Herege, de Ayaan Hirsi Ali

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É raro que um livro publicado em inglês seja lançado quase simultaneamente no Brasil. Mais raro ainda em se tratando de um livro teórico que debate um tema que nem de longe faz parte da realidade imediata do brasileiro médio. No entanto, a pressa editorial justifica-se facilmente: livros polêmicos sobre o extremismo islâmico vendem bem.

Ayaan Hirsi Ali é mais que conhecida. Sua biografia, na qual relata sua trajetória de islamista devota a respeitada parlamentar da centro-direita holandesa, tornou-se um best-seller comemorado pelos liberais de vários países ocidentais: Finalmente uma mulher muçulmana com culhões para denunciar as atrocidades cometidas em nome de Alá! Herege, seu último livro, foi afortunadamente lançado pouco depois dos ataques ao hebdomadário francês “Charlie Hebdo”, que ela ainda conseguiu incluir em seu extenso inventário de crimes cometidos pelos adoradores de Maomé.

O livro visa provar a tese de que o islã não é uma religião de paz, como normalmente apregoa a esquerda hippie dos países desenvolvidos, mas que a violência lhe é inerente. A violação aos direitos humanos, segundo ela, encontra-se no seu cerne, uma vez que seu livro sagrado, o Corão, descreve um conjunto de regras tribais arcaicas que legitimam o estupro, o linchamento, a submissão feminina, a guerra santa e a imposição forçada de uma pretensa moralidade. Tudo isso é ricamente ilustrado com notícias sensacionalistas das principais comunidades islâmicas, que fazem da violência nas favelas cariocas uma brincadeira de crianças. A ideologia islâmica, diz a autora, ameaça concretamente os direitos adquiridos em séculos de luta no Ocidente, sobretudo agora que as ondas de refugiados trazem consigo futuros potenciais terroristas,* e tendo em conta que os árabes têm muito mais filhos que os ocidentais. Seremos, em breve, excedidos em números em nossas próprias casas, a menos que abramos os olhos e deixemos de ser condescendentes. Afinal, diz ela, o islã odeia seus inimigos mais do que ama seus filhos.

Eis o único aspecto no qual concordo com Ali: O Corão – como já antes a Torá e o Antigo Testamento – está cravado de passagens violentas que, tomadas ao pé da letra por fanáticos, justificam atentados terroristas, e servem de base a grupos como o Estado Islâmico, a Al-Qaïda e o Boko Haram. Ler os textos sagrados literalmente e tentar viver conforme seus ditames é prova de um anacronismo grotesco que não pode ser tolerado. Não podemos aceitar que as meninas do Iêmen se casem aos seis anos de idade porque o “profeta” também o fez, não podemos tolerar as perseguições aos homossexuais, a subjugação das mulheres, o delírio de um califado e o apelo da jihad porque “está escrito”.

Por outro lado, não podemos, ao tomar esses exemplos, deixar comodamente de fora todos os outros nos quais o islamismo provou-se condizente com o século XXI. Por exemplo a Malásia, regida pelo multiculturalismo. Ou a Turquia, o Marrocos, o Senegal, a Bósnia, a Albânia – a lista é longa. Em seu afã progressista, ela se atém à história única de que já falava Chimamanda, e se esquece que a história é cíclica, e que na Idade Média éramos nós os brutamontes e os árabes o pináculo cultural e tecnológico. Que talvez nem tivéssemos chegado à Renascença não fosse a Escolástica, baseada na filosofia grega que eles salvaram para nós.

Mais do que isso, não podemos esquecer, ao louvarmos o avançado Ocidente, de que ele próprio é culpado por muito do imbróglio nos países islâmicos. Tomemos como exemplo o Afeganistão, destinação turística preferida dos bichos-grilos dos anos 1970, e onde as mulheres gozavam de direitos iguais durante a dominação soviética. Quem foi que armou a então minoria ultra religiosa até os dentes, e a botou para lutar contra os capacetes vermelhos, senão os Estados Unidos? Minoria, aliás, que mais tarde ganhou força e se tornou o Talibã. Devemos chamar de kharma ou de efeito borboleta?

