O menino que descobriu o vento, de William Kamkwamba

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Algumas histórias de vida são tão impressionantes que, caso fossem narradas num romance, muita gente torceria dizendo que são inverossímeis. Dos confins do Malaui, esse pequeno e (hoje) relativamente próspero país espetado no sudeste do continente africano, vem uma dessas histórias inspiracionais, dessas que mais parecem conto da carochinha: O menino que descobriu o vento.

William era apenas mais um menino sonhador e irrequieto, oriundo de um paupérrimo vilarejo agrícola, mas cuja curiosidade e capacidade criativa o destacavam da massa de crianças pobres e descalças ao redor. Obrigado a abandonar a escola devido à falta de meios de seu pai para pagar as elevadas mensalidades, o menino ainda assim não desistiu de perseguir o seu sonho de adquirir conhecimentos, devorando a esparsa biblioteca improvisada que uma missão de caridade havia deixado no local. Fascinado por manuais de física e invenções, o menino descobriu os milagres da energia eólia e, com a ajuda de dois amigos e utilizando o tempo livre que lhe sobrava para explorar o ferro-velho local, conseguiu construir uma torre imensa, uma verdadeira aberração de ferro soldado, a qual, diante da risota incrédula de todo o vilarejo, conseguiu transformar na primeira fonte de energia elétrica de toda aquela região do país.

De fato, a história de William Kamkwamba é tão impressionante que, ao ser descoberta, foi capaz de transformar não apenas a sua vida, mas a de todos os nela envolvidos. Adorado pelos repórteres, mas sem o menor auxílio do Estado ou dos diretores de escola locais, sua fortuna só seria traçado após um convite para a renomada conferência TED Global, atraindo a atenção das mídias internacionais e de generosos mecenas gringos. E o seu discurso emocionado, narrado em um inglês alquebrado que ainda torna mais incrível que ele tenha sequer sido capaz de entender os manuais de física que usara, está lá para todo mundo ver, reproduzido milhões de vezes graças às maravilhas da internet.

Mas essa história poderosa de luta e sobrevivência, esse conto de fadas meritocrático de um self-made boy saído das periferias do mundo globalizado, também esconde uma crítica ferrenha às elites africanas, cuja incapacidade de gerir um país submetem seu povo a um constante flerte com a morte, ao desespero da fome e à impotência da miséria, ofuscando os maiores talentos e os condenando ao esquecimento. Crítica justíssima, diga-se de passagem, embora incomode que, no entretempo, o branco seja mostrado como um herói salvador, uma espécie de fada azul capaz de transformar o inventorzinho africano num menino de verdade, abrindo-lhe as portas para um mundo mais digno.

Se desta vez não tenho palavras para a qualidade literária do texto é porque, mais uma vez, se trata de um livro escrito a duas penas, com a ajuda de Brian Mealer, um jornalista estrangeiro. O mesmo, aliás, que transformaria a narrativa num livrinho ilustrado para crianças – mais um sinal de que a trajetória de Kamkwamba se assemelha a um conto de fadas, uma ode ao deus da meritocracia, cuja mensagem consiste em “quem não desiste, persevera”. Toda a gente sabe que não é bem assim.

De todas as formas, se lido com um olhar crítico, não se pode deixar de dizer que se trata de um livro realmente interessante, e de uma história de vida ainda mais, e que por isso recomendo.

 

Título original: The Boy Who Harnessed the Wind: Creating Currents of Electricity and Hope

País: Malaui

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Título brasileiro: O menino que descobriu o vento

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-853-9002-55-9)

Título português: O rapaz que prendeu o vento

Edição portuguesa: Presença (ISBN 978-972-2343-51-0)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 304 (edição portuguesa)

Eu sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

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Eu sou Malala é um livro que dispensa apresentações. Mais famoso que Paulo Coelho, mais disputado que o último CD de Justin Bieber, o livro que narra a trajetória da “menina que foi baleada pelo Talibã” correu rapidamente o mundo, fazendo da jovem paquistanesa uma figura carimbada, e servindo de trampolim para que ela se tornasse o mais jovem Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ironicamente, o que Malala não cansa de repetir ao longo das quase 400 páginas de sua autobiografia é que ela não desejava ser conhecida por ter tomado um tiro no rosto, mas sim pela sua luta para promover a educação em seu país de origem. Mas será que o seu ativismo político é realmente o motivo de tão grande celebridade?

Para já, chamar o best seller de autobiografia por si só deveria levantar uma série de reticências: sabemos que o livro foi escrito em coautoria com a jornalista inglesa Christina Lamb, especialista em países de democracia duvidosa, como o Oriente Médio, a África do Sul e o Brasil. Se os méritos de uma narrativa tão detalhada – e muitas vezes até mesmo aborrecida – só podem ser atribuídos à própria Malala, foi sem dúvidas a experiente jornalista quem conseguiu transformar a matéria bruta num sucesso comercial, digno dos 3 milhões de dólares que a menina teria recebido pelos direitos autorais.

