O quinto filho, de Doris Lessing

lessing_child

No que diz respeito à escolha de autores, eu sempre fui uma pessoa um bocado preconceituosa. Na adolescência, recusava-me a ler tudo aquilo que cheirasse a best-seller, mesmo que com isso deixasse passar alguns clássicos: Erich Maria Remarke, Ernst Hemingway, Hermann Hesse… como também uma autora extremamente popular, cujos livros enchiam as prateleiras de qualquer biblioteca dos anos 1980 e 90: a britânica nascida no Irã Doris Lessing.

Fui conhecer Doris Lessing apenas à custa de necessidade. Estava na praia do Tofo, no Moçambique, e como não houvesse meio de carregar meu iPad, uma bolorenta edição alemã de O quinto filho era o único livro que me havia à disposição. E confesso que a espera valeu a pena: trata-se, para mim, do melhor livro do ano até o momento.

O quinto filho é um livro curto, de pouco mais de 100 páginas, concebido como uma espécie de fábula às avessas, e narra a infeliz história de um jovem casal perfeito, Harriet e David, cujo pequeno idílio familiar cai completamente por terra após à chegada de Ben, o quinto rebento. Narrado com um forte tom de crônica jornalística no qual preponderam a acidez e a ironia, o livro oferece-nos uma crítica ferrenha à hipócrita sociedade britânica, ao mesmo tempo em que revela a verdadeira essência do vínculo maternal.

Após conhecerem-se numa festa de escritório, Harriet e David descobrem um no outro o parceiro perfeito para as suas ambições pequeno-burguesas. Avessos às tendências libertárias dos anos 1960, os dois decidem se casar, comprar uma imensa casa vitoriana e enche-la de filhos, levando uma vidinha feliz e sem grandes arrebatamentos, baseada nos princípios da fidelidade e da estabilidade familiar. No começo, tudo corre bem, e a casa se torna o refúgio de uma infinidade de parentes e amigos ansiosos por compartilhar seu paraíso doméstico – as contas até se acumulam devido à eterna romaria de visitantes. Sua sorte, no entanto, mudará drasticamente desde a concepção do quinto filho, cujo desenvolvimento ainda no útero é de tal forma violento que provoca a rejeição imediata de uma mãe até então exemplar. Completamente fora do controle, Harriet tem a impressão de que o filho está a tentar mata-la por dentro, sensação que só tende a agravar com o nascimento difícil, seguido de uma amamentação catastrófica e de um primeiro ano ainda pior. O menino, de aparência estranha e pouco delicada, que em tudo mais parece um neandertal, revela-se rapidamente como uma ameaça aos próprios irmãos e primos, uma espécie de changelin deixado pelos trolls, cujas tendências violentas e ímpeto assassino destroem pouco a pouco a unidade familiar. Gradualmente, a pequena família modelo começa a ruir, seja pela irritabilidade constante de uma mãe à beira de um ataque de nervos, seja pela frieza do pai, ou pela ameaça constante desse estranho no ninho. Os visitantes começam a minguar, a vida torna-se insuportável… Mas haverá uma solução “limpa” para o problema de David e Harriet? Será a mãe capaz de se livrar do próprio filho, mesmo que o seu sentimento por ele tenha sempre sido o de repulsa e aversão?

Ao referir-se posteriormente ao processo criativo de O quinto filho, seu trigésimo-quinto livro, Doris Lessing, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura em 2007, afirma ter simplesmente odiado escreve-lo. Trata-se, de fato, de uma história de horror digna dos clássicos de Edgar Allan Poe, de um Bebê de Rosemary sem efeitos especiais, cujo senso de tragédia não deixará impassível nem o mais crítico dos leitores, e que deve seguramente ter revirado o estômago da própria autora. Trata-se, afinal, de uma metáfora poderosa, cujos ecos dificilmente sairão da memória do leitor, e que certamente trará pesadelos a qualquer leitora grávida ou ansiosa para ter um bebê. Um livro que põe em causa o conceito de maternidade, que questiona aquela ideia de felicidade dos comerciais de margarina, e que nos faz refletir sobre nossa própria humanidade. Em suma, um livro delicioso, apavorante, incontornável!

 

Título original: The Fifth Child

País: Reino Unido

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1988

Edição brasileira: Record (ISBN 85-0103-418-5)

Edição portuguesa: Europa América (ISBN 560-107-2033-04-7)

Número de páginas: 128 (edição brasileira), 173 (edição portuguesa)

Anúncios

O homem é um grande faisão no mundo, de Herta Müller

Müller_Faisão

Tenho estudado a língua de Goethe desde exatamente a metade dos meus anos de vida. E se tanto esforço e dedicação serviram para me permitir hoje ler Herta Müller no original, então o esforço valeu a pena: O homem é um grande faisão no mundo, de autoria da premiada escritora romena de expressão alemã, é simplesmente um soco na boca do estômago!