Mais que a falta de contextualização histórica, o que me incomoda no livro de Ali são as suas incoerências, como a voz narrativa que adere ora ao “nós” muçulmanos e ora ao “nós” ocidentais. Para não falar da anticlimática conclusão: A autora passa 220 páginas a fazer-nos um terrorismo psicológico, alegando que nosso mundo está ameaçado, que devemos abrir os olhos, que os árabes nos odeiam, para no fim… nada! Em vez de propor uma solução ou fazer sugestões concretas, ela prefere tranquilizar-nos dizendo que afinal as coisas não são tão más assim, e que a reforma já está em marcha, graças a dissidentes corajosos como ela. O que aliás até é verdade.

Ayaan Hirsi Ali consegue ser mais branca que o Michael Jackson, e seu discurso mais ferino que o de Marine Le Pen. Mas seu livro, se lido com olhos críticos, não deixa de ser interessante, sobretudo quando põe em causa a permissividade da esquerda pró-multiculturalismo, que tapa o sol com a peneira e acaba defendendo o algoz e não a vítima. Ela tem toda a razão quando fala que não se pode defender quem não defende os direitos humanos. Para mim, pessoalmente, foi um tapa na cara. Para a maioria dos leitores, no entanto, ele só vai confirmar a ideia preconcebida de que os islamistas são um povo retrógrado, selvagem e preso na Idade Média. O que está longe de ser verdade.

 

* Fez pensar na charge polêmica do Charlie Hebdo. Mas essa, pelo menos, continha ironia.

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Título original: Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now

País: Somália

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5925-87-6)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 272

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Exercícios da perda, de Agata Tuszyńska

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A representação literária da morte, sobretudo quando baseada numa experiência autobiográfica, consiste num eterno motivo de controvérsia. Normalmente, esse tipo de narrativa resulta da necessidade do autor de ordenar a experiência da perda, e, como parte do processo de luto, não pode ser submetida aos mesmos paradigmas críticos que textos “verdadeiramente” literários. Um dos textos mais icônicos sobre o assunto é certamente Uma morte serena, da inigualável Simone de Beauvoir, dedicado aos últimos meses de vida de sua mãe. No ano retrasado, resenhamos outro texto que se encaixa nesta categoria: o premiado A onda, de Sonali Deraniyagala, que trata da morte de toda a sua família no Tsunami de 2004. Indo um pouco além, podemos inserir aqui também toda a chamada “literatura da Shoah”, ou literatura de testemunho dos grandes crimes contra a humanidade, seja o Holocausto judeu retratado por Kertész, seja o massacre dos Tutsis no Ruanda descrito por Mukasonga, ou até mesmo a miséria dos favelados nos diários de Carolina Maria de Jesus.

Em Exercícios da perda, a já consagrada escritora judaico-polonesa Agata Tuszyńska dedica-se aos últimos dezoito meses de vida de seu marido, o também escritor Henryk Dasko. Para isso, a autora escolhe partir exatamente do momento do diagnóstico de tumor cerebral, deixando de lado os quinze anos de vida em comum que antecederam a doença. Desta forma, é como se Tuszyńska afirmasse que a realidade esmagadora da perda iminente ofusca toda uma história de vida pré-doença, ou como se quisesse proteger a sua intimidade dos holofotes da escrita. Assim, o livro contém muito pouco de um amor romântico, quase não deixando entrever os motivos pelos quais essas duas pessoas de passada meia-idade, vindas de relacionamentos anteriores, apaixonaram-se uma pela outra. Sabemos que Henryk era um homem mais velho, que assumia para ela a função de pai e mentor, e que os papeis vão sendo trocados pouco a pouco a medida em que a morte se aproxima. Um relacionamento, enfim, muito pouco idealizado. Mas como não estamos aqui para julgar o relacionamento da autora, passemos à crítica do texto.

