O conflito: A mulher e a mãe, de Elisabeth Badinter

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Vivemos um verdadeiro retrocesso no que diz respeito à função da mulher na sociedade. Depois de décadas de luta por direitos iguais, a mulher vem perdendo novamente espaço graças ao aparecimento de um novo tirano: o filho. Eis o ponto de partida de O conflito: A mulher e a mãe, o mais recente trabalho da francesa Elisabeth Badinter.

Três décadas após o polêmico Um amor conquistado: O mito do amor materno, a filósofa feminista que chocou o mundo ao contestar o “instinto materno” volta a causar desconforto ao analisar a ambiguidade mãe-mulher na sociedade contemporânea. Tomando como foco o desenvolvimento histórico-social recente, a autora baseia-se nas baixas taxas de natalidade dos países desenvolvidos, e se pergunta sobre os motivos pelos quais eles têm vivido um decréscimo avassalador no número de nascimentos. Para encontrar uma resposta, ela analisa não apenas as políticas governamentais para motivar a população a ter filhos e o contexto socioeconômico no qual estão inseridas boa parte das mulheres que optam por não serem mães, mas também o peso de um fantasma que aterroriza as mulheres em idade fértil: o mito da mãe exemplar.

À contramão do entusiasmo com os avanços tecnológicos no século XX, o novo milênio é marcado por uma desconfiança coletiva do artificial. A partir da ideia de que tudo o que é “químico” faz mal, optamos pelo orgânico e pelo “natural”, fundando-nos na crença da sabedoria da “Mãe Natureza”. Por consequência, muitas mulheres – sobretudo as mais escolarizadas – desconfiam da pílula anticoncepcional, e condenam a peridural e a cesariana com base na ideia de que a ausência da dor anula o valor do rito iniciático do parto. Com a chegada dos filhos, preferem fraldas laváveis em vez de descartáveis, e condenam o leite em pó graças ao mito de que o leite materno contribui para o desenvolvimento cognitivo dos bebês. A mulher incapaz de amamentar por motivos fisiológicos sente-se incompleta, e aquela que opta pelo leite em pó por vontade própria é tratada como párea, indigna do presente que é a maternidade. Ao longo da infância do filho, a mãe é vista como a principal responsável pelo seu desenvolvimento, e sofre uma forte pressão social para que abdique de si mesma, partindo do princípio de que o filho deve estar sempre em primeiro lugar. Ao mesmo tempo, o quadro de divisão das tarefas domésticas entre os sexos mantem-se estagnado. Com tudo isso, a mulher do século XXI tende a buscar sua realização pessoal fora da maternidade, e acaba pospondo o desejo de ser mãe para não ter que optar entre papeis aparentemente inconciliáveis: o de mãe exemplar e o de mulher bem-sucedida professional e sexualmente.

À primeira vista, as reflexões de O conflito parecem muito distantes da realidade tupiniquim. Sem os inúmeros benefícios dos países de primeiro mundo, a mulher brasileira não pode se dar ao luxo de optar por ser mãe a tempo integral, e tem muitas vezes que trabalhar desde cedo, deixando os filhos aos cuidados de estranhos. Com isso, o fantasma da mãe perfeita acaba não se fazendo tão presente quanto nos países desenvolvidos. Por outro lado, sobretudo nas camadas mais favorecidas da população, já é possível notar uma certa tendência ao “naturalismo”, e cada vez mais mulheres escolarizadas abdicam da carreira para cuidar dos filhos – diante de um mercado de trabalho que não as valoriza, é bem necessário buscar outras fontes de auto-concretização. Ademais, a julgar pelo rápido decréscimo das taxas de natalidade no Brasil, assim como pelo aumento da idade média para ter filhos, pode-se dizer que a tendência dos países europeus faz-se sentir pouco a pouco também por aqui.

Um aspecto a ser criticado no ensaio de Badinter é o fato de que, ao falar do sentimento ambíguo vivido por mães do século XXI, a autora baseia-se em relatos de caráter semiliterário, o que torna questionável a validade dos seus argumentos, que teriam sido mais convincentes se fossem embasados em pesquisas de campo Ademais, é possível se perguntar se a autora, no seu desejo de “dizer a verdade”, não acaba caindo em generalizações e interpretações precipitadas. Em todo o caso, não estamos diante de um estudo acadêmico, mas sim de um ensaio filosófico, e a parcialidade, nesse tipo de literatura, é perdoável.

Apesar dos pesares, O conflito é uma leitura interessante, fácil e agradável, recomendável não apenas para mulheres preocupadas com a questão da maternidade, como também para todos aqueles – homens e mulheres – interessados numa reflexão perspicaz e acurada sobre a sociedade contemporânea.

Título original: Le conflit: La femme et la mère

País: França

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2010

Edição portuguesa: Relógio d’Água (ISBN 978-989-6411-83-1)

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1091-99-4)

Número de páginas: 168 (edição portuguesa), 224 (edição brasileira)

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