Persépolis, de Marjane Satrapi

Satrapi_Persepolis

Marje é uma menina como outra qualquer. Ou talvez não exatamente. Filha única de intelectuais de esquerda, seu livro preferido é uma versão em quadrinhos de Marx e Descartes. Com apenas dez anos, é dona de uma língua afiadíssima, sonha em reparar as injustiças do mundo, e deseja, quando crescer, tornar-se profeta. Marje não vê problemas em dizer o que pensa, e foi educada pelos pais de forma a não conhecer limitações – nem por ser mulher, nem por ser iraniana. Ou seja: tudo exatamente ao contrário dos preceitos da Revolução que transformou seu país, de uma monarquia laica e aberta ao mundo, em um Estado islâmico fechado e conservador.

Persépolis, título da autobiografia em quadrinhos da artista gráfica iraniana Marjane Satrapi, refere-se ao nome da antiga capital do Império Persa, e pretende lembrar-nos que o país hoje conhecido pelo extremismo religioso foi outrora o berço de uma civilização moderna e sofisticada, e que o Islamismo lhe foi impingido com violência. Com isso, presta uma homenagem a todos os seus antepassados que morreram lutando pelos ideais democráticos e pela igualdade de direitos.

O livro, originalmente publicado em quatro tomos, acompanha a conturbada vida da protagonista do final dos anos 70 até meados da década de 90. A primeira parte – e talvez a mais interessante – mostra-nos a revolução sob a perspectiva inocente de uma criança, cuja vida é lentamente transformada quando as escolas estrangeiras são fechadas, meninos e meninas separados, e as meninas obrigadas a portar o véu. A segunda mostra-nos uma Marje corajosa e rebelde, em plena pré-adolescência durante a Guerra Irã-Iraque, cada vez mais confrontada com a violência à sua volta, mas que não se dá conta dos perigos aos quais sua insubordinação a sujeita. A terceira acompanha os anos de solidão, desraizamento e perdas em que a adolescente, mandada para Viena a fim de terminar seus estudos, torna-se uma estrangeira, distanciando-se cada vez mais de si mesma e das suas origens. Por fim, a última parte trata do seu retorno ao Irã, da readaptação impossível, do choque de mentalidades, e das reviravoltas da vida até tornar-se suficientemente madura ao ponto de finalmente deixar o país.

A maioria dos grandes leitores já deve ter ouvido falar de Persépolis, nem que seja graças ao filme homônimo ganhador do prêmio do jury no Festival de Cannes de 2007. Àqueles que já viram o filme e estavam até agora postergando a decisão de ler o livro: não esperem mais. Se o filme já era bom, o livro nem se compara. A grande diferença fica por conta do ritmo: enquanto o filme se atropela para fazer caberem 360 páginas em meros 95 minutos, o livro agracia-nos com o compasso mais lento e a riqueza de detalhes. A diferença é impressionante.

Com um argumento pungente e extremamente bem escrito, o livro prova ao mais cético dos leitores que a graphic novel é, sim, literatura, enquanto a imagem complementa, dá vida e movimento à palavra escrita. O traço em preto e branco é simples e agradável aos olhos, o texto é sério e ao mesmo tempo divertido. Uma leitura que entrará para os favoritos de muita gente.

E para quem já leu o livro, mas ainda não viu o filme:

Para o filme completo, clique aqui.

Título original: Persepolis

País: Irã

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2000-2003

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5911-62-6)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6661-12-0)

Número de páginas: 352

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