A herança de Orhan, de Aline Ohanesian

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Depois de três meses de silêncio, nada melhor para recuperar os velhos hábitos do que trazer-vos um livro cuja leitura me proporcionou grande prazer. Admitamos: mais por razões históricas do que por qualquer outra coisa. Afinal, fazer justiça histórica aos genocídios esquecidos do século XX sempre foi um dos meus grandes focos de interesse.

No imaginário coletivo, a palavra genocídio encontra-se intrinsicamente associada à shoah, o genocídio judeu pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. A imagem dos campos de concentração abarrotados e das câmaras de gás chegam a ser tão preponderantes, desde o cinema mainstream até os mais altos níveis da literatura, que quase chega a sufocar. Chega a não sobrar espaço para falarmos de outros extermínios em massa igualmente atrozes e igualmente extremos, cujas feridas talvez se encontrem muito mais abertas que a dos judeus. Pois se pensarmos, por exemplo, no maior desejo de uma vítima ou de seus familiares, este sempre vem relacionado com o conceito de justiça moral, que se estende desde a admissão do crime pelo algoz até o reconhecimento do sofrimento por parte da sociedade. No caso do genocídio armênio, não apenas o primeiro está bem longe de acontecer, como o segundo tem sido conquistado apenas lentamente e a duras penas: a Turquia continua a insistir que o extermínio nunca existiu, enquanto o resto do mundo o tem feito num murmúrio, relutante em cair no desagrado desta potência econômica semidemocrática com ocasionais surtos de violência.

Orhan’s Inheritance, o primeiro romance da historiadora Aline Ohanesian, filha de armênios, nascida no Kuwait e radicada aos três anos nos Estados Unidos, não poderia tratar de outro assunto. Situado em dois períodos históricos distintos, os últimos anos do Império Otomano e meados dos anos 1990, o livro fala justamente não apenas do genocídio, mas também da importância do seu reconhecimento. Orhan, um jovem comerciante turco originário de Sivas, decide viajar para os Estados Unidos depois de descobrir que o avô recém-falecido deixara em testamento a casa familiar para uma total desconhecida, uma senhora de quase noventa anos, residente em um lar de velhos nos arredores de Los Angeles. Lá chegando, com o intuito de persuadir a mulher a abdicar de sua parte da herança, o jovem dá de encontro com Seda, uma mulher misteriosa e arredia, cuja trajetória de vida está intrinsicamente ligada ao passado de sua própria família. Por meio de longas digressões até meados de 1915, período em que se iniciaram os massacres que exterminaram uma população de cerca de 1 milhão de pessoas, Orhan vai aos poucos descobrindo a relação entre Seda e o seu falecido avô, e como o seu legado familiar encontra-se alicerçado sobre uma grande mentira e um crime de Estado.

Como seria de se esperar de um romance sobre um holocausto, a trama é bela, porém feita sob medida para comover, repleta de pathos e de tragédias sensacionais, mas nem por isso menos reais. No seu afã de abarcar um longo período de história, a escrita se torna superficial, perdendo o espaço da reflexão mais aprofundada que o tema teria merecido. Por isso não é, e nem jamais chegaria a ser, uma grande pérola da literatura, mas foi sem dúvida bem escrito, e trará a qualquer leitor momentos de agradável leitura. Se de “agradável” se pode falar quando mulheres são violadas, enquanto outras obrigadas a dar à luz em plena marcha da morte. Talvez, no final, o leitor também fique frustrado por ter estado à espera de que as origens do protagonista fossem outras, e o reconhecimento mais pungente. Mas não é verdade que nem sempre os livros acabam como gostaríamos?

Ler para relembrar.

 

Título original: Orhan’s Inheritance

País: Armênia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição em inglês: Algonquin Books (ISBN: 978-161-6203-74-0)

Edição em português: não há

Número de páginas: 352 (edição em inglês)

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Solo d’un revenant, de Kossi Efoui

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A literatura togolesa é certamente uma das mais desconhecidas do mundo. Na verdade, pouco conhecemos acerca deste pequeno país tropical no norte da África, limitado por Gana, Burkina Fasso e pelo Benin. Kossi Efoui, romancista, dramaturgo e cronista de expressão francesa nascido no interior do país, é considerado um dos mais prolíficos escritores africanos da atualidade, sobretudo graças ao premiado romance Solo d’un revenant.

