Vermelho como o sangue, de Salla Simukka

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De partida para sete semanas no sul do continente africano, mas consciente de que estou em dívida para com este blog, bem como para com o meu projeto de ler o mundo, deixo-vos esta breve resenha como presente de despedida.

Não sei se terei tempo e/ou condições (leia-se: uma conexão internet decente) para continuar resenhando as minhas façanhas literárias ao longo das próximas sete semanas, por isso não queria deixar mais um domingo passar batido. Para isso, optei por um livro bastante diferente do cenário no qual minhas viagens reais me levarão daqui a poucas horas. Afinal de contas, Vermelho como sangue tem neve, muita neve. Trata-se, sim, de mais um romance policial escandinavo – embora, infelizmente não na sua melhor forma.

Eis um resumo da trama em poucas linhas: um grupo de adolescentes ricos e drogados na cidade de Tampere encontra uma mala cheia de notas de 500 euros manchadas de sangue, e decide ficar com ela. Seu segredo é descoberto pela protagonista Lumikki Anderson, igualmente adolescente, considerada por todos a “esquisitona” do colégio, no maior formato comédias românticas estadunidenses. A menina, no entanto, não é apenas pobre e estranha, mas também – grande surpresa! – inteligente, e acaba se tornando uma peça essencial para desvendar o mistério da mala misteriosa, envolvendo-se para isso com a máfia local – inevitavelmente russa, e inevitavelmente sem coração.

A boa notícia é que o livro lê-se rápido, e que o mistério, embora facilmente desvendável, apresenta até meia dúzia de pequenas surpresas. A má é que se trata de um livro raso, repleto de clichês, que imita grosseiramente os grandes mestres do policial escandinavo, como Stieg Larsson e Jo Nesbø, sem nem mesmo tentar disfarçar. Como se não fosse o suficiente, a tradução em português feita por Anna Toivola Câmara Leme, está repleta de erros e incoerências, bem como de inversões anglófonas absolutamente inexistentes na língua portuguesa. Se, por um lado, uma série de questões em aberto deixam ao leitor o desejo de conhecer o resto da história – afinal, hoje em dia, sofremos de uma grande praga segundo a qual todo livro tem que logo virar série -, a qualidade deste primeiro faz com que fique difícil convencer-se a continuar.

É claro, podemos argumentar, não estamos diante de um romance a ser levado a sério, mas sim de um thriller para o público jovem. Mas será que os chamados “jovens adultos” não merecem coisa melhor? No meu tempo, devoravam-se os romances de mistério infanto-juvenis de Sidney Sheldon, que também não eram supostos serem levados a sério, mas que sem sombra de dúvida eram muito melhores.

Já não se faz nem mesmo literatura comercial como antigamente!

 

Título original: Punainen kuin veri

País: Finlândia

Idioma original: finlandês

Ano de publicação: 2013

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2354-43-1)

 

Número de páginas: 216

 

 

Unburnable, de Marie-Elena John

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Algumas histórias nos prendem a partir do primeiro parágrafo. Um romance mesclando o realismo fantástico latino-americano e o pragmatismo estadunidense, com forte viés feminista, que narra a trajetória de mulheres peculiares numa ilha perdida no meio do Caribe, estava fortemente fadado a chamar minha atenção. Eis o meu estado de ânimo ao começar a ler Unburnable, da novata Marie-Elena John.

Escritora de primeira viagem, John não tenta mascarar os motivos pelos quais decidiu se embrenhar na literatura. A autora, originária da pequena Dominica (não confundir com a muito mais proeminente República Dominicana), desejava escrever romances comerciais enquanto era obrigada a abdicar da carreira para se dedicar aos filhos pequenos. Que seu primeiro rebento literário se tornasse tudo menos um romance comercial tradicional, foi fruto de uma evolução que nem ela própria havia previsto. Foi como se a história de seu país de origem a tivesse impelido a algo muito mais denso e ousado que suas pretensões iniciais.