Exercícios da perda é um livro interessante, embora se encontre num limbo editorial, e certamente não teria sido publicado não fosse o fato de a sua autora ser famosa. Trata-se de um desses livros escritos para fazer bem ao autor, e não ao leitor, e que oscila entre a narrativa pessoal e o ensaio filosófico. Como não poderia deixar de ser, Tuszyńska, cuja carreira literária está quase totalmente dedicada à herança do holocausto no judeu contemporâneo, traça um paralelo eloquente e refinado entre sua perda pessoal e a de seus antepassados, vítimas da Kristallnacht e das câmaras de Auschwitz. Tudo isso é certamente muito interessante, mas acaba se tornando demasiado teórico, ofuscando parte da identificação do leitor com aquele outro tipo de amor que descende da perda, feito da resiliência e da negação de si mesmo. Falta às vezes o piegas, a declaração de amor, o que deveria ser um aspecto positivo, mas não nesse caso: afinal, esses elementos são substituídos por um eruditismo excessivo, às vezes pedante. Um desabafo que não chega a o ser devido ao excesso de autoafirmação intelectual.

Agata Tuszyńska é inegavelmente uma escritora de primeira, mas eu não recomendaria a nenhum leitor começar por este livro. Para descobri-la, mais vale dedicar-se a sua obra-prima, História familiar do medo, que refaz os passos de sua família durante a Segunda Guerra. E a quem esteja à procura de um “relato do câncer”, recomenda-se muito mais o singelo blog “Até à lua” da atriz portuguesa Marlene Barreto Frazão, dedicado ao marido morto em dezembro passado. Este sim emociona pela beleza despretensiosa, revelando, na sua cotidiana simplicidade, um verdadeiro valor de pérola literária.

 

Título original: Ćwiczenia z utraty

País: Polônia

Idioma original: polonês

Ano de publicação: 2007

Edição em português: não há

Título francês: Exercices de la perte

Edição francesa: Grasset (ISBN 978-224-6739-31-9)

Número de páginas: 320 (edição francesa)

Vozes de Chernobyl, de Svetlana Aleksievitch

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No dia 26 de abril de 1986, uma explosão provocada por um teste malsucedido num reator da usina nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética, entraria para a história. Cerca de 10 anos após a tragédia, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch iniciou uma série de cerca de 500 entrevistas às vítimas, as quais dariam lugar ao impressionante Vozes de Chernobyl: Crônica do Futuro.

O livro consiste numa coletânea de relatos em primeira pessoa narrados por sobreviventes da catástrofe, bem como por seus parentes, e revelam um lado ainda mais sombrio – e até então desconhecido – da maior catástrofe nuclear de todos os tempos: a ignorância da população local perante à tragédia. Para dar voz às vítimas silenciosas de Chernobyl, Svetlana recorre à técnica do recorte, recurso já empregado em seus trabalhos anteriores, de modo a que o livro seja composto como uma espécie de patchwork, permitindo o entrecruzamento de vozes em uma pluriperspectividade dialética.

Em vez de se ater aos grandes fatos, já demasiadamente esmiuçados, Svetlana preocupa-se com o aspecto humano do acidente, privilegiando a micro-história. Desta forma, tomamos conhecimento da catástrofe através do relato daqueles que a viveram pessoalmente, desde moradores de Pripiat, soldados, liquidadores (pessoas recrutadas pelo governo soviético para dar fim aos resquícios radioativos), e caçadores encarregados de exterminar os animais domésticos e selvagem, até físicos e diretores dos principais centros de pesquisas atômicas da URSS. O resultado é o registro chocante de uma sequência dantesca de erros que facilmente poderiam ter sido minimizados, não fossem os interesses políticos terem decidido ocultar covardemente as dimensões da situação. A desinformação gritante sobre as possíveis consequências de uma contaminação radioativa, aliada ao coletivismo e ao senso de dever cívico dos povos socialistas, são ainda hoje responsáveis por um prejuízo humano de dimensões incalculáveis, cujas consequências ainda poderão ser observadas por centenas de gerações.