Escrito em 1986, o livro conta a história de uma pequena família de ascendência alemã vivendo num minúsculo vilarejo perdido na região de Banat, no oeste da Romênia, em plenos anos de ferro da ditadura de Nicolae Ceaușescu. Culturalmente germânicos, os três membros da família Windisch aguardam sem grande esperança a chegada da tão sonhada autorização que lhes permitirá imigrar para a Alemanha Ocidental, enquanto a maioria de seus conhecidos romeno-alemães já partiu em debandada. Seu cotidiano difícil e sofrido, como vítimas de exclusão e corrupção por não serem romenos, bem como seus demônios internos e seu passado traumático, são narrados de forma arrastada, enquanto a vida parece se encontrar em stand-by… Até que eles se deparam com a dura realidade: a fim de obter a tão esperada carta, é preciso enviar sua única filha para saciar o apetite sexual dos poderosos de plantão.

Superada uma eventual dificuldade inicial, o livro curto – com pouco mais de cem páginas – pode ser lido numa só assentada. É verdade que pode não ser fácil habituar-se ao estilo literário da escritora, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura de 2009. Suas frases extremamente curtas e concisas, que dispensam orações subordinadas e flertam com o vocabulário da língua alemã numa espécie de prosa poética, podem gerar no leitor desavisado uma certa resistência inicial, a qual no entanto se desvanece ao cabo de uma dezena de páginas, dando lugar a uma latente admiração. Afinal, a densidade de seus escritos, sua prosa honesta e dolorosa, bem como seu alto teor poético, fazem da escritora uma verdadeira alquimista das letras, daquelas que conseguem transpor todo um universo psicológico por meio da junção de meia dúzia de palavras. Uma prosa lacônica, de fato, mas muito bem colocada, na qual não se dispersa energia em adornos desnecessários, colocando-se o dedo imediatamente na ferida.

Alguns de seus curtos capítulos, como aquela que descreve em pouco mais de três páginas os anos de guerra da mãe, Katharina, passados numa barraca na Rússia, ficarão para sempre ecoando na minha memória. Só mesmo um grande gênio literário é capaz de transcender as barreiras da narrativa, gerando uma identificação imediata que vai além dos limites da escrita, e permitindo-nos chorar o destino de homens e mulheres ficcionais como se de verdadeiros amigos ou familiares se tratasse. Eis a mágica de que é capaz Herta Müller. E eis o motivo pelo qual todos devemos lê-la.

Boa leitura!

Título original: Der Mensch ist ein großer Fasan auf der Welt

País: Romênia

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 1986

Título brasileiro: O homem é um grande faisão no mundo

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-16-5)

Título português: O homem é um grande faisão sobre a Terra

Edição portuguesa: Cotovia (ISBN: 978-972-8028-18-3)

Número de páginas: 136 (edição brasileira), 112 (edição portuguesa)

A virgem fria e outros contos, de Jørn Riel

Riel_Froide

É tão difícil para um leitor experiente surpreender-se com um livro como o é para um viajante experiente surpreender-se com um novo lugar. Em ambos os casos, é preciso ir cada vez mais longe para se chegar ao inesperado. E que lugar é, afinal, mais longe que a Groenlândia?

Depois de muito procurar, parecia-me que encontrar um livro groenlandês seria uma tarefa beirando o impossível: se quase nada do pouco que é escrito na ilha gigante ao norte do mundo encontra-se traduzido do groenlandês para o dinamarquês, que dirá para outras línguas mais acessíveis? Ao fim e ao cabo, pareceu-me que um autor nascido na Dinamarca, mas que passou boa parte de sua vida (16 anos) numa base científica no norte do país habilitava-se bem ao quesito. Afinal de contas, embora haja vida no topo do mundo, trata-se normalmente de gente de passagem: das cerca de 50 mil pessoas que vivem na Groenlândia (0,03 por m2!), poucas, bem poucas nasceram efetivamente na ilha.

A virgem fria e outros contos consiste numa peculiar compilação de uma dezena de histórias, todas elas em torno das mesmas personagens: um grupo de caçadores e aventureiros habitando o inóspito norte da Groenlândia. Embora obviamente não existam habitantes nativos nesses confins, eles são aquilo que mais facilmente poderíamos chamar de “homens do ártico”, uma vez que sua origem e seu passado parecem não ter a menor importância neste espaço no qual tempo e espaço encontram-se em suspensão. Trata-se de histórias divertidas, inteligentes, mas sobretudo humanas, centradas muito menos em atos extraordinários ou feitos memoráveis, e mais na banalidade de um cotidiano totalmente fora do nosso normal.

