A evolução de Calpurnia Tate, de Jacqueline Kelly

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Desde que ouvi falar de Calpurnia Tate, o livro tornou-se-me uma pequena obsessão. Encaixá-lo no meu plano geográfico de leitura até que não era difícil, mas não seria algo desonesto? Afinal de contas, mesmo que sua autora seja originária da Nova Zelândia, a história se passa nos confins do Texas. Por fim, venceu a curiosidade: mesmo consciente de que existem centenas de outros livros muito mais neozelandeses à espera de serem lidos, desta vez teve mesmo de ser.

A evolução de Calpurnia Tate é o primeiro de dois romances históricos infanto-juvenis protagonizados por Calpurnia, ou Callie Vee, uma menina de onze anos que nada tem de conformista. Oriunda de uma família de abastados fazendeiros, Callie cresce como a única filha ao lado de seis irmãos, três mais velhos e três mais novos, tornando-se, graças à ausência de modelos femininos, numa verdadeira maria-rapaz. Em vez de dedicar seu tempo a tarefas convencionalmente femininas, Calpurnia prefere correr livre pelos campos e, estimulada por um avô misantropo, dar asas à sua curiosidade científica e investigar os mistérios da natureza. Tarefa esta em nada reprovável, não fosse pelo fato de estarmos a falar do ano de 1899, uma época em que pouco se esperava das mulheres além de que soubessem costurar, bordar e manejar uma cozinha.

De maneira geral, pode-se dizer que Calpurnia Tate é um livro bem-sucedido: a história é bem escrita, a narrativa em primeira pessoa funciona de fato, e a trama, situada em plena virada do novo século, remete seus jovens leitores a uma época que pode lhes parecer tão distante quanto a Idade Média. Uma época na qual as mulheres tinham poucos direitos, mas na qual, por outro lado, tudo parecia possível: com o advento do telefone, o avanço das vias telegráficas, bem como a invenção do automóvel, antevia-se uma modernidade latente e irrefreável, repleta de maravilhas capazes de revolucionar a micro e a macro-história. Nesse sentido, trata-se de um romance que eu sem dúvida recomendaria aos meus alunos – e sobretudo alunas – de doze anos de idade. Mas, se é assim, qual o problema?

Desta vez, o problema, na verdade, não está no livro, mas sim fora dele: a propaganda, eterna alma do negócio e algoz das nossas expectativas, pintou o romance de Kelly com cores muito diversas, vendendo-o como se fosse um Mundo de Sofia das ciências naturais. Ora, numa época como a nossa, na qual cai por terra o mito da pretensa igualdade entre os sexos, e se tenta reinventar o papel da mulher na sociedade, um livro que fizesse despertar o interesse das meninas pelos mistérios do universo poderia ter sido muito bem vindo. Se bem realizado, ele poderia ter mesmo sido um contributo essencial para fazer despertar na nova geração um interesse por carreiras tipicamente masculinas, revisitando os velhos paradigmas que confinam o “sexo frágil” às ciências humanas. No entanto, realizar tal proeza não é nem nunca foi o intuito de Kelly, muito mais preocupada em oferecer-nos um panorama das relações familiares e dos pequenos dramas cotidianos de uma menina fascinada por Darwin.

Apesar das expectativas frustradas, é preciso admitir que A evolução de Calpurnia Tate é, em seu gênero, um livro bom, que certamente cumprirá o seu intuito de entreter o jovem público ao qual está destinado. No entanto, é inevitável lamentar a oportunidade desperdiçada de fazer algo realmente inovador. Afinal, se quiséssemos tão-somente descobrir a realidade das crianças do século XIX, poderíamos ter ficado com Uma casa na campina.

A revolução feminista ainda não foi desta vez.

 

Título original: The Evolution of Calpurnia Tate

País: Nova Zelândia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Única (ISBN 978-856-7028-41-5)

Edição portuguesa: Contraponto (ISBN 978-989-6660-99-4)

Número de páginas: 384 (edição brasileira), 248 (edição portuguesa)

 

 

 

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