Monasterio, de Eduardo Halfon

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Desde que cheguei à Europa, sempre me incomodou uma pergunta inevitável: qual a sua origem? Pela perspectiva brasileira, a origem de uma pessoa está relacionada ao país onde ela nasceu – afinal, seria absurdo indagar sobre as raízes familiares de alguém num país tão miscigenado, exceto talvez durante as aulas de geografia. A maioria dos brasileiros nem o saberia dizer. Mais tarde, no entanto, descobri que a resposta a esta pergunta não é tão preto no branco assim. Como alguém nascido na Alemanha, com pais e avós nascidos na Alemanha, mas que até hoje não obteve direito à nacionalidade alemã poderia considerar-se alemão? E o que falar da superioridade arrogante de alguém nascido num país “marginal”, criado num gueto cultural do país de seus pais, que nunca fez sequer o esforço de aprender a língua da terra onde veio ao mundo?

Ainda mais complicada é a situação de um guatemalteca judeu, ¾ árabe e ¼ polaco, que não fala uma palavra de polonês, árabe ou hebraico, mas que é tão fisicamente distinto dos homens de sua terra natal que é frequentemente tratado como “gringo”. Eis o dilema que descreve Eduardo Halfon em sua novela Monasterio.

O livro, que poderíamos chamar de autobiografia ficcional, começa com a chegada do protagonista e seu irmão no aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, onde pretendem participar do casamento da irmã caçula, reconvertida em judia ortodoxa, com um judeu americano ultraconservador. Autodeclarado ateu, hispânico e guatemalteca, Eduardo se sente incomodado com a imposição social que o obriga a se sentir judeu, e tenta romper com um passado que não lhe pertence. Ao mesmo tempo, no entanto, percebe que também não se encaixa na sociedade guatemalteca, e acaba se sentindo como uma espécie de híbrido indefinido, eternamente fadado ao meio do caminho.

Em uma série de sequências curtas, que não obedecem forçosamente a ordem cronológica, Halfon faz-nos viajar por três continentes, enquanto percorre as ruas de Tel Aviv, Nova Iorque, Antigua e Łódź, e até mesmo a fronteira entre a Guatemala e o Belize, numa série de situações interligadas pelo tema do sentimento de identidade. Cada uma dessas narrativas curtas e interessantes poderia, por si só, ter dado origem a um romance completo. Assim, é com um certo pesar que o leitor se despede de cada capítulo, embora reconheça que a riqueza deste livro inovador reside justamente em seu caráter fragmentário. O que melhor que o patchwork para definir uma história de vida tão particular?

Aclamado pela crítica internacional, Eduardo Halfon destaca-se hoje em dia como um dos mais talentosos escritores latino-americanos da chamada “nova geração” – a qual, entretanto, já vai deixando de ser assim tão nova. Monasterio faz certamente justiça à enxurrada de críticas positivas que o autor tem recebido, mas ainda não foi traduzido para o português. Quem não quiser esperar para descobrir o seu trabalho, pode começar por outros livros já traduzidos, como O anjo literário e O boxeador polaco. Afinal, a julgar pela primeira impressão, optar por este autor é uma escolha sempre certa.

 

Título original: Monasterio

País: Guatemala

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição em espanhol: Libros del Asteroide (978-841-5625-77-3)

Número de páginas: 128 (edição em espanhol)

Exercícios da perda, de Agata Tuszyńska

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A representação literária da morte, sobretudo quando baseada numa experiência autobiográfica, consiste num eterno motivo de controvérsia. Normalmente, esse tipo de narrativa resulta da necessidade do autor de ordenar a experiência da perda, e, como parte do processo de luto, não pode ser submetida aos mesmos paradigmas críticos que textos “verdadeiramente” literários. Um dos textos mais icônicos sobre o assunto é certamente Uma morte serena, da inigualável Simone de Beauvoir, dedicado aos últimos meses de vida de sua mãe. No ano retrasado, resenhamos outro texto que se encaixa nesta categoria: o premiado A onda, de Sonali Deraniyagala, que trata da morte de toda a sua família no Tsunami de 2004. Indo um pouco além, podemos inserir aqui também toda a chamada “literatura da Shoah”, ou literatura de testemunho dos grandes crimes contra a humanidade, seja o Holocausto judeu retratado por Kertész, seja o massacre dos Tutsis no Ruanda descrito por Mukasonga, ou até mesmo a miséria dos favelados nos diários de Carolina Maria de Jesus.

