Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawayo

Bulawayo_Names

Romance de estreia da escritora zimbabuana NoViolet Bulawayo, We need new names é um verdadeiro soco no estômago. Narrado pela perspectiva de uma menina de dez anos, é um daqueles raros livros que trazem o leitor do riso às lágrimas desde as primeiras páginas.

Darling vive numa favela insalubre, ironicamente chamada de Paraíso, em algum lugar do Zimbábue. Apesar da extrema miséria, sua infância é tão inocente e cheia de fantasias como outra qualquer. Ao lado de Bastard, Chipo, Stina, Sbho e Godknows, desfruta da liberdade para descobrir o mundo à sua maneira, enquanto se entretém a roubar goiabas no bairro dos ricos. Mas, ao contrário dos amigos, prisioneiros da miséria que os cerca, Darling tem a oportunidade de escapar, imigrando para a tão sonhada “Destroyedmichygan”, embora o sonho seja deveras distante da realidade.

Ao adotar a narrativa em primeira pessoa, Bulawayo demonstra uma extrema sensibilidade literária, recriando por meio da linguagem o universo psicológico de sua protagonista. Na primeira metade, na qual Darling é apenas uma criança, a linguagem acompanha seus pensamentos e sua maneira de ver o mundo, e o leitor tem a impressão de estar lendo os pensamentos de uma criança. Mais tarde, com o passar dos anos, o amadurecimento da menina faz-se notar pela escolha das palavras, pela cadência da fala, assim como pela nova linearidade da sequência de ideias.

O romance pode ser dividido em duas metades: a primeira acompanha as perambulações de Darling no país natal, enquanto a segunda, tempos mais tarde, mostra sua vida nos Estados Unidos. Na primeira parte, é possível conhecer um pouco da história recente do Zimbábue. Ao lado das misérias comuns a todas as favelas do mundo – a violência, a fome, a desigualdade, a AIDS, o abuso sexual, a gravidez precoce –, o livro também trata de problemas específicos. Darling passou a viver na pobreza absoluta após o bairro em que vivia ser demolido pela “Operação Murambatsvina” (retirar o lixo), campanha de desalojamento forçado do ditador Robert Mugabe para obrigar as populações pobres a abandonarem as cidades. Seu pai, que retorna da África do Sul corroído pela doença, é um homem diplomado, cujos estudos universitários de nada serviram num país tomado pela corrupção. O aspecto político é ressaltado na descrição das eleições, da esperança dos adultos por mudança, e na cena do enterro de um jovem líder da oposição. Além disso, o capítulo em que as crianças testemunham o ataque a um casal rico por um grupo de homens entoando “Kill the boer, kill the farmer!” faz alusão à violência contra os brancos, que se espalhou da África do Sul ao país vizinho graças às incitações racistas do próprio Mugabe. Em segundo plano, nota-se igualmente a crítica às ONGs, bem como às igrejas evangélicas, tão corruptas como o próprio governo.

Embora a ruptura seja suave, a segunda parte do romance aborda uma temática bastante distinta. Aqui, o leitor acompanha uma Darling adolescente, conhecendo sua rotina, seus sonhos e frustrações. Diante de uma realidade hostil às suas raízes, o passado duro e distante torna-se-lhe aos poucos uma memória doce e idílica. A partir da perspectiva da jovem americanizada, o romance trata da imigração, da perda da identidade e necessidade de abdicar de si mesmo para poder se adaptar, do vazio da saudade e da culpa por abandonar o próprio país, bem como da distância lenta e dura em relação aos que ficaram. Nesse sentido, o livro faz pensar no igualmente premiado Americanah da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, bem como em Vidas provisórias do brasileiro Edney Silvestre, ambos também de 2013. Os três romances compartilham não apenas o tema, como também o balanço de que, com o desterro, a própria vida é deixada para trás, bem como a crítica à terra natal incapaz de dar pátria aos seus filhos.

Recebido com euforia pela crítica internacional, We need new names foi o primeiro romance escrito por uma autora negra africana a ser selecionado para o aclamado Man Booker Prize, um dos mais prestigiados prêmios literários da língua inglesa. Graças à grande visibilidade obtida, o público brasileiro será brevemente agraciado com uma tradução em português, a ser publicada na coleção Biblioteca Azul da Editora Globo.

Não é todo dia que a boa literatura africana consegue chegar desse lado do Atlântico. Por isso, vale a pena esperar por esse romance, do qual o leitor não se esquecerá tão cedo.

UPDATE 04/01/2015: Saiu a tradução em português!

Título original: We need new names

País: Zimbábue

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Biblioteca Azul (ISBN 978-852-5057-78-5)

Título português: A neve e as goiabas

Edição portuguesa: Teorema (ISBN 978-972-4746-92-0)

Número de páginas: 254 (edição brasileira), 272 (edição portuguesa)

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3 thoughts on “Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawayo

    • Muito obrigada! Fico contente que tenha gostado. Estou tentando realizar o sonho de descobrir histórias, ler pelo menos um livro de cada país do mundo, e compartilhar tantas pérolas com outros apaixonados por literatura. Fico contente que tenha gostado. Abraços.

  1. Pingback: Top 2014 & Perspectivas 2015 | oquevcestalendo

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