Seria perda de tempo (meu e vosso) dedicar mais de meia dúzia de linhas ao enredo mais que conhecido: Malala, uma estudante da região de Swat, tornou-se conhecida graças ao seu discurso em prol da escolaridade de meninas em seu país natal, devastado pelo Talibã. Sua loquacidade só se tornou possível graças ao apoio do pai, diretor da escola onde estudava e empenhado combatente pelos Direitos Humanos. O comportamento pouco convencional de pai e filha fez com que terminassem na mira dos fanáticos islamistas, que os acusavam de secularização e ocidentalização. Mas não estamos aqui para julgar a coragem de Malala, mas sim a qualidade de sua biografia.

O livro, bastante recheado, e decorado por uma longa sessão de fotografias em guisa de apêndice, tenta intercalar os quinze anos de vida de Malala a um vasto aparato de informações históricas, no intuito de alinhar a micro e a macro narrativa. Tudo isso, é claro, sem deixar de lado inúmeras anedotas do cotidiano, como as banais historietas de disputas com as amigas pelo título de melhor aluna da escola, a fim de oferecer ao leitor uma Malala mais “humana”, cheia de erros, mas que não deixou que o sucesso e a celebridade lhe subissem à cabeça. Tal fórmula, acrescida das incontáveis frases de efeito motivacional que poderiam ter sido retiradas diretamente de O alquimista, tornam a leitura enervante, e não nos surpreendemos nem um pouco ao descobrir que a heroína pela educação é, de fato, uma fã de carteirinha do escritor brasileiro mais vendido de todos os tempos. Para terminar, o livro surpreende pela falta de espírito crítico de uma menina tão politizada, quando se trata de elogiar sem precedentes um outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, no qual ela parece não ver nem a sombra de boa parte da culpa pela presença dos talibãs em seu amado Paquistão. Ironicamente, os mesmos talibãs que quase conseguiram silenciá-la. Seria a Malala tão ingênua, ou tratar-se-ia apenas de um recurso editorial para fazer o livro mais apresentável, mais conforme à sensibilidade do leitor ocidental? A julgar pelo fato de que, em entrevistas e debates anteriores à publicação da biografia, Malala levantou sim a voz para criticar abertamente a intervenção militar e as políticas estadunidenses no Paquistão, tendo a me deixar levar pela segunda opção.

Obviamente, não estou a colocar em causa a importância da mensagem que Malala veio dar ao mundo, mas sim a parcialidade e o maniqueísmo de um livro feito para agradar as grandes massas. Um livro que perdeu uma excelente oportunidade de contextualizar o crescimento da força de grupos extremistas a partir de 2001, e de questionar o papel dos Estados Unidos e da “luta contra o terror” no crescente estado de guerra que domina o Oriente Médio.

Ao fim de uma leitura não completamente maçante, mas que mesmo assim me custou duas semanas, fica a lição: da próxima vez, eleger uma obra de literatura de verdade.

Título original: I Am Malala: The Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban

País: Paquistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5923-43-8)

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2351-73-7)

Número de páginas: 360 (edição brasileira), 352 (edição portuguesa)

 

 

Monasterio, de Eduardo Halfon

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Desde que cheguei à Europa, sempre me incomodou uma pergunta inevitável: qual a sua origem? Pela perspectiva brasileira, a origem de uma pessoa está relacionada ao país onde ela nasceu – afinal, seria absurdo indagar sobre as raízes familiares de alguém num país tão miscigenado, exceto talvez durante as aulas de geografia. A maioria dos brasileiros nem o saberia dizer. Mais tarde, no entanto, descobri que a resposta a esta pergunta não é tão preto no branco assim. Como alguém nascido na Alemanha, com pais e avós nascidos na Alemanha, mas que até hoje não obteve direito à nacionalidade alemã poderia considerar-se alemão? E o que falar da superioridade arrogante de alguém nascido num país “marginal”, criado num gueto cultural do país de seus pais, que nunca fez sequer o esforço de aprender a língua da terra onde veio ao mundo?

Ainda mais complicada é a situação de um guatemalteca judeu, ¾ árabe e ¼ polaco, que não fala uma palavra de polonês, árabe ou hebraico, mas que é tão fisicamente distinto dos homens de sua terra natal que é frequentemente tratado como “gringo”. Eis o dilema que descreve Eduardo Halfon em sua novela Monasterio.

O livro, que poderíamos chamar de autobiografia ficcional, começa com a chegada do protagonista e seu irmão no aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, onde pretendem participar do casamento da irmã caçula, reconvertida em judia ortodoxa, com um judeu americano ultraconservador. Autodeclarado ateu, hispânico e guatemalteca, Eduardo se sente incomodado com a imposição social que o obriga a se sentir judeu, e tenta romper com um passado que não lhe pertence. Ao mesmo tempo, no entanto, percebe que também não se encaixa na sociedade guatemalteca, e acaba se sentindo como uma espécie de híbrido indefinido, eternamente fadado ao meio do caminho.