Unburnable narra a história de três gerações de mulheres de uma mesma família, sobre as quais parece pairar uma maldição descendente de sua força e inadequação às regras do mundo machista. Matilde, a avó, foi uma espécie de curandeira descendente de escravos fugidos, vivendo numa espécie de quilombo regido pelo matriarcado e por forte reminiscência do animismo africano. Iris, a mãe, carregava em seu sangue a mescla do sangue negro com o índio nativo, e foi tragada à ruína devido a sua incomparável beleza e ao apetite sexual fora da normalidade. Lilian, a filha, em cujo sangue cafuzo da mãe se mesclava a descendência longínqua do branco colonizador, foi criada por uma mãe de adoção segundo os preceitos da igreja católica, sem sequer desconfiar que as ladainhas cantadas pelas crianças da escola sobre a feiticeira enforcada e o estupro com uma garrafa de Coca-Cola diziam respeito à mãe e à avó. Confrontada com a verdade, isola-se de suas origens num exílio de mais de vinte anos nos Estados Unidos, até que o desejo de descobrir a verdade sobre suas antepassadas – bem como o de provar a inocência da avó, enforcada sob a acusação de assassinatos em série – faz com que retorne à terra natal. Acompanhada, aliás, por uma espécie de namorado, cuja utilidade do ponto de vista narrativo ainda estou por descobrir.

Um enredo como este será capaz de tirar o fôlego de qualquer leitor, sobretudo se levarmos em conta o imenso trabalho historiográfico empreendido pela autora, que procura resgatar por meio de suas personagens um pouco da riqueza de seu país. Contudo, o que sua inexperiência não lhe permitiu fazer foi justamente aquilo que para muitos autores tivesse sido talvez o mais fácil: criar uma protagonista realmente carismática. Ao fim e ao cabo, sobretudo se tomarmos em conta o peso da personalidade de suas duas antepassadas, a heroína Lilian soa-nos simplesmente mimada, egoísta e neurótica. Como se o sangue forte de Matilde se tivesse diluído com o tempo, como tinta negra em contato com a água.

Aliado ao fato de que a trama deixa diversos pontos sem nó, sobretudo no que diz respeito ao final demasiado aberto, a falta de carisma de Lilian faz com que o livro perca uma série de pontos, sem contudo despencar num abismo. Ao pesarmos seus pontos fortes e fracos, chegamos à conclusão de que se trata de uma boa leitura – boa, mas não excelente.

Nada mal para uma primeira tentativa!

Título original: Unburnable

País: Dominica

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2006

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Harper Collins (ISBN: 978-006-1977-88-6)

Número de páginas: 302

Assando bolos em Kigali, de Gaile Parkin

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Alguns livros são amor à primeira vista. Outros, no entanto, exigem de nós um certo esforço, um apuramento do paladar de modo a apreciar sua grandeza. Assando bolos em Kigali, da autora zâmbia (branca) Gaile Parkin, não foi de maneira alguma um caso de paixão fulminante. Muito pelo contrário: seu excesso de small talks, suas descrições intermináveis, bem como seu tom excessivamente didatizante, chegaram mesmo a me tirar do sério nos primeiros tempos, e a julgar que nunca mais o acabaria. Até que eu me desse conta de que sua beleza reside justamente naquilo que me havia incomodado a princípio.

Assando bolos em Kigali é um romance  cuja estrutura se desenrola de maneira similar a uma telenovela, tendo como eixo central a figura materna e benfazeja de Angel, uma avó quarentona da Tanzânia, proprietária de uma pâtisserie no coração de Kigali, capital do Ruanda. Seus clientes, oriundos das mais distintas classes sociais, são estrangeiros expats, funcionários das Nações Unidas, esposas de diplomatas, mas também pessoas simples, como soldados, enfermeiras e professores locais, bem como imigrantes indianos, árabes e de boa parte da África Central. Atraídos por seus excelentes dotes culinários, bem como pelo seu inigualável talento como conselheira, essas pessoas encontram em Angel uma interlocutora fiel e discreta, a quem confiam seus maiores segredos em torno de uma boa xícara de chá. Através da história individual de cada um de seus clientes, a simpática business woman é capaz não apenas de lhes criar um bolo absolutamente sob medida, mas também sair por aí fazendo pequenos remendos na vida cotidiana, pequenos atos de simpatia e bondade capazes de transformar pouco a pouco o mundo à sua volta.

Tudo isso é narrado, como dito anteriormente, num excesso de detalhes e numa lentidão capazes de incomodar o leitor mais afoito, daqueles que se encontram sempre à espera do clímax. Verdade seja dita, não se pode falar aqui de um ponto alto propriamente dito, exceto talvez pelo desenvolvimento progressivo da própria protagonista. Ao se confrontar com os dramas e tragédias pessoais de cada um de seus fregueses – muitos deles envolvidos diretamente no massacre dos tutsis pelos hutus na década de 1990 –, Angel torna-se capaz de enfrentar seus próprios fantasmas, permitindo-se o privilégio do luto, bem como da perda e do perdão. E chega a ser belo, se não um tanto clichê, que o consolo para uma mulher tão sábia venha justamente das palavras de uma jovem prostituta, dessas que fazem pensar na trágica Geni de Chico Buarque.

