As madrugadas em Jenin, de Susan Abulhawa

Abulhawa_Jenin

Quem se emocionou com Os caçadores de pipas não pode deixar de ler As madrugadas em Jenin, seu contraparte feminino na Palestina.

O livro acompanha quatro gerações de uma família de camponeses do singelo vilarejo de Ein Hod, no norte de Israel, desde a sua expulsão pelos israelitas em 1948 até o século XXI. Em meio ao caos que sobreveio à auto-declaração do Estado de Israel, uma jovem mãe berbere tem seu filho mais novo raptado por um soldado, que deseja presentear o bebê à esposa judia, devolvendo-lhe assim o alento perdido num campo de concentração. Eis o início de uma história marcada por perdas e humilhações, narrada sobretudo a partir da perspectiva de Amal (“esperança”), irmã mais nova do menino desaparecido, nascida no campo de refugiados de Jenin. Mais tarde, os irmãos serão reunidos pelas circunstâncias da guerra, mas infelizmente lutarão em lados opostos. Assim, a mãe que enlouquece de tristeza ao ter seu filho brutalmente arrancado de seus braços torna-se um arquétipo da história da própria Palestina.

Para a maioria das pessoas, o conflito entre israelitas e palestinos parece tão complicado que nem vale a pena tentar entender. Porém, as coisas são simples assim: desde há pelo menos mil anos, a Palestina era a pátria de um povo simples de camponeses muçulmanos, até que, com a conivência do mundo ocidental, terroristas judeus sobreviventes da Segunda Guerra invadiram, ocuparam e expulsaram os verdadeiros donos da terra. “Uma terra sem povo para um povo sem terra” – eis o lema segundo o qual o mundo fechou os olhos, permitindo um dos processos de desapropriação mais vergonhosos do século XX: a criação do Estado de Israel. Só que a “terra sem povo” tinha povo, sim – os palestinos –, que desde então vem lutando pelo simples direito de continuar existindo e, Inshallah, um dia, voltar a pisar na terra de seus ancestrais.

Não deixa de ser interessante traçar um paralelo entre a imagem do conflito árabe-israelita presente em As madrugadas em Jenin – ou seja, uma luta de vida ou morte movida pelo mais primitivo instinto de sobrevivência –, e em O povo eterno não tem medo de Shani Boianjiu, que resenhamos no mês de junho. Ora, a crítica ao Estado de Israel torna-se ainda mais plausível ao pensarmos nas soldadas de Boianjiu, que matam por automatismo ou para aplacar o tédio, sem o menor comprometimento com a causa.

Fica claro que, para Susan Abulhawa, marinheira de primeira viagem, a mensagem é mais importante que a palavra. Mas, leitores magnânimos, perdoamos as pequenas fraquezas de seu livro, advindas sobretudo do excesso de idealização à cultura palestina (Por que o soldado que luta pela boa causa tem que ser invariavelmente o homem perfeito? Por que não criar personagens mais complexas e “humanas”, que carregam o bem e o mal dentro de si?). Importante dizer: se o fazemos, não somos apenas movidos pela importância da causa defendida pela autora, mas também pela inegável qualidade de sua sua escrita.

As madrugadas em Jenin foi lançado em Portugal em 2008, embora infelizmente tenha passado quase desapercebido no país. Quanto ao Brasil, ainda não há informação se haverá ou não uma edição tupiniquim. Enquanto fica à espera, o grande leitor brasileiro poderá baixar a edição Kindle em português, lançada no último mês de junho. Afinal de contas, vale tudo, menos deixar de ler este romance imperdível, que fará chorar até mesmo o leitor mais cético.

Título original: Mornings in Jenin

País: Palestina

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Quidnovi (ISBN 978-989-6281-74-8)

Número de páginas: 384

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4 thoughts on “As madrugadas em Jenin, de Susan Abulhawa

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  3. Darei uma lida sim nesse livro. Mas discordo totalmente em dizer que os palestinos são os donos da terra, que os terroristas judeus invadiram-na, e reconhecer a terra de Israel como algo desastroso.. Aquele povo (judeu) estava há muito mais tempo naquelas terras. Só estava desocupada por causa da invasão romana em 75 d. C, que forçou o povo judeu a fazer a diáspora, se espalhando pelo mundo à fora. Seja justo (a) com a história.. E pelo que sei, civis e o Hamas, grupo terrorista, é quem tira o sossego e a paz de Israel, junto com países árabes que querem a DIZIMACAO do povo judeu e seu minúsculo país. Eles não tem direito de existir?

    • Obrigada pela atenção em comentar. Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que ao fazer uma resenha, estou fazendo uma análise literária em relação ao ponto de vista do livro em questão, e não de toda uma bibliografia histórica que me afastaria do meu objeto de análise. Seria matéria para uma tese, não para uma resenha de 800 palavras. Em segundo lugar, recomendo que leia a minha resenha sobre “The people of forever are not afraid”, o livro israelense que resenhei – o qual, ironicamente, também reitera a brutalidade e o terror impingido por Israel ao povo palestino. Talvez, tendo ele sido escrito por uma jovem israelense e judia, fique mais fácil para o leitor aceitar alguns fatos pouco digestos. Por último, considero curioso o argumento de que os judeus lá estavam há quase dois mil anos uma justificativa minimamente plausível para o direito de existência do estado de Israel. Seja ou não sionista, é preciso convir que o Estado de Israel foi criado e se perpetua ate hoje em meio a atos inimagináveis de violência que só não serão chamados de terrorismo se o nosso partidarismo nos impedir de dar nome aos bois. Qualquer ato de violência que atente contra a vida de civis não pode ser chamado por outro nome – venha ele de quem vier. Abraços e boas leituras! 😘

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