Quanto ao aspecto literário do texto, é preciso estar atento ao fato de que a leitura nem sempre será fácil. Tal dificuldade não se deve apenas ao tema obviamente chocante, mas sobretudo ao seu caráter repetitivo – essencial do ponto de vista histórico e antropológico, mas cansativo do ponto de vista literário. Enquanto a semelhança de muitos dos relatos os valida como testemunho documental, ela também obriga o leitor a uma grande disciplina. Não se trata, enfim, de um livro facilmente digerível, nem muito menos de um registro sensacionalista: eis, do ponto de vista narrativo, o principal mérito da autora.

Chega a ser impressionante que a obra de Svetlana, laureada com o Prêmio Nobel da Literatura em 2015, ainda seja tão desconhecida no mundo lusófono. Assim, o leitor que se interessar por Vozes de Chernobyl terá que se contentar, por enquanto, com uma edição em língua estrangeira (ver algumas sugestões abaixo). Por outro lado, a boa notícia é que O fim do homem soviético, considerado sua obra-prima, já ganhou uma edição portuguesa, e que outras traduções já se encontram a caminho.

 

Título original: Чернобыльская молитва. Хроника будущего

País: Bielorrússia

Idioma original: russo

Ano de publicação: 1997

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Picador (ISBN 978-031-2425-84-5)

Edição espanhola: Debolsillo (ISBN 978-849-0624-40-1)

Edição francesa: J’ai lu (ISBN 978-229-0343-60-9)

Número de páginas: 256 (edição inglesa), 408 (edição espanhola), 250 (edição francesa)

Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte, de Barbara Demick

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Qualquer pessoa que tente a façanha de ler um livro de cada país do mundo terá diante de si o problema dos países que quase não produzem literatura. Dentre eles, podemos incluir algumas ilhas do Pacífico cuja população é minúscula, uns tantos países africanos em constante estado de guerra, e outros, como o Butão e a Mongólia, nos quais a cultura escrita ainda não suplantou a oralidade. Mas, dentre esses países “exóticos”, também há aquele que corresponde a uma espécie de extraterrestre risível e incômodo, cujo anacronismo de continuar a existir desafia até mesmo as previsões político-econômicas mais pessimistas. Trata-se, obviamente, da Coreia do Norte.

A bem da verdade, ler um autor norte-coreano acaba por não ser tão difícil: pelo menos as livrarias de língua inglesa estão abarrotadas de relatos de dissidentes norte-coreanos, que conseguiram cruzar a fronteira com a China e hoje vivem fora da abençoada terra do Grande Líder. Esta mesma semana, o jornal português “Público” lançou uma reportagem sobre o recém-editado A mulher com sete nomes, da refugiada Hyeonseo Lee. No entanto, a fim de tentar compreender uma realidade tão complexa como aquela da Coreia do Norte, pareceu-me mais adequado recorrer a um livro que abarcasse o maior número de fontes possível – daí a opção pelo premiado Nada a invejar, da jornalista norte-americana Barbara Demick.

O contexto no qual ouvi falar pela primeira vez do livro de Demick não podia ter sido mais anti-socialista: Foi em 2012, durante um jantar na capital das Ilhas Cayman, logo após uma viagem a Cuba que culminara na descoberta nefasta do decrépito sistema de saúde cubano. Nossa anfitriã, uma sul-africana, trabalhava como cozinheira particular para uma família de bilionários cujo nome estava proibida por contrato de mencionar, e era dela o exemplar do livro sobre a Coreia. Na altura, cercada pelo luxo de um dos principais paraísos fiscais do mundo, deixei escapar a oportunidade de o ler.