Talvez a mais forte impressão deixada por este livro peculiar seja o calor incessante que o perpassa de forma pungente. Situado em um país do interior africano, a narrativa descreve o retorno de um homem à terra natal dez anos após ter imigrado em consequência de uma brutal guerra civil. Ao chegar, instala-se num hotel enquanto se coloca à procura de uma pessoa que outrora conhecera. Mas a realidade à qual é confrontado é muito diferente daquela que tinha deixado uma década antes. Trata-se, afinal, de um país cujas recentes feridas abertas pela guerra foram mal cicatrizadas, dando lugar a uma sociedade na qual antigas vítimas e algozes são obrigadas a conviver lado a lado, e a reconstruir os escombros juntos como se nada tivesse acontecido.

Embora o local exato onde a trama decorre não seja nomeado, a descrição faz pensarmos na Ruanda de após os massacres que transformaram a metade do país em assassinos sanguinários, perseguindo e matando os próprios vizinhos, com um total de meio milhão de mortos em apenas três meses. Verdade é, no entanto, que a localização e o contexto exatos pouco importam ao escritor Kossi Efoui, já que o seu objetivo principal é explorar os elementos comuns da história recente dos países africanos, promovendo assim o chamado panafricanismo. No contexto da proposta narrativa que move Solo d’un revenant, este objetivo é alcançado sobretudo devido ao flerte entre a ficção e a realidade, permitindo com que as personagens adquiram uma verossimilhança ímpar, ao mesmo tempo em que se desenvolvem como uma espécie de alegoria das tragédias contemporâneas.

Tudo isso parece muito interessante, e de fato o é. No entanto, o que me incomoda neste romance, como também em uma grande parte nos romances africanos contemporâneos escritos em língua francesa, é o excesso extremo de experimentalismo com a linguagem, em detrimento do próprio enredo. Devido às mudanças abruptas de foco narrativo, torna-se  difícil acompanhar a história, o que diminui em parte o prazer da leitura.

Em todo caso, nem que seja pelo exotismo de termos diante dos olhos um romance da República Togolesa, fica aqui registrada a recomendação.

 

Título original: Solo d’un revenant

País: Togo

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2008

Edição francesa: Seuil (ISBN: 978-202-0971-93-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 207

Exercícios da perda, de Agata Tuszyńska

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A representação literária da morte, sobretudo quando baseada numa experiência autobiográfica, consiste num eterno motivo de controvérsia. Normalmente, esse tipo de narrativa resulta da necessidade do autor de ordenar a experiência da perda, e, como parte do processo de luto, não pode ser submetida aos mesmos paradigmas críticos que textos “verdadeiramente” literários. Um dos textos mais icônicos sobre o assunto é certamente Uma morte serena, da inigualável Simone de Beauvoir, dedicado aos últimos meses de vida de sua mãe. No ano retrasado, resenhamos outro texto que se encaixa nesta categoria: o premiado A onda, de Sonali Deraniyagala, que trata da morte de toda a sua família no Tsunami de 2004. Indo um pouco além, podemos inserir aqui também toda a chamada “literatura da Shoah”, ou literatura de testemunho dos grandes crimes contra a humanidade, seja o Holocausto judeu retratado por Kertész, seja o massacre dos Tutsis no Ruanda descrito por Mukasonga, ou até mesmo a miséria dos favelados nos diários de Carolina Maria de Jesus.

