A Beautiful Place to Die, de Malla Nunn

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Depois de dois meses sem escrever, sinto que devo uma explicação. Na verdade, tenho não apenas uma, mas duas boas desculpas: uma mudança de casa, de cidade e de vida, e um bebê à caminho. Tudo isso reduziu o meu ritmo de leituras, reduziu (leia-se: bloqueou) a minha assiduidade neste blog, mas não diminuiu o meu desejo de levar em frente o projeto. Ainda falta pouco mais de cem países a serem lidos. Quase metade do percurso percorrido. 2017 chegou, vamos a isso!

Se ler um bom livro faz com que nos sintamos imediatamente familiares às suas paisagens e personagens, ler um bom livro enquanto se viaja fisicamente pelas terras onde a trama se desenrola é uma emoção inexplicável. Foi assim este ano com A Beautiful Place to Die, primeiro romance policial da escritora suazi Malla Nunn. Ambientado no extremo nordeste da África do Sul em 1952, período de plena ascensão do regime do Apartheid, o livro transporta-nos para um pequeno vilarejo dominado por boers (resumindo grosseiramente: os descendentes de holandeses extremamente racistas que iniciaram o Apartheid), ao mesmo tempo em que questiona as contradições e a hipocrisia da ideologia dominante.

A trama complexa de um romance policial bem escrito talvez já deixe transparecer a imensa quantidade de mensagens subliminares presentes no livro: Logo após a assinatura do “Ato da Imoralidade”, que impedia qualquer tipo de relacionamento íntimo entre brancos e negros, o capitão da polícia do idílico vilarejo de Jacob’s Rest é encontrado morto à beira de um rio, motivo pelo qual o detetive de ascendência inglesa Emmanuel Cooper é enviado para o local. Logo ao chegar, Cooper depara-se com uma comunidade fechada e repleta de incoerências, dominada pelo medo dos negros e pelo racismo dos brancos, na qual ninguém parece disposto a revelar os seus mais infaustos segredos. Com o passar do tempo, e sob a constante vigilância dos brutamontes filhos do capitão assassinado – os quais parecem temer que o detetive se meta em assuntos que não deve – , Cooper acaba por ganhar a confiança do agente negro Shabalala, bem como a do “velho judeu”, uma espécie de pária local no limiar entre os conceitos raciais, possivelmente as única pessoas inteligentes do local. Suas buscas fazem-no enveredar por caminhos sinuosos até a capital do Moçambique, ainda então conhecida como Lourenço Marques, em busca de fotografias comprometedoras, e desvendar uma extensa rede de relações proibidas. Como seria de se esperar, tudo isso fará dele um alvo potencial, já que algumas verdades não foram feitas para serem reveladas.

A todos aqueles que se interessarem por esta excelente leitura, deixo um único spoiler: o mocinho não morre no final. Pelo contrário, ele reaparece como o protagonista de ao menos três outros romances. Àqueles que pensavam que apenas os escandinavos eram dignos do título de melhores séries de literatura policial, fica a minha opinião pessoal – o primeiro romance de Malla Nunn coloca qualquer Jo Nesbø tranquilamente no chinelo. E com que categoria.

Feliz ano novo a todos. E vida a Suazilândia, esse querido país minúsculo com tanto para oferecer!

 

Título original: A Beautiful Place to Die

País: Suazilândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição em português: não há

Edição inglesa: Atria (978-141-6586-20-3)

Título espanhol: Un hermoso lugar para morir

Edição em espanhol: Siruela (978-849-8415-65-0)

Número de páginas: 384 (edição em inglês), 416 (edição em espanhol)

 

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O menino que descobriu o vento, de William Kamkwamba

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Algumas histórias de vida são tão impressionantes que, caso fossem narradas num romance, muita gente torceria dizendo que são inverossímeis. Dos confins do Malaui, esse pequeno e (hoje) relativamente próspero país espetado no sudeste do continente africano, vem uma dessas histórias inspiracionais, dessas que mais parecem conto da carochinha: O menino que descobriu o vento.

William era apenas mais um menino sonhador e irrequieto, oriundo de um paupérrimo vilarejo agrícola, mas cuja curiosidade e capacidade criativa o destacavam da massa de crianças pobres e descalças ao redor. Obrigado a abandonar a escola devido à falta de meios de seu pai para pagar as elevadas mensalidades, o menino ainda assim não desistiu de perseguir o seu sonho de adquirir conhecimentos, devorando a esparsa biblioteca improvisada que uma missão de caridade havia deixado no local. Fascinado por manuais de física e invenções, o menino descobriu os milagres da energia eólia e, com a ajuda de dois amigos e utilizando o tempo livre que lhe sobrava para explorar o ferro-velho local, conseguiu construir uma torre imensa, uma verdadeira aberração de ferro soldado, a qual, diante da risota incrédula de todo o vilarejo, conseguiu transformar na primeira fonte de energia elétrica de toda aquela região do país.