Nada a invejar compreende o resultado de um trabalho de quase uma década acerca de uma das últimas ditaduras socialistas do século XX. Por meio do retrato de alguns cidadãos norte-coreanos, complementados pela comparação a outras fontes existentes sobre o país, a autora traça um vasto panorama de como é viver no país mais fechado do mundo. Um lugar onde, até pouco tempo, as pessoas sequer tinham ouvido falar de telefones celulares, onde a internet não existe, e a única fonte de informação consiste nos três canais de televisão estatais. Mais do que isso, trata-se de um país que viveu um verdadeiro milagre econômico durante os anos 1960, mas que perdeu absolutamente tudo após a queda da União Soviética: a produção industrial cessou completamente, juntamente com o pagamento de salários, a distribuição de alimentos e a eletricidade, fazendo com que a população esfomeada fosse entregue ao próprio destino. No entanto, contrariamente a Cuba, onde um arremedo do dólar circula abertamente, e o auto-empreendimento e o turismo internacional são fortemente encorajados, a Coreia do Norte continua a punir com a morte qualquer espécie de comercialização, o que faz com que seus índices de pobreza e subnutrição ultrapassem os níveis das piores crises de fome centro-africanas. Por outro lado, as constantes ameaças atômicas às democracias ocidentais, sobretudo aos Estados Unidos, bem como aos vizinhos (e irmãos) sul-coreanos, impossibilitam qualquer intervenção da parte de organizações internacionais, relegando uma população faminta e lobotomizada pela propaganda pró-dinastia Kim a um estado constante de miséria que já dura quase 30 anos.

Embora o excesso de detalhes possa vir a atrapalhar o fluxo de leitura daqueles mais habituados a uma literatura mais fácil, o livro de Demick chega a ser viciante. A autora soube aliar o estilo jornalístico investigativo a uma narrativa mais pessoal, quase romanceada, baseada em longas sessões de entrevistas. Escolhendo a dedo figuras deveras distintas, mas ao mesmo tempo muito semelhantes graças ao histórico de vida num país que aboliu a individualidade, o livro acaba transformando esses heróis e heroínas da vida real em personagens de romance, cujo destino o leitor ficará ansioso para desvendar, à espera, quem sabe, de um final relativamente feliz.

Mas será que se pode falar de relativa felicidade enquanto o pesadelo não acabar?

Título original: Nothing to Envy: Ordinary Lives in North Korea

País: Coreia do Norte

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Título brasileiro: Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-73-8)

Título português: A longa noite de um povo: A vida na Coreia do Norte

Edição portuguesa: Temas e debates (ISBN 978-989-6441-40-1)

Número de páginas: 416 (edição brasileira), 368 (edição portuguesa)

 

O teatro do bem e do mal, de Eduardo Galeano

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No último dia 13 de abril, o mundo perdeu – numa cajadada só – dois dos grandes pilares da literatura do século XX. Um deles, o inesquecível Nobel da Literatura Günter Grass; o outro, um dos mais destacados escritores e pensadores da América Latina: o já saudoso mestre uruguaio Eduardo Galeano. É a este último que a resenha deste domingo é dedicada.

O teatro do bem e do mal consiste numa compilação de textos escritos entre o final dos anos noventa e a aurora do século XXI, que contemplam os mais diversos temas, como a política internacional, a economia, o comércio, e a ecologia, mas reúne igualmente frases pichadas em muros e epitáfios extraídos de igrejas latinas. Vale lembrar que a compilação não foi realizada pelo próprio autor, e que, embora os textos originais tenham sido escritos em espanhol, estamos diante de uma edição exclusivamente brasileira. Nos fragmentos curtos e certeiros que compõem o livro, é possível entrever o espírito crítico de Galeano, bem como seu olhar clínico sobre a realidade e sua impressionante capacidade de fazer analogias, dando a vislumbrar um imenso repertório cultural. No centro das críticas, encontra-se não poucas vezes aquele que o autor, com ironia, denomina “o centro do mundo”: os Estados Unidos.