Em uma série de sequências curtas, que não obedecem forçosamente a ordem cronológica, Halfon faz-nos viajar por três continentes, enquanto percorre as ruas de Tel Aviv, Nova Iorque, Antigua e Łódź, e até mesmo a fronteira entre a Guatemala e o Belize, numa série de situações interligadas pelo tema do sentimento de identidade. Cada uma dessas narrativas curtas e interessantes poderia, por si só, ter dado origem a um romance completo. Assim, é com um certo pesar que o leitor se despede de cada capítulo, embora reconheça que a riqueza deste livro inovador reside justamente em seu caráter fragmentário. O que melhor que o patchwork para definir uma história de vida tão particular?

Aclamado pela crítica internacional, Eduardo Halfon destaca-se hoje em dia como um dos mais talentosos escritores latino-americanos da chamada “nova geração” – a qual, entretanto, já vai deixando de ser assim tão nova. Monasterio faz certamente justiça à enxurrada de críticas positivas que o autor tem recebido, mas ainda não foi traduzido para o português. Quem não quiser esperar para descobrir o seu trabalho, pode começar por outros livros já traduzidos, como O anjo literário e O boxeador polaco. Afinal, a julgar pela primeira impressão, optar por este autor é uma escolha sempre certa.

 

Título original: Monasterio

País: Guatemala

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição em espanhol: Libros del Asteroide (978-841-5625-77-3)

Número de páginas: 128 (edição em espanhol)

Exercícios da perda, de Agata Tuszyńska

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A representação literária da morte, sobretudo quando baseada numa experiência autobiográfica, consiste num eterno motivo de controvérsia. Normalmente, esse tipo de narrativa resulta da necessidade do autor de ordenar a experiência da perda, e, como parte do processo de luto, não pode ser submetida aos mesmos paradigmas críticos que textos “verdadeiramente” literários. Um dos textos mais icônicos sobre o assunto é certamente Uma morte serena, da inigualável Simone de Beauvoir, dedicado aos últimos meses de vida de sua mãe. No ano retrasado, resenhamos outro texto que se encaixa nesta categoria: o premiado A onda, de Sonali Deraniyagala, que trata da morte de toda a sua família no Tsunami de 2004. Indo um pouco além, podemos inserir aqui também toda a chamada “literatura da Shoah”, ou literatura de testemunho dos grandes crimes contra a humanidade, seja o Holocausto judeu retratado por Kertész, seja o massacre dos Tutsis no Ruanda descrito por Mukasonga, ou até mesmo a miséria dos favelados nos diários de Carolina Maria de Jesus.

Em Exercícios da perda, a já consagrada escritora judaico-polonesa Agata Tuszyńska dedica-se aos últimos dezoito meses de vida de seu marido, o também escritor Henryk Dasko. Para isso, a autora escolhe partir exatamente do momento do diagnóstico de tumor cerebral, deixando de lado os quinze anos de vida em comum que antecederam a doença. Desta forma, é como se Tuszyńska afirmasse que a realidade esmagadora da perda iminente ofusca toda uma história de vida pré-doença, ou como se quisesse proteger a sua intimidade dos holofotes da escrita. Assim, o livro contém muito pouco de um amor romântico, quase não deixando entrever os motivos pelos quais essas duas pessoas de passada meia-idade, vindas de relacionamentos anteriores, apaixonaram-se uma pela outra. Sabemos que Henryk era um homem mais velho, que assumia para ela a função de pai e mentor, e que os papeis vão sendo trocados pouco a pouco a medida em que a morte se aproxima. Um relacionamento, enfim, muito pouco idealizado. Mas como não estamos aqui para julgar o relacionamento da autora, passemos à crítica do texto.

Exercícios da perda é um livro interessante, embora se encontre num limbo editorial, e certamente não teria sido publicado não fosse o fato de a sua autora ser famosa. Trata-se de um desses livros escritos para fazer bem ao autor, e não ao leitor, e que oscila entre a narrativa pessoal e o ensaio filosófico. Como não poderia deixar de ser, Tuszyńska, cuja carreira literária está quase totalmente dedicada à herança do holocausto no judeu contemporâneo, traça um paralelo eloquente e refinado entre sua perda pessoal e a de seus antepassados, vítimas da Kristallnacht e das câmaras de Auschwitz. Tudo isso é certamente muito interessante, mas acaba se tornando demasiado teórico, ofuscando parte da identificação do leitor com aquele outro tipo de amor que descende da perda, feito da resiliência e da negação de si mesmo. Falta às vezes o piegas, a declaração de amor, o que deveria ser um aspecto positivo, mas não nesse caso: afinal, esses elementos são substituídos por um eruditismo excessivo, às vezes pedante. Um desabafo que não chega a o ser devido ao excesso de autoafirmação intelectual.