Em Exercícios da perda, a já consagrada escritora judaico-polonesa Agata Tuszyńska dedica-se aos últimos dezoito meses de vida de seu marido, o também escritor Henryk Dasko. Para isso, a autora escolhe partir exatamente do momento do diagnóstico de tumor cerebral, deixando de lado os quinze anos de vida em comum que antecederam a doença. Desta forma, é como se Tuszyńska afirmasse que a realidade esmagadora da perda iminente ofusca toda uma história de vida pré-doença, ou como se quisesse proteger a sua intimidade dos holofotes da escrita. Assim, o livro contém muito pouco de um amor romântico, quase não deixando entrever os motivos pelos quais essas duas pessoas de passada meia-idade, vindas de relacionamentos anteriores, apaixonaram-se uma pela outra. Sabemos que Henryk era um homem mais velho, que assumia para ela a função de pai e mentor, e que os papeis vão sendo trocados pouco a pouco a medida em que a morte se aproxima. Um relacionamento, enfim, muito pouco idealizado. Mas como não estamos aqui para julgar o relacionamento da autora, passemos à crítica do texto.

Exercícios da perda é um livro interessante, embora se encontre num limbo editorial, e certamente não teria sido publicado não fosse o fato de a sua autora ser famosa. Trata-se de um desses livros escritos para fazer bem ao autor, e não ao leitor, e que oscila entre a narrativa pessoal e o ensaio filosófico. Como não poderia deixar de ser, Tuszyńska, cuja carreira literária está quase totalmente dedicada à herança do holocausto no judeu contemporâneo, traça um paralelo eloquente e refinado entre sua perda pessoal e a de seus antepassados, vítimas da Kristallnacht e das câmaras de Auschwitz. Tudo isso é certamente muito interessante, mas acaba se tornando demasiado teórico, ofuscando parte da identificação do leitor com aquele outro tipo de amor que descende da perda, feito da resiliência e da negação de si mesmo. Falta às vezes o piegas, a declaração de amor, o que deveria ser um aspecto positivo, mas não nesse caso: afinal, esses elementos são substituídos por um eruditismo excessivo, às vezes pedante. Um desabafo que não chega a o ser devido ao excesso de autoafirmação intelectual.

Agata Tuszyńska é inegavelmente uma escritora de primeira, mas eu não recomendaria a nenhum leitor começar por este livro. Para descobri-la, mais vale dedicar-se a sua obra-prima, História familiar do medo, que refaz os passos de sua família durante a Segunda Guerra. E a quem esteja à procura de um “relato do câncer”, recomenda-se muito mais o singelo blog “Até à lua” da atriz portuguesa Marlene Barreto Frazão, dedicado ao marido morto em dezembro passado. Este sim emociona pela beleza despretensiosa, revelando, na sua cotidiana simplicidade, um verdadeiro valor de pérola literária.

 

Título original: Ćwiczenia z utraty

País: Polônia

Idioma original: polonês

Ano de publicação: 2007

Edição em português: não há

Título francês: Exercices de la perte

Edição francesa: Grasset (ISBN 978-224-6739-31-9)

Número de páginas: 320 (edição francesa)

In the Shadow of the Banyan, de Vaddey Ratner

12ratner  /// "In the Shadow of the Banyan" by Vaddey Ratner ///

Quando a narrativa de memória e a placidez do budismo se encontram, o resultado é uma história poderosa e emocionante, capaz de oferecer ao leitor uma visão do sofrimento totalmente diferente daquilo ao qual estamos acostumados. Eis o que se pode esperar de In the Shadow of the Banyan, primeiro livro da escritora cambojana Vaddey Ratner.

A história é contada a partir da perspectiva da pequena Raami, uma menina de sete anos que sobrevive contra todas as chances durante o sangrento governo do Partido Comunista da Kampuchea no Camboja (1975-1979). Filha de um príncipe poeta e de uma bela plebeia, a menina que até então crescera no conforto do palácio, protegida dos males do mundo qual um pequeno Sidarta, tem sua realidade subitamente transformada pela chegada dos khmer vermelhos. Forçada a abandonar sua casa e evacuar a cidade em pleno dia de ano novo, sua família sofre o mesmo destino de todo cidadão cambojano, tragada pelo caos absoluto de um Regime sem sentido, e tentando manter-se unida enquanto vê todas as coisas que lhes são importantes serem-lhe, uma a uma, arrancadas. Se, por um lado, o fato de ser membro da antiga nobreza torna Raami um alvo potencial de soldados iletrados instruídos para matar sem a menor hesitação, uma perna deformada pela poliomielite acaba se tornando um estigma positivo, já que a vida de uma aleijada vale menos que uma bala.