Em Exercícios da perda, a já consagrada escritora judaico-polonesa Agata Tuszyńska dedica-se aos últimos dezoito meses de vida de seu marido, o também escritor Henryk Dasko. Para isso, a autora escolhe partir exatamente do momento do diagnóstico de tumor cerebral, deixando de lado os quinze anos de vida em comum que antecederam a doença. Desta forma, é como se Tuszyńska afirmasse que a realidade esmagadora da perda iminente ofusca toda uma história de vida pré-doença, ou como se quisesse proteger a sua intimidade dos holofotes da escrita. Assim, o livro contém muito pouco de um amor romântico, quase não deixando entrever os motivos pelos quais essas duas pessoas de passada meia-idade, vindas de relacionamentos anteriores, apaixonaram-se uma pela outra. Sabemos que Henryk era um homem mais velho, que assumia para ela a função de pai e mentor, e que os papeis vão sendo trocados pouco a pouco a medida em que a morte se aproxima. Um relacionamento, enfim, muito pouco idealizado. Mas como não estamos aqui para julgar o relacionamento da autora, passemos à crítica do texto.

Exercícios da perda é um livro interessante, embora se encontre num limbo editorial, e certamente não teria sido publicado não fosse o fato de a sua autora ser famosa. Trata-se de um desses livros escritos para fazer bem ao autor, e não ao leitor, e que oscila entre a narrativa pessoal e o ensaio filosófico. Como não poderia deixar de ser, Tuszyńska, cuja carreira literária está quase totalmente dedicada à herança do holocausto no judeu contemporâneo, traça um paralelo eloquente e refinado entre sua perda pessoal e a de seus antepassados, vítimas da Kristallnacht e das câmaras de Auschwitz. Tudo isso é certamente muito interessante, mas acaba se tornando demasiado teórico, ofuscando parte da identificação do leitor com aquele outro tipo de amor que descende da perda, feito da resiliência e da negação de si mesmo. Falta às vezes o piegas, a declaração de amor, o que deveria ser um aspecto positivo, mas não nesse caso: afinal, esses elementos são substituídos por um eruditismo excessivo, às vezes pedante. Um desabafo que não chega a o ser devido ao excesso de autoafirmação intelectual.

Agata Tuszyńska é inegavelmente uma escritora de primeira, mas eu não recomendaria a nenhum leitor começar por este livro. Para descobri-la, mais vale dedicar-se a sua obra-prima, História familiar do medo, que refaz os passos de sua família durante a Segunda Guerra. E a quem esteja à procura de um “relato do câncer”, recomenda-se muito mais o singelo blog “Até à lua” da atriz portuguesa Marlene Barreto Frazão, dedicado ao marido morto em dezembro passado. Este sim emociona pela beleza despretensiosa, revelando, na sua cotidiana simplicidade, um verdadeiro valor de pérola literária.

