Eu sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

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Eu sou Malala é um livro que dispensa apresentações. Mais famoso que Paulo Coelho, mais disputado que o último CD de Justin Bieber, o livro que narra a trajetória da “menina que foi baleada pelo Talibã” correu rapidamente o mundo, fazendo da jovem paquistanesa uma figura carimbada, e servindo de trampolim para que ela se tornasse o mais jovem Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ironicamente, o que Malala não cansa de repetir ao longo das quase 400 páginas de sua autobiografia é que ela não desejava ser conhecida por ter tomado um tiro no rosto, mas sim pela sua luta para promover a educação em seu país de origem. Mas será que o seu ativismo político é realmente o motivo de tão grande celebridade?

Para já, chamar o best seller de autobiografia por si só deveria levantar uma série de reticências: sabemos que o livro foi escrito em coautoria com a jornalista inglesa Christina Lamb, especialista em países de democracia duvidosa, como o Oriente Médio, a África do Sul e o Brasil. Se os méritos de uma narrativa tão detalhada – e muitas vezes até mesmo aborrecida – só podem ser atribuídos à própria Malala, foi sem dúvidas a experiente jornalista quem conseguiu transformar a matéria bruta num sucesso comercial, digno dos 3 milhões de dólares que a menina teria recebido pelos direitos autorais.

Seria perda de tempo (meu e vosso) dedicar mais de meia dúzia de linhas ao enredo mais que conhecido: Malala, uma estudante da região de Swat, tornou-se conhecida graças ao seu discurso em prol da escolaridade de meninas em seu país natal, devastado pelo Talibã. Sua loquacidade só se tornou possível graças ao apoio do pai, diretor da escola onde estudava e empenhado combatente pelos Direitos Humanos. O comportamento pouco convencional de pai e filha fez com que terminassem na mira dos fanáticos islamistas, que os acusavam de secularização e ocidentalização. Mas não estamos aqui para julgar a coragem de Malala, mas sim a qualidade de sua biografia.

O livro, bastante recheado, e decorado por uma longa sessão de fotografias em guisa de apêndice, tenta intercalar os quinze anos de vida de Malala a um vasto aparato de informações históricas, no intuito de alinhar a micro e a macro narrativa. Tudo isso, é claro, sem deixar de lado inúmeras anedotas do cotidiano, como as banais historietas de disputas com as amigas pelo título de melhor aluna da escola, a fim de oferecer ao leitor uma Malala mais “humana”, cheia de erros, mas que não deixou que o sucesso e a celebridade lhe subissem à cabeça. Tal fórmula, acrescida das incontáveis frases de efeito motivacional que poderiam ter sido retiradas diretamente de O alquimista, tornam a leitura enervante, e não nos surpreendemos nem um pouco ao descobrir que a heroína pela educação é, de fato, uma fã de carteirinha do escritor brasileiro mais vendido de todos os tempos. Para terminar, o livro surpreende pela falta de espírito crítico de uma menina tão politizada, quando se trata de elogiar sem precedentes um outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, no qual ela parece não ver nem a sombra de boa parte da culpa pela presença dos talibãs em seu amado Paquistão. Ironicamente, os mesmos talibãs que quase conseguiram silenciá-la. Seria a Malala tão ingênua, ou tratar-se-ia apenas de um recurso editorial para fazer o livro mais apresentável, mais conforme à sensibilidade do leitor ocidental? A julgar pelo fato de que, em entrevistas e debates anteriores à publicação da biografia, Malala levantou sim a voz para criticar abertamente a intervenção militar e as políticas estadunidenses no Paquistão, tendo a me deixar levar pela segunda opção.

Obviamente, não estou a colocar em causa a importância da mensagem que Malala veio dar ao mundo, mas sim a parcialidade e o maniqueísmo de um livro feito para agradar as grandes massas. Um livro que perdeu uma excelente oportunidade de contextualizar o crescimento da força de grupos extremistas a partir de 2001, e de questionar o papel dos Estados Unidos e da “luta contra o terror” no crescente estado de guerra que domina o Oriente Médio.

Ao fim de uma leitura não completamente maçante, mas que mesmo assim me custou duas semanas, fica a lição: da próxima vez, eleger uma obra de literatura de verdade.