À primeira vista, a trama de In the Shadow of the Banyan faz pensar em tantos outros romances recentes que têm como foco a memória de um conflito. Ademais, o fato de a história ser narrada a partir da perspectiva de uma menina pequena apenas confirma uma tendência, na qual se inserem outros livros que apresentamos este ano (como o argentino La casa de los conejos, de Laura Alcoba, o palestino As madrugadas de Jenin, de Susan Abulhawa, e o zimbabuano We Need New Names, de NoViolet Bulawayo). Para além de tudo, todos os romances citados acima foram escritos por jovens autoras radicadas no estrangeiro, que tentam empregar a leitura como forma de relembrar o passado, denunciar os crimes, e enterrar os mortos.

A exemplo de sua protagonista, Vaddey Ratner também era membro da antiga dinastia cambojana, e tinha apenas cinco anos quando o golpe aconteceu. Relembrar as experiências amargas do passado e transformá-las num romance deve ter sido, sem dúvida, um exercício doloroso – exercício este, no entanto, que a jovem escritora conseguiu realizar com uma beleza e uma leveza extraordinárias.

Mas, afinal, em meio a tantas tragédias e tantas histórias parecidas, o que faz do livro de Ratner um romance sem igual? A diferença, tão clara para quem o lê, é ao mesmo tempo tão sutil que fica difícil expressá-la em palavras. Talvez seja a serenidade característica do budismo, talvez o curso lento e ininterrupto das águas do Mekong, ou talvez a consciência de que nada é para sempre… O fato é que temos aqui a poesia de uma história focada não na perda, mas em tudo aquilo que resta, na beleza universal.

Título original: In the Shadow of the Banyan

País: Camboja

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Edição em inglês: Simon & Schuster (ISBN 978-184-9837-60-6)

Edição em português: não há

Número de páginas: 352

As madrugadas em Jenin, de Susan Abulhawa

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Quem se emocionou com Os caçadores de pipas não pode deixar de ler As madrugadas em Jenin, seu contraparte feminino na Palestina.

O livro acompanha quatro gerações de uma família de camponeses do singelo vilarejo de Ein Hod, no norte de Israel, desde a sua expulsão pelos israelitas em 1948 até o século XXI. Em meio ao caos que sobreveio à auto-declaração do Estado de Israel, uma jovem mãe berbere tem seu filho mais novo raptado por um soldado, que deseja presentear o bebê à esposa judia, devolvendo-lhe assim o alento perdido num campo de concentração. Eis o início de uma história marcada por perdas e humilhações, narrada sobretudo a partir da perspectiva de Amal (“esperança”), irmã mais nova do menino desaparecido, nascida no campo de refugiados de Jenin. Mais tarde, os irmãos serão reunidos pelas circunstâncias da guerra, mas infelizmente lutarão em lados opostos. Assim, a mãe que enlouquece de tristeza ao ter seu filho brutalmente arrancado de seus braços torna-se um arquétipo da história da própria Palestina.

Para a maioria das pessoas, o conflito entre israelitas e palestinos parece tão complicado que nem vale a pena tentar entender. Porém, as coisas são simples assim: desde há pelo menos mil anos, a Palestina era a pátria de um povo simples de camponeses muçulmanos, até que, com a conivência do mundo ocidental, terroristas judeus sobreviventes da Segunda Guerra invadiram, ocuparam e expulsaram os verdadeiros donos da terra. “Uma terra sem povo para um povo sem terra” – eis o lema segundo o qual o mundo fechou os olhos, permitindo um dos processos de desapropriação mais vergonhosos do século XX: a criação do Estado de Israel. Só que a “terra sem povo” tinha povo, sim – os palestinos –, que desde então vem lutando pelo simples direito de continuar existindo e, Inshallah, um dia, voltar a pisar na terra de seus ancestrais.

