A prova do mel, de Salwa al-Neimi

Al Neimi_Honey

Nos últimos tempos, tudo aquilo que temos ouvido falar sobre a Síria diz respeito ao drama dos refugiados, aos ataques atrozes do autodenominado Estado Islâmico, à destruição de cidades milenares, e ao assassinato brutal de milhares de inocentes. Em suma, a Síria se tornou aquilo em que há décadas consistiam o Iraque e o Afeganistão: um lugar perigoso e em ruínas, habitado pelos piores inimigos dos valores e da cultura ocidentais, e de onde não se pode esperar nada de bom. No entanto, até bem pouco tempo atrás, a Síria ainda era um país relativamente aberto para o mundo, berço de uma cultura laica fascinante, e pátria da autora de um dos livros árabes mais polêmicos do século XXI: a escritora e jornalista Salwa al-Neimi.

Publicado originalmente em Beirute, no Líbano, A prova do mel tornou-se pouco depois num best-seller da literatura erótica em vários países, em seguida a ser banido em todo mundo árabe. E não era para menos: escrito em primeira pessoa, o livro tem como protagonista uma mulher síria de idade desconhecida, cuja liberdade sexual e busca por prazer poderiam enrubescer até algumas das mais “avançadas” ocidentais. Graças ao seu trabalho numa biblioteca parisiense, a mulher anônima tem acesso a documentos preciosos da literatura erótica árabe, que lê com sofreguidão, adaptando os dizeres dos antigos especialistas à sua vida cotidiana. Entre livros de erotismo e encontros com o amante, ela vai tentando saciar sua curiosidade também através dos relatos picantes de amigas e conhecidas, numa sede ninfomaníaca por conhecimento sexual. Quando o diretor da biblioteca em que trabalha recomenda-a para integrar um grupo de pesquisa internacional sobre erotismo no mundo árabe, seus prazeres secretos podem finalmente ser expostos à luz do dia.

Quem lê A prova do mel percebe imediatamente o motivo da polêmica que o envolve. Afinal, baseando-se nos escritos de filósofos e poetas da era medieval, al-Neimi tenta provar que as bases da sociedade árabe estão intrinsecamente ligadas ao sexo, que a sua abstinência leva à loucura, e que o aparente puritanismo da sua sociedade acaba por transformar o erotismo numa obsessão quase compulsiva. Em alguns momentos, somos mesmo levados a crer que o sexo, para os árabes, chega a ser muito mais importante que para nós ocidentais – como tudo aquilo que é secreto e socialmente proibido acaba por se tornar. Só por isso, é possível conceber que a autora, residente em Paris, deve se encontrar na lista dos mais procurados inimigos do Estado Islâmico.

Do ponto de vista literário, no entanto, não há tanta coisa assim a ser dita. Até mesmo encontrar uma categoria literária na qual encaixemos A prova do mel consiste numa tarefa deveras difícil, já que o teor filosófico e ensaístico estão presentes em larga escala, em detrimento da própria trama. Quando penso num adjetivo capaz de o caracterizar, nada me vem à mente além de “interessante”. Interessante, sim, de um ponto de vista cultural, mas escrito de tal forma que quase não pode mais ser considerado literatura.

Que isso, no entanto, não sirva de pretexto para não o ler. Afinal, não é todos os dias que encontramos um livro tão exótico, informativo, corajoso e explícito quanto este.

 

Título original: برهان العسل

País: Síria

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2007

Edição portuguesa: Teorema (ISBN 978-972-6958-59-8)

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-857-3029-78-9)

Número de páginas: 114 (edição portuguesa), 152 (edição brasileira)

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