 

Título original: Ćwiczenia z utraty

País: Polônia

Idioma original: polonês

Ano de publicação: 2007

Edição em português: não há

Título francês: Exercices de la perte

Edição francesa: Grasset (ISBN 978-224-6739-31-9)

Número de páginas: 320 (edição francesa)

Dossier K., de Imre Kertész

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Em 2002, o escritor Imre Kertész foi galardoado com o primeiro (e até o momento único) prêmio Nobel da Literatura concedido a um autor de origem húngara. Pouco tempo depois, diversas biografias, estudos e monografias sobre sua vida e obra proliferaram como cogumelos nas casas de edição de toda a Hungria. Kertész, no entanto, jamais poderia ser considerado o autor húngaro por excelência: primeiramente por ser judeu, e em seguida por jamais ter participado ativamente do cenário literário e cultural do seu país, sendo mesmo, em certa medida, considerado persona non grata nos altos círculos de Budapeste. Em resposta a tanto dito e ao não dito, resolveu publicar, juntamente com o seu tradutor em inglês Tim Wilkinson, uma espécie de memoir, o qual tem a forma de uma entrevista de pouco mais de duzentas páginas. Eis em que consiste o livro Dossier K.

Não é possível escrever sobre a obra de Kertész sem pensar em sua conturbada biografia. De fato, uma grande parte de seus escritos são baseados em experiências pessoais, ou foram pelo menos inspirados por cenas verídicas de um passado pouco comum. Aos catorze anos, Kertész tornou-se mais uma vítima do Nazismo, tendo sido prisioneiro em Auschwitz e Buchenwald, de onde só conseguiu se libertar com a derrota dos alemães. Mais tarde, com o final da Segunda Guerra Mundial, o menino tornou à casa transformado, movido por um indelével sentimento de alheamento em relação ao mundo ao seu redor, obrigado, no entanto, a retomar a rotina do ponto onde fora interrompido. Concluiu a escola, descobriu os grandes clássicos da literatura, e iniciou uma carreira literária quase sem pensar, na qual são revividos não apenas os traumas dos campos de concentração, mas também toda a confusão mental do pós-guerra, bem como a catástrofe sociopolítica que representou a ascensão do comunismo na Hungria.

Dossier K consiste numa entrevista apaixonante, de grande interesse não apenas para aqueles que já conhecem a inigualável obra de Kertész, mas também para aqueles que nunca leram um livro seu. Para os primeiros, consistirá num convite para uma descoberta literária da qual jamais se arrependerão; para os últimos, será um enorme presente, como o making-off de um filme o é para os seus fãs mais aficionados. Em todo caso, trata-se sem sombra de dúvida de um documento preciosíssimo, o qual nos permite ter acesso à mente de um escritor de primeira categoria, e desvendar os mistérios do seu processo criativo, das conexões entre literatura e realidade, bem como da sua maneira singular de analisar o mundo ao seu redor.

Difícil será, no meu caso, ler outros 120 livros antes de poder me permitir retornar a este tão pouco conhecido pilar da literatura do século XX.

Título original: K. dosszié

País: Hungria

Idioma original: húngaro

Ano de publicação: 2006

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Melville (978-161-2192-02-4)

Número de páginas: 224 (edição em inglês)

O russo é alguém que ama bétulas, de Olga Grjasnowa

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Falar outros idiomas permite-nos descobrir algumas pérolas literárias que dificilmente chegarão a ser traduzidas. Minha mais recente descoberta é Olga Grjasnowa, uma jovem e bela judia de apenas trinta anos, que imigrou para a Alemanha nos anos 1990 em consequência da sangrenta guerra de Nagorno-Karabakh. Seu país de origem: o Azerbaijão.

Seu primeiro livro, cujo título, traduzido para o português, daria algo como O russo é aquele que ama bétulas, é um daqueles raros romances que, de tão bem escritos, poderiam ser lidos em pouco mais de uma tarde. Para uma autora tão jovem e pouco experiente, chega a ser impressionante a sua capacidade de transportar o leitor para o universo narrativo, dando-lhe os instrumentos necessários para “ver” as cenas como num filme. Isso tudo sem se perder em descrições desnecessárias, mas exigindo-nos a dose necessária de criatividade para preencher as lacunas.