Agata Tuszyńska é inegavelmente uma escritora de primeira, mas eu não recomendaria a nenhum leitor começar por este livro. Para descobri-la, mais vale dedicar-se a sua obra-prima, História familiar do medo, que refaz os passos de sua família durante a Segunda Guerra. E a quem esteja à procura de um “relato do câncer”, recomenda-se muito mais o singelo blog “Até à lua” da atriz portuguesa Marlene Barreto Frazão, dedicado ao marido morto em dezembro passado. Este sim emociona pela beleza despretensiosa, revelando, na sua cotidiana simplicidade, um verdadeiro valor de pérola literária.

 

Título original: Ćwiczenia z utraty

País: Polônia

Idioma original: polonês

Ano de publicação: 2007

Edição em português: não há

Título francês: Exercices de la perte

Edição francesa: Grasset (ISBN 978-224-6739-31-9)

Número de páginas: 320 (edição francesa)

Dossier K., de Imre Kertész

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Em 2002, o escritor Imre Kertész foi galardoado com o primeiro (e até o momento único) prêmio Nobel da Literatura concedido a um autor de origem húngara. Pouco tempo depois, diversas biografias, estudos e monografias sobre sua vida e obra proliferaram como cogumelos nas casas de edição de toda a Hungria. Kertész, no entanto, jamais poderia ser considerado o autor húngaro por excelência: primeiramente por ser judeu, e em seguida por jamais ter participado ativamente do cenário literário e cultural do seu país, sendo mesmo, em certa medida, considerado persona non grata nos altos círculos de Budapeste. Em resposta a tanto dito e ao não dito, resolveu publicar, juntamente com o seu tradutor em inglês Tim Wilkinson, uma espécie de memoir, o qual tem a forma de uma entrevista de pouco mais de duzentas páginas. Eis em que consiste o livro Dossier K.

Não é possível escrever sobre a obra de Kertész sem pensar em sua conturbada biografia. De fato, uma grande parte de seus escritos são baseados em experiências pessoais, ou foram pelo menos inspirados por cenas verídicas de um passado pouco comum. Aos catorze anos, Kertész tornou-se mais uma vítima do Nazismo, tendo sido prisioneiro em Auschwitz e Buchenwald, de onde só conseguiu se libertar com a derrota dos alemães. Mais tarde, com o final da Segunda Guerra Mundial, o menino tornou à casa transformado, movido por um indelével sentimento de alheamento em relação ao mundo ao seu redor, obrigado, no entanto, a retomar a rotina do ponto onde fora interrompido. Concluiu a escola, descobriu os grandes clássicos da literatura, e iniciou uma carreira literária quase sem pensar, na qual são revividos não apenas os traumas dos campos de concentração, mas também toda a confusão mental do pós-guerra, bem como a catástrofe sociopolítica que representou a ascensão do comunismo na Hungria.

Dossier K consiste numa entrevista apaixonante, de grande interesse não apenas para aqueles que já conhecem a inigualável obra de Kertész, mas também para aqueles que nunca leram um livro seu. Para os primeiros, consistirá num convite para uma descoberta literária da qual jamais se arrependerão; para os últimos, será um enorme presente, como o making-off de um filme o é para os seus fãs mais aficionados. Em todo caso, trata-se sem sombra de dúvida de um documento preciosíssimo, o qual nos permite ter acesso à mente de um escritor de primeira categoria, e desvendar os mistérios do seu processo criativo, das conexões entre literatura e realidade, bem como da sua maneira singular de analisar o mundo ao seu redor.

Difícil será, no meu caso, ler outros 120 livros antes de poder me permitir retornar a este tão pouco conhecido pilar da literatura do século XX.

Título original: K. dosszié

País: Hungria

Idioma original: húngaro

Ano de publicação: 2006

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Melville (978-161-2192-02-4)

Número de páginas: 224 (edição em inglês)

American Gypsy, de Oksana Marafioti

Marafioti, Gypsy

Quem estiver interessado, encontrará facilmente outros (poucos) blogs dedicados a um projeto parecido com o meu: ler um livro de cada canto do mundo. Porém, pesquisando suas listas de leituras, surpreendo-me com tentativas horrendas de forçar uma determinada nacionalidade em cima de um livro, em nome de completar a lista a todo custo. Sete Anos no Tibet, por exemplo, passa a ser um livro do Liechtenstein, porque o autor austríaco viveu nesse país durante alguns anos, enquanto o ultracolonialista Coração das Trevas, de Joseph Conrad, entra na lista como um livro do Congo. Como determinar a nacionalidade de um livro? Quais os critérios a serem levados em consideração?

Foi pensando nisso tudo que descobri Oksana Marafioti, uma cigana que nasceu num país que não existe mais, passou a infância e a juventude de cidade a cidade, e se radicou nos Estados Unidos aos quinze anos de idade. Neste, todos os possíveis critérios de identidade simplesmente não se aplicam – e eis justamente o que confere beleza à sua narrativa.