Nesse universo de gelo, a solidão e o isolamento extremo fazem com que as regras do mundo “civilizado” deem lugar a uma série de códigos próprios, adaptados para melhor servir ao ambiente inóspito em que vivem. Mais surpreendente chega a ser o fato de que, em vez de constituírem comunidades, estes homens prefiram o isolamento, chegando a habitar sozinhos por meses a fio em um fiorde perdido no meio do nada, acompanhados dos ursos polares, raposas e focas que caçam para sobreviver. Quando se cansam de sua solidão – ou por exemplo quando sofrem pela perda de um galo de estimação –, empreendem viagens de semanas até chegar ao próximo vilarejo de um único habitante, onde entretêm-se a esvaziar a alma e a embebedar-se até cansarem de companhia e preferirem o silêncio do monólogo interior. Quando falece um companheiro, podem amarrar o cadáver sentado a um trenó e sair passeando com ele numa espécie de cortejo funerário festivo por semanas a fio. Quando se apaixonam, é por mulheres inventadas pela imaginação de um eventual companheiro, com quem conviverão num mundo inventado beirando a loucura. E quando decidem adotar os parâmetros da civilização, construindo por exemplo uma latrina, quase terminam arruinados, de tão habituados a viverem fora dela.

Ao longo de 150 páginas, Jørn Riel dá-nos a conhecer um universo tão inimaginável que poderia se tratar de ficção científica, mas ao mesmo tempo tão humano que nos remete ao mais íntimo que há em nós. Um universo que merece ser descoberto – nem que seja por meio da leitura –, e que de tão apaixonante até se tornou história em quadrinhos:

PlancheA_95235.jpg

PS: Antes mesmo de terminar a leitura, eu já tinha ido espiar os preços de voos para a Groenlândia! Alguém se habilita a me acompanhar?

 

Título original: Den kolde jomfru og andre skrøner

País: Groenlândia

Idioma original: dinamarquês

Ano de publicação: 1973

Edição em português: não encontrada

Título francês: La virge froide et autres racontars

Edição francesa: Domaine Étranger (ISBN 978-226-4022-94-3)

Número de páginas: 157 (edição francesa)

Dogeaters, de Jessica Hagedorn

Hagedorn_Dogeaters

Enquanto no Brasil a flutuante (e debutante) classe média convulsiona com medo de perder o pedestal e se deixa embalar por delírios midiáticos de golpe de Estado, o livro desta semana faz lembrar o que o “país do futuro” era até bem pouco tempo atrás – uma paradisíaca terra sem lei, marcada pelo contraste entre os muito ricos e os muito pobres. Estamos falando das Filipinas.

Dogeaters, ou “Comedores de cachorro”, foi escrito pela autora filipina Jessica Hagedorn em 1990, uma época em que o seu país ficava conhecido mundialmente pela corrupção deslavada e pela singela coleção de 3.000 pares de sapatos de sua primeira-dama. Enquanto o país engatinhava rumo a uma democracia experimental, a então jovem e ousada escritora radicada nos Estados Unidos oferecia-nos, em inglês, um panorama dos paradoxos históricos de sua terra natal.

Ambientado na década de 1950, romance é composto por uma série de fragmentos da vida cotidiana na cidade de Manila, abarcando desde empregados de loja e prostitutas até políticos de alto-escalão, diretores de cinema internacionais e estrelas de TV. Tendo como moldura as memórias de Rio Gonzaga, uma pré-adolescente abastada, futuramente imigrada (como a autora) para os Estados Unidos, o livro revela-nos as diferentes faces de um país fraturado. Regido por uma elite que se gabava de sua ascendência ariana e costumes europeus, enquanto renegava as idiossincrasias de sua rica cultura de origem, o livro apresenta-nos, com seu olhar aquilino, um retrato ácido e irônico de uma sociedade onde a miséria extrema, a tortura e a exploração sexual infantil convivem lado a lado com as soirées requintadas de uma elite cega e cínica.

Num ano marcado até agora por leituras relativamente medíocres, Dogeaters destaca-se como um livro bom em diferentes sentidos. Sua trama fragmentária, cujo recorte do mundo faz lembrar uma telenovela, flerta com os diferentes gêneros literários, desconstruindo a narrativa romanesca tradicional através de um forte experimentalismo narrativo. Ao mesmo tempo que testa os limites do gênero, Hagedorn o expande e constrói um romance inovador. Afinal, partindo da concepção tradicional do termo, o gênero romanesco caracteriza-se pela sua plurifomidade, bem como pela capacidade de construir um microcosmo perfeito, produzindo um recorte exemplar da realidade que descreve. Como resultado, o leitor de Dogeaters terá diante de si não apenas um texto empolgante e facilmente envolvente, mas também uma verdadeira aula de introdução à sociedade filipina. Trata-se, certamente, de uma realidade geográfica e culturalmente deveras distinta da nossa, mas que, tanto pela sua história recente de um pós-colonialismo mal resolvido, quanto pelas paisagens tropicais, ensolaradas e pseudodemocráticas, remetem-nos de imediato aos desmazelos das terras de cá.