A trama, de forte teor autobiográfico, narra a história de Masha, uma bela imigrante com incrível talento para as línguas, que estuda para tornar-se intérprete e sonha trabalhar na ONU. Se o seu talento linguístico e a sua capacidade de adaptação fazem dela uma “cidadã do mundo”, Masha sofre ao mesmo tempo por não se sentir em casa em lugar nenhum, e carrega em si os traumas de ter vivido parte da infância num cenário de guerra. Quando tem de se confrontar com a morte absurda de uma pessoa que ama, é como se lhe abrissem no peito uma caixa de Pandora: todos os horrores vividos no passado vêm à tona, fazendo com que ela se perca no labirinto de seus próprios pesadelos, enquanto busca desesperadamente por algo que não sabe definir.

Particularmente, uma das surpresas mais agradáveis do livro diz respeito ao olhar crítico de Grjasnowa sobre a Alemanha, bem como à maestria com a qual ela aborda temas tão complexos como as experiências dos “imigrantes” no país. Qualquer pessoa que tenha sido jovem na Alemanha dos anos 2000 identifica-se de imediato com a linguagem, as situações, e os conflitos da protagonista. Mas, como boa parte dessas experiências são universais, todos aqueles que já tenha vivido como estrangeiro em algum lugar poderão também se ver refletir no cotidiano descrito por Masha.

O livro, que começa claro e fácil de ler, vai se tornando turvo à medida em que a protagonista-narradora se afunda em seu estado depressivo, infelizmente ao ponto de ser confuso perto do fim. Ele também acaba mudando de foco, dando mais e mais espaço à crítica a Israel, que faz ecoar as vozes femininas de dois outros livros já resenhados aqui: O povo eterno não tem medo e As madrugadas em Jenin.

Grjasnowa, que esteve no Brasil para a Bienal do Rio de 2013, foi muito comentada na época – portanto, pode ser que seu livro ainda seja traduzido para o português. Só é pena que aqueles que não conheciam o Azerbaijão antes de o lerem vão continuar a não o conhecer depois de fazê-lo. É que, à exceção dos flashbacks nos quais Masha revê episódios da infância, o presente da narrativa transcorre entre Frankfurt, Israel e a Palestina (diga-se de passagem, em Jenin, como no livro de Susan Abulhawa). É certo que as digressões sempre nos permitem conhecer um pouco da história do Azerbaijão após a queda da União Soviética, mas elas não aplacam o desejo de conhecer a Baku dos dias de hoje.

Quem quiser conhecer o Cáucaso terá de esperar por outra resenha!

Título original: Der Russe ist einer, der Birken liebt

País: Azerbaijão

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição original: Carl Hanser Verlag (ISBN 978-344-6238-54-1)

Edição em inglês: Other Press (ISBN 978-159-0515-84-6)

Número de páginas: 288 (edição alemã), 336 (edição em inglês)

As madrugadas em Jenin, de Susan Abulhawa

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Quem se emocionou com Os caçadores de pipas não pode deixar de ler As madrugadas em Jenin, seu contraparte feminino na Palestina.

O livro acompanha quatro gerações de uma família de camponeses do singelo vilarejo de Ein Hod, no norte de Israel, desde a sua expulsão pelos israelitas em 1948 até o século XXI. Em meio ao caos que sobreveio à auto-declaração do Estado de Israel, uma jovem mãe berbere tem seu filho mais novo raptado por um soldado, que deseja presentear o bebê à esposa judia, devolvendo-lhe assim o alento perdido num campo de concentração. Eis o início de uma história marcada por perdas e humilhações, narrada sobretudo a partir da perspectiva de Amal (“esperança”), irmã mais nova do menino desaparecido, nascida no campo de refugiados de Jenin. Mais tarde, os irmãos serão reunidos pelas circunstâncias da guerra, mas infelizmente lutarão em lados opostos. Assim, a mãe que enlouquece de tristeza ao ter seu filho brutalmente arrancado de seus braços torna-se um arquétipo da história da própria Palestina.