Não deixa de ser interessante traçar um paralelo entre a imagem do conflito árabe-israelita presente em As madrugadas em Jenin – ou seja, uma luta de vida ou morte movida pelo mais primitivo instinto de sobrevivência –, e em O povo eterno não tem medo de Shani Boianjiu, que resenhamos no mês de junho. Ora, a crítica ao Estado de Israel torna-se ainda mais plausível ao pensarmos nas soldadas de Boianjiu, que matam por automatismo ou para aplacar o tédio, sem o menor comprometimento com a causa.

Fica claro que, para Susan Abulhawa, marinheira de primeira viagem, a mensagem é mais importante que a palavra. Mas, leitores magnânimos, perdoamos as pequenas fraquezas de seu livro, advindas sobretudo do excesso de idealização à cultura palestina (Por que o soldado que luta pela boa causa tem que ser invariavelmente o homem perfeito? Por que não criar personagens mais complexas e “humanas”, que carregam o bem e o mal dentro de si?). Importante dizer: se o fazemos, não somos apenas movidos pela importância da causa defendida pela autora, mas também pela inegável qualidade de sua sua escrita.

As madrugadas em Jenin foi lançado em Portugal em 2008, embora infelizmente tenha passado quase desapercebido no país. Quanto ao Brasil, ainda não há informação se haverá ou não uma edição tupiniquim. Enquanto fica à espera, o grande leitor brasileiro poderá baixar a edição Kindle em português, lançada no último mês de junho. Afinal de contas, vale tudo, menos deixar de ler este romance imperdível, que fará chorar até mesmo o leitor mais cético.

Título original: Mornings in Jenin

País: Palestina

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Quidnovi (ISBN 978-989-6281-74-8)

Número de páginas: 384

Inyenzi ou les cafards, de Scholastique Mukasonga

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Há vinte anos, teve início, num pequeno país do coração africano, aquele que ficaria conhecido como o genocídio mais brutal de todos os tempos. Tal fama não se deve apenas ao número de óbitos (cerca de 800 mil homens, mulheres e crianças), proporcionado à velocidade da ação (apenas 100 dias), mas sobretudo à quantidade inédita de assassinos, ao sadismo empregado pelos mesmos (munidos sobretudo de machetes e porretes), e ao fato de que, em Ruanda, os algozes eram, majoritariamente, conhecidos, colegas e vizinhos de suas vítimas.

Com exceção do aclamado filme de Terry George (Hotel Ruanda, 2004, prêmio de melhor filme do Festival de Cinema de Berlim), o extermínio dos Tutsis teve pouca visibilidade no Brasil. Provavelmente, a grande maioria dos brasileiros sequer saberia localizar Ruanda num mapa da África. Afinal, o que temos a ver com as tragédias de mais um povo africano, tão distante de nós?

O leitor brasileiro que se interessar pelo genocídio de Ruanda terá que se contentar com o parco material em português disponível na internet, a menos que possa recorrer à mais ampla bibliografia em língua estrangeira. Assim, descobrirá um país dividido pela adversidade entre duas etnias – os Hutus e os Tutsis -, e verá que as origens do mal foram disseminadas pelos colonizadores europeus, baseados na crença determinista de que os Tutsis eram mais “caucasianos” e, consequentemente, superiores aos Hutus. Verá também que, no outono de 1994, seguidamente à morte do presidente Juvénal Habyarimana num atentado, o movimento civil chamado “Hutu Power” deu início ao massacre que levou ao desaparecimento de aproximadamente 20% da população do país.