De fato, a história de William Kamkwamba é tão impressionante que, ao ser descoberta, foi capaz de transformar não apenas a sua vida, mas a de todos os nela envolvidos. Adorado pelos repórteres, mas sem o menor auxílio do Estado ou dos diretores de escola locais, sua fortuna só seria traçado após um convite para a renomada conferência TED Global, atraindo a atenção das mídias internacionais e de generosos mecenas gringos. E o seu discurso emocionado, narrado em um inglês alquebrado que ainda torna mais incrível que ele tenha sequer sido capaz de entender os manuais de física que usara, está lá para todo mundo ver, reproduzido milhões de vezes graças às maravilhas da internet.

Mas essa história poderosa de luta e sobrevivência, esse conto de fadas meritocrático de um self-made boy saído das periferias do mundo globalizado, também esconde uma crítica ferrenha às elites africanas, cuja incapacidade de gerir um país submetem seu povo a um constante flerte com a morte, ao desespero da fome e à impotência da miséria, ofuscando os maiores talentos e os condenando ao esquecimento. Crítica justíssima, diga-se de passagem, embora incomode que, no entretempo, o branco seja mostrado como um herói salvador, uma espécie de fada azul capaz de transformar o inventorzinho africano num menino de verdade, abrindo-lhe as portas para um mundo mais digno.

Se desta vez não tenho palavras para a qualidade literária do texto é porque, mais uma vez, se trata de um livro escrito a duas penas, com a ajuda de Brian Mealer, um jornalista estrangeiro. O mesmo, aliás, que transformaria a narrativa num livrinho ilustrado para crianças – mais um sinal de que a trajetória de Kamkwamba se assemelha a um conto de fadas, uma ode ao deus da meritocracia, cuja mensagem consiste em “quem não desiste, persevera”. Toda a gente sabe que não é bem assim.

De todas as formas, se lido com um olhar crítico, não se pode deixar de dizer que se trata de um livro realmente interessante, e de uma história de vida ainda mais, e que por isso recomendo.

 

Título original: The Boy Who Harnessed the Wind: Creating Currents of Electricity and Hope

País: Malaui

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Título brasileiro: O menino que descobriu o vento

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-853-9002-55-9)

Título português: O rapaz que prendeu o vento

Edição portuguesa: Presença (ISBN 978-972-2343-51-0)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 304 (edição portuguesa)

Assando bolos em Kigali, de Gaile Parkin

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Alguns livros são amor à primeira vista. Outros, no entanto, exigem de nós um certo esforço, um apuramento do paladar de modo a apreciar sua grandeza. Assando bolos em Kigali, da autora zâmbia (branca) Gaile Parkin, não foi de maneira alguma um caso de paixão fulminante. Muito pelo contrário: seu excesso de small talks, suas descrições intermináveis, bem como seu tom excessivamente didatizante, chegaram mesmo a me tirar do sério nos primeiros tempos, e a julgar que nunca mais o acabaria. Até que eu me desse conta de que sua beleza reside justamente naquilo que me havia incomodado a princípio.

Assando bolos em Kigali é um romance  cuja estrutura se desenrola de maneira similar a uma telenovela, tendo como eixo central a figura materna e benfazeja de Angel, uma avó quarentona da Tanzânia, proprietária de uma pâtisserie no coração de Kigali, capital do Ruanda. Seus clientes, oriundos das mais distintas classes sociais, são estrangeiros expats, funcionários das Nações Unidas, esposas de diplomatas, mas também pessoas simples, como soldados, enfermeiras e professores locais, bem como imigrantes indianos, árabes e de boa parte da África Central. Atraídos por seus excelentes dotes culinários, bem como pelo seu inigualável talento como conselheira, essas pessoas encontram em Angel uma interlocutora fiel e discreta, a quem confiam seus maiores segredos em torno de uma boa xícara de chá. Através da história individual de cada um de seus clientes, a simpática business woman é capaz não apenas de lhes criar um bolo absolutamente sob medida, mas também sair por aí fazendo pequenos remendos na vida cotidiana, pequenos atos de simpatia e bondade capazes de transformar pouco a pouco o mundo à sua volta.

Tudo isso é narrado, como dito anteriormente, num excesso de detalhes e numa lentidão capazes de incomodar o leitor mais afoito, daqueles que se encontram sempre à espera do clímax. Verdade seja dita, não se pode falar aqui de um ponto alto propriamente dito, exceto talvez pelo desenvolvimento progressivo da própria protagonista. Ao se confrontar com os dramas e tragédias pessoais de cada um de seus fregueses – muitos deles envolvidos diretamente no massacre dos tutsis pelos hutus na década de 1990 –, Angel torna-se capaz de enfrentar seus próprios fantasmas, permitindo-se o privilégio do luto, bem como da perda e do perdão. E chega a ser belo, se não um tanto clichê, que o consolo para uma mulher tão sábia venha justamente das palavras de uma jovem prostituta, dessas que fazem pensar na trágica Geni de Chico Buarque.