American Gypsy é um relato estritamente pessoal, escrito em primeira pessoa, sobre os anos de formação de uma rapariga  pouco comum. Filha de pai cigano e mãe armênia, Oksana cresceu junto à família do pai, uma trupe de artistas que faziam espetáculos de música e dança por toda a União Soviética. Pouco antes da queda do regime de Stalin, a família conseguiu imigrar rumo à cidade de Los Angeles, onde Oksana tenta então montar o quebra-cabeças da própria personalidade. Nascida na cidade de Riga, hoje capital da Letônia, e oriunda de um país que deixou de existir, a menina que sentira na pele o preconceito decorrente de seu sangue cigano, sonha em ser um dia uma verdadeira americana – a exemplo de um Pinóquio contemporâneo que deseja se tornar um menino de verdade. Suas memórias dos primeiros anos em território americano são entrecortadas por digressões que nos remetem aos confins da Rússia, intercalando passado e presente narrativo de modo a revelar, pouco a pouco, uma biografia peculiar.

Nos Estados Unidos, Oksana descobre que ser cigana não é tão mau assim. Sua origem confere-lhe ares de exotismo, embora o que a adolescente mais anseia é anular suas idiossincrasias, passando a ser só mais um rosto na multidão. Filha de uma mãe alcoólatra e de um pai errante, que abandona a família para viver com a amante mal colocam os pés na terra do Tio Sam, Oksana descreve sua tentativa de se integrar em meio a brigas, ameaças de casamento arranjado e seções de exorcismo, num mundo que pode ser tudo, menos “normal”. Com o tempo, a menina soviética taciturna e sem amigos consegue encontrar o seu lugar no mundo, e se dá conta de que sua força reside justamente naquilo que a distingue dos outros.

Do ponto de vista narrativo, American Gypsy é um livro sem grandes destaques: o texto é correto, sem fortes demonstrações de virtuosismo literário, mas também sem graves defeitos a serem criticados. Seu vocabulário muitas vezes rebuscado, bem como seu apego pelo preciosismo, refletem a busca de uma autora estrangeira por apoderar-se ao máximo de uma língua que não é a dela, o que, longe de atrapalhar, confere à leitura maior autenticidade. Tudo isso é entremeado por uma série de fotografias do álbum familiar de Oksana, criando uma ponte entre realidade e ficção. Eis a fórmula de um livro interessante, que abre uma pequena fresta para um universo que nos é alheio, e que só por isso já merece ser lido. Um livro que é tão letão ou tão americano quanto é universal.

Título original: American Gypsy: A Memoir

País: Letônia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição em português: não há

Edição em inglês: FSG Books (ISBN: 978-037-4104-07-8)

Número de páginas: 383 (edição em inglês)

 

Persépolis, de Marjane Satrapi

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Marje é uma menina como outra qualquer. Ou talvez não exatamente. Filha única de intelectuais de esquerda, seu livro preferido é uma versão em quadrinhos de Marx e Descartes. Com apenas dez anos, é dona de uma língua afiadíssima, sonha em reparar as injustiças do mundo, e deseja, quando crescer, tornar-se profeta. Marje não vê problemas em dizer o que pensa, e foi educada pelos pais de forma a não conhecer limitações – nem por ser mulher, nem por ser iraniana. Ou seja: tudo exatamente ao contrário dos preceitos da Revolução que transformou seu país, de uma monarquia laica e aberta ao mundo, em um Estado islâmico fechado e conservador.

Persépolis, título da autobiografia em quadrinhos da artista gráfica iraniana Marjane Satrapi, refere-se ao nome da antiga capital do Império Persa, e pretende lembrar-nos que o país hoje conhecido pelo extremismo religioso foi outrora o berço de uma civilização moderna e sofisticada, e que o Islamismo lhe foi impingido com violência. Com isso, presta uma homenagem a todos os seus antepassados que morreram lutando pelos ideais democráticos e pela igualdade de direitos.

O livro, originalmente publicado em quatro tomos, acompanha a conturbada vida da protagonista do final dos anos 70 até meados da década de 90. A primeira parte – e talvez a mais interessante – mostra-nos a revolução sob a perspectiva inocente de uma criança, cuja vida é lentamente transformada quando as escolas estrangeiras são fechadas, meninos e meninas separados, e as meninas obrigadas a portar o véu. A segunda mostra-nos uma Marje corajosa e rebelde, em plena pré-adolescência durante a Guerra Irã-Iraque, cada vez mais confrontada com a violência à sua volta, mas que não se dá conta dos perigos aos quais sua insubordinação a sujeita. A terceira acompanha os anos de solidão, desraizamento e perdas em que a adolescente, mandada para Viena a fim de terminar seus estudos, torna-se uma estrangeira, distanciando-se cada vez mais de si mesma e das suas origens. Por fim, a última parte trata do seu retorno ao Irã, da readaptação impossível, do choque de mentalidades, e das reviravoltas da vida até tornar-se suficientemente madura ao ponto de finalmente deixar o país.