Se ler nos faz viajar para mundos distantes, Dogeaters oferece-nos um exemplo preciso do que as viagens podem nos trazer de melhor, que é a capacidade de traçar paralelos e analisar criticamente nossa própria realidade. Por isso, e sobretudo numa época regida pela desinformação e pela incompetência analítica do cidadão comum, recomendo-o como um contributo essencial a toda biblioteca que se preze.

 

Título original: Dogeaters

País: Filipinas

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição inglesa: Open Road Media, Kindle Edition (ASIN: B00-DZE-JQ9-O)

Edição em português: não há

Número de páginas: 276

Vozes de Chernobyl, de Svetlana Aleksievitch

Alexievitch_Tchernobyl

No dia 26 de abril de 1986, uma explosão provocada por um teste malsucedido num reator da usina nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética, entraria para a história. Cerca de 10 anos após a tragédia, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch iniciou uma série de cerca de 500 entrevistas às vítimas, as quais dariam lugar ao impressionante Vozes de Chernobyl: Crônica do Futuro.

O livro consiste numa coletânea de relatos em primeira pessoa narrados por sobreviventes da catástrofe, bem como por seus parentes, e revelam um lado ainda mais sombrio – e até então desconhecido – da maior catástrofe nuclear de todos os tempos: a ignorância da população local perante à tragédia. Para dar voz às vítimas silenciosas de Chernobyl, Svetlana recorre à técnica do recorte, recurso já empregado em seus trabalhos anteriores, de modo a que o livro seja composto como uma espécie de patchwork, permitindo o entrecruzamento de vozes em uma pluriperspectividade dialética.

Em vez de se ater aos grandes fatos, já demasiadamente esmiuçados, Svetlana preocupa-se com o aspecto humano do acidente, privilegiando a micro-história. Desta forma, tomamos conhecimento da catástrofe através do relato daqueles que a viveram pessoalmente, desde moradores de Pripiat, soldados, liquidadores (pessoas recrutadas pelo governo soviético para dar fim aos resquícios radioativos), e caçadores encarregados de exterminar os animais domésticos e selvagem, até físicos e diretores dos principais centros de pesquisas atômicas da URSS. O resultado é o registro chocante de uma sequência dantesca de erros que facilmente poderiam ter sido minimizados, não fossem os interesses políticos terem decidido ocultar covardemente as dimensões da situação. A desinformação gritante sobre as possíveis consequências de uma contaminação radioativa, aliada ao coletivismo e ao senso de dever cívico dos povos socialistas, são ainda hoje responsáveis por um prejuízo humano de dimensões incalculáveis, cujas consequências ainda poderão ser observadas por centenas de gerações.

Quanto ao aspecto literário do texto, é preciso estar atento ao fato de que a leitura nem sempre será fácil. Tal dificuldade não se deve apenas ao tema obviamente chocante, mas sobretudo ao seu caráter repetitivo – essencial do ponto de vista histórico e antropológico, mas cansativo do ponto de vista literário. Enquanto a semelhança de muitos dos relatos os valida como testemunho documental, ela também obriga o leitor a uma grande disciplina. Não se trata, enfim, de um livro facilmente digerível, nem muito menos de um registro sensacionalista: eis, do ponto de vista narrativo, o principal mérito da autora.

Chega a ser impressionante que a obra de Svetlana, laureada com o Prêmio Nobel da Literatura em 2015, ainda seja tão desconhecida no mundo lusófono. Assim, o leitor que se interessar por Vozes de Chernobyl terá que se contentar, por enquanto, com uma edição em língua estrangeira (ver algumas sugestões abaixo). Por outro lado, a boa notícia é que O fim do homem soviético, considerado sua obra-prima, já ganhou uma edição portuguesa, e que outras traduções já se encontram a caminho.