Ao fim de mais de 300 páginas, não sei dizer se Gaile Parkin é uma autora de verdadeiro talento, ou se o sucesso de seu livro tenha sido fruto de sorte. Afinal, aquilo que me pareceu a princípio ser o seu maior defeito acabou por se tornar a sua principal qualidade. Pois os seus longos diálogos, repletos de repetições e de detalhes aparentemente desnecessários, fazem o que quase nenhum outro livro africano tinha sido até agora capaz de fazer: transportar-me diretamente ao centro da narrativa. Suas descrições detalhadas incidem na memória de modo a que vejamos as cenas como se de um filme se tratasse, e chegássemos mesmo a sentir o perfume dos bolos de Angel. A estrutura novelesca permite a criação de um panafricanismo consciente, de uma exaltação dos aspectos que unem os diversos povos que se entrecruzam, negando assim as barreiras forjadas (pelos brancos) que serviram por séculos para os separar. E, por fim, a falta de pressa da narrativa faz-nos lembrar a temporalidade distinta dos povos menos desenvolvidos, muito menos sobrepujados pelo inexorável relógio, muito mais dispostos a se dedicar àquilo que na vida realmente é importante. Como uma boa xícara de chá tomada com os amigos.

Como se não bastasse, ainda podemos louvar o fato de que o livro, de forte teor feminista, aborda sobretudo questões relacionadas ao empoderamento das mulheres, numa sociedade na qual o feminismo ainda é visto com olhos fortemente desconfiados.

Um livro, afinal, perfeito para o dia de hoje: Feliz dia das mães!

Título original: Baking Cakes in Kigali

País: Zâmbia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Globo (ISBN: 9788525046987)

Número de páginas: 320

Muito longe de casa, de Ishmael Beah

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Depois de quase 100 livros de países diferentes, é fácil a leitura se tornar repetitiva. Por isso, apesar das incontáveis críticas favoráveis, das traduções em todas as línguas possíveis, e das diversas edições em português (duas no Brasil), vinha adiando a leitura de Ishmael Beah. Afinal, este seria o meu terceiro livro sobre meninos-soldados num país africano.* O que ele me traria de novo?

Sabemos que a decisão sobre se um livro deve ou não ser publicado decorre sempre de interesses mercadológicos. Quanto mais polêmico o tema, maior o potencial de um livro vender, portanto maiores as chances de o autor ser editado. Esta limitação à lógica capitalista certamente condena milhões de escritores ao redor do mundo a jamais encontrarem uma editora, sobretudo quando se trata de autores oriundos de países excluídos do mapa cultural. Como resultado, grande parte dos romances africanos que tenho encontrado inserem-se fatidicamente nas mesmas velhas temáticas: a guerra, o massacre, e a miséria. Não que não se trate de sujeitos importantes. Contudo, está claro que a literatura africana não é – e nem poderia ser – só isso! Onde está a boa e bela literatura desengajada, atemporal e universal?

À revelia desta e de outras reflexões, chegou esta semana a vez de Serra Leoa. E é preciso dizer que, ao explorar mais do mesmo, Muito longe de casa traz-nos sem sombra de dúvidas algo ainda não visto. Afinal, não estamos diante de um romance, mas sim de um testemunho (palavra que eu odeio, porque geralmente exclui o valor poético e literário de uma obra) em primeira pessoa, escrito por não apenas uma testemunho ocular, mas também por um agente diretamente envolvido na guerra que nos tenta reconstruir. Mas não é só isso: a boa surpresa é que a experiência de Beah como soldado abarca menos de 20% do livro. Antes disso, temos um detalhado relato do que foi a sua vida desde que seu vilarejo foi tomado pelos rebeldes, perambulando esfomeado por cerca de um ano, a fugir da morte em cada esquina. Depois, uma igualmente extensa exposição de seu lento processo de redenção, de sua ascensão a porta-voz da Serra Leoa numa conferência da ONU em Nova Iorque, e da sua fuga à vizinha Guiné Konakri quando a guerra voltou a bater na sua porta.

Embora alguns dos fatos narrados sejam tão inacreditáveis que quase se poderia pensar numa peripécia literária (por exemplo, o fato de o vilarejo onde sua família se encontrava ter sido inteiramente destruído apenas poucos minutos antes de ele lá chegar, depois de um ano de separação), o que Ishmael Beah alcança com seu relato pungente é justamente o oposto do que eu havia temido: uma total e absoluta desromantização da guerra e de seu suposto heroísmo. Em vez disso, o ex-menino-soldado apaixonado por Shakespeare e de forte veia poética oferece-nos um relato sincero e sem rodeios das consequências de um conflito para os seus envolvidos, sobretudo no que diz respeito à dissolução do humano e à banalização da morte.