De maneira fácil, direta, e sem o peso de grandes aparatos teóricos, os textos de Galeano contemplam uma diversidade de situações que ao menos mereciam ter se tornado polêmicas. Dentre elas, é possível citar o fato de que o dinheiro gasto pelos “donos do mundo” para desenvolver apenas uma arma letal teria sido suficiente para acabar com a fome no mundo por um ano inteiro, ou que, embora tenham plena consciência dos danos incomensuráveis causados pelo chumbo nos seres humanos, as companhias petrolíferas continuam vendendo combustível com o aditivo aos países do chamado terceiro mundo. Trata-se de questões cruciais para a sociedade como um todo, formuladas de modo a serem facilmente compreendidas não apenas por aqueles habituados às questões sociopolíticas, mas por todo e qualquer cidadão interessado. Uma espécie de “Galeano em 90 minutos”, que certamente fará o leitor que ainda não teve a oportunidade de ler o trabalho do autor ter vontade de descobri-lo em toda a sua grandeza. Informativo, educativo, e irônico na medida certa.

Embora pudesse – e merecesse – ter pelo menos um terço a mais de páginas, a coletânea tupiniquim é extremamente bem-sucedida no sentido de dar a conhecer a um público mais vasto a pena de um dos mais importantes, originais e críticos pensadores da aurora do século XXI. Quanto ao efeito que fará aos leitores, asseguro que até mesmo os menos politizados terão vontade de o ler em voz alta, em praça pública, em plena hora do rush. Deveria tornar-se leitura obrigatória não apenas em escolas e universidades, mas também em presídios, creches, hospitais, e toda espécie de lugar público. Simplesmente, todo mundo merecia ter o direito de ouvir as palavras de Eduardo Galeano.

Eis aqui a vídeo-propaganda da compilação, dirigida por Saturnino Rocha:

 

Título original: O teatro do bem e do mal

País: Uruguai*

Idioma original: português

Ano de publicação: 2006

Edição brasileira: L&PM Pocket (ISBN: 978-85-2541-206-5)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 124 (edição brasileira)

*embora a edição seja exclusivamente brasileira.

Em busca de um final feliz, de Katherine Boo

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O maior desafio ao se escolher um livro indiano é encontrar algo que faça justiça a um país tão complexo e multifacetado. Optar, depois de uma procura de meses, por um ensaio escrito por uma norte-americana, em detrimento a tantos indianos de renome no mercado literário internacional, pode parecer uma decisão controversa. No entanto, muito mais que best sellers como Os Filhos da Meia-Noite (Salman Rushdie) ou Quem Quer Ser um Milionário? (Vikas Swarup), aqueles que conhecem realmente a Índia hão de concordar que Em busca de um final feliz é um dos livros contemporâneos que melhor refletem esse país tão cheio de contrastes. Talvez, justamente, por não ter sido escrito por um indiano.

Katherine Boo é um nome conhecido no meio jornalístico. Tendo dedicado boa parte de sua carreira aos pobres norte-americanos e aos meios por eles encontrados de suplantar a miséria, foi laureada com o prêmio Pulitzer por Serviço Público de 2000. Lançado em 2012, seu primeiro livro é o resultado de uma corajosa pesquisa realizada na favela de Annawadi, composta por moradias ilegais construídas em terreno pertencente ao aeroporto de Mumbai. Cercada por hotéis luxuosos e escrupulosamente escondida dos olhos do mundo por um muro onde se pode ler, infinitamente, a expressão “belo para sempre”, Annawadi oferece ao observador uma pequena amostra da imensa desigualdade que se esconde por detrás do chamado “milagre econômico indiano”. Nesse lugar insalubre, humilhados e ofendidos de castas inferiores e imigrantes da zona rural atraídos pela pretensa prosperidade da cidade grande tentam sobreviver dos restos do luxo às margens de um lago composto por detritos. São a merda no meio das flores.