A maioria dos grandes leitores já deve ter ouvido falar de Persépolis, nem que seja graças ao filme homônimo ganhador do prêmio do jury no Festival de Cannes de 2007. Àqueles que já viram o filme e estavam até agora postergando a decisão de ler o livro: não esperem mais. Se o filme já era bom, o livro nem se compara. A grande diferença fica por conta do ritmo: enquanto o filme se atropela para fazer caberem 360 páginas em meros 95 minutos, o livro agracia-nos com o compasso mais lento e a riqueza de detalhes. A diferença é impressionante.

Com um argumento pungente e extremamente bem escrito, o livro prova ao mais cético dos leitores que a graphic novel é, sim, literatura, enquanto a imagem complementa, dá vida e movimento à palavra escrita. O traço em preto e branco é simples e agradável aos olhos, o texto é sério e ao mesmo tempo divertido. Uma leitura que entrará para os favoritos de muita gente.

E para quem já leu o livro, mas ainda não viu o filme:

Para o filme completo, clique aqui.

Título original: Persepolis

País: Irã

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2000-2003

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5911-62-6)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6661-12-0)

Número de páginas: 352

La casa de los conejos, de Laura Alcoba

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Quando pensamos nos nossos vizinhos do sul, é impossível não nos referirmos à rivalidade no futebol. Enquanto os brasileiros se gabam de Pelé e Ronaldinho, os argentinos revidam com Maradona, e quando mencionamos com orgulho as cinco estrelas na camisa, nossos eternos adversários ironizam a derrota na última Copa do Mundo. Frivolidades à parte, existe um campo no qual a Argentina parece vencer o Brasil a muito mais que 7×1: no questionamento das atrocidades cometidas durante a ditadura e na busca pela verdade.

La casa de los conejos retoma um gênero de grande importância na América Latina do século XX, porém muito pouco explorado em terras tupiniquins: a literatura de memória ou de testemunho. À exceção de exemplos esparsos, como Fernando Gabeira, e, mais recentemente, Edney Silvestre, a Ditadura Militar de 1964-1985, embora fortemente presente no cinema nacional, raramente tem obtido espaço na literatura de ficção. Mais preocupada em reproduzir fórmulas gastas e imitar modelos norte-americanos, a literatura brasileira, refletindo a sociedade, cala, enquanto a de nossos vizinhos hispânicos não tem medo de falar – pelo menos a julgar pela nova leva de autores argentinos, como Martín Kohan, Félix Bruzzone e Laura Alcoba.

La casa de los conejos é narrado a partir da perspectiva de Laura, nove anos, filha de militantes de esquerda envolvidos na organização Montoneros, oposta ao brutal regime militar da época. A trama, que se desenrola no ano de 1976, é focada nos meses em que a menina, acompanhando a mãe foragida, compartilhou o teto com outros nomes da guerrilha, vivendo numa célula onde funcionava a imprensa montonera: a chamada “casa dos coelhos”. Romance modesto de pouco mais de cem páginas, o livro impressiona ao reconstruir o universo da resistência e narrar o cotidiano dos clandestinos políticos sob um ponto de vista tão peculiar. Incapaz de compreender as dimensões do embate que testemunha, a menina arrancada dos confortos da infância compreende no entanto que não faz parte de um jogo de crianças. Laura, que vê serem-lhe atribuídas responsabilidades de adulta, não é poupada do desgaste emocional nem do pavor de serem descobertos, presos ou exterminados. Na guerra, não se permitem fraquezas nem se atribuem imunidades.

Recomenda-se, ao longo da leitura, que não nos esqueçamos do seu fundo autobiográfico, e que, ao chegarmos ao final, dediquemo-nos às pessoas nela retratadas: não é sempre que o leitor pode encontrar tantos registros e fotografias das personagens sobre as quais esteve a ler. Da mesma forma, uma vez que a narrativa se restringe ao ponto de vista da menina, a internet pode servir de epílogo e dar a conhecer o verdadeiro “final da história”.

Mas toda reprodução não deixa de ser recriação. Assim, é preciso assinalar que, do ponto de vista literário, o livro de Alcoba deixa algo a desejar. É de se imaginar que a intenção da autora tenha sido ser ao máximo fiel às lembranças de infância, e que ela não tenha querido preencher os inevitáveis lapsos de memória com interpretações e juízos posteriores. No entanto, é inegável que La casa de los conejos deixa a sensação de que poderia ter ido mais longe, entrado mais em detalhe, e desenvolvido melhor algumas personagens centrais que se vão perdendo com o tempo, como, por exemplo, a mãe. Com um tema deveras apaixonante e uma qualidade narrativa bastante aguçada, o livro teria merecido ser, pelo menos, cem páginas mais longo.

