Dossier K., de Imre Kertész

Kertész_K

Em 2002, o escritor Imre Kertész foi galardoado com o primeiro (e até o momento único) prêmio Nobel da Literatura concedido a um autor de origem húngara. Pouco tempo depois, diversas biografias, estudos e monografias sobre sua vida e obra proliferaram como cogumelos nas casas de edição de toda a Hungria. Kertész, no entanto, jamais poderia ser considerado o autor húngaro por excelência: primeiramente por ser judeu, e em seguida por jamais ter participado ativamente do cenário literário e cultural do seu país, sendo mesmo, em certa medida, considerado persona non grata nos altos círculos de Budapeste. Em resposta a tanto dito e ao não dito, resolveu publicar, juntamente com o seu tradutor em inglês Tim Wilkinson, uma espécie de memoir, o qual tem a forma de uma entrevista de pouco mais de duzentas páginas. Eis em que consiste o livro Dossier K.

Não é possível escrever sobre a obra de Kertész sem pensar em sua conturbada biografia. De fato, uma grande parte de seus escritos são baseados em experiências pessoais, ou foram pelo menos inspirados por cenas verídicas de um passado pouco comum. Aos catorze anos, Kertész tornou-se mais uma vítima do Nazismo, tendo sido prisioneiro em Auschwitz e Buchenwald, de onde só conseguiu se libertar com a derrota dos alemães. Mais tarde, com o final da Segunda Guerra Mundial, o menino tornou à casa transformado, movido por um indelével sentimento de alheamento em relação ao mundo ao seu redor, obrigado, no entanto, a retomar a rotina do ponto onde fora interrompido. Concluiu a escola, descobriu os grandes clássicos da literatura, e iniciou uma carreira literária quase sem pensar, na qual são revividos não apenas os traumas dos campos de concentração, mas também toda a confusão mental do pós-guerra, bem como a catástrofe sociopolítica que representou a ascensão do comunismo na Hungria.

Dossier K consiste numa entrevista apaixonante, de grande interesse não apenas para aqueles que já conhecem a inigualável obra de Kertész, mas também para aqueles que nunca leram um livro seu. Para os primeiros, consistirá num convite para uma descoberta literária da qual jamais se arrependerão; para os últimos, será um enorme presente, como o making-off de um filme o é para os seus fãs mais aficionados. Em todo caso, trata-se sem sombra de dúvida de um documento preciosíssimo, o qual nos permite ter acesso à mente de um escritor de primeira categoria, e desvendar os mistérios do seu processo criativo, das conexões entre literatura e realidade, bem como da sua maneira singular de analisar o mundo ao seu redor.

Difícil será, no meu caso, ler outros 120 livros antes de poder me permitir retornar a este tão pouco conhecido pilar da literatura do século XX.

Título original: K. dosszié

País: Hungria

Idioma original: húngaro

Ano de publicação: 2006

Edição em português: não encontrada

Edição em inglês: Melville (978-161-2192-02-4)

Número de páginas: 224 (edição em inglês)

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