Pelo seu caráter honesto, mas também pelo fato de que se trata de um livro realmente envolvente e bem escrito, Muito longe de casa deveria se tornar uma leitura obrigatória.

* Para quem perdeu as outras resenhas:

Alá não é obrigado, de Ahmadou Kouroumá (Costa do Marfim)

Beneath the Darkening Sky, de Majok Tulba (Sudão do Sul)

 

Título original: A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier

País: Serra Leoa

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Título brasileiro: Muito longe de casa: Memórias de um menino-soldado

Edição brasileira: Ediouro (ISBN 978-850-0021-21-3)

Edição brasileira 2: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5925-42-5)

Título português: Uma longa caminhada: Memórias de um menino soldado

Edição portuguesa: Casa das Letras (ISBN 978-972-4617-27-5)

Número de páginas: 224 (Ediouro), 256 (Companhia das Letras), 284 (edição portuguesa)

Solo d’un revenant, de Kossi Efoui

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A literatura togolesa é certamente uma das mais desconhecidas do mundo. Na verdade, pouco conhecemos acerca deste pequeno país tropical no norte da África, limitado por Gana, Burkina Fasso e pelo Benin. Kossi Efoui, romancista, dramaturgo e cronista de expressão francesa nascido no interior do país, é considerado um dos mais prolíficos escritores africanos da atualidade, sobretudo graças ao premiado romance Solo d’un revenant.

Talvez a mais forte impressão deixada por este livro peculiar seja o calor incessante que o perpassa de forma pungente. Situado em um país do interior africano, a narrativa descreve o retorno de um homem à terra natal dez anos após ter imigrado em consequência de uma brutal guerra civil. Ao chegar, instala-se num hotel enquanto se coloca à procura de uma pessoa que outrora conhecera. Mas a realidade à qual é confrontado é muito diferente daquela que tinha deixado uma década antes. Trata-se, afinal, de um país cujas recentes feridas abertas pela guerra foram mal cicatrizadas, dando lugar a uma sociedade na qual antigas vítimas e algozes são obrigadas a conviver lado a lado, e a reconstruir os escombros juntos como se nada tivesse acontecido.

Embora o local exato onde a trama decorre não seja nomeado, a descrição faz pensarmos na Ruanda de após os massacres que transformaram a metade do país em assassinos sanguinários, perseguindo e matando os próprios vizinhos, com um total de meio milhão de mortos em apenas três meses. Verdade é, no entanto, que a localização e o contexto exatos pouco importam ao escritor Kossi Efoui, já que o seu objetivo principal é explorar os elementos comuns da história recente dos países africanos, promovendo assim o chamado panafricanismo. No contexto da proposta narrativa que move Solo d’un revenant, este objetivo é alcançado sobretudo devido ao flerte entre a ficção e a realidade, permitindo com que as personagens adquiram uma verossimilhança ímpar, ao mesmo tempo em que se desenvolvem como uma espécie de alegoria das tragédias contemporâneas.

Tudo isso parece muito interessante, e de fato o é. No entanto, o que me incomoda neste romance, como também em uma grande parte nos romances africanos contemporâneos escritos em língua francesa, é o excesso extremo de experimentalismo com a linguagem, em detrimento do próprio enredo. Devido às mudanças abruptas de foco narrativo, torna-se  difícil acompanhar a história, o que diminui em parte o prazer da leitura.

Em todo caso, nem que seja pelo exotismo de termos diante dos olhos um romance da República Togolesa, fica aqui registrada a recomendação.

 

Título original: Solo d’un revenant

País: Togo

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2008

Edição francesa: Seuil (ISBN: 978-202-0971-93-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 207

Herege, de Ayaan Hirsi Ali

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É raro que um livro publicado em inglês seja lançado quase simultaneamente no Brasil. Mais raro ainda em se tratando de um livro teórico que debate um tema que nem de longe faz parte da realidade imediata do brasileiro médio. No entanto, a pressa editorial justifica-se facilmente: livros polêmicos sobre o extremismo islâmico vendem bem.

Ayaan Hirsi Ali é mais que conhecida. Sua biografia, na qual relata sua trajetória de islamista devota a respeitada parlamentar da centro-direita holandesa, tornou-se um best-seller comemorado pelos liberais de vários países ocidentais: Finalmente uma mulher muçulmana com culhões para denunciar as atrocidades cometidas em nome de Alá! Herege, seu último livro, foi afortunadamente lançado pouco depois dos ataques ao hebdomadário francês “Charlie Hebdo”, que ela ainda conseguiu incluir em seu extenso inventário de crimes cometidos pelos adoradores de Maomé.