Para a maioria das pessoas, o conflito entre israelitas e palestinos parece tão complicado que nem vale a pena tentar entender. Porém, as coisas são simples assim: desde há pelo menos mil anos, a Palestina era a pátria de um povo simples de camponeses muçulmanos, até que, com a conivência do mundo ocidental, terroristas judeus sobreviventes da Segunda Guerra invadiram, ocuparam e expulsaram os verdadeiros donos da terra. “Uma terra sem povo para um povo sem terra” – eis o lema segundo o qual o mundo fechou os olhos, permitindo um dos processos de desapropriação mais vergonhosos do século XX: a criação do Estado de Israel. Só que a “terra sem povo” tinha povo, sim – os palestinos –, que desde então vem lutando pelo simples direito de continuar existindo e, Inshallah, um dia, voltar a pisar na terra de seus ancestrais.

Não deixa de ser interessante traçar um paralelo entre a imagem do conflito árabe-israelita presente em As madrugadas em Jenin – ou seja, uma luta de vida ou morte movida pelo mais primitivo instinto de sobrevivência –, e em O povo eterno não tem medo de Shani Boianjiu, que resenhamos no mês de junho. Ora, a crítica ao Estado de Israel torna-se ainda mais plausível ao pensarmos nas soldadas de Boianjiu, que matam por automatismo ou para aplacar o tédio, sem o menor comprometimento com a causa.

Fica claro que, para Susan Abulhawa, marinheira de primeira viagem, a mensagem é mais importante que a palavra. Mas, leitores magnânimos, perdoamos as pequenas fraquezas de seu livro, advindas sobretudo do excesso de idealização à cultura palestina (Por que o soldado que luta pela boa causa tem que ser invariavelmente o homem perfeito? Por que não criar personagens mais complexas e “humanas”, que carregam o bem e o mal dentro de si?). Importante dizer: se o fazemos, não somos apenas movidos pela importância da causa defendida pela autora, mas também pela inegável qualidade de sua sua escrita.

As madrugadas em Jenin foi lançado em Portugal em 2008, embora infelizmente tenha passado quase desapercebido no país. Quanto ao Brasil, ainda não há informação se haverá ou não uma edição tupiniquim. Enquanto fica à espera, o grande leitor brasileiro poderá baixar a edição Kindle em português, lançada no último mês de junho. Afinal de contas, vale tudo, menos deixar de ler este romance imperdível, que fará chorar até mesmo o leitor mais cético.

Título original: Mornings in Jenin

País: Palestina

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Quidnovi (ISBN 978-989-6281-74-8)

Número de páginas: 384

O povo eterno não tem medo, de Shani Boianjiu

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Quando o mundo resolve esconder-se por trás do silêncio, a literatura de ficção é muitas vezes o único veículo capaz de dar voz a realidades reprimidas, de revelar verdades incômodas, de exteriorizar pesadelos. Ao abrir a caixa de pandora e romper o silêncio que envolve a vida das jovens israelenses do século XXI, o romance de estreia de Shani Boianjiu, considerado um dos melhores livros de 2012, faz justamente isso.

O povo eterno não tem medo é uma espécie de mosaico composto de cacos de vidros de tamanhos, formas e cores diferentes. A cada capítulo, o leitor tem diante de si uma nova perspectiva, um novo estilo narrativo, um novo estilhaço de realidade. No eixo central, temos a história de três israelitas – Yael, Avishag e Lea –, amigas de infância de personalidades distintas, cujo destino implacável e comum torna cada vez mais parecidas através do sofrimento. Conhecemos as meninas ainda na infância, num vilarejo poeirento e sem história na fronteira com o Líbano, e acompanhamos suas trajetórias do final da adolescência à passagem pelo exército, e depois até meados dos vinte anos. Para além, conhecemos um pouco do universo das pessoas ao seu redor, como pais e colegas, mas também refugiados, escravas sexuais e trabalhadores palestinos. Assim, e sobretudo graças à constante mudança de foco narrativo, o livro de Boianjiu oferece ao leitor um amplo panorama não somente da juventude, mas também de todas as camadas humanas que compõem Israel. E talvez um dos maiores méritos do romance resida justamente aí – na capacidade da autora de dar voz a extremos opostos, sem tomar partido ou se identificar com quem quer que seja, sem nomear heróis ou vilões, ignorando deliberadamente diferenças étnicas e religiosas em prol do que há de comum a todos os homens. Em todo caso, não deixa de impressionar o leitor como essas vidas tão inimaginavelmente distintas podem ao mesmo tempo ser tão parecidas com as de cada um de nós.

