Artemis Fowl, de Eoin Colfer

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O que esperar de um livro envolvendo duendes e fadas, cujo protagonista é um gênio do crime de onze anos de idade? Ao ouvir falar da famosa série irlandesa Artemis Fowl, pensei que seria a leitura perfeita para as férias: um livro relativamente curto (cerca de 300 páginas), fácil e rápido de ler, que far-me-ia reviver, embora com espírito crítico, as impressões do primeiro Harry Potter há mais de uma década.

Pensando bem, o enredo poderia ter dado uma noção do que viria a seguir. Artemis II, um milionário mimado, descende de uma família de vigaristas profissionais, e se encontra à disposição de seus maiores devaneios em seguida ao desaparecimento do pai e à loucura da mãe. Acompanhado tão somente por seu mordomo fisiculturista Butler e a irmã adolescente deste, o menino tristonho e sem amigos decide empreender uma façanha ousada a fim de recuperar a riqueza da família: roubar o ouro das fadas. Para isso, consegue usurpar um exemplar do livro mágico do povo belo, que traduz com a ajuda de um computador superpotente. Enquanto isso, nas profundezas da terra, a agente especial da LEP (a polícia dos leprechaums) Holly recebe uma importante missão junto ao “povo da lama” (ou seja, nós, os humanos), e em um momento de distração acaba sendo raptada pelo ardiloso Artemis. Nem toda a tecnologia e sabedoria milenar do povo subterrâneo é capaz de proteger o mundo mágico das artimanhas do anti-herói mais antipático da história da literatura.

A milionária série infanto-juvenil Artemis Fowl, cujo sucesso pode ser comparado ao de outras do gênero, como Desventuras em Série, insere-e num nicho comercial bastante específico: o dos leitores pré-adolescentes, uma camada da população cada vez mais ativa no mercado de consumo. Como tal, seria de se esperar que estivéssemos diante de um “easy read”, o que no entanto não forçosamente quereria dizer que seus livros fossem de tal forma descartáveis. Ora, a julgar pelo primeiro, é mesmo este o caso. Não existe profundidade psicológica, nenhuma das personagens principais é minimamente carismática, e a história poderia ser considerada estrambólica até mesmo por uma criança da escola primária. A começar pela facilidade absurda com a qual o mimado e intragável menino humano consegue driblar um povo cujas capacidades bélicas e tecnológicas deveriam, a princípio, ser incorruptíveis. Basta dizer que o mordomo truculento consegue dar cabo facilmente de um troll – portanto muito diferente daqueles a que estamos habituados na tradição da literatura fantasy (O Senhor dos Anéis, Harry Potter e companhia). Aos poucos, tem-se a impressão de que o único motivo pelo qual o ouro das fadas nunca foi roubado antes é ninguém jamais ter reparado nelas. E, na falta de personagens suficientemente simpáticas com quem nos identificar e para quem torcer, não seria de surpreender se resolvêssemos simplesmente fechar o livro.

Será esta resenha cínica e rabugenta um sinal da velhice de sua autora? Será a sua vontade incessante de dar umas boas chineladas no traseiro doprotagonista uma amostra de que já não tenho mais idade – ou disposição – para entender um livro destinado ao público jovem? É possível, mas duvido. Afinal, embora não seja uma fã assumida do gênero, continuo a saber apreciar os bons exemplares da literatura infanto-juvenil. Simplesmente, o primeiro livro da série Artemis Fowl não é um deles.

Título original: Artemis Fowl

País: Irlanda

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2001

Título brasileiro: Artemis Fowl: O menino prodígio do crime

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1060-88-4)

Título português: Artemis Fowl: O ouro das fadas

Edição portuguesa: Dom Quixote (978-972-2022-24-8)

Número de páginas: 288 (edição brasileira), 264 (edição portuguesa)

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