O livro visa provar a tese de que o islã não é uma religião de paz, como normalmente apregoa a esquerda hippie dos países desenvolvidos, mas que a violência lhe é inerente. A violação aos direitos humanos, segundo ela, encontra-se no seu cerne, uma vez que seu livro sagrado, o Corão, descreve um conjunto de regras tribais arcaicas que legitimam o estupro, o linchamento, a submissão feminina, a guerra santa e a imposição forçada de uma pretensa moralidade. Tudo isso é ricamente ilustrado com notícias sensacionalistas das principais comunidades islâmicas, que fazem da violência nas favelas cariocas uma brincadeira de crianças. A ideologia islâmica, diz a autora, ameaça concretamente os direitos adquiridos em séculos de luta no Ocidente, sobretudo agora que as ondas de refugiados trazem consigo futuros potenciais terroristas,* e tendo em conta que os árabes têm muito mais filhos que os ocidentais. Seremos, em breve, excedidos em números em nossas próprias casas, a menos que abramos os olhos e deixemos de ser condescendentes. Afinal, diz ela, o islã odeia seus inimigos mais do que ama seus filhos.

Eis o único aspecto no qual concordo com Ali: O Corão – como já antes a Torá e o Antigo Testamento – está cravado de passagens violentas que, tomadas ao pé da letra por fanáticos, justificam atentados terroristas, e servem de base a grupos como o Estado Islâmico, a Al-Qaïda e o Boko Haram. Ler os textos sagrados literalmente e tentar viver conforme seus ditames é prova de um anacronismo grotesco que não pode ser tolerado. Não podemos aceitar que as meninas do Iêmen se casem aos seis anos de idade porque o “profeta” também o fez, não podemos tolerar as perseguições aos homossexuais, a subjugação das mulheres, o delírio de um califado e o apelo da jihad porque “está escrito”.

Por outro lado, não podemos, ao tomar esses exemplos, deixar comodamente de fora todos os outros nos quais o islamismo provou-se condizente com o século XXI. Por exemplo a Malásia, regida pelo multiculturalismo. Ou a Turquia, o Marrocos, o Senegal, a Bósnia, a Albânia – a lista é longa. Em seu afã progressista, ela se atém à história única de que já falava Chimamanda, e se esquece que a história é cíclica, e que na Idade Média éramos nós os brutamontes e os árabes o pináculo cultural e tecnológico. Que talvez nem tivéssemos chegado à Renascença não fosse a Escolástica, baseada na filosofia grega que eles salvaram para nós.

Mais do que isso, não podemos esquecer, ao louvarmos o avançado Ocidente, de que ele próprio é culpado por muito do imbróglio nos países islâmicos. Tomemos como exemplo o Afeganistão, destinação turística preferida dos bichos-grilos dos anos 1970, e onde as mulheres gozavam de direitos iguais durante a dominação soviética. Quem foi que armou a então minoria ultra religiosa até os dentes, e a botou para lutar contra os capacetes vermelhos, senão os Estados Unidos? Minoria, aliás, que mais tarde ganhou força e se tornou o Talibã. Devemos chamar de kharma ou de efeito borboleta?

Mais que a falta de contextualização histórica, o que me incomoda no livro de Ali são as suas incoerências, como a voz narrativa que adere ora ao “nós” muçulmanos e ora ao “nós” ocidentais. Para não falar da anticlimática conclusão: A autora passa 220 páginas a fazer-nos um terrorismo psicológico, alegando que nosso mundo está ameaçado, que devemos abrir os olhos, que os árabes nos odeiam, para no fim… nada! Em vez de propor uma solução ou fazer sugestões concretas, ela prefere tranquilizar-nos dizendo que afinal as coisas não são tão más assim, e que a reforma já está em marcha, graças a dissidentes corajosos como ela. O que aliás até é verdade.

Ayaan Hirsi Ali consegue ser mais branca que o Michael Jackson, e seu discurso mais ferino que o de Marine Le Pen. Mas seu livro, se lido com olhos críticos, não deixa de ser interessante, sobretudo quando põe em causa a permissividade da esquerda pró-multiculturalismo, que tapa o sol com a peneira e acaba defendendo o algoz e não a vítima. Ela tem toda a razão quando fala que não se pode defender quem não defende os direitos humanos. Para mim, pessoalmente, foi um tapa na cara. Para a maioria dos leitores, no entanto, ele só vai confirmar a ideia preconcebida de que os islamistas são um povo retrógrado, selvagem e preso na Idade Média. O que está longe de ser verdade.

 

* Fez pensar na charge polêmica do Charlie Hebdo. Mas essa, pelo menos, continha ironia.