A vida das soldadas israelenses pode ser considerada um tema tabu. Com exceção de esporádicos vídeos exuberantes e fotos sensuais tornados virais graças à internet, pouco se ouve falar sobre a realidade dessas meninas. No país em guerra praticamente desde a Declaração de Independência em 1948, o alistamento é obrigatório tanto para meninos como para meninas, e a passagem pelo exército é obrigatória por dois anos. Boa parte das forças armadas de Israel é constituída por adolescentes recém-saídos da escola, cujas vidas são colocadas em stand-by ao serem designados, depois de um curto treinamento de choque, para defender o país. Quando têm sorte, são postos diante de monitores de vigilância e telefones vermelhos que nunca tocarão, e têm de lutar contra a monotonia a fim de não enlouquecerem. Quando não têm, são mandados para postos de fronteira e esquadrões anti-terroristas, nos quais ficam à mercê de homens-bomba e de agressões de toda espécie.

Por meio da história das três protagonistas, o romance revela o contraste entre as granadas e metralhadoras e as mãos pequenas daquelas que as disparam, forçadas a lutar por uma causa pela qual nem sequer se interessam. Entre momentos de excitação e de tédio, são obrigadas a se desumanizar para sobreviver num ambiente que não tolera fraquezas, e vão deixando de ser indivíduos dotados de sonhos, desejos e valores, para se tornarem autômatos auto-destrutivos desprovidos de essência, capazes de abrir o próprio peito a golpes de faca num esforço desesperado para voltarem a sentir. Com isso, o livro nos revela um povo destroçado, cansado de uma luta sem fim, e condena com voz abafada não apenas o Estado que envia à morte aqueles que mais deveria proteger, como também a sociedade, que peca pela omissão e pela aceitação do absurdo.

Mas não era intenção de Shani Boianjiu escrever apenas um livro sobre mulheres-soldado, como também não é sob essa perspectiva unilateral que o romance deve ser lido. O que o trabalho da jovem escritora de pouco mais de 25 anos, ela mesma ex-soldada do exército israelense, pretende mostrar é muito maior: o que significa ser mulher e jovem no Israel de hoje em dia.

Por vezes, temos a impressão de que alguns livros simplesmente precisavam ser escritos. O povo eterno não tem medo é sem dúvida um desses livros.

Título original: The People of Forever are not Afraid

País: Israel

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Alfaguara (ISBN 978-857-9622-17-5)

Edição portuguesa: Objectiva (ISBN 978-989-6721-88-6)

Número de páginas: 280 (edição brasileira), 368 (edição portuguesa)

O cemitério de Praga, de Umberto Eco

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Umberto Eco é um autor que dispensa apresentações. Mestre do romance histórico de ficção, sua obra é caracterizada por tramas rocambolescas e personagens marcantes, pelo entrelaçamento entre ficção e realidade, pela narrativa daquilo que poderia ter acontecido, assim como por uma declarada paixão pelo texto. Não é de agora que o trabalho do autor se concentra em trazer à tona um grande clássico perdido: enquanto seu maior sucesso O nome da rosa focava na descoberta do suposto manuscrito perdido da Comédia de Aristoteles, o mais recente Baudolino tomava como tema a pretensa carta do legendário Prestes João ao imperador Manuel Comneno. Em seu mais recente trabalho, o italiano de 82 anos, diretor da Escola Superior de Ciências Humanas da Universidade de Bolonha, remete o leitor a um passado mais recente – a segunda metade do século XIX -, e explora os bastidores da concepção de um dos mais infames documentos anti-semitas da história: Os Protocolos dos Sábios de Sião.