 

Título original: Чернобыльская молитва. Хроника будущего

País: Bielorrússia

Idioma original: russo

Ano de publicação: 1997

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Picador (ISBN 978-031-2425-84-5)

Edição espanhola: Debolsillo (ISBN 978-849-0624-40-1)

Edição francesa: J’ai lu (ISBN 978-229-0343-60-9)

Número de páginas: 256 (edição inglesa), 408 (edição espanhola), 250 (edição francesa)

All that is gone, de Pramoedya Ananta Toer

Toer_Gone

Às vezes me pego pensando naquela antiga coleção de livros de capa vermelha publicada pela Editora Abril. Seu título aparentemente inocente, “Os imortais da literatura universal”, transmite ao leitor a sensação de que, ao adquirir os conhecimentos nela contidos, terá dominado uma noção de tudo aquilo que merece ser lido no mundo. Mas alguém já parou para pensar em quantos daqueles livros são europeus? E quantos vêm de nações “subdesenvolvidas”, eternamente fadadas a estarem fora do cânone? Asiáticos, africanos, latino-americanos, e mesmo brasileiros, fazem raramente parte do que os países de primeiro mundo nos impõe como “clássicos”, e que nós, no auge do nosso complexo de inferioridade, aceitamos sem pestanejar.

O que muitos leitores ainda não perceberam é que o mundo não é composto apenas dos 50 países que compõem o Hemisfério Norte, mas sim de cerca de 200. E que muitos desses países possuem escritores tão excepcionais que acabam se tornando uma espécie de “clássicos por condescendência” naquelas mesmas metrópoles culturais que nos obrigam a consumir apenas os seus próprios produtos. Eles sabem o que é bom, mas o que é bom não chega até nós. Um claro exemplo é o escritor indonésio Pramoedya Ananta Toer.

Nascido numa pequena cidade da ilha de Java, Toer é considerado um dos mais expressivos autores asiáticos do século XX. Sua obra, pela qual é frequentemente considerado o “ Camus indonésio”, compõe-se de uma vasta série de contos, ensaios e romances, centrados sobretudo na temática das transformações ocorridas na cultura e sociedade javanesa no século XX. Lançado em 2004, All that is gone (em português: Tudo isso já não existe) consiste numa coletânea de oito contos, seis deles publicados juntos nos anos 1950, nunca antes traduzidos para uma língua ocidental. Seu caráter autobiográfico, bem como a articulação temática e cronológica dos seis primeiros, dão-nos a impressão de estarmos a ler um romance composto de episódios.

No introspectivo “Tudo isso já não existe”, o autor evoca sua tenra infância durante a colonização holandesa, lembrando-nos com seu incansável refrão que o mundo de suas lembranças já desapareceu. “Inem” e “Circuncisão” remetem, por sua vez, ao peso de tradições consideradas bárbaras na nossa sociedade, como o casamento e subsequente divórcio de uma menina de apenas oito anos, bem como a importância da circuncisão para o caráter de um jovem rapaz. “Nascido no crepúsculo”, “Vingança”, “Dia da independência” e “Aceitação” remetem, por sua vez, à conturbada história recente da Indonésia, dominada pelos holandeses, depois pelos japoneses, depois pelos comunistas, depois novamente pelos holandeses, tudo isso num intervalo de apenas poucas décadas. Partindo da micro-história, estes contos oferecem-nos um documento sensível sobre as consequências nefastas de uma história sangrenta a um povo fadado à resiliência. O livro termina com “As recompensas do casamento”, uma espécie de conto de fadas às avessas cravado de ironia, na qual o poder demiúrgico do escritor é colocado em destaque num estilo que remete a Shakespeare e Pirandello.

Apesar da distância geográfica e cultural, os contos de Toer estão carregados de verdades universais, e revelam-nos, com suas imagens fortes e marcantes, um mundo não tão distante. Além dos horrores da guerra e da decepção dos tempos de paz, seus textos nos revelam a capacidade humana de se adaptar para resistir à adversidade, e a importância de abdicar da própria vontade em nome de um bem maior. Afinal, nossa essência não se encerra em nossos sonhos, mas sim na nossa capacidade de nos despedirmos deles. Trata-se de uma mensagem dura, mas não menos verdadeira.

Lembrando Lima Barreto, que bom seria se falássemos javanês! Assim teríamos finalmente acesso a uma obra tão digna da famigerada coleção de capa vermelha. Pois Toer é, sem nenhuma dúvida, um verdadeiro imortal da literatura universal.

 

Título original: Cerita dari Blora

País: Indonésia

Idioma original: javanês

Ano de publicação: 1952

Edição em português: não há

Edição em inglês: Penguim (ISBN 978-014-3034-46-9)

Número de páginas: 255 (edição em inglês)

Asco, de Horacio Castellanos Moya

Castellanos Moya_Asco

Dos cerca de cinquenta países nos quais já estive, o El Salvador está certamente no topo da lista. Foi com grande felicidade que encontrei Horacio Castellanos Moya, que, embora um dos nomes mais proeminentes da literatura centroamericana, para boa parte de nós não passa de um ilustre desconhecido. Embora o título já deixasse entrever seu conteúdo, foi com uma certa nostalgia por esse país simpático e bucólico que me aproximei de Asco. Mas o que encontrei foi muito diferente do que estava à espera: uma declaração de ódio explícita e visceral à República do Salvador.

