O teatro do bem e do mal, de Eduardo Galeano

Galeano_Teatro

No último dia 13 de abril, o mundo perdeu – numa cajadada só – dois dos grandes pilares da literatura do século XX. Um deles, o inesquecível Nobel da Literatura Günter Grass; o outro, um dos mais destacados escritores e pensadores da América Latina: o já saudoso mestre uruguaio Eduardo Galeano. É a este último que a resenha deste domingo é dedicada.

O teatro do bem e do mal consiste numa compilação de textos escritos entre o final dos anos noventa e a aurora do século XXI, que contemplam os mais diversos temas, como a política internacional, a economia, o comércio, e a ecologia, mas reúne igualmente frases pichadas em muros e epitáfios extraídos de igrejas latinas. Vale lembrar que a compilação não foi realizada pelo próprio autor, e que, embora os textos originais tenham sido escritos em espanhol, estamos diante de uma edição exclusivamente brasileira. Nos fragmentos curtos e certeiros que compõem o livro, é possível entrever o espírito crítico de Galeano, bem como seu olhar clínico sobre a realidade e sua impressionante capacidade de fazer analogias, dando a vislumbrar um imenso repertório cultural. No centro das críticas, encontra-se não poucas vezes aquele que o autor, com ironia, denomina “o centro do mundo”: os Estados Unidos.

De maneira fácil, direta, e sem o peso de grandes aparatos teóricos, os textos de Galeano contemplam uma diversidade de situações que ao menos mereciam ter se tornado polêmicas. Dentre elas, é possível citar o fato de que o dinheiro gasto pelos “donos do mundo” para desenvolver apenas uma arma letal teria sido suficiente para acabar com a fome no mundo por um ano inteiro, ou que, embora tenham plena consciência dos danos incomensuráveis causados pelo chumbo nos seres humanos, as companhias petrolíferas continuam vendendo combustível com o aditivo aos países do chamado terceiro mundo. Trata-se de questões cruciais para a sociedade como um todo, formuladas de modo a serem facilmente compreendidas não apenas por aqueles habituados às questões sociopolíticas, mas por todo e qualquer cidadão interessado. Uma espécie de “Galeano em 90 minutos”, que certamente fará o leitor que ainda não teve a oportunidade de ler o trabalho do autor ter vontade de descobri-lo em toda a sua grandeza. Informativo, educativo, e irônico na medida certa.

Embora pudesse – e merecesse – ter pelo menos um terço a mais de páginas, a coletânea tupiniquim é extremamente bem-sucedida no sentido de dar a conhecer a um público mais vasto a pena de um dos mais importantes, originais e críticos pensadores da aurora do século XXI. Quanto ao efeito que fará aos leitores, asseguro que até mesmo os menos politizados terão vontade de o ler em voz alta, em praça pública, em plena hora do rush. Deveria tornar-se leitura obrigatória não apenas em escolas e universidades, mas também em presídios, creches, hospitais, e toda espécie de lugar público. Simplesmente, todo mundo merecia ter o direito de ouvir as palavras de Eduardo Galeano.

Eis aqui a vídeo-propaganda da compilação, dirigida por Saturnino Rocha:

 

Título original: O teatro do bem e do mal

País: Uruguai*

Idioma original: português

Ano de publicação: 2006

Edição brasileira: L&PM Pocket (ISBN: 978-85-2541-206-5)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 124 (edição brasileira)

*embora a edição seja exclusivamente brasileira.

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