Ao fim de mais de 300 páginas, não sei dizer se Gaile Parkin é uma autora de verdadeiro talento, ou se o sucesso de seu livro tenha sido fruto de sorte. Afinal, aquilo que me pareceu a princípio ser o seu maior defeito acabou por se tornar a sua principal qualidade. Pois os seus longos diálogos, repletos de repetições e de detalhes aparentemente desnecessários, fazem o que quase nenhum outro livro africano tinha sido até agora capaz de fazer: transportar-me diretamente ao centro da narrativa. Suas descrições detalhadas incidem na memória de modo a que vejamos as cenas como se de um filme se tratasse, e chegássemos mesmo a sentir o perfume dos bolos de Angel. A estrutura novelesca permite a criação de um panafricanismo consciente, de uma exaltação dos aspectos que unem os diversos povos que se entrecruzam, negando assim as barreiras forjadas (pelos brancos) que serviram por séculos para os separar. E, por fim, a falta de pressa da narrativa faz-nos lembrar a temporalidade distinta dos povos menos desenvolvidos, muito menos sobrepujados pelo inexorável relógio, muito mais dispostos a se dedicar àquilo que na vida realmente é importante. Como uma boa xícara de chá tomada com os amigos.

Como se não bastasse, ainda podemos louvar o fato de que o livro, de forte teor feminista, aborda sobretudo questões relacionadas ao empoderamento das mulheres, numa sociedade na qual o feminismo ainda é visto com olhos fortemente desconfiados.

Um livro, afinal, perfeito para o dia de hoje: Feliz dia das mães!

Título original: Baking Cakes in Kigali

País: Zâmbia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Globo (ISBN: 9788525046987)

Número de páginas: 320

Negro e prata, de Paolo Giordano

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Eu sempre fui uma rebelde. Na adolescência, embora passasse pelo menos 60% do meu tempo livre lendo, nunca lia aquilo que os professores pediam. Preferia (e ainda hoje prefiro) Crime e Castigo, Os três mosqueteiros e Jane Eyre a Amor de perdição, Iracema e Lucíola. Por isso, embora aos quinze anos já tivesse lido mais que todos os meus colegas de classe juntos, minhas notas nas chamadas “provas do livro”, baseadas como as deles em resumos, nunca foram as melhores.

Mas a menina rebelde tornou-se uma adulta com senso de responsabilidade. Por isso, embora já tenha lido a Itália, dediquei-me esta semana ao meu primeiro livro italiano lido em língua italiana. Tinha mesmo que ser: em breve, terei de fazer uma temida “prova do livro” sobre ele. Por sorte, a leitura de Paolo Giordano transformou o senso de obrigação num prazer inigualável. Tanto pelo deleite da bella língua em que foi escrito, quanto pela deliciosa descoberta de uma das personagens mais bem desenvolvidas da literatura contemporânea.

Eles a chamam Senhora A., ou Babette, jamais pelo seu verdadeiro nome. Viúva, 68 anos, sem filhos. Da vida privada, só lhe conhecemos um amigo anão. Ela é uma espécie de ama, misto de empregada doméstica, babá e secretária do lar, agregada tão íntima à família que eles mesmos (mas não ela!) se confundem, e já não sabem se ela trabalha de fato ou se os serve por prazer, como se se tratassem de filhos adotivos. Sua retribuição financeira lhe é paga semanalmente, segundo uma tabela obtusa que só a patroa compreende – e que ela nunca questiona. Mas mais que organizar a vida do jovem casal e de seu filho pequeno, a “nossa Babette” serve como pilar de sustentação para relações familiares que só se descobrirão frágeis e repletas de rancor quando ela se ausentar por definitivo.