Durante anos, Boo acompanhou o cotidiano de quatro moradores: um adolescente muçulmano que tenta sustentar a família de onze pessoas catando lixo; um órfão entregue ao próprio destino; uma jovem idealista que sonha ser a primeira mulher de Annawadi a completar o ensino superior; e sua mãe, que penetra numa rede de corrupção a fim de se tornar a primeira liderança feminina local. A partir desses quatro protagonistas, o leitor tem acesso a uma pequena amostra da realidade de um povo sem fala, e se confronta com uma série de verdades difíceis de digerir: o infanticídio como forma de livrar a família da ruína econômica, o suicídio de meninas diante da perspectiva de um casamento forçado, a autoimolação como último ato de vontade própria, as torturas policiais, o descaso do sistema judiciário, e a corrupção endêmica que arranca aos desprovidos o direito à menor migalha de humanidade. Durante a leitura, é impossível manter-se impassível diante do fato de que seus heróis são gente de carne e osso, e de que suas histórias são tão verdadeiras como a nossa.

Considerado uma das melhores leituras de 2012, o trabalho de Katherine Boo distingue-se pela sobriedade, ao contrário de tantos livros e filmes recentes que tentam ganhar dinheiro embelezando a pobreza e que, ao estilizar a miséria, geram interpretações romantizadas e voyeurismos reducionistas como os favela tours que assolam as periferias do Rio de Janeiro. À contramão disso tudo, o livro impressiona pela aguçada capacidade de observação da autora, pela sua imparcialidade, pelo respeito aos protagonista, e pela imensa paciência que foi sem dúvida necessária para conhecer ao pormenor personalidades pouco habituadas a dar voz aos seus fantasmas. Quem espera um final feliz vai certamente se decepcionar: ao contrário do que sugerem as ridículas ‘traduções’ do título em língua portuguesa, não se trata de uma leitura inspiradora ou moralizante, dessas que se leva para a praia num fim-de-semana com a família, mas sim de uma leitura essencial, que revolta, enoja e faz pensar. Pois, como cantou o poeta Renato Russo, não existe beleza na miséria.

Título original: Behind the Beautiful Forevers: Death, Life and Hope in a Mumbai Slum

País: Índia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Título brasileiro: Em busca de um final feliz: vida, morte e esperança entre os barracos de Mumbai

Edição brasileira: Novo Conceito (ISBN 978-858-1630-32-8)

Título português: O sonho de uma outra vida: Viver, morrer e ter esperança num bairro de lata de Bombaim

Edição portuguesa:  Edições Asa (ISBN 978-989-2325-54-5)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 288 (edição portuguesa)

O conflito: A mulher e a mãe, de Elisabeth Badinter

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Vivemos um verdadeiro retrocesso no que diz respeito à função da mulher na sociedade. Depois de décadas de luta por direitos iguais, a mulher vem perdendo novamente espaço graças ao aparecimento de um novo tirano: o filho. Eis o ponto de partida de O conflito: A mulher e a mãe, o mais recente trabalho da francesa Elisabeth Badinter.

Três décadas após o polêmico Um amor conquistado: O mito do amor materno, a filósofa feminista que chocou o mundo ao contestar o “instinto materno” volta a causar desconforto ao analisar a ambiguidade mãe-mulher na sociedade contemporânea. Tomando como foco o desenvolvimento histórico-social recente, a autora baseia-se nas baixas taxas de natalidade dos países desenvolvidos, e se pergunta sobre os motivos pelos quais eles têm vivido um decréscimo avassalador no número de nascimentos. Para encontrar uma resposta, ela analisa não apenas as políticas governamentais para motivar a população a ter filhos e o contexto socioeconômico no qual estão inseridas boa parte das mulheres que optam por não serem mães, mas também o peso de um fantasma que aterroriza as mulheres em idade fértil: o mito da mãe exemplar.

