem-lhe atribuídas responsabilidades de adulta, não é poupada do desgaste emocional nem do pavor de serem descobertos, presos ou exterminados. Na guerra, não se permitem fraquezas nem se atribuem imunidades.

Recomenda-se, ao longo da leitura, que não nos esqueçamos do seu fundo autobiográfico, e que, ao chegarmos ao final, dediquemo-nos às pessoas nela retratadas: não é sempre que o leitor pode encontrar tantos registros e fotografias das personagens sobre as quais esteve a ler. Da mesma forma, uma vez que a narrativa se restringe ao ponto de vista da menina, a internet pode servir de epílogo e dar a conhecer o verdadeiro “final da história”.

Mas toda reprodução não deixa de ser recriação. Assim, é preciso assinalar que, do ponto de vista literário, o livro de Alcoba deixa algo a desejar. É de se imaginar que a intenção da autora tenha sido ser ao máximo fiel às lembranças de infância, e que ela não tenha querido preencher os inevitáveis lapsos de memória com interpretações e juízos posteriores. No entanto, é inegável que La casa de los conejos deixa a sensação de que poderia ter ido mais longe, entrado mais em detalhe, e desenvolvido melhor algumas personagens centrais que se vão perdendo com o tempo, como, por exemplo, a mãe. Com um tema deveras apaixonante e uma qualidade narrativa bastante aguçada, o livro teria merecido ser, pelo menos, cem páginas mais longo.

Escrito originariamente em francês, La casa de los conejos já foi traduzido para diversos idiomas, dentre os quais o espanhol, o inglês, o alemão, e até mesmo o sérvio. No entanto, o português ainda não faz parte dessa lista. Vergonhosamente para nós, permanecemos ainda, também no que compete ao alcance do mercado editorial, a anos-luz de distância de um dos nossos vizinhos mais próximos.

Título original: Manèges

País: Argentina

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2007

Edição espanhola: La casa de los conejos – Edhasa (ISBN 978-843-5010-24-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 136 (edição espanhola)