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Título original: Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now

País: Somália

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5925-87-6)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 272

Contos de N’nori, de Carlos-Edmilson Marques Vieira

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Em plena semana em que as redes sociais encheram-se de comentários polêmicos acerca da proposta do Governo brasileiro de excluir os grandes clássicos da literatura portuguesa do curriculum escolar obrigatório, decidi celebrar a lusofonia. Para isso, elegi um livro obscuro e singelo, tal como o seu país de origem: Contos de N’nori, do guineense Carlos-Edmilson Marques Vieira.

Para começar, é preciso admitir que escrever sobre Contos de N’nori não é uma tarefa fácil. Afinal, seu autor não é aquilo que tradicionalmente chamamos de ‘escritor’, mas sim um amador apaixonado por literatura que, em grande parte, autofinancia a edição de seus livros. Fora das grandes editoras, fora das grandes livrarias, longe da consagração das mídias, mas no entanto muito empenhado em fazer passar a sua mensagem.

Lançado em 2000 numa tiragem única de apenas 500 exemplares pela pequena associação Uneas (União Nacional de Escritores e Artistas São-tomenses), Contos de N’nori consiste num pequeno apanhado de uma centena de páginas contemplando oito histórias. Tanto no que diz respeito à temática quanto à qualidade literária, trata-se de contos bastante heterogêneos, que têm como foco a vida e a realidade de uma Guiné-Bissau herdeira do pós-colonialismo. Alguns deles, como “O homem da flauta”, a história de um mendigo anônimo e cordial rejeitado pela sociedade, serão capazes, em sua simplicidade, de comover o mais crítico dos leitores. Outros, como a micronarrativa erótica “Conto vivido”, mais se assemelham a um exercício literário de língua portuguesa de um aluno do Ensino Médio. Na grande maioria deles, no entanto, notamos uma forte verve política, bem como o desejo de tematizar os deslizes históricos e as consequências nefastas da colonização recente.

Não podemos tapar o sol com a peneira: o livro carece de edição e revisão ortográfica, contendo diversos erros de português, alguns deles tão simples como a grafia de uma mesma palavra, numa mesma página, de duas ou três maneiras diferentes. Aliás, por que tantos erros? Talvez porque o português nem seja, de fato, a língua materna do autor, mas sim o crioulo, e porque ele, ao decidir escrever, tenha sido confrontado com o grande dilema dos autores africanos – expressar-se numa língua materna de restritíssimo público leitor ou na língua do dominado, dirigindo seus escritos àquele que condena? No entanto, um livro como o de Carlos-Edmilson não pode nem deve ser julgado pelos mesmos critérios e parâmetros que a chamada “alta literatura”.

Em vez de nos demorarmos na espinhosa questão do que é literatura, talvez seja mais judicioso atentarmos à importância de livros como este, que fazem pensar em gente tão talentosa e fora do cânone como a nossa Carolina Maria de Jesus. Afinal, independente de seus desvios da estética convencional, os Contos dão voz a uma famigerada minoria cultural, a qual permaneceria calada não fosse o empenho do autor em se fazer ouvir. Mais triste ainda é pensarmos que Carlos-Edimilson nem sequer é tão “minoria” assim: trata-se na verdade de um diplomata, graduado duas vezes em Paris, cujo primeiro livro – uma coletânea de contos – foi publicada na França. Todas essas informações biográficas encontram-se orgulhosamente estampadas na contracapa do livro, como se com elas seu autor pretendesse autoproclamar o seu direito de pertencer ao seleto grupo dos Autores com ‘a’ maiúsculo. Imaginem, neste caso, quantas verdadeiras Carolinas não haveríamos de encontrar nos confins da Guiné-Bissau se simplesmente saíssemos procurando?

Embora se trate de um livrinho do qual a maioria de nós sequer ouviria falar não fosse a minha pesquisa incessante por autores obscuros, Contos de N’nori é, graças à internet, até bastante fácil de se encontrar, e pode ser descarregado gratuitamente no site do Instituto Camões. E é de se aproveitar! Afinal, independente do que decidir o Ministério da Educação, a nossa pátria sempre continuará sendo a nossa língua enquanto a ela formos fieis.

 

Título original: Contos de N’nori

País: Guiné-Bissau

Idioma original: português

Ano de publicação: 2000

Edição portuguesa: Uneas (EAN 220-001-7206-41-1)

Número de páginas: 94

Transit, de Abdourahman Waberi

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Há alguns dias, estive revendo o vídeo da maravilhosa escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie – cujo último livro, Americanah, foi aliás responsável tanto por este blog como pelo meu interesse em “ler o mundo” –, no qual ela fala sobre o perigo da história única. No vídeo, a autora fala sobre as armadilhas as quais nos submetemos quando somos constantemente expostos a uma imagem única e estereotipada de um outro país, povo ou cultura.