Asco consiste numa espécie de monólogo de pouco mais de cem páginas, sem cortes de capítulos e com muito poucas mudanças de parágrafos, vituperado pela personagem Edgardo Vega, um salvadorenho inconformado com as suas origens, que se encontra na terra natal para o enterro da mãe após um exílio voluntário de dezoito anos no Canadá. Durante quase duas décadas, Edgardo não poupou esforços para apagar de si todas as marcas de seu país de origem, formando-se em História da Arte, adotando a nacionalidade canadense, e até mesmo mudando de nome, passando a se chamar Thomas Bernhard – como o escritor austríaco cujo estilo Moya procura imitar. No entanto, o que todo esse tempo não conseguiu apagar foi a aversão que ainda sente por um povo que considera asqueroso e sem cultura. Por meio de uma verborragia que poderia ser chamada de “vomitório de palavras”, Edgardo, ou Thomas, desconstrói a história e a cultura salvadorenhas recentes, passando da política aos hábitos socioculturais da população, não deixando escapar nem a cerveja, nem o futebol, e nem mesmo as deliciosas pupusas (tortilhas de milho recheadas, cozinhadas muitas vezes ao ar livre, verdadeiro estandarte da culinária salvadorenha).

Mas que ninguém se deixe assustar pelas longas frases e poucas pausas: trata-se de um texto acima de tudo bem escrito, o que gera uma leitura fluida e fácil de seguir. Por vezes, mesmo o leitor mais experiente poderá se deixar confundir pela voz narrativa de Vega: trata-se de um reflexo das opiniões do autor, ou ao contrário de um elogio às avessas, uma crítica àqueles que criticam o país? Quem não gostou da brincadeira foram seus conterrâneos salvadorenhos, de quem Moya chegou a receber ameaças de morte, o que o impediu por um bom tempo de pôr os pés na terra natal.

À exceção das referências à guerra recente, muito da crítica construída por Moya adequa-se à realidade que vivemos no Brasil. E isso acaba por fazer seu discurso tornar-se contagiante: qualquer olhar observador conseguirá traçar paralelos e fazer suas as palavras de Asco. O discurso direitista, reacionário, irracional, construído no melhor estilo metralhadora giratória, faz lembrar algumas baboseiras anti-governo que vemos circular nas redes sociais – mas não é que até o mais esquerdista dentre nós também se deixará identificar com ele? O que não deixa de ser uma descoberta assustadora e dolorosa.

Mas que fique bem claro: as pupusas continuam a ser um dos meus pratos preferidos!

Título original: El asco – Thomas Bernhard en San Salvador

País: El Salvador

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 1997

Edição brasileira: Rocco (ISBN: 978-853-2528-25-4)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 112 (edição brasileira)

O amor dos peixes, de Steinunn Sigurðardóttir

Sigurdardottir_fiskanna

Histórias de amor são universais e facilmente compreensíveis, certo? Errado! Se nunca lhes aconteceu de ler de cabo a rabo um romance – no sentido popular do termo, ou seja: uma história de amor – e, ao chegar ao final da trama, ter a impressão de não ter entendido absolutamente nada, nem se identificado minimamente com os sentimentos das personagens, está na hora de ler “O amor dos peixes”, da complicada islandesa Steinunn Sigurðardóttir.

No plano externo, o livro está recheado de símbolos e metáforas pertencentes ao cliché amoroso. Samanta encontra Hans Örlygsson num castelo no estrangeiro, ela mesma residente eventual de um pequeno palácio remanejado. Ele, um empresário de sucesso de 29 anos; ela, uma editora da mesma idade que dedica seu tempo livre a traduzir velhos poemas de amor indianos. Depois de longas horas de conversa, os dois decidem se conhecer melhor em um restaurante chamado “A rosa negra”. Evidentemente, ele encomenda a garrafa de champanhe mais cara. Os dois sentam-se a uma mesa decorada com uma rosa laranja. Ela diz: “minha cor preferida de rosa.” Ele replica: “Porque é mais vermelha que o vermelho.” Ela responde: “Porque não é vermelho.” E o leitor se desespera: “What the h***?”