Primeiro livro da ruandesa Scholastique Mukasonga, Inyenzi ou les cafards narra a experiência da autora, pertencente à etnia minoritária Tutsi. Nesse livro, o leitor não encontrará o relato de uma sobrevivente dos acontecimentos que chocaram o mundo há duas décadas, mas sim o da vítima de um processo iniciado muito antes. Mukasonga foi obrigada a abandonar o país em 1973, deixando para trás a família que apenas reveria em duas ocasiões, uma vez que as visitas da filha colocavam em risco a segurança de todos. Mas se engana quem pensa que se tratava de uma família de ativistas políticos, de posição social importante, contestadora do governo. Mukasonga nada mais era que uma camponesa pobre, vivendo em situação de miséria na região mais inóspita de Ruanda, cujo único crime consistia em ter sido admitida como aluna na mais bem-conceituada escola para meninas do país – além, é claro, de ter a palavra Tutsi estampada no bilhete de identidade. Tratava-se de um programa empregado pelo governo para exterminar todos os Tutsis que possuíssem alguma escolaridade.

O texto, infelizmente, não tem tradução para o português, mas o leitor que se aventurar na língua de Baudelaire terá diante de si um relato pungente, que o fará entender o pano de fundo da tragédia de 1994. Para isso, a autora remete-nos ao final da década de 1950, quando, com o fim da colonização belga, boa parte dos Tutsis foi deportada para a árida região de Nyamata. A partir daí, ela narra os poucos momentos de felicidade numa infância pouco comum, vivida à sombra da ameaça dos soldados Hutus, em meio à opressão e a grandes privações. A morte, Mukasonga conheceu desde sempre, já que por épocas o número de mortos jogados no lago era tamanho, que a água que buscava para abastecer a família vinha coberta de resquícios de carne humana putrefeita. Mais tarde, ao ser admitida na escola de elite frequentada, entre outros, pela filha do presidente, trata dos sofrimentos encarados com resignação, bem como da grande humilhação de ser uma inyenzi (barata).

Diante de tantos anúncios de uma tragédia iminente, o capítulo que narra o genocídio de 1994 tem como título “o horror esperado”. Afinal, em vista ao que vinha ocorrendo em décadas, quem poderia dizer que o massacre foi uma surpresa? Aqui, a palavra toma por base o relato dos poucos sobreviventes da família de Mukasonga, e ela fala dos últimos momentos de alguns dos seus. Como o cunhado professor universitário, que teve uma morte lenta na prisão, tendo um membro do corpo amputado a cada dia, ou a irmã mais nova, grávida de 8 meses, que teve o feto arrancado da barriga a golpes de facão, em praça pública, e foi deixada para sangrar ao lado da filha de três anos. Ao todo, foram 37 mortos, entre os pais, irmãos, cunhados e sobrinhos. Tudo isso é contado com a frieza e o distanciamento típicos da “literatura do trauma”, o que assemelha o livro a textos escritos por sobreviventes dos campos de concentração. Aquele que sobrevive a uma tragédia de tal porte, compara o sofrimento do luto à dor de todos aqueles que não tiveram tanta sorte, e não se dá o direito de se sentir vítima.

Diante de um crimes de tais proporções, a maioria absoluta dos assassinos de 1994 nunca foi a julgamento. Assim, ao caminhar pelos vilarejos da juventude, dez anos depois, Mukasonga relembra os mortos e se pergunta se os mesmos vizinhos que agora cruza não seriam por acaso os assassinos de seus pais. Pois o mais trágico é que, até hoje, vítimas e agressores ainda convivem lado a lado, como se nada tivesse sido.

Por fim, a pergunta feita no início desta resenha  – o que temos a ver com o genocídio dos Tutsis? – pode ser respondida com uma citação de Terêncio: “Homo sum; humani nil a me alienum puto” (sou humano, nada do que é humano me é alheio). Embora a resposta não possa ser apenas relacionada à ideia de partilhar as “dores do mundo”, como diria Schopenhauer. Trata-se, mais do que isso, de relembrar como forma de dar nome às vítimas, honrar sua existência, dar sentido ao seu sofrimento. Além de, obviamente, servir como um alerta, na esperança de que a história nunca mais se repita.

Título original: Inyenzi ou les cafards

País: Ruanda

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2006

Versão em português: não há

Número de páginas: 191