Título original: I Am Malala: The Girl Who Stood Up for Education and Was Shot by the Taliban

País: Paquistão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5923-43-8)

Edição portuguesa: Presença (ISBN: 978-972-2351-73-7)

Número de páginas: 360 (edição brasileira), 352 (edição portuguesa)

 

 

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4 thoughts on “Eu sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

  1. Boa indicação.

    Leia o livro com um pouco mais de boa vontade. É evidente que esse livro foi concebido mais como um meio de promoção da Malala do que com o intuito de ser uma primazia literária. Estocar o livro alucinadamente não devolve nada ao leitor. Expõe muito mais você do que o livro. A partir dessa estética esquisita do Paulo Coelho, não surge nada de útil? Será que o estilo do Paulo Coelho não é muito mais acessório do que determinante no livro?

    O que ele conta do cotidiano do Paquistão? Essas anedotas são boas? As fotografias são de quem? São bonitas? Compõe a narrativa ou estão deslocadas?
    O quanto a Malala participou do processo de escrita? E a Christina Lamb, jornalista inglesa ela tem outros livros com personagens-sujeitos do Afeganistão e outro sobre democracia no Paquistão, como este último livro se localiza no conjunto da obra dela? Quais são as críticas que ela poderia fazer Obama, diga, diga,diga

    • Olá Pedro, obrigada pelo seu comentário.
      Quanto à minha forma de ler o livro, posso afirmar que o li de muitíssimo boa vontade – do contrário, simplesmente não o teria terminado. Leio sempre de boa vontade, não sei como ler de outra forma, mas por mais boa vontade que se tenha é preciso saber reconhecer quando um material é bom, e quando não o é.

      Obviamente não se trata de um texto “literário”, no entanto, esperava mais dele, tanto do ponto de vista da escrita – afinal, biografias podem sim ser muito bem escritas, veja por exemplo a minha resenha do texto “A onda”, de Sonali Deraniyagala, publicada neste blog em 2014 -, como do ponto de vista político. Sinceramente, não acho que nada de útil jamais surgirá dessa “estética esquisita do Paulo Coelho”, como você mesmo coloca, exceto meia dúzia de lugares comuns, o conquistar e inspirar fácil e irrefletido dos leitores, e uma fórmula para se vender mais.

      Sem entrar no mérito dos outros livros de Lamb, que obviamente conheço, tanto Malala quanto Lamb perderam neste livro uma excelente oportunidade de informar o leitor a respeito de um tema essencial para o mundo contemporâneo, mas preferiram (ou elas, ou o editor) em vez disso dar a eles mais uma confirmação do maniqueísmo grosseiro difundido pela mídia, que coloca o conflito EUA/Talibã como mais um prolongamento do antigo motivo “cowboys/índios”. Não, Pedro, eu não acho que o estilo “inspiracional” do livro seja apenas acessório – muito pelo contrário! Trata-se, na minha opinião, de um mecanismo ideológico extremamente bem pensado para continuar a propagar os estereótipos nos quais, na chamada “guerra contra o terror”, existe um lado bom e outro mau.

      O que o livro conta sobre o cotidiano do Paquistão não é nada de novo: é mais um retrato do que vemos na mídia diariamente. As fotografias, por esteticamente boas ou más que sejam, servem para corroborar esta imagem – fotos de uma infância idílica da menina ao lado de imagens de homens sendo açoitados pelos talibãs. A propaganda política é inerente, não deixa dúvidas, faz gritar, e assemelha a narrativa aos textos de Khaled Hosseini (um deles também resenhado neste blog).

      Não cabe a uma resenha de 700 palavras dar conta de um estudo sociológico de um livro, mas sim apenas transmitir a minha opinião sobre ele. Uma opinião com a qual os meus leitores podem concordar ou não. Pelos vistos, você não concorda, mas em vez de me fazer centenas de perguntas e críticas, talvez tivesse sido mais útil e construtivo para mim e para você se tivesse exposto o seu ponto de vista, pois aí teríamos uma base para conversa. Afinal, se é verdade o que você afirma quando diz que “[estocar o livro] expõe mais você do que o livro”, o mesmo poderia dizer eu das suas perguntas. Assim, se quiser deixar de lado o pedestal e a atitude de professor em dia de exame final, quem sabe ainda possamos ter um diálogo construtivo?

      • Gabi.. interessante e tbm Tags a ler e Nao passei da Decima pagina… Acho q vc me conhece… Sergio Berlin.:)

      • Olá querido amigo, bem vindo ao meu blog! Conheço sim, mas faz um esforcinho… e depois vem me contar o que achou! Saudade de vc e de Berlim! 🙂

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