O romance Transit, do já relativamente conhecido escritor djibutiano Abdourahman A. Waberi, preocupa-se justamente em romper com o estereótipo da história única, oferecendo um panorama do seu país de nascença nos dias de hoje. Para isso, o autor recorre a uma narrativa pretensiosa e multifacetada, composta por diversos monólogos centrados em personagens distintas, os quais têm o objetivo de oferecer um retrato o mais completo possível da situação sócio-política do Djibuti nos dias de hoje.

O livro tem como ponto de partida das vozes de Bashir, um ex-soldado ferido, e Harbi, um intelectual de meia-idade resgatado há pouco da prisão por motivos políticos. Ambos encontram-se na fila do serviço de imigração do Aeroporto de Paris e, enquanto esperam, voltam-se em pensamento às pessoas que deixaram para trás: para Harbi, o filho e a esposa francesa; para Bashir, um antigo companheiro soldado. Serão essas personagens, ou seja, aqueles que ficaram, que darão voz às 150 páginas que compõem o livro.

Por meio da alternância entre vozes narrativas tão distintas, Waberi apresenta-nos um retrato digno de uma sociedade complexa e pouco conhecida. Eis, por sinal, um dos motivos pelos quais o seu livro deve, por si só, ser digno de louvor. Um segundo aspecto digno de destaque é a sua tentativa de reproduzir, por meio dos monólogos, a maneira de falar de suas personagens, oscilando entre a norma culta hipercorreta e as falhas de linguagem típicas de uma pessoa sem estudos.

Infelizmente, no entanto, os elogios à proposta literária de Waberi terminam, justamente, no plano das intenções. Afinal, a diferença entre a ideia e a sua execução é a tal ponto gritante, que o leitor dificilmente conseguirá se identificar com a história contada. Não que as personagens sejam mal construídas – aliás, se o são mal ficamos a perceber. O que incomoda, na verdade, é o excesso de devaneio, a divagação no melhor gênero fluxo de consciência à la Mrs. Dalloway, em detrimento não apenas da história mas também de um fio condutor. Como resultado, o leitor, desprovido do seu fio de Ariadne, terá grandes dificuldades em sair do labirinto, e completará a leitura mais por sentimento de dever que pelo prazer da leitura.

Apesar dos pesares, é preciso reafirmar que a proposta de Waberi é digna de admiração, justamente por diferir da “história única” contada por muitos dos livros sobre a África publicados hoje em dia – boa parte deles, inclusive, escritos por autores africanos. Nem que fosse só por isso, o que aliás já é muito, devemos tirar o chapéu para este romance inovador.

Para quem estiver interessado (espero que todos estejam), eis o vídeo da Chimamanda:

 

Título original: Transit

País: Djibuti

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2003

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Indiana University Press (ISBN 978-025-3006-89-9)

Edição francesa: Gallimard (ISBN 978-207-0768-74-5)

Número de páginas: 160 (edição inglesa), 176 (edição francesa)

A esperança é uma travessia, de Laila Lalami

Lalami_Hope

A Europa encontra-se hoje em meio a uma crise de imigração sem precedentes. Todos os dias, refugiados e imigrantes clandestinos de diferentes partes do globo arriscam suas vidas em precários botes apinhados de gente, com os quais esperam cruzar o Mediterrâneo e aterrar em um futuro melhor. Os perigos são muitos, e, para os que acabam por sobreviver, ao chegarem à praia a jornada está apenas começando. Esperam-nos, muitas vezes, a expulsão sem piedade, o depósito em centros de refugiados que mais se assemelham a campos de concentração, e, se tiverem sorte, uma vida de privações, preconceitos e dificuldade de adaptação. Embora a imigração em massa só agora se tenha tornado notícia internacional, trata-se de um fenômeno tudo menos recente. Há exatos dez anos, foi justamente este o tema eleito pela marroquina Laila Lalami para o seu primeiro romance.

A esperança é uma travessia consiste num livro curto, que mais poderia ser considerado um apanhado de contos, os quais focam na trajetória de um grupo de imigrantes tentando cruzar o Estreito de Gibraltar num bote inflável. No capítulo introdutório, conhecemo-nos em plena travessia, seguida da ordem de pular em mar aberto e terminar a nado, da aterragem difícil numa praia espanhola, da caçada pela polícia e da ameaça de deportação. Em seguida, o livro divide-se em duas partes, as quais dão conta do passado e do futuro de quatro personagens: Fatem, membro da união dos estudantes islamista recém-expulsa da universidade, Halima, mãe de três filhos casada com um marido abusivo, Aziz, um homem desejoso de sustentar a própria esposa, e, Murad, formado em Literatura Inglesa, que nunca conseguira obter um trabalho. Suas biografias distintas convergem no desespero, que as leva a arriscar a própria vida em nome da duvidosa promessa de um futuro mais digno em território europeu. O que, obviamente, nem sempre é o caso.

