O menino que via demônios, de Carolyn Jess-Cooke

Jess-Cooke_Demônios

Histórias que se situam no limiar entre a doença mental e o sobrenatural são por natureza perturbadoras. Histórias que exploram este tema sob a perspectiva de uma criança são capazes de causar ainda mais desconforto. Acrescente a isso uma boa dose de trauma coletivo (uma guerra civil recente com três décadas de duração), e certamente terá a fórmula para arrepiar os cabelos de jovens leitores do mundo todo.

Alex Broccoli é um menino pobre, muito pobre, que vive com a mãe depressiva num decrépito casebre na periferia de Belfast. Habituado à solidão, seu único “amigo” é um demônio chamado Ruel, que assume formas distintas de acordo com seu estado de espírito. Após presenciar uma nova tentativa de suicídio da mãe, Alex é atendido pela doutora Anya, uma especialista em esquizofrenia infantil recém chegada de volta ao país natal, que acredita que os “Problemas” que marcaram a história recente da Irlanda do Norte exercem uma forte influência sobre a saúde mental de seus habitantes. Anya identifica-se de imediato com o menino, que lhe faz pensar na filha que tirou a própria vida durante um surto de esquizofrenia aos doze anos de idade, e vê em Alex e seus demônios uma oportunidade única de se conciliar com seu passado.

A trama é narrada em paralelo, sob a forma de entradas num diário, a partir de duas perspectivas distintas: a do perturbado menino e a da não menos atormentada doutora. Trata-se de um recurso interessante, que contrapõe as diferentes percepções da realidade, e contrasta a visão científica da médica à experiência empírica do menino. Embora muitos dos elementos sobrenaturais sejam facilmente explicáveis por meio da psicologia, o livro também nos reserva um grande número de pontos sem nó, desses que a razão não consegue explicar. Afinal, demônios existem?

Infelizmente, aqui termina o lado positivo do livro. É que, do ponto de vista estrutural, o romance de Jess-Cooke está carregado de pequenas falhas. A começar por um estilo narrativo alquebrado, que favorece os saltos temporais, e que não dá ao leitor o direito a nem o mais curto momento de distração: num piscar de olhos, encontramo-nos há três horas, ou três meses, atrás, sem sequer nos termos dado conta de como isso aconteceu. Às vezes, temos a impressão que a culpa não é da autora, mas sim de cortes (mal-)feitos por um editor ávido em reduzir o número de páginas – por exemplo, quando Anya menciona “ainda estar usando seu tênis de corrida”, sem ter antes feito nenhuma alusão a ter estado a correr. A isso, acrescentam-se incontáveis incoerências e informações cruzadas, que deixarão qualquer leitor observador com a pulga atrás da orelha: Primeiro, a mãe de Alex fora adotada quando tinha a sua idade; depois, aos 15 anos – Alex tem apenas dez. Estranho? Basta fazer as contas!

Seriam essas perturbações intencionais? Um reflexo do alterado estado de espírito de seus protagonistas? Ou simplesmente falhas no enredo? É escusado dizer que a última hipótese não pode ser totalmente descartada. Embora a tradução brasileira, repleta de expressões pobres e de erros de concordância, também não favoreça uma visão mais favorável do livro. Lamentavelmente, o número de defeitos iguala-se ao de qualidades, fazendo com que O menino que via demônios, apesar da trama cativante e difícil de largar, não passe no crivo de leitores ligeiramente mais exigentes. Eis uma boa leitura para um público jovem e pouco experiente, mas só.

Para se fazer grandes livros, não bastam os grandes enredos.

 

Título original: The Boy Who Could See Demons

País: Irlanda do Norte

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Rocco (ISBN 978-853-2528-13-1)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 384 (edição brasileira)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s