Negro e prata é um romance curto, escrito em primeira pessoa segundo a perspectiva do pai da família, e trata de um intrincado jogo de relações humana tão conhecido por qualquer brasileiro, mas quase inexistente no Velho Continente – as relações entre patrões e empregados domésticos. Relações estas que se desdobram num caleidoscópio de sentimentos a partir do dia em que a Senhora A. telefona para lhes dizer que já não virá mais. Ela está doente, muito doente, e ainda lhe restam poucos meses de vida. Eventualmente, a doença fará com que eles a vejam pela pessoa que é, ou ao menos que se dêem conta de que nunca a tinham visto. Até lá, no entanto, eles terão de aprender a lidar com um forte sentimento de rejeição, como mimados filhos adultos postos para fora de casa, e reorganizar os escombros de suas vidas, mantidas intactas ao longo dos anos graças à presença pacificadora da ama do lar.

Nascido em Torino em 1982, Paolo Giordano é um autor jovem que escreve como um velho. Sua escolha acertada das palavras, sua linguagem límpida, porém repleta de entrelinhas, faz com que nos sintamos a ler um sábio de 80 anos, e não um menino de 30. Seu livro é um daqueles que quase já não se fazem, focados muito mais na profundidade psicológica de suas personagens que na trama propriamente dita. Pela sua análise ponderada das relações humanas, pela sua gentil dissecação dos laços de família, bem como pela acertada criação narrativa de personagens fortes e inesquecíveis, temos aqui um romance que merece ser saboreado como um bom vinho do Piemonte.

Embora tenha sido lançado há apenas dois anos, Negro e prata já foi traduzido para uma dezena de línguas, dentre as quais o português. Vale a pena conferir!

Mais tarde vos conto a nota da minha “prova do livro”!

Título original: Il nero e l’argento

País: Itália

Idioma original: Italiano

Ano de publicação: 2014

Edição portuguesa: Relógio d’Água (ISBN 978-989-6415-24-2)

Número de páginas: 120

O dia seguinte, de Rhidian Brook

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Uma viagem de 12 horas, seguida por 8 de espera num aeroporto nada convidativo, e de mais 2 e meia até chegar em casa – eis o pesadelo de qualquer mortal. A menos que se tenha uma excelente companhia. A minha ontem foi o romance O dia seguinte, do escritor galês Rhidian Brook.

Vinha adiando a leitura deste livro porque não sou nem nunca fui uma grande apreciadora de romances históricos, sobretudo quando passados durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, fui agradavelmente surpreendida pelo fato de que O dia seguinte não é mais um livro sobre este tema já batido, mas sim sobre o pós-guerra, ou a tentativa de restabelecimento da Alemanha um ano após a derrocada de Hitler. Para escreve-lo, Brook inspirou-se no próprio avô, que, chamado para ocupar um cargo militar em Hamburgo em 1946, recusou-se a expulsar da mansão a si atribuída a família que lá vivia, optando por coabitar com os antigos inimigos.

Eis a ‘aberração’ – do ponto de vista britânico na época – cometida por Lewis, um dos protagonistas da trama, responsável por trazer a democracia e garantir o processo desnazificação no norte da Alemanha. Recém-chegado a uma Hamburgo em ruínas, o antigo herói de guerra tem a difícil função de reconstruir o país que ajudou a aniquilar, mas comporta-se de maneira oposta a seus conterrâneos: Lewis demonstra compaixão pelos sobreviventes alemães. Atitude, aliás, oposta à de sua esposa Rachael, cega de ódio pelo povo que matou seu filho mais velho, e incomodada pela suntuosidade da vila à beira do Elba que a família passa a habitar. A convivência forçada com os antigos proprietários da mansão, um atraente arquiteto alemão e sua revoltada filha adolescente, serve no entanto para apaziguar a fria senhora e devolver todos à vida.

A trama, que se desenrola de forma novelesca, apresenta a história sob o ponto de vista de várias personagens, entre principais e secundárias, oferecendo-nos um panorama do que terá sido viver em meio aos escombros de uma Alemanha vencida. Entre órfãos da guerra (Trümmerkinder) e nazistas camuflados, todos exaustos e famintos, a aversão aos novos colonizadores faz gerar a rebelião e a nostalgia pelo retorno do Führer, sobretudo à medida em que forasteiros ideologicamente programados desprezam os vencidos e os tratam como ratos.