É fácil encantar-se com este livro dinâmico e bem escrito, bem-sucedido ao traçar o retrato de personagens deveras diferentes, e que nos abre as portas para quatro microuniversos banais e únicos ao mesmo tempo. Lalami, que foi recentemente indicada para alguns dos maiores prêmios literários da língua inglesa, oferece-nos uma narrativa cativante, da qual o leitor sairá com a impressão de que se despede de velhos amigos, tamanha a empatia despertada em tão poucas páginas. Ao final, somos acometidos pelo inevitável sentimento de que o tema merece uma abordagem mais aprofundada, o que, no entanto, não desmerece o trabalho da autora. Trata-se, pois, de um primeiro esboço, no qual já se pode entrever um pouco da grandeza da qual Lalami provaria ser capaz.

Para uma apaixonada pelo Marrocos como eu, cujo passaporte coleciona carimbos de visita ao Reino de Mohammed VI, A esperança é uma travessia foi como um presente, o qual me permitiu compreender um pouco melhor a realidade um país tão próximo e tão distante.

Título original: Hope and Other Dangerous Pursuits

País: Marrocos

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2005

Edição brasileira: Rocco (ISBN 978-853-2521-78-1)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 184 (edição brasileira)

As consequências do amor, de Sulaiman Addonia

Addonia_Love

Correndo o risco de ser acusada de saltar de uma história de amor à outra, a resenha de hoje é dedicada a outro livro de um país ignorado pelo mundo: As consequências do amor, do escritor eritreu Sulaiman Addonia.

Quem lê as primeiras páginas sem saber que o livro foi escrito por um homem pode muito facilmente se confundir: a sutileza da narrativa, bem como a ingenuidade da visão do mundo do protagonista e narrador em primeira pessoa, dão a ilusão de que se trata não apenas de um eu-lírico feminino, mas também de um texto escrito por uma mulher. No entanto, Nasser, figura principal do romance, é um jovem e belo rapaz de origem eritreia que sonha com o primeiro amor, vivendo na inóspita Arábia Saudita dos anos 1980. No passado, ele e o irmão de três anos foram mandados pela mãe para fora da terra natal como forma de fugir à morte certa num país assolado por uma guerra sem fim. Resgatados por um tio de um campo de refugiados sudanês, os meninos foram adotados pelo parente ultrarreligioso e levados a viver no país do Golfo, onde o contato entre homens e mulheres beira o inexistente. Para Nasser, que cresceu entre mulheres no prostíbulo onde trabalhava a mãe, adaptar-se a um mundo sem elas torna-se praticamente impossível, sobretudo após ser expulso pelo tio e passar a sustentar a si próprio ainda aos 15 anos.

A história de amor em si é bastante previsível: o menino, que sonha com o amor, recebe um bilhete romântico que uma mulher escondida por trás de uma burqa deixa cair a seus pés, e se apaixona pela desconhecida, com quem passa a se corresponder. Surge daí uma paixão que nos é estranha, por uma mulher cujo nome e a própria cor da pele desconhece, e que no começo não é mais que a tentativa de suprir uma carência de ambos os lados.

Num país do qual o amor foi banido, está claro que as consequências de um relacionamento amoroso nunca poderiam ser positivas. No entanto, a história, que parecia a princípio não passar de um amontoado de clichês, torna-se aos poucos cada vez mais envolvente. À medida em que as discussões entre ambos transcendem a fase das declarações açucaradas, seus questionamentos acerca da função da mulher no mundo árabe acabam por se tornar um estudo da sociedade saudita. Uma sociedade, aliás, que pode ser considerada a maior prisão a céu aberto do mundo, e cuja fachada moralista e ultraconservadora esconde um submundo muito pouco condizente com os dogmas do islã. Afinal, uma vez que banir as mulheres não significa extirpar o desejo e a luxúria, o homossexualismo e mesmo o abuso sexual de jovens rapazes de castas inferiores acabam por se tornar práticas aceitáveis, desde que devidamente praticadas debaixo dos panos.

Os jovem de As consequências do amor são deveras diferente das “modernas” garotas de Riade de Rajaa Al-Sanea. Em vez da jovem elite citadina, temos aqui refugiados e filhos de imigrantes, membros muito mais fragilizados de uma estrutura social claustrofóbica e hipócrita. Embora jamais venha a ser uma pérola da literatura, e embora não possa ser considerado um romance tecnicamente eritreu, trata-se de um livro interessante, que cresce aos olhos do leitor com o desenrolar da narrativa, e que merece ser lido por oferecer um olhar crítico e sincero a uma das sociedades mais opressoras do mundo.

Título original: The Consequences of Love

País: Eritreia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1082-41-1)

Número de páginas: 400 (edição brasileira)