A culpa é das estrelas, de John Green

ImagemQual o segredo para se escrever um livro de sucesso? Primeiramente, é preciso tratar-se de uma história que alcance o maior número de leitores possível. Suas personagens, apesar das singularidades que fazem delas pessoas extraordinárias, devem ser suficientemente comuns para que haja identificação e aceitação por parte do público. Idealmente, o texto deve ser permeado de referências que remetem diretamente ao universo de experiência do leitor. A linguagem deve ser fácil, os diálogos verossímeis… E, se a trama for capaz de trazer o público do riso às lágrimas, o sucesso estará garantido.

Não é difícil perceber o motivo pelo qual A culpa é das estrelas é atualmente o livro mais vendido do Brasil. Em primeiro lugar, o romance, escrito por um autor conhecido graças à internet, obteve um enorme sucesso nos Estados Unidos, tornando-se um best seller antes mesmo de ser publicado. Em segundo, insere-se no gênero infanto-juvenil – e não é de hoje que os adolescentes formam um dos públicos-alvo mais eficazes do mercado literário. Ademais, narra uma história de amor, e histórias de amor, quando bem escritas e sobretudo bem divulgadas, geralmente vendem bem.

Sem dúvida, John Green acertou na fórmula. Narrado em primeira pessoa, A culpa é das estrelas conta a história de Hazel, 16 anos, e Augustus, 17, e trata de experiências tão corriqueiras como o primeiro amor, a descoberta do outro, a entrega, e também a perda. Mas se engana quem pensar que estamos diante de adolescentes como outros quaisquer. O elemento de singularidade que distingue seus protagonistas, aquilo que os torna extraordinários em sua mundanidade, é justamente a sua fraqueza: a doença. Hazel, a narradora, foi há mais de três anos diagnosticada com câncer nos pulmões em estado terminal. Se o medicamento que toma coíbe a progressão da enfermidade, não é capaz de cura-la. Assim, vai vivendo à espera da morte, num eterno stand-by. Augustus, por sua vez, um rapaz bonito e atlético, teve osteosarcoma, doença cuja probabilidade de remissão é particularmente elevada, e vem sendo declarado saudável desde a amputação de uma perna. Fãs de literatura, de música alternativa e de jogos de vídeo, os dois se encontram e se reconhecem como espécies de almas-gêmeas num grupo de apoio a adolescentes enfermos. Aos poucos, vão se entregando um ao outro e às descobertas do amor como qualquer casal de adolescentes, embora a doença que os une confira-lhes igualmente um tom de maturidade – sentimental e intelectual – e originalidade que os distingue da massa.

E, como nem só de amor se faz a vida, e “o mundo não é uma fábrica de realização de desejos”, o texto mostra também o lado amargo do doente terminal, retratando-o não como o heroico lutador como é venerado nas homenagens post-mortem, mas como um ser humano comum, acometido por medos, momentos de fraqueza, de desespero. Um ser humano que se despede, diante da doença, até mesmo da dignidade, e se depara sozinho diante da própria insignificância.

Mas, se a escrita simples e eficaz, marcada por reflexões existenciais e pela ironia, consiste na sua principal qualidade, as fórmulas feitas e simples – talvez demasiado simples -, consistem em uma de suas fraquezas. Por vezes, o romance entra em contradição consigo mesmo ao transmitir mensagens tão planas e previsíveis como aquelas contidas nas almofadas que decoram a casa dos pais de Augustus. Se não é, por exemplo, a fragilidade que faz a beleza, e se não é graças ao sofrimento que se aprecia a felicidade, por que seriam então belas as personagens do livro? A trama é boa, eficaz, mas sem surpresa. Assim, pode-se perguntar se ainda será lido em dez, vinte anos, ou se será mais um entre tantos romances de sucesso, cheios de qualidades, sem dúvida, mas de certa forma perecíveis.

A culpa é das estrelas é um romance bem escrito, pretensioso, mas não deixa de ser um romance para adolescentes. Embora até mesmo o adolescente mais habituados ao universo da leitura possa sentir falta de um “algo mais”, de uma profundidade prometida, mas que se perde pelo caminho. Talvez fosse esse o sentimento dos próprios protagonistas, caso viessem eles a ler o romance. De todas as formas, não deixa de ser um livro agradável, desses que fazem o leitor perder o sono e o prendem até a última página. E, se é capaz de fazer os jovens renderem-se aos prazeres da leitura, nem que seja por algumas horas, que lhe sejam dados os devidos louros.

Título original: The Fault in Our Stars

País: Estados Unidos

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN 978-858-0572-26-1)

Número de páginas: 288

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