É certo de que Rhidian Brook não escreveu nenhum futuro clássico da literatura ocidental. Muito pelo contrário: o livro é cheio de reviravoltas rocambolescas, personagens pouco profundas, e situações tão previsíveis que quase se tornam inesperadas. É um livro, enfim, descartável, desses feitos para um leitor mediano. No entanto, trata-se ainda assim de um romance bem escrito, cuja trama é viciante, e que nos permite repensar a História. Para mim, conhecedora (e crítica) que sou da cultura alemã, sobreveio a admiração, ao lembrar-me de que o país que é hoje um dos carros-fortes da economia global, e um dos maiores defensores da União Europeia, foi há tão pouco tempo o inimigo público número um, que estrangeiros de todo o mundo aprendiam na escola a temer e a desprezar. Admiração por este país que, citando, “não [estava] acostumado a debater”, mas que não apenas “encontrou sua voz”, como tornou-se um dos maiores oradores de uma Europa pacífica e sem fronteiras.

Tudo isso são divagações minhas, e não chega a ser abordado no livro de Brook. No entanto, costumo dizer que um livro que faz viajar para além dos seus limites, que faz pensar e revisitar paradigmas, que abre pontes para analogias, deve ser sempre vivamente recomendado.

Nada como um bom best-seller para fazer uma viagem longa e aborrecida tornar-se numa experiência memorável!

 

Título original: The Aftermath

País: País de Gales

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Título brasileiro: O dia seguinte

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN: 978-858-0575-92-7)

Título português: O despertar do mundo

Edição portuguesa: Asa (ISBN: 978-989-2325-37-8)

Número de páginas: 272 (edição brasileira), 328 (edição portuguesa)

Dogeaters, de Jessica Hagedorn

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Enquanto no Brasil a flutuante (e debutante) classe média convulsiona com medo de perder o pedestal e se deixa embalar por delírios midiáticos de golpe de Estado, o livro desta semana faz lembrar o que o “país do futuro” era até bem pouco tempo atrás – uma paradisíaca terra sem lei, marcada pelo contraste entre os muito ricos e os muito pobres. Estamos falando das Filipinas.

Dogeaters, ou “Comedores de cachorro”, foi escrito pela autora filipina Jessica Hagedorn em 1990, uma época em que o seu país ficava conhecido mundialmente pela corrupção deslavada e pela singela coleção de 3.000 pares de sapatos de sua primeira-dama. Enquanto o país engatinhava rumo a uma democracia experimental, a então jovem e ousada escritora radicada nos Estados Unidos oferecia-nos, em inglês, um panorama dos paradoxos históricos de sua terra natal.

Ambientado na década de 1950, romance é composto por uma série de fragmentos da vida cotidiana na cidade de Manila, abarcando desde empregados de loja e prostitutas até políticos de alto-escalão, diretores de cinema internacionais e estrelas de TV. Tendo como moldura as memórias de Rio Gonzaga, uma pré-adolescente abastada, futuramente imigrada (como a autora) para os Estados Unidos, o livro revela-nos as diferentes faces de um país fraturado. Regido por uma elite que se gabava de sua ascendência ariana e costumes europeus, enquanto renegava as idiossincrasias de sua rica cultura de origem, o livro apresenta-nos, com seu olhar aquilino, um retrato ácido e irônico de uma sociedade onde a miséria extrema, a tortura e a exploração sexual infantil convivem lado a lado com as soirées requintadas de uma elite cega e cínica.

Num ano marcado até agora por leituras relativamente medíocres, Dogeaters destaca-se como um livro bom em diferentes sentidos. Sua trama fragmentária, cujo recorte do mundo faz lembrar uma telenovela, flerta com os diferentes gêneros literários, desconstruindo a narrativa romanesca tradicional através de um forte experimentalismo narrativo. Ao mesmo tempo que testa os limites do gênero, Hagedorn o expande e constrói um romance inovador. Afinal, partindo da concepção tradicional do termo, o gênero romanesco caracteriza-se pela sua plurifomidade, bem como pela capacidade de construir um microcosmo perfeito, produzindo um recorte exemplar da realidade que descreve. Como resultado, o leitor de Dogeaters terá diante de si não apenas um texto empolgante e facilmente envolvente, mas também uma verdadeira aula de introdução à sociedade filipina. Trata-se, certamente, de uma realidade geográfica e culturalmente deveras distinta da nossa, mas que, tanto pela sua história recente de um pós-colonialismo mal resolvido, quanto pelas paisagens tropicais, ensolaradas e pseudodemocráticas, remetem-nos de imediato aos desmazelos das terras de cá.