No plano interno, no entanto, o lirismo dá lugar a outra coisa. O galã bate à sua porta: ela prefere fingir que não está e observá-lo da janela enquanto corta as unhas dos pés. Os dois se reencontram eventualmente num aeroporto: ele se apresenta aos pais dela, ela se recusa a oferecer-lhe carona. Três anos se arrastam, e os dois só se encontram furtivamente: ele se casa, tem um filho, mas de vez em quando se lembra de bater à sua porta. Ela, que o recusou até o fim, que queria ser uma mulher independente, dona do seu próprio destino, se envolve com um quarentão pai de dois filhos adolescentes e apaixonado pela ex-esposa psicótica. Hans Órlygsson e Samantha continuam a se cruzar magicamente, a trocar palavras incompreensíveis, a caírem nos braços um do outro de vez em quando, e ela eventualmente se apercebe que ele é o homem da sua vida. Mas aí, é claro, já é tarde demais. Quem mandou cortar as unhas dos pés enquanto ele esperava plantado do lado de fora, num jardim habitado por pavões?

O livro, vendido pelo editor estrangeiro como um romance, não passa de uma novela de pouco menos de cem páginas, mas nem por isso fácil de digerir. Vale pelo frio da ilha do fogo e do gelo, pela paisagem bucólica em eterna transformação, pelas eternas geleiras e verões inesquecíveis, e pelo desafio de tentar entender aquela que talvez seja a heroína mais enrolada da história da literatura.

Se um relacionamento amoroso é uma coisa complicada por excelência, essa pequena historieta islandesa prova que suas manifestações podem ser ainda mais estranhas e abstrusas do que se poderia imaginar.

Título original: Ástin fiskanna

País: Islândia

Idioma original: islandês

Ano de publicação: 1993

Edição em português: não há

Outras edições: alemão (rororo, ISBN 978-349-9234-94-1)

Número de páginas: 96 (edição alemã)

A idade do ferro, de J. M. Coetzee

Imagem

J. M. Coetzee não é um autor conhecido por finais felizes. O aclamado escritor sul-africano, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura de 2003, é um grande mestre em colocar o dedo na ferida. Dono de uma escrita única, marcada pela capacidade de retratar o incômodo com crueza e refinamento, Coetzee impressiona ao criar personagens tão complexas que, a medida em que o leitor se envolve com elas, quase se tornam reais.

A idade do ferro é um romance curto, porém grandioso. O livro consiste numa longa carta que a protagonista, uma antiga professora universitária de letras clássicas, vai escrevendo a sua única filha ao descobrir que se encontra em estado terminal de câncer. Mrs. Curren, a personagem principal, sempre gozou uma existência tranquila, alheia aos graves problemas sociais ao seu redor, até que a revelação da doença incurável a faz abrir os olhos para um mundo por muito tempo ignorado. Enquanto discorria sobre as guerras e os conflitos da Grécia Antiga e do Império Romano a estudantes brancos da Cidade do Cabo, não se dava conta de que desconhecia as tragédias do próprio tempo. Tragédias essas que sua interlocutora, exilada por escolha nos Estados Unidos há mais de uma década, não fora capaz de suportar. A sua existência confortável e monástica de viúva, contrasta a vida dura de Florence, a empregada negra, para quem a família e o senso de comunidade estão em primeiro plano. Ao se encontrar à beira da morte, Mrs. Curren é obrigada a conviver com o insuportável peso de uma culpa histórica, exteriorizada pelo ato purgatório da escrita, até que um confidente improvável – um mendigo bêbado e imundo que resolve se instalar na sua propriedade – acaba servindo de ponte entre dois mundos opostos. Misterioso e indecifrável, o indigente, alcunhado de Mr. V, é uma espécie de anjo da morte, e se torna pouco a pouco um misto de amigo, filho e amante, preenchendo ao mesmo tempo todas as lacunas de uma vida de omissão.

Escrito e publicado nos últimos anos do apartheid, o romance utiliza o corpo doente da protagonista como uma espécie de alegoria para a decadência do Estado social sul-africano, e parte de um tema universal – a iminência da morte –, para não apenas refletir sobre as mazelas sociais do seu tempo, como também para fazer uma análise profunda da natureza humana. Enquanto observa própria a degradação física e mental, a narradora descreve as transformações do mundo ao seu redor, e descobre pouco a pouco uma realidade da qual sempre fora poupada, ou pela qual nunca se interessou. Somente ao se encontrar sozinha e debilitada é que ela se dá conta de que passara a vida num mundo de ilusões, e que a agressividade e a violência que agora culminam ao seu redor nada mais são que o resultado de um longo e infame processo do qual é culpada pela indiferença.

Não deixa de impressionar o modo como, em pouco menos de 200 páginas, Coetzee é capaz de dar voz a questões tão distintas, mesclando objetividade e subjetividade numa narrativa intimista que intercala fluxo de consciência e observação detalhada da realidade. Embora a interpolação incessante entre a observação e o devaneio, característica do diário e da literatura epistolar, possam fazer o leitor por vezes se perder, A idade do ferro é uma leitura essencial, por conseguir abordar um tópico tão complexo e incômodo com tamanha leveza e lucidez.