Escrito originariamente em francês, La casa de los conejos já foi traduzido para diversos idiomas, dentre os quais o espanhol, o inglês, o alemão, e até mesmo o sérvio. No entanto, o português ainda não faz parte dessa lista. Vergonhosamente para nós, permanecemos ainda, também no que compete ao alcance do mercado editorial, a anos-luz de distância de um dos nossos vizinhos mais próximos.

Título original: Manèges

País: Argentina

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2007

Edição espanhola: La casa de los conejos – Edhasa (ISBN 978-843-5010-24-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 136 (edição espanhola)

A onda, de Sonali Deraniyagala

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Sonali Deraniyagala convive diariamente com o peso do inconcebível: tudo o que ela amava foi levado por uma onda. Em dezembro de 2004, quando um devastador tsunami atingiu a costa do Sri-Lanka, ela estava passando as férias com os pais, o marido e os dois filhos pequenos numa reserva florestal no sudeste do país. Ao emergir dos escombros e perceber que estava viva, esta professora de ciências econômicas erradicada em Londres foi acometida por uma realidade devastadora e indizível – todas as pessoas que ela mais amava no mundo estavam mortas.

Embora a maior tragédia ambiental do sudeste asiático seja o inevitável ponto de partida para essa narrativa pungente, quem pensar que tem diante de si mais um livro sobre o tsunami estará comprando gato por lebre. Pelo contrário, o episódio do tsunami ocupa somente as primeiras 20 páginas do relato, que se estende por quase uma década. O que Deraniyagala realiza nos 90% restantes do seu livro vai muito além de uma mera repetição desse episódio dramático, visto e revisto por bilhões de pessoas ao redor do mundo. O que A onda tematiza é muito mais devastador e muito mais difícil que sobreviver a qualquer onda gigante: o desafio de conviver, dia após dia, com a dura realidade de ter perdido quem se ama.

Ao longo do relato organizado cronologicamente, Deraniyagala compartilha com o leitor os diversos processos pelo qual passou, desde o momento da tragédia até os dias atuais: a apatia do choque, a fase da revolta e da autodestruição, os momentos de dúvida e as crises de culpa, a aceitação lenta e cheia de recaídas, e a imensa saudade que não se atenua com o tempo. Mas o leitor que estiver em busca de um happy end ou de uma mensagem de esperança deve procurar em outra parte: não existe happy end para uma tragédia tão terrível. É que não se trata de ficção ou de uma obra de autoajuda, que converge na catarse e no apaziguamento do espírito, mas sim de um relato real. E a realidade, ainda que isso seja difícil de aceitar, nem sempre faz sentido, assim como a vida nem sempre é bela e a dor não passa com o tempo – apenas muda de forma.

Se resenhar uma autobiografia nunca é fácil, resenhar a autobiografia de uma mulher que perdeu, de uma só vez, as cinco pessoas mais queridas neste mundo poderia ter se convertido numa tarefa mais difícil ainda. Afinal de contas, como encontrar o equilíbrio ideal entre o “leitor ingênuo” e o “crítico”, não se deixando levar pela emoção, a fim de julgar objetivamente a qualidade do texto em pauta? Felizmente para nós, o livro de Deraniyagala é tão fluido e bem escrito, que não deixa margem para críticas do ponto de vista literário. Apesar do forte potencial para o sensacionalismo, a autora realizou a difícil façanha de encontrar o tom ideal, sóbrio e profundamente honesto, que distingue seu livro de tantos outros relatos de sobreviventes que invadem a cada ano o mercado. Não é a toa que ele foi considerado um dos melhores livros de 2013 pela The New York Times: A onda comove pela simplicidade sem cair no melodrama. Uma bela homenagem não só àqueles que perdemos, como também à memória do que deles resta dentro de nós.

Título original: Wave

País: Sri Lanka

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: não há

Edição portuguesa: Vogais (ISBN 978-989-6682-05-7)

Número de páginas: 240 (edição portuguesa)

Inyenzi ou les cafards, de Scholastique Mukasonga

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Há vinte anos, teve início, num pequeno país do coração africano, aquele que ficaria conhecido como o genocídio mais brutal de todos os tempos. Tal fama não se deve apenas ao número de óbitos (cerca de 800 mil homens, mulheres e crianças), proporcionado à velocidade da ação (apenas 100 dias), mas sobretudo à quantidade inédita de assassinos, ao sadismo empregado pelos mesmos (munidos sobretudo de machetes e porretes), e ao fato de que, em Ruanda, os algozes eram, majoritariamente, conhecidos, colegas e vizinhos de suas vítimas.

Com exceção do aclamado filme de Terry George (Hotel Ruanda, 2004, prêmio de melhor filme do Festival de Cinema de Berlim), o extermínio dos Tutsis teve pouca visibilidade no Brasil. Provavelmente, a grande maioria dos brasileiros sequer saberia localizar Ruanda num mapa da África. Afinal, o que temos a ver com as tragédias de mais um povo africano, tão distante de nós?

