Transit, de Abdourahman Waberi

Waberi_Transit

Há alguns dias, estive revendo o vídeo da maravilhosa escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie – cujo último livro, Americanah, foi aliás responsável tanto por este blog como pelo meu interesse em “ler o mundo” –, no qual ela fala sobre o perigo da história única. No vídeo, a autora fala sobre as armadilhas as quais nos submetemos quando somos constantemente expostos a uma imagem única e estereotipada de um outro país, povo ou cultura.

O romance Transit, do já relativamente conhecido escritor djibutiano Abdourahman A. Waberi, preocupa-se justamente em romper com o estereótipo da história única, oferecendo um panorama do seu país de nascença nos dias de hoje. Para isso, o autor recorre a uma narrativa pretensiosa e multifacetada, composta por diversos monólogos centrados em personagens distintas, os quais têm o objetivo de oferecer um retrato o mais completo possível da situação sócio-política do Djibuti nos dias de hoje.

O livro tem como ponto de partida das vozes de Bashir, um ex-soldado ferido, e Harbi, um intelectual de meia-idade resgatado há pouco da prisão por motivos políticos. Ambos encontram-se na fila do serviço de imigração do Aeroporto de Paris e, enquanto esperam, voltam-se em pensamento às pessoas que deixaram para trás: para Harbi, o filho e a esposa francesa; para Bashir, um antigo companheiro soldado. Serão essas personagens, ou seja, aqueles que ficaram, que darão voz às 150 páginas que compõem o livro.

Por meio da alternância entre vozes narrativas tão distintas, Waberi apresenta-nos um retrato digno de uma sociedade complexa e pouco conhecida. Eis, por sinal, um dos motivos pelos quais o seu livro deve, por si só, ser digno de louvor. Um segundo aspecto digno de destaque é a sua tentativa de reproduzir, por meio dos monólogos, a maneira de falar de suas personagens, oscilando entre a norma culta hipercorreta e as falhas de linguagem típicas de uma pessoa sem estudos.

Infelizmente, no entanto, os elogios à proposta literária de Waberi terminam, justamente, no plano das intenções. Afinal, a diferença entre a ideia e a sua execução é a tal ponto gritante, que o leitor dificilmente conseguirá se identificar com a história contada. Não que as personagens sejam mal construídas – aliás, se o são mal ficamos a perceber. O que incomoda, na verdade, é o excesso de devaneio, a divagação no melhor gênero fluxo de consciência à la Mrs. Dalloway, em detrimento não apenas da história mas também de um fio condutor. Como resultado, o leitor, desprovido do seu fio de Ariadne, terá grandes dificuldades em sair do labirinto, e completará a leitura mais por sentimento de dever que pelo prazer da leitura.

Apesar dos pesares, é preciso reafirmar que a proposta de Waberi é digna de admiração, justamente por diferir da “história única” contada por muitos dos livros sobre a África publicados hoje em dia – boa parte deles, inclusive, escritos por autores africanos. Nem que fosse só por isso, o que aliás já é muito, devemos tirar o chapéu para este romance inovador.

Para quem estiver interessado (espero que todos estejam), eis o vídeo da Chimamanda:

 

Título original: Transit

País: Djibuti

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2003

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Indiana University Press (ISBN 978-025-3006-89-9)

Edição francesa: Gallimard (ISBN 978-207-0768-74-5)

Número de páginas: 160 (edição inglesa), 176 (edição francesa)

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