Título original: Age of Iron

País: África do Sul

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição brasileira: Siciliano (ISBN 852-670-3811)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2012-24-9)

Número de páginas: 179 (edição brasileira), 184 (edição portuguesa)

O mundo se despedaça, de Chinua Achebe

Imagem

A obra-prima de Chinua Achebe, escritor nigeriano aclamado mundialmente, retorna ao Brasil com mais de sessenta anos de atraso.* Tal anacronismo somente se justifica pelo triste fato de que a literatura africana, embora tão acessível do ponto de vista linguístico, dificilmente obtém a visibilidade que merece.

Okonkwo é um homem como outro qualquer. Desde cedo, trabalhou para fugir à miséria e deixar aos filhos um legado maior que aquele que seu pai, um homem fraco e endividado, lhe deixara. Na juventude, participou em várias batalhas em nome de seu povo, e usou a força física para se destacar em torneios de luta. Arou a terra com o suor do rosto, e construiu aos poucos um pequeno império do qual se orgulhava. Por sorte, cresceu numa sociedade na qual a hereditariedade não determina o sucesso de um homem, mas sim a coragem e a força do próprio trabalho. Aos poucos, adquiriu uma posição no clã, sendo respeitado como um homem justo, honesto e trabalhador. Seu único defeito é, talvez, o excesso de dureza: avesso à preguiça e à fraqueza, trata os membros da família a braço firme, e se impede de demonstrar qualquer tipo de sentimento, à exceção da ira. Apesar dos percalços, segue uma vida tranquila, fiel aos seus princípios e às tradições dos seus antepassados, até que uma fatalidade dá início à destruição do seu mundo.

Tematicamente, o romance pode ser dividido em duas partes. A primeira, que consiste em mais da metade da narrativa, acompanha o cotidiano de Okonkwo, antigo guerreiro e proprietário de terras de uma tribo igbo, grupo étnico do sudeste da Nigéria. Aqui, o leitor familiariza-se com seus costumes, suas leis, crenças e práticas religiosas, e se depara com algumas tradições muito distantes das do chamado “mundo civilizado”, como a poligamia, a exposição de gêmeos, e até mesmo o sacrifício humano. A segunda, após um acidente que o obriga a abandonar a aldeia natal, mostra como tais tradições são confrontadas com outras: as do branco colonizador.

Seguindo o ponto de vista dos igbo, o acidente provocado por Okonkwo pode ser interpretado como a quebra involuntária de um tabu, o que leva todo o seu povo à desgraça. A partir do momento em que ele parte em exílio, o homem branco se instala, trazendo consigo uma religião incompreensível e uma lei implacável. Vistos por uma perspectiva neutra, os costumes estrangeiros acabam se mostrando como, pelo menos, igualmente brutais e sem sentido como os seus. Diante da violência e da agressão dos invasores, o mundo dos verdadeiros donos da terra se desmorona, enquanto até mesmo o mais honrado dos homens é desprovido do seu bem mais precioso: a sua dignidade.

O que mais surpreende no livro de Achebe é a capacidade do autor de colocar no papel, de forma neutra e sem romantismos, a mentalidade ancestral do homem igbo, abrindo ao leitor as portas para um universo psicológico totalmente alheio ao seu, mas igualmente complexo, e incontestavelmente apaixonante. O choque entre as culturas e a incompreensão dos nativos são narrados com um enorme respeito aos costumes e tradições da tribo ancestral, numa narrativa que cativa justamente por não tomar partido, desprovida de julgamento de valores, e por isso muito próxima de um universo perdido, massacrado pelo implacável processo de colonização europeu.

E é justamente aí que reside a beleza e o inigualável valor de O mundo se despedaça: na lição de que não é preciso romantizar para mostrar a beleza e a sabedoria do outro. Basta, tão-somente, trata-lo com o respeito e a igualdade que ele merece. Por esse e tantos outros motivos, o romance do mestre nigeriano deveria ser uma leitura obrigatória, não apenas para os amantes de literatura ou para aqueles que se interessam pelo continente africano, como também para todos aqueles que pertencem à raça humana. A julgar por esse livro, Achebe é sem sombra de dúvida um dos maiores autores do século XX.

* O mundo se despedaça tinha sido anteriormente publicado no Brasil na década de 1980. Em Portugal, o livro foi publicado sob o nome de Quando tudo se desmorona. Ambas as edições estão esgotadas.

Título original: Things Fall Apart

País: Nigéria

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1958

Ano de lançamento no Brasil: 2009

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-591-550-1)

Número de páginas: 240