O leitor brasileiro que se interessar pelo genocídio de Ruanda terá que se contentar com o parco material em português disponível na internet, a menos que possa recorrer à mais ampla bibliografia em língua estrangeira. Assim, descobrirá um país dividido pela adversidade entre duas etnias – os Hutus e os Tutsis -, e verá que as origens do mal foram disseminadas pelos colonizadores europeus, baseados na crença determinista de que os Tutsis eram mais “caucasianos” e, consequentemente, superiores aos Hutus. Verá também que, no outono de 1994, seguidamente à morte do presidente Juvénal Habyarimana num atentado, o movimento civil chamado “Hutu Power” deu início ao massacre que levou ao desaparecimento de aproximadamente 20% da população do país.

Primeiro livro da ruandesa Scholastique Mukasonga, Inyenzi ou les cafards narra a experiência da autora, pertencente à etnia minoritária Tutsi. Nesse livro, o leitor não encontrará o relato de uma sobrevivente dos acontecimentos que chocaram o mundo há duas décadas, mas sim o da vítima de um processo iniciado muito antes. Mukasonga foi obrigada a abandonar o país em 1973, deixando para trás a família que apenas reveria em duas ocasiões, uma vez que as visitas da filha colocavam em risco a segurança de todos. Mas se engana quem pensa que se tratava de uma família de ativistas políticos, de posição social importante, contestadora do governo. Mukasonga nada mais era que uma camponesa pobre, vivendo em situação de miséria na região mais inóspita de Ruanda, cujo único crime consistia em ter sido admitida como aluna na mais bem-conceituada escola para meninas do país – além, é claro, de ter a palavra Tutsi estampada no bilhete de identidade. Tratava-se de um programa empregado pelo governo para exterminar todos os Tutsis que possuíssem alguma escolaridade.

O texto, infelizmente, não tem tradução para o português, mas o leitor que se aventurar na língua de Baudelaire terá diante de si um relato pungente, que o fará entender o pano de fundo da tragédia de 1994. Para isso, a autora remete-nos ao final da década de 1950, quando, com o fim da colonização belga, boa parte dos Tutsis foi deportada para a árida região de Nyamata. A partir daí, ela narra os poucos momentos de felicidade numa infância pouco comum, vivida à sombra da ameaça dos soldados Hutus, em meio à opressão e a grandes privações. A morte, Mukasonga conheceu desde sempre, já que por épocas o número de mortos jogados no lago era tamanho, que a água que buscava para abastecer a família vinha coberta de resquícios de carne humana putrefeita. Mais tarde, ao ser admitida na escola de elite frequentada, entre outros, pela filha do presidente, trata dos sofrimentos encarados com resignação, bem como da grande humilhação de ser uma inyenzi (barata).

Diante de tantos anúncios de uma tragédia iminente, o capítulo que narra o genocídio de 1994 tem como título “o horror esperado”. Afinal, em vista ao que vinha ocorrendo em décadas, quem poderia dizer que o massacre foi uma surpresa? Aqui, a palavra toma por base o relato dos poucos sobreviventes da família de Mukasonga, e ela fala dos últimos momentos de alguns dos seus. Como o cunhado professor universitário, que teve uma morte lenta na prisão, tendo um membro do corpo amputado a cada dia, ou a irmã mais nova, grávida de 8 meses, que teve o feto arrancado da barriga a golpes de facão, em praça pública, e foi deixada para sangrar ao lado da filha de três anos. Ao todo, foram 37 mortos, entre os pais, irmãos, cunhados e sobrinhos. Tudo isso é contado com a frieza e o distanciamento típicos da “literatura do trauma”, o que assemelha o livro a textos escritos por sobreviventes dos campos de concentração. Aquele que sobrevive a uma tragédia de tal porte, compara o sofrimento do luto à dor de todos aqueles que não tiveram tanta sorte, e não se dá o direito de se sentir vítima.

Diante de um crimes de tais proporções, a maioria absoluta dos assassinos de 1994 nunca foi a julgamento. Assim, ao caminhar pelos vilarejos da juventude, dez anos depois, Mukasonga relembra os mortos e se pergunta se os mesmos vizinhos que agora cruza não seriam por acaso os assassinos de seus pais. Pois o mais trágico é que, até hoje, vítimas e agressores ainda convivem lado a lado, como se nada tivesse sido.

Por fim, a pergunta feita no início desta resenha  – o que temos a ver com o genocídio dos Tutsis? – pode ser respondida com uma citação de Terêncio: “Homo sum; humani nil a me alienum puto” (sou humano, nada do que é humano me é alheio). Embora a resposta não possa ser apenas relacionada à ideia de partilhar as “dores do mundo”, como diria Schopenhauer. Trata-se, mais do que isso, de relembrar como forma de dar nome às vítimas, honrar sua existência, dar sentido ao seu sofrimento. Além de, obviamente, servir como um alerta, na esperança de que a história nunca mais se repita.

Título original: Inyenzi ou les cafards

País: Ruanda

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2006

Versão em português: não há

Número de páginas: 191