À contramão do entusiasmo com os avanços tecnológicos no século XX, o novo milênio é marcado por uma desconfiança coletiva do artificial. A partir da ideia de que tudo o que é “químico” faz mal, optamos pelo orgânico e pelo “natural”, fundando-nos na crença da sabedoria da “Mãe Natureza”. Por consequência, muitas mulheres – sobretudo as mais escolarizadas – desconfiam da pílula anticoncepcional, e condenam a peridural e a cesariana com base na ideia de que a ausência da dor anula o valor do rito iniciático do parto. Com a chegada dos filhos, preferem fraldas laváveis em vez de descartáveis, e condenam o leite em pó graças ao mito de que o leite materno contribui para o desenvolvimento cognitivo dos bebês. A mulher incapaz de amamentar por motivos fisiológicos sente-se incompleta, e aquela que opta pelo leite em pó por vontade própria é tratada como párea, indigna do presente que é a maternidade. Ao longo da infância do filho, a mãe é vista como a principal responsável pelo seu desenvolvimento, e sofre uma forte pressão social para que abdique de si mesma, partindo do princípio de que o filho deve estar sempre em primeiro lugar. Ao mesmo tempo, o quadro de divisão das tarefas domésticas entre os sexos mantem-se estagnado. Com tudo isso, a mulher do século XXI tende a buscar sua realização pessoal fora da maternidade, e acaba pospondo o desejo de ser mãe para não ter que optar entre papeis aparentemente inconciliáveis: o de mãe exemplar e o de mulher bem-sucedida professional e sexualmente.

À primeira vista, as reflexões de O conflito parecem muito distantes da realidade tupiniquim. Sem os inúmeros benefícios dos países de primeiro mundo, a mulher brasileira não pode se dar ao luxo de optar por ser mãe a tempo integral, e tem muitas vezes que trabalhar desde cedo, deixando os filhos aos cuidados de estranhos. Com isso, o fantasma da mãe perfeita acaba não se fazendo tão presente quanto nos países desenvolvidos. Por outro lado, sobretudo nas camadas mais favorecidas da população, já é possível notar uma certa tendência ao “naturalismo”, e cada vez mais mulheres escolarizadas abdicam da carreira para cuidar dos filhos – diante de um mercado de trabalho que não as valoriza, é bem necessário buscar outras fontes de auto-concretização. Ademais, a julgar pelo rápido decréscimo das taxas de natalidade no Brasil, assim como pelo aumento da idade média para ter filhos, pode-se dizer que a tendência dos países europeus faz-se sentir pouco a pouco também por aqui.

Um aspecto a ser criticado no ensaio de Badinter é o fato de que, ao falar do sentimento ambíguo vivido por mães do século XXI, a autora baseia-se em relatos de caráter semiliterário, o que torna questionável a validade dos seus argumentos, que teriam sido mais convincentes se fossem embasados em pesquisas de campo Ademais, é possível se perguntar se a autora, no seu desejo de “dizer a verdade”, não acaba caindo em generalizações e interpretações precipitadas. Em todo o caso, não estamos diante de um estudo acadêmico, mas sim de um ensaio filosófico, e a parcialidade, nesse tipo de literatura, é perdoável.

Apesar dos pesares, O conflito é uma leitura interessante, fácil e agradável, recomendável não apenas para mulheres preocupadas com a questão da maternidade, como também para todos aqueles – homens e mulheres – interessados numa reflexão perspicaz e acurada sobre a sociedade contemporânea.

Título original: Le conflit: La femme et la mère

País: França

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2010

Edição portuguesa: Relógio d’Água (ISBN 978-989-6411-83-1)

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1091-99-4)

Número de páginas: 168 (edição portuguesa), 224 (edição brasileira)