Se ler nos faz viajar para mundos distantes, Dogeaters oferece-nos um exemplo preciso do que as viagens podem nos trazer de melhor, que é a capacidade de traçar paralelos e analisar criticamente nossa própria realidade. Por isso, e sobretudo numa época regida pela desinformação e pela incompetência analítica do cidadão comum, recomendo-o como um contributo essencial a toda biblioteca que se preze.

 

Título original: Dogeaters

País: Filipinas

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição inglesa: Open Road Media, Kindle Edition (ASIN: B00-DZE-JQ9-O)

Edição em português: não há

Número de páginas: 276

Solo d’un revenant, de Kossi Efoui

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A literatura togolesa é certamente uma das mais desconhecidas do mundo. Na verdade, pouco conhecemos acerca deste pequeno país tropical no norte da África, limitado por Gana, Burkina Fasso e pelo Benin. Kossi Efoui, romancista, dramaturgo e cronista de expressão francesa nascido no interior do país, é considerado um dos mais prolíficos escritores africanos da atualidade, sobretudo graças ao premiado romance Solo d’un revenant.

Talvez a mais forte impressão deixada por este livro peculiar seja o calor incessante que o perpassa de forma pungente. Situado em um país do interior africano, a narrativa descreve o retorno de um homem à terra natal dez anos após ter imigrado em consequência de uma brutal guerra civil. Ao chegar, instala-se num hotel enquanto se coloca à procura de uma pessoa que outrora conhecera. Mas a realidade à qual é confrontado é muito diferente daquela que tinha deixado uma década antes. Trata-se, afinal, de um país cujas recentes feridas abertas pela guerra foram mal cicatrizadas, dando lugar a uma sociedade na qual antigas vítimas e algozes são obrigadas a conviver lado a lado, e a reconstruir os escombros juntos como se nada tivesse acontecido.

Embora o local exato onde a trama decorre não seja nomeado, a descrição faz pensarmos na Ruanda de após os massacres que transformaram a metade do país em assassinos sanguinários, perseguindo e matando os próprios vizinhos, com um total de meio milhão de mortos em apenas três meses. Verdade é, no entanto, que a localização e o contexto exatos pouco importam ao escritor Kossi Efoui, já que o seu objetivo principal é explorar os elementos comuns da história recente dos países africanos, promovendo assim o chamado panafricanismo. No contexto da proposta narrativa que move Solo d’un revenant, este objetivo é alcançado sobretudo devido ao flerte entre a ficção e a realidade, permitindo com que as personagens adquiram uma verossimilhança ímpar, ao mesmo tempo em que se desenvolvem como uma espécie de alegoria das tragédias contemporâneas.

Tudo isso parece muito interessante, e de fato o é. No entanto, o que me incomoda neste romance, como também em uma grande parte nos romances africanos contemporâneos escritos em língua francesa, é o excesso extremo de experimentalismo com a linguagem, em detrimento do próprio enredo. Devido às mudanças abruptas de foco narrativo, torna-se  difícil acompanhar a história, o que diminui em parte o prazer da leitura.

Em todo caso, nem que seja pelo exotismo de termos diante dos olhos um romance da República Togolesa, fica aqui registrada a recomendação.

 

Título original: Solo d’un revenant

País: Togo

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2008

Edição francesa: Seuil (ISBN: 978-202-0971-93-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 207

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron

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Para compensar o fato de que domingo passado não teve resenha (por motivos de saúde, esclareço, afinal o livro da semana foi lido sim, senhores!), voltamos à quarta-feira premiada, sendo o bônus de hoje um dos meus livros brasileiros contemporâneos preferidos – ou talvez, simplesmente, “o” meu preferido: A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, do escritor mato-grossense Joca Reiners Terron.