Simonino Simonini, o protagonista, é um anti-herói com problemas de memória e de dupla personalidade, dividido entre o que julga ser si mesmo e a persona de um certo Abade Dalla Piccola. Talentoso falsificador e mestre nos disfarces, é um homem desprezível e sem escrúpulos, movido apenas pela ganância e pelo próprio estômago, que trabalha como uma espécie de espião mercenário, sempre disposto a deixar de lado suas próprias convicções a fim de servir aquele que pagar mais. Privilegiado pelo anonimato, vai construindo e desconstruindo a história segundo as missões que recebe, estando por trás de alguns dos acontecimentos mais marcantes da história do século XIX. Embora despreze as mulheres como seres inferiores, tenha ódio aos jesuítas, socialistas e a todo tipo de estrangeiro – inclusive ao próprio italiano -, sua maior paixão é o anti-semitismo. Tendo herdado do avô o ódio aos judeus, considera destruir o judaísmo sua maior missão, e faz uso da palavra – assim como do seu grande talento para a falsificação -, para construir um relato infame, que associa a religião judaica ao satanismo e à maçonaria.

A trama de O cemitério de Praga é contada por três narradores, que se desdobram em dois níveis narrativos diferentes: o relato em primeira pessoa num diário, meio de comunicação entre as duas personas de Simonini, e o narrador onisciente em terceira pessoa, que se permite algumas intromissões, complementos e tomadas de partido. A partir desse entrelaçamento de vozes e versões, constrói-se uma narrativa interessante e divertida, repleta de flashbacks e excertos culinários, e enriquecida por materiais iconográficos originais, que visam provar ao leitor a verdade dos fatos, por mais absurda que a narrativa às vezes possa parecer.

O único problema é que O cemitério de Praga peca pelo excesso. O livro oferece um vasto panorama do contexto histórico italiano e francês na segunda metade do século XIX, indo muito além do seu tema primeiro. Assim, enquanto o leitor acompanha as desaventuras de Simonini em meio à Itália de Garibaldi, que se estendem por mais de um terço do livro, ele não deixa de se perguntar onde foram parar os judeus: a primeira parte da vida do protagonista poderia ter sido um livro à parte. Se os diversos excursos históricos, que compõem mais da metade da narrativa, deixam entrever as dimensões do imensurável conhecimento histórico de Umberto Eco, o leitor que não conhecer bem a história européia do século XIX perder-se-á em meio aos nomes e fatos, e não deixará de se perguntar se um excesso de zelo tão grande não chega a ser exagero. Também é possível ressaltar a ausência de mulheres, à exceção de uma. Por um lado, é verdade que a história política é feita de homens; por outro, se Umberto Eco utiliza a macro-história como ponto de partida para um romance de ficção, seria necessária tamanha misoginia? No posfácio, o autor coloca à disposição um quadro que relaciona os acontecimentos narrados aos fatos históricos, e diz que o “leitor competente” poderia desfrutar a história sem a necessidade do mesmo. Seria mesmo o caso da competência do leitor, ou do escritor? Em suma, O cemitério de Praga é um romance interessante, por vezes divertido, e sem dúvidas bastante informativo, mas não reflete Umberto Eco em sua melhor forma.

Título original: Il cimitero di Praga

País: Itália

Idioma original: italiano

Ano de publicação: 2010

Edição portuguesa: Gradiva (ISBN 978-989-6164-08-9)

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1092-84-7)

Número de páginas: 572 (edição portuguesa), 480 (edição brasileira)