A onda, de Sonali Deraniyagala

Deraniyagala_Wave

Sonali Deraniyagala convive diariamente com o peso do inconcebível: tudo o que ela amava foi levado por uma onda. Em dezembro de 2004, quando um devastador tsunami atingiu a costa do Sri-Lanka, ela estava passando as férias com os pais, o marido e os dois filhos pequenos numa reserva florestal no sudeste do país. Ao emergir dos escombros e perceber que estava viva, esta professora de ciências econômicas erradicada em Londres foi acometida por uma realidade devastadora e indizível – todas as pessoas que ela mais amava no mundo estavam mortas.

Embora a maior tragédia ambiental do sudeste asiático seja o inevitável ponto de partida para essa narrativa pungente, quem pensar que tem diante de si mais um livro sobre o tsunami estará comprando gato por lebre. Pelo contrário, o episódio do tsunami ocupa somente as primeiras 20 páginas do relato, que se estende por quase uma década. O que Deraniyagala realiza nos 90% restantes do seu livro vai muito além de uma mera repetição desse episódio dramático, visto e revisto por bilhões de pessoas ao redor do mundo. O que A onda tematiza é muito mais devastador e muito mais difícil que sobreviver a qualquer onda gigante: o desafio de conviver, dia após dia, com a dura realidade de ter perdido quem se ama.

Ao longo do relato organizado cronologicamente, Deraniyagala compartilha com o leitor os diversos processos pelo qual passou, desde o momento da tragédia até os dias atuais: a apatia do choque, a fase da revolta e da autodestruição, os momentos de dúvida e as crises de culpa, a aceitação lenta e cheia de recaídas, e a imensa saudade que não se atenua com o tempo. Mas o leitor que estiver em busca de um happy end ou de uma mensagem de esperança deve procurar em outra parte: não existe happy end para uma tragédia tão terrível. É que não se trata de ficção ou de uma obra de autoajuda, que converge na catarse e no apaziguamento do espírito, mas sim de um relato real. E a realidade, ainda que isso seja difícil de aceitar, nem sempre faz sentido, assim como a vida nem sempre é bela e a dor não passa com o tempo – apenas muda de forma.

Se resenhar uma autobiografia nunca é fácil, resenhar a autobiografia de uma mulher que perdeu, de uma só vez, as cinco pessoas mais queridas neste mundo poderia ter se convertido numa tarefa mais difícil ainda. Afinal de contas, como encontrar o equilíbrio ideal entre o “leitor ingênuo” e o “crítico”, não se deixando levar pela emoção, a fim de julgar objetivamente a qualidade do texto em pauta? Felizmente para nós, o livro de Deraniyagala é tão fluido e bem escrito, que não deixa margem para críticas do ponto de vista literário. Apesar do forte potencial para o sensacionalismo, a autora realizou a difícil façanha de encontrar o tom ideal, sóbrio e profundamente honesto, que distingue seu livro de tantos outros relatos de sobreviventes que invadem a cada ano o mercado. Não é a toa que ele foi considerado um dos melhores livros de 2013 pela The New York Times: A onda comove pela simplicidade sem cair no melodrama. Uma bela homenagem não só àqueles que perdemos, como também à memória do que deles resta dentro de nós.

Título original: Wave

País: Sri Lanka

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: não há

Edição portuguesa: Vogais (ISBN 978-989-6682-05-7)

Número de páginas: 240 (edição portuguesa)

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4 thoughts on “A onda, de Sonali Deraniyagala

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