Lançado há apenas três anos, este romance curto e viciante flerta com o realismo fantástico argentino enquanto se banha em altas doses de E.T.A. Hoffmann e Edgar Allan Poe. O resultado, no entanto, é sem dúvida exclusivamente tupiniquim. Oscilando constantemente entre a realidade e o sonho – ou talvez seja melhor dizer pesadelo –, a trama é dividida em sete partes, nas quais se entrecruzam as vidas de personagens distintas em torno de um grande mistério: quem será a criatura misteriosa que habita um antigo casarão mal-assombrado em pleno bairro do Bom Retiro, na cidade de São Paulo? O ser, identificado como sendo do sexo feminino, apesar de ser constantemente chamado de “criatura”, tem o tamanho e a fragilidade de uma menina de cinco anos, mas a sua pele carcomida por uma doença rara faz dele um monstro de aparência assustadora. Exímia desenhista, a criatura entretém-se no seu exílio forçado, acompanhada somente de uma enfermeira especializada em doenças terminais, em desenhar leopardos-das-neves. Diante da notícia de que um desses belíssimos animais, capturado das tundras siberianas, encontra-se em cativeiro no zoológico de São Paulo, a bondosa enfermeira decide levar sua protegida para um safári noturno que certamente não terá um final feliz.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, ou quem sabe ainda numa realidade paralela, um escrivão da polícia mulato, filho de um judeu e de uma prostituta, intercala noites insones de trabalho numa delegacia com dias intermináveis a cuidar do pai demente, um homem seco que parece nunca se ter dado conta de sua existência. Ainda se encontra por ali um taxista psicopata, cuja menina dos olhos são três cães assassinos, transformados por ele numa verdadeira máquina de guerra. Enquanto o homem se encontra à procura de sua próxima vítima, a criatura moribunda se prepara para o seu derradeiro passeio.

Empolgante e original, o romance de Terron destaca-se por fugir completamente do lugar-comum em que se encontra o romance urbano brasileiro, com seus intermináveis retratos da miséria humana exacerbada pelos noticiários da Rede Globo. Para mim, o livro se destaca não apenas pela boa história, mas sobretudo pela sua força narrativa. O estado de sonambulismo de suas personagens transpassa a história contada e se revela no cerne da própria narração, de modo a fazer qualquer leitor perder o sono para poder chegar ao final de uma só assentada.

Quem ainda não estiver convencido de que esta é a leitura perfeita para o feriado da Páscoa, pode-se deixar embalar pelo trailer (essa moda de trailer de livros parece que está mesmo a pegar!):

 

Título original: A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5922-34-9)

Edição portuguesa: não encontrada

Número de páginas: 176

Transit, de Abdourahman Waberi

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Há alguns dias, estive revendo o vídeo da maravilhosa escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie – cujo último livro, Americanah, foi aliás responsável tanto por este blog como pelo meu interesse em “ler o mundo” –, no qual ela fala sobre o perigo da história única. No vídeo, a autora fala sobre as armadilhas as quais nos submetemos quando somos constantemente expostos a uma imagem única e estereotipada de um outro país, povo ou cultura.

O romance Transit, do já relativamente conhecido escritor djibutiano Abdourahman A. Waberi, preocupa-se justamente em romper com o estereótipo da história única, oferecendo um panorama do seu país de nascença nos dias de hoje. Para isso, o autor recorre a uma narrativa pretensiosa e multifacetada, composta por diversos monólogos centrados em personagens distintas, os quais têm o objetivo de oferecer um retrato o mais completo possível da situação sócio-política do Djibuti nos dias de hoje.

O livro tem como ponto de partida das vozes de Bashir, um ex-soldado ferido, e Harbi, um intelectual de meia-idade resgatado há pouco da prisão por motivos políticos. Ambos encontram-se na fila do serviço de imigração do Aeroporto de Paris e, enquanto esperam, voltam-se em pensamento às pessoas que deixaram para trás: para Harbi, o filho e a esposa francesa; para Bashir, um antigo companheiro soldado. Serão essas personagens, ou seja, aqueles que ficaram, que darão voz às 150 páginas que compõem o livro.

Por meio da alternância entre vozes narrativas tão distintas, Waberi apresenta-nos um retrato digno de uma sociedade complexa e pouco conhecida. Eis, por sinal, um dos motivos pelos quais o seu livro deve, por si só, ser digno de louvor. Um segundo aspecto digno de destaque é a sua tentativa de reproduzir, por meio dos monólogos, a maneira de falar de suas personagens, oscilando entre a norma culta hipercorreta e as falhas de linguagem típicas de uma pessoa sem estudos.

Infelizmente, no entanto, os elogios à proposta literária de Waberi terminam, justamente, no plano das intenções. Afinal, a diferença entre a ideia e a sua execução é a tal ponto gritante, que o leitor dificilmente conseguirá se identificar com a história contada. Não que as personagens sejam mal construídas – aliás, se o são mal ficamos a perceber. O que incomoda, na verdade, é o excesso de devaneio, a divagação no melhor gênero fluxo de consciência à la Mrs. Dalloway, em detrimento não apenas da história mas também de um fio condutor. Como resultado, o leitor, desprovido do seu fio de Ariadne, terá grandes dificuldades em sair do labirinto, e completará a leitura mais por sentimento de dever que pelo prazer da leitura.

Apesar dos pesares, é preciso reafirmar que a proposta de Waberi é digna de admiração, justamente por diferir da “história única” contada por muitos dos livros sobre a África publicados hoje em dia – boa parte deles, inclusive, escritos por autores africanos. Nem que fosse só por isso, o que aliás já é muito, devemos tirar o chapéu para este romance inovador.

Para quem estiver interessado (espero que todos estejam), eis o vídeo da Chimamanda:

 

Título original: Transit

País: Djibuti

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2003

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Indiana University Press (ISBN 978-025-3006-89-9)

Edição francesa: Gallimard (ISBN 978-207-0768-74-5)

Número de páginas: 160 (edição inglesa), 176 (edição francesa)

Villa Pacífica, de Kapka Kassabova

Kassabova_Pacifica

O que aconteceria se o realismo fantástico de Isabel Allende colocasse uma mochila nas costas, entrasse no primeiro ônibus, e saísse mundo afora escrevendo guias turísticos? Eis o que aconteceria: o romance Villa Pacífica, da escritora búlgara-anglo-neozelandesa Kapka Kassabova.

Ambientado num país qualquer da América do Sul banhado pelo Pacífico, o livro conta a história de um grupo de gringos entre os vinte-e-muitos e os quarenta-e-poucos hospedados num lugar isolado e misterioso no meio do nada, um misto de hospedagem de ecoturismo e abrigo para animais, onde tudo e nada pode acontecer. Seus protagonistas, uma finlandesa frígida com o rosto comido pela eczema e seu marido so British metido a escritor, dão uma noção dos estereótipos que estão por vir. A seguir, virão um insuportável homem de negócios americano e sua esposa fazedora de filhos, um casal de mexicanos declaradamente indolente, um índio amazônico cheio de sabedoria, um latin lover paraguaio, uma matrona austríaca com as axilas cabeludas, dois australianos atléticos curtindo a vida adoidados, e assim por diante. Desnecessário dizer a que ponto todas essas figuras se revelam planas e previsíveis.

Contrariamente ao que tenta nos convencer o texto da contracapa, o enfoque da trama não se encontra nos acontecimentos de uma nebulosa noite de tempestade – aliás, são várias as noites de tempestade, ao ponto de que nem sequer nos apercebemos a qual delas o editor se refere. Para tornar a coisa mais bonita, poder-se-ia dizer que a ênfase da autora reside muito mais na relação entre esses seres divergentes, cujo único elo em comum parece estar justamente no fato de se encontrarem ao mesmo tempo na famigerada vila.

Para dizer a verdade, a história poderia ter facilmente cabido em 80 páginas a menos. Não que a narrativa seja forçosamente aborrecida – o que até nem é, sobretudo graças à fluidez dos diálogos, que faz com que a leitura avance com imprevista facilidade. O que incomoda mais é a constante impressão de déjà vu, já que boa parte das cenas consiste em repetições inúteis e desnecessárias. Precisava a protagonista perder-se três vezes no meio do mato? Uma só não teria dado conta? A cada novo capítulo ficamos à espera de que algo importante aconteça, a cada calada da noite renovamos a esperança de que uma grande catástrofe bote finalmente lenha na fogueira, queimando com ela a metade do elenco. Mas Villa Pacífica faz mesmo jus ao título que lhe foi dado. Até que chegam as últimas 50 páginas para salvar a lavoura, e Kassabova resolve que afinal quer mesmo é escrever um thriller psicológico. Mas não será, então, tarde demais?

Se fosse um filme de horror, Villa Pacífica estaria mais para Os outros do que para Turistas. O que de certa forma me faz suspirar aliviada – não vou eu ficar com ideias macabras da próxima vez que me encontrar num albergue no meio do nada. Eis um livro para viajantes intrépidos – não porque seja necessária uma dose extra de coragem para o ler, mais sim porque todo mochileiro acabará, de uma forma ou de outra, se identificando com algumas das situações descritas. E se apercebendo de que escrever para o Rough Guide ou para o Lonely Planet não é necessariamente o melhor emprego do mundo.

 

Título original: Villa Pacifica

País: Bulgária

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2010

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Alma Books (ISBN 978-184-6881-86-2)

Número